Bilhete Aberto
Bilhete Aberto
(De São Paulo)
— ! M E U fotogênico C. R. Não se envaideça com o qualificativo. Êle transcende da iconografia pessoal. Fotogênico aqui vai como sinalação de indivíduo de precisos contornos, de acentuadas feições típicas, de robustas formas psicológicas e morais. Quer dizer sujeito nada evasivo, impressionista ou enervado de hesitações, pro- blemas e hamléticos escrúpulos. Não. Você quando é, é. É mais que o princípio de identidade. Ê o princípio de adesão. E por isso daqui dêste modesto canto paulista do Correio, estou certo de que você assumirá a inteira responsabilidade da cam- panha que, sob sua oficiosa férula, se vem fazendo contra a liberdade de expressão literária no Brasil. E que não se possa dizer depois que nada teve de participação nesse crime contra o espírito, que só a pororoca mundial dum sistema pode criar na renitente cabeça de seus crentes e batizados. Para que nSo
se queixe você depois da injustiça de lhe vestirem uma camisola colorida, em você que sempre se disse um adepto emburrado da tanga, do cocar e do tacape. Nós sabemos, porém, que esses utensílios da ferocidade nativa fazem parte duma barraquinha de vaticínios amáveis que há anos você carrega nas costas como o homem do periquito. E que as suas canções nativas são como êsses bonecos de cerâ- mica que representam Pai João e Peri, Anhangüera e D. Pedro II, mas que vêm da Alemanha, fabricados em série. Porque a sua literatura, rotulada de nativismo, não passa de macumba para turistas. E uma vez desatada a fitinha verde-amarela que recobre o seu pacote de símbolos, só se encontram nêle o Martim Cererê, o Caapora, o Saci e outros ratões que nunca penetraram na corrente folclórica da imagiária nacional. Se sua prosa lite- rária é melhor que a sua poesia, não sente ela nenhuma vocação para os roteiros da liberdade e para os caminhos do futuro. E por isso, dela restará apenas um estilo duro, robusto e pedre- goso a serviço dum oportunismo mole e adulão. Que adianta isso, meu feliz e vitorioso c. R.? Sabendo disso, por que lhe escrevo? É que minha ingenui- dade é das mais tenazes do mundo. Quando você iniciava seu jornalismo no Rio, fêz para mim profissões quase que liberais. Se açodadamente convidou alguns fidelíssimos servidores do nazismo, para honrar o seu suplemento, também nêle agüentou, do rosicler ao bordeaux, as cores espectrais do levante em ascen- são. Eu mesmo seria aceito na confusa ménagerie que você sàbiamente confiou à guarda de um Leão amável e eclético. No entanto, abre você agora bulhentamente as baterias ocultas do seu ódio à liberdade e procura fazer com que se consuma uma incomensurável traição à literatura que deu Castro Alves e Euclides da Cunha, e que se consolide um crime contra o patrimônio intelectual do Brasil. Reflita na sua sólida longevidade. Você pode viver de cento e cinco a cento e vinte anos, sem o auxílio de nenhum soro russo. Basta a gente ver você de fardão na Academia, para sentir que sua natureza participa da dos paquidermes diluvianos e da tartaruga de água-doce. Você pode, um dia, mais tarde,
vir a convencer-se de que Júpiter ensandece mesmo os homens que deseja castigar. E castigo não pode haver maior do que a marca da traição ao espírito. Sou sempre o
O. A