Fraternidade de Jorge Amado Ponta de Lança · Capítulo 7 de 20
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Fraternidade de Jorge Amado

Fraternidade de Jorge Amado

D Á vontade de permanecer. Dá vontade de pegar a viola e cantar. Ê tal a fôrça sugestiva dêsse nôvo Castro Alves que a Bahia criou, que o Brasil homérico nêle se espreguiça e modôrra como numa manhã do dilúvio. Um dia no Rio, quando eu procurava na extinta Editora Ariel, de Gastao Cruls, um volume de Serafim Ponte Grande, fui interpelado por um menino de buço que não conhecia, sôbre o estado de minhas relações com um poeta querido. Como essa amizade estivesse em crise, respondi: — Sou muito in- fiel . .. E o castigo veio. Nunca em tôda a minha vida de meio século, fidelidade alguma ia me prender como àquele ado- lescente que se chamava Jorge Amado. Devo-lhe mais que uma ressurreição. Quando, depois de uma fase brilhante em que realizei os salões do modernismo e mantive contato com a Paris de Cocteau e de Picasso, quando

num dia só de débâcle do café, em 29, perdi tudo — os que se sentavam à minha mesa, iniciaram uma tenaz campanha de desmoralização contra meus dias. Fecharam então num cochi- cho beiçudo o diz-que-diz que havia de isolar minha perseguida pobreza nas prisões e nas fugas. Criou-se então a fábula de que eu só fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil, donde no depoimento atual de Vinícius de Moraes, saíram todos os elementos da moderna poesia brasileira. Foi propositadamente esquecida a prosa renovada de 22, para a qual eu contribuí com a experiência das Memórias Sentimentais de João Miramar. Tudo em tôrao de mim foi hostilidade calculada. Aquilo que minha boa-fé pudera esperar dos frios senhores do comércio, veio nos punhais de prata com que falavam os poetas, os crí- ticos e os artistas. Resignava-me ao clima absoluto da solidão, quando encontrei Jorge Amado. E dessa criança que tinha es- crito um livro — o País do Carnaval brotou uma tão tenaz e efusiva assistência a tudo que eu fazia, que agradeci ao destino (dirigido sobretudo pela economia) a ingratidão de seleta dos meus antigos comensais. Ia reiniciar minha existência literária ao lado de alguém que representava realmente uma geração. E êsse alguém se chamava Jorge Amado. Prosseguiu a luta e permaneceu a pobreza. Quando eu ia ao Rio, não mais para os estofos dos grandes hotéis, onde a imprensa me visitava, mas para um modesto quarto de 5$000, num hotelzinho da Lapa que chamávamos de Robalinho-Palace, era Jorge que aparecia com outra magnânima inteligência que é essa de Queiroz Lima, para a realização de grandes manhãs de conversa e de grandes noites de café e cigarro. Já então êle publicara Cacau e Suor essa tricromia da miséria que o colocava ao lado de Michael Gold. Um dia trouxe-me Jubiabâ. E vi com espanto que o menino da livraria Ariel tinha escrito uma ilíada negra. Nada talvez ganhe no Brasil, de 30 para cá, a importância de Jubiabâ pela revelação de poesia social que êsse monumento representa. Já disse em artigo que Jubiabâ é um comício, o mais belo comício que o Brasil ouviu depois do Navio Negreiro de Castro Alves. E agora, essa atmosfera de comício e de epo- péia atravessa da primeira à última página, essas Terras do Sem Fim com que, ao meu lado, êle inutilmente compareceu a um concurso internacional nos Estados Unidos. Confesso e deixo

público, que se alguma coisa pode constituir honra para mim, é essa de ter sido colocado por um júri capaz, ao lado de Jorge Amado e ver o primeiro volume de Marco Zero ter sido indi- cado com Terras do Sem Fim para representar o Brasil num certame literário estrangeiro.

Nas regiões do mito a psicologia tem um papel simplesmente motor. De modo que as figuras homéricas de Jorge Amado dispensam o aprofundamento interior. Elas são míticas, repre- sentativas e simples. Seu clima é a ação, sua persuasão é a aventura, sua finalidade é a sobrevivência, seu poder é a sim- patia. Está pois aí, fixado em coordenadas homéricas, o ciclo inicial do cacau na Bahia. Terras do Sem Fim transcende do romance, é obra de rapsodo e canto de bardo. E nada mais ajustado à natureza poética de seu autor, que aquêle desfilar heróico de capangas e sicários, de advogados e coronéis, de se- nhoras românticas e mulheres de má vida, no drama da conquista da mata pelos primeiros latifundiários baianos. Não há figura que se destaque nesse livro admirável. O back-ground formiga de heróis vivos, de heroínas puras e sim- ples. As mulheres de Tabocas e Ferradas são de uma singeli- dade bíblica. Os negros matadores também. Tôda essa gente realiza, no Brasil do cacau, o primeiro avanço da civilização e da economia. E na economia, na história econômica da terra, é que se prende a ficção para lhe dar peso, estrutura e verdade. Jorge Amado realiza poderosamente sua ascensão anun- ciada em Suor, magistralmente erguida em Jubiabá, Eu já disse — êle é Castro Alves.

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