No Atrio da Revolucao Ponta de Lança · Capítulo 16 de 20
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No Atrio da Revolucao

No Átrio da Revolução

S E me perguntarem por quê, não sei explicar. Pelo menos agora não saberia explicar. Mas sempre liguei, sem maior exame crítico, Machado de Assis, Carlitos e o poeta Vinícius de Moraes. Por quê? Só vejo um liame — o humour. Que tem de mágico essa palavra internacional para dizer tão pouco e tanta coisa? No humour reside o catastrófico e talvez no catastrófico toda a natureza humana. Daí o sucesso das religiões de salvação. E o sucesso dos grandes confessos tímidos Machado de Assis, Carlitos, Vinícius de Moraes. Êsses homens trazem em si o sentido dialético do desastre. Ê a outra ponta do fio... Um personagem ã'A Morta afirma judiciosamente, na última cena, que o barbante não tem fim. E o êrro do homem é pensar que o barbante tem fim. Machado, Carlitos, Vinicius sabem que o barbante não tem fim... A mão acaba no ar, tendo perdido o fio... o fio da meada.

Uma das idéias que me seduziram é essa de que a base do humour é feita mais que de autocrítica, de autoflagelação... Quem se esculhamba, sabe esculhambar os outros e até as coisas. As coisas, o mundo das coisas. As coisas têm uma vida temível nesses três dialetas implacáveis. Elas existem fora das combi- nações humanas. E intervém. O roofs de Chelsea! E êles reagem submissamente diante da força surda das coisas. Que são mais que cegas, surdas. Porque não escutam o clamor dos peitos aflitos, arquejantes, sedentos dum mundo de justiça, e de beleza, dum mundo melhor. Ninguém vai me dizer que não há protesto em Machado. Mais que protesto, há pessimismo. Solúvel em poesia. Carlitos. Vinicius. Para mim o grande desabafo de Machado foi aquela comu- nicação imprescindível que êle teria que fazer a um amigo: — Vou hoje a um entêrro... Nessa secura entra de chôfre o Hamlet inteiro. E que é Hamlet senão o pior caso de humour do mundo? Um sujeito educado, um príncipe na valsa, caçoando do pai que virou fantasma. É Machado indo enterrar a mãe preta, sem poder contar, sem ter a capacidade grosseira de contar à roda de sujeitos bem postos que o fizera, que êle centralizava. Só caçoando mesmo... — Vou a um entêrro... Nada mais. Pouca gente compreende a estrada em que termina o Hamlet. Ofélia morreu. Em Deus. Como o Sr. Tristão de Athayde. Como o Sr. Álvaro Lins. Então, um mata o outro, o outro mata o outro, o outro... E quando estão todos no chão, surgem as fanfarras de Fórtinbras. Machado não teve as fan- farras de Fórtinbras. Nem Carlitos nem Vinicius. O poeta pelo menos desafoga: "E um dia pego e tomo um porre danado que você vai ver!" E toma mesmo. Tati que ature! Como Carolina aturou Machado. Êste não precisava tomar porres. Tinha a grande libertação, a libertação demoníaca, a doença sacra de Dostoiévski. Ataque de gota, segundo o Zé Lins. E Carlitos? Passa as fronteiras, despe as táxis-virgens e fica espiando do outro lado. À espera do estouro. Depois conta tudo nessa coisa que é a vida, pois anda, mexe, e é o cinema mesmo e em outras histórias que são as mesmas pois não adianta disfarçar. Todos compreendem, porque todos são assim mesmo

de pedra e osso, porque pedra é carne, e sôbre esta carne cons- truirei a minha igreja. Foi a Primeira Guerra Mundial, a luta de Jacó e o Anjo que José Régio nunca surpreendeu. Quando o artista mata a aventura. E foi assim que êles três ficaram três artistas no átrio da revolução.

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