Posicao de Caillois Ponta de Lança · Capítulo 12 de 20
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Posicao de Caillois

Posição de Caillois

CARÁTER de Odisséia que o romance conscientemente tomou com Joyce, bastaria para me fazer discordar das conclu- sões a que chega Roger Caillois no seu sábio volume sôbre o assunto. Mas não só na Sociologia do Romance, como no Rochedo de Sisifo, como ainda na sua atitude tradicional, o sociólogo que ora nos visita é uma flor da burguesia cética de França que, se não pode ser responsabilizada pela política de Vichy, longe não estêve de ter afrouxado uma e outra mola da velha têmpera gaulesa. Não soube lhe substituir as afirmações que deram Guadalajara e Stalingrado. Ao contrário se a França afirmou, foram as enormidades de seleta de Maurras, o mau humor valetu- dinário de Daudet e a insipidez erudita de Jacques Maritam. Quando não, produziu um processo de remastigação de seu espírito, de seus valores e de sua heráldica com Bernanos, êsse

Ubu-Roi de Deus, inconformista e cego, amarrado às conclu- sões de um mundo desaparecido e querendo conservar dêle, nas suas roupagens mortas, a pureza aproveitável e a ética confusa. Não percebendo nunca que o mundo dos curas de aldeia foi o contraponto necessário do mundo capitalista de Vautrin, e coube apenas a êle rezar as pobres ave-marias do tempo das cocotes e do Dejeuner sur Vherbe. Bernanos se rói com o procedimento da França moderna como um avô inválido não compreende os divórcios de sua neta. Cacête como todo avô que conta as histórias de seu tempo para moralizar os meninos diabólicos. Enfim, outra gente não dominicana, mas capuchinha e amá- vel, aqui aportou como na França Antártica, falando uma lingua- gem útil. Temos ali, na nossa Faculdade da Praça da Repú- blica, entre plátanos também europeus, os dois Bastide, Maugué, Bonson... E agora, desce das nuvens do avião de Buenos Aires, Roger Caillois. Há na experiência e no contato dêsses europeus com os descendentes vestidos dos tupiniquins, os testamenteiros de João Ramalho e os paulistas de Luanda, uma ver*, ideira festa, como foi a de Rouen, quando os nossos índios autenticaram as suas qualidades de homens naturais, fornecendo a Montaigne aquêle famoso capítulo do canibalismo letrado. É verdade que muitas vêzes, o nosso nativo se espanta da antropofagia autêntica a que vão chegando certos civilizados Maugué, Caillois — enquanto os estrangeiros querem levar consigo nossas pedras brutas, as quais o índio de Claude d'Abbéville trocaria bem por um navire de France. Namoro da selvageria com a técnica que às vêzes pode produzir os melhores resultados, v. g. Hitler. Mas voltemos a Caillois que agora nos visita. Sua presença física não desilude. É o contrário do andouille (traduz-se livre- mente — chato) que o Bastide grandão procura explicar ante a polícia de costumes intelectuais que representa, entre nós, por exemplo, o Sr. Alexandre Correia. Caillois é vivo como aquêle capítulo seu sôbre o caráter subversivo das festas, que imediatamente me conquistou em Europe. E por isso mesmo repito, achei incômodos os resultados de sua alertada e culta digressão pelo romance, editada por Sur; de Buenos Aires, sob o título Sociologia de la Novela.

No desenvolver de seu curioso caminho, Caillois imprime ao romance burguês um caráter definitivo que não tem. Justa- mente o Ulisses é um marco onde termina o romance da burgue- sia, pois aí, num dia coletivista e mural, seus heróis destroçados não são mais de modo algum "os mandatários da própria debi- lidade ao país da fôrça". Como não o são n' A Montanha Mágica, onde o episódio pessoal desaparece sob o inventário cultural de todo um século. Êsses afrescos são suficientes para mostrar que o caminho do romance está mais que aberto na direção do futuro e o romance retomando sua função pedagógica, está longe de se estiolar e perecer. Roger Caillois termina o seu livro como um solitário da Tebaida burguesa, diante do catedralismo de nossa época. Esquecido de que na nova arquitetura existe o novelesco e o seu sentido. Longe de ser o privilégio do indivíduo que quer ver na imagem fraterna do herói algo de inconfessável e visceral, êle pode atingir a comunicação e a igreja. Talvez o caráter sarraceno da nossa velha cultura penin- sular, aqui agravado pelos haréns da migração e da conquista, nos faça melhor sentir que a missão do romance não está cum- prida. Abre-se para êle uma era de fecundo fanatismo social. Do próprio autor da Sociologia de la Novela tiro estas linhas:

"Toda questão reside hoje em escolher entre o entu- siasmo e o destêrro. Quem não fôr levantado pela onda, ficará abandonado sôbre uma praia deserta, sem que nin- guém ouça a sua voz nem acompanhe o seu abandono".

É a frase minha da Morta citada pelo crítico Luís Washing- ton — "Ninguém te ouvirá no país do indivíduo!". Evidentemente há uma torção e uma violência quando Caillois pretende comprometer o romance numa aventura indivi- dualista. Floriu de fato êle nos desvãos solitários para onde a burguesia equipada pela máquina, relegou os que não partilha- vam com ela suas alegrias primárias. A solidão e a análise foram secularmente um protesto. Mas prosseguirá êle na nova sociedade? Também não creio que haja de suceder a digestão imbecil do drama humano ao esforço coletivista que triunfa.

"Satisfeito pela realidade, que poderá o homem pedir a um mundo imaginário?" — pergunta Caillois. Não pedirá ao menos a solução insolúvel da sua condenação de gerar outro homem? Sem os refúgios inúteis do gonzaguismo ou do uranismo, o homem de amanhã não compreenderá que sua vida dialètica- mente se há de cumprir entre a mulher e a sociedade, entre a célula eterna e sua inevitável cidadania? Mas estamos ainda longe daí. Num grande romance atual, na Energia de Gladkov, se dispõem como fôrças antagônicas entre pais e filhos o saudo- sismo da isbá e a fé da cidade nova. Aos lamentos do kulak que procura a catarse e a metamorfose no herói individualista, substituem-se hoje os acentos religiosos de um mundo monu- mental, onde o romance tem o seu lugar assegurado. Todas essas considerações nos trouxe o avião de Caillois, célula dêsse amável imperialismo humanístico que representam os professores franceses na América. O sociólogo visitante as despertou com as suas declarações sôbre o papel do intelectual no mundo que se anuncia. Disse êle muito bem que a solução para o homem de espírito é a monacal. Por que não? Não se trata evidentemente de querer fazer o Sr. Gilberto Freyre ou o Sr. Carlos de Lacerda, e muito menos o poeta Vinícius de Moraes, entrarem para o convento de Monte Athos, onde não pisam os barbeiros nem as manicures. Também não se trata do intelectual se deixar absorver pelo gigantismo social e nêle sumir. Perderam-se por acaso os beneditinos, os franciscanos e os tomistas no coletivismo medieval? Ou foram êles a alma vibrante e enérgica da sociedade unida num ciclo e suas vozes autorizadas? O desemprêgo que Caillois vê nos horizontes finais da burguesia tem uma solução, a solução dos técnicos. Êles servi- ram o capitalismo, raciocinou um velho chefe. Que venham agora servir os que trabalham!

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