Livro II - Capítulo II - As causas
## Livro II
## Capítulo II
### As causas
## I
É, portanto, em certas variações do meio social que se deve procurar a causa que explica os progressos da divisão do trabalho. Os resultados do livro precedente nos permitem induzir de imediato em que consistem essas variações.
Vimos, com efeito, que a estrutura organizada e, por consequência, a divisão do trabalho se desenvolvem regularmente à medida que a estrutura segmentar se apaga. É, portanto, esse apagamento que causa tal desenvolvimento, ou então é o segundo que causa o primeiro. Esta última hipótese é inadmissível, pois sabemos que o arranjo segmentar é, para a divisão do trabalho, obstáculo insuperável que deve ter desaparecido, ao menos parcialmente, para que ela possa aparecer.
Ela só pode existir na medida em que ele deixou de existir. Sem dúvida, uma vez constituída, pode contribuir para acelerar sua regressão. Contudo, só se mostra depois que ele regrediu. O efeito reage sobre a causa, porém nem por isso perde sua qualidade de efeito. A reação que exerce é, por conseguinte, secundária.
O aumento da divisão do trabalho se deve, portanto, ao fato de que os segmentos sociais perdem sua individualidade, de que as divisórias que os separam se tornam mais permeáveis, numa palavra, de que se efetua entre eles uma coalescência que torna a matéria social livre para entrar em combinações novas.
Mas o desaparecimento desse tipo só pode ter essa consequência por uma única razão. É que dele resulta uma aproximação entre indivíduos que estavam separados ou, ao menos, aproximação mais íntima do que antes. Em seguida, movimentos se trocam entre partes da massa social que, até então, não se afetavam mutuamente.
Quanto mais desenvolvido é o sistema alveolar, mais as relações nas quais cada um de nós está envolvido se encerram dentro dos limites do alvéolo ao qual pertencemos. Há, por assim dizer, vazios morais entre os diversos segmentos. Ao contrário, esses vazios se preenchem à medida que esse sistema se nivela. A vida social, em vez de se concentrar em uma multidão de pequenos focos distintos e semelhantes, generaliza-se.
As relações sociais, ou, com maior exatidão, intrassociais, tornam-se por consequência mais numerosas, visto que de todos os lados se estendem além de seus limites primitivos. A divisão do trabalho progride, portanto, tanto mais quanto há mais indivíduos em contato suficiente para poder agir e reagir uns sobre os outros.
Se concordarmos em chamar densidade dinâmica ou moral essa aproximação e o comércio ativo que dela resulta, poderemos dizer que os progressos da divisão do trabalho estão em razão direta da densidade moral ou dinâmica da sociedade.
Mas essa aproximação moral só pode produzir seu efeito se a distância real entre os indivíduos também diminuiu, de qualquer maneira que seja. A densidade moral não pode, portanto, crescer sem que a densidade material cresça ao mesmo tempo, e esta pode servir para medir aquela. É, aliás, inútil procurar qual das duas determinou a outra. Basta constatar que são inseparáveis.
A condensação progressiva das sociedades, no curso do desenvolvimento histórico, produz-se de três maneiras principais.
1º Enquanto as sociedades inferiores se espalham por áreas imensas, relativamente ao número dos indivíduos que as compõem, entre os povos mais avançados a população se concentra cada vez mais. Oponhamos, diz M. Spencer, a população das regiões habitadas por tribos selvagens à das regiões de igual extensão na Europa. Ou então oponhamos a densidade da população na Inglaterra sob a heptarquia à densidade que apresenta hoje, e reconheceremos que o crescimento produzido pela união de grupos se acompanha também de crescimento intersticial. As mudanças que se efetuaram sucessivamente na vida industrial das nações demonstram a generalidade dessa transformação.
A indústria dos nômades, caçadores ou pastores, implica, com efeito, ausência de toda concentração, dispersão sobre superfície tão grande quanto possível. A agricultura, por exigir vida sedentária, já supõe certo estreitamento das partes sociais, ainda muito incompleto, pois entre cada família há extensões de terra interpostas.
Na cidade, embora a condensação fosse maior, as casas ainda não eram contíguas, pois a meação não era conhecida pelo direito romano. Ela nasceu em nosso solo e atesta que a trama social se tornou ali menos frouxa. Por outro lado, desde suas origens, as sociedades europeias viram sua densidade aumentar de maneira contínua, apesar de alguns casos de regressão passageira.
2º A formação das cidades e seu desenvolvimento são outro sintoma, ainda mais característico, do mesmo fenômeno. O aumento da densidade média pode ser devido apenas ao aumento material da natalidade e, por consequência, pode conciliar-se com concentração muito fraca, com manutenção muito marcada do tipo segmentar.
Mas as cidades resultam sempre da necessidade que leva os indivíduos a se manterem de maneira constante em contato tão íntimo quanto possível uns com os outros. São como pontos nos quais a massa social se contrai mais fortemente que em outros lugares. Só podem, portanto, multiplicar-se e estender-se se a densidade moral se eleva. Veremos, aliás, que se recrutam sobretudo por imigração, o que só é possível na medida em que a fusão dos segmentos sociais está avançada.
Enquanto a organização social é essencialmente segmentar, a cidade não existe. Não há cidades nas sociedades inferiores. Não se encontram nem entre os iroqueses, nem entre os antigos germanos. O mesmo se deu com as populações primitivas da Itália.
Os povos da Itália, diz Marquardt, habitavam primitivamente, não em cidades, e sim em comunidades familiares ou aldeias, pagi, nas quais as propriedades rurais, vici, oikoi, estavam disseminadas. Mas, depois de tempo bastante curto, a cidade ali faz sua aparição. Atenas e Roma são ou se tornam cidades, e a mesma transformação se realiza em toda a Itália.
Em nossas sociedades cristãs, a cidade aparece desde a origem, pois aquelas que o Império Romano deixara não desapareceram com ele. Desde então, só fizeram crescer e multiplicar-se. A tendência dos campos a afluir para as cidades, tão geral no mundo civilizado, é apenas continuação desse movimento. Ora, ela não data de hoje. Já no século XVII preocupava os homens de Estado.
Como as sociedades começam geralmente por um período agrícola, às vezes houve tentação de considerar o desenvolvimento dos centros urbanos como sinal de velhice e decadência. Mas não se deve perder de vista que essa fase agrícola é tanto mais curta quanto as sociedades pertencem a tipo mais elevado.
Enquanto na Germânia, entre os indígenas da América e entre todos os povos primitivos, ela dura tanto quanto os próprios povos, em Roma e em Atenas cessa bem cedo, e entre nós pode-se dizer que jamais existiu sem mistura. Inversamente, a vida urbana começa mais cedo e, por consequência, adquire maior extensão.
A aceleração regularmente mais rápida desse desenvolvimento demonstra que, longe de constituir espécie de fenômeno patológico, ele deriva da própria natureza das espécies sociais superiores.
Mesmo admitindo que esse movimento tenha atingido hoje proporções ameaçadoras para nossas sociedades, que talvez já não tenham flexibilidade suficiente para adaptar-se a ele, nem por isso deixará de prosseguir, seja por elas, seja depois delas. Os tipos sociais que se formarão depois dos nossos se distinguirão provavelmente por regressão ainda mais rápida e mais completa da civilização agrícola.
3º Enfim, há o número e a rapidez das vias de comunicação e transmissão. Ao suprimir ou diminuir os vazios que separam os segmentos sociais, elas aumentam a densidade da sociedade. Por outro lado, não é necessário demonstrar que são tanto mais numerosas e mais aperfeiçoadas quanto as sociedades pertencem a tipo mais elevado.
Visto que esse símbolo visível e mensurável reflete as variações daquilo que chamamos densidade moral, podemos substituí-lo a esta última na fórmula que propusemos. Devemos, aliás, repetir aqui o que dizíamos acima. Se a sociedade, condensando-se, determina o desenvolvimento da divisão do trabalho, este, por sua vez, aumenta a condensação da sociedade.
Mas pouco importa, pois a divisão do trabalho permanece o fato derivado, e, por consequência, os progressos pelos quais passa se devem aos progressos paralelos da densidade social, quaisquer que sejam as causas destes últimos. É tudo que queríamos estabelecer.
Esse fator, contudo, não é o único.
Se a condensação da sociedade produz esse resultado, é porque multiplica as relações intrassociais. Estas serão ainda mais numerosas se, além disso, o número total dos membros da sociedade se torna mais considerável. Se ela compreende mais indivíduos ao mesmo tempo que estes estão mais intimamente em contato, o efeito será necessariamente reforçado. O volume social tem, portanto, sobre a divisão do trabalho, a mesma influência que a densidade.
De fato, as sociedades são geralmente tanto mais volumosas quanto mais avançadas e, por consequência, quanto mais dividido é nelas o trabalho. As sociedades, como os corpos vivos, diz M. Spencer, começam sob forma de germes, nascem de massas extremamente tênues em comparação com aquelas às quais acabam chegando.
Das pequenas hordas errantes, tais como as das raças inferiores, saíram as maiores sociedades. É conclusão que não se poderia negar. O que dissemos sobre a constituição segmentar torna essa verdade indiscutível. Sabemos, com efeito, que as sociedades são formadas por certo número de segmentos de extensão desigual que se envolvem mutuamente.
Ora, esses quadros não são criações artificiais, sobretudo no princípio. Mesmo quando se tornam convencionais, imitam e reproduzem tanto quanto possível as formas do arranjo natural que os precedera. São sociedades antigas que se mantêm sob essa forma.
As mais vastas dessas subdivisões, aquelas que compreendem as outras, correspondem ao tipo social inferior mais próximo. Do mesmo modo, entre os segmentos de que são por sua vez compostas, os mais extensos são vestígios do tipo que vem diretamente abaixo do precedente, e assim por diante. Encontram-se, entre os povos mais avançados, traços da organização social mais primitiva.
É assim que a tribo é formada por agregado de hordas ou clãs. A nação, a nação judaica por exemplo, e a cidade são formadas por agregado de tribos. A cidade, por sua vez, com as aldeias que lhe são subordinadas, entra como elemento em sociedades mais compostas etc. O volume social, portanto, não pode deixar de aumentar, já que cada espécie é constituída pela repetição de sociedades da espécie imediatamente anterior.
Entretanto, há exceções. A nação judaica, antes da conquista, era provavelmente mais volumosa que a cidade romana do século IV. Contudo, pertence a espécie inferior. A China e a Rússia são muito mais populosas que as nações mais civilizadas da Europa. Entre esses mesmos povos, por consequência, a divisão do trabalho não está desenvolvida em razão do volume social.
Ocorre que o aumento do volume não é necessariamente marca de superioridade se a densidade não aumenta ao mesmo tempo e na mesma relação.
Pois uma sociedade pode atingir dimensões muito grandes porque compreende número muito grande de segmentos, qualquer que seja a natureza destes últimos. Se, portanto, mesmo os mais vastos dentre eles só reproduzem sociedades de tipo muito inferior, a estrutura segmentar permanecerá muito pronunciada e, em seguida, a organização social pouco elevada.
Um agregado, ainda que imenso, de clãs está abaixo da menor sociedade organizada, pois esta já percorreu estágios da evolução aquém dos quais ele permaneceu. Do mesmo modo, se o número das unidades sociais tem influência sobre a divisão do trabalho, não é por si mesmo e necessariamente, e sim porque o número das relações sociais aumenta geralmente com o dos indivíduos.
Ora, para que esse resultado seja alcançado, não basta que a sociedade conte muitos sujeitos. É preciso ainda que estejam em contato bastante íntimo para poder agir e reagir uns sobre os outros. Se, ao contrário, estão separados por meios opacos, só podem travar relações raramente e com dificuldade, e o efeito é o mesmo de uma sociedade pouco numerosa.
O crescimento do volume social nem sempre acelera, portanto, os progressos da divisão do trabalho, mas apenas quando a massa se contrai ao mesmo tempo e na mesma medida. Por conseguinte, é, se se quiser, apenas fator adicional. Mas, quando se junta ao primeiro, amplia seus efeitos por uma ação que lhe é própria e, por consequência, pede para ser distinguido dele.
Podemos então formular a proposição seguinte: a divisão do trabalho varia em razão direta do volume e da densidade das sociedades, e, se progride de maneira contínua no curso do desenvolvimento social, é porque as sociedades se tornam regularmente mais densas e, de modo muito geral, mais volumosas.
Em todos os tempos, é verdade, compreendeu-se bem que havia relação entre essas duas ordens de fatos. Pois, para que as funções se especializem mais, é preciso que haja mais cooperadores e que estejam bastante próximos para poder cooperar. Mas, de ordinário, vê-se nesse estado das sociedades apenas o meio pelo qual a divisão do trabalho se desenvolve, e não a causa desse desenvolvimento.
Faz-se este último depender de aspirações individuais ao bem-estar e à felicidade, que podem satisfazer-se tanto melhor quanto mais extensas e mais condensadas são as sociedades. Outra é a lei que acabamos de estabelecer. Dizemos, não que o crescimento e a condensação das sociedades permitem divisão maior do trabalho, e sim que a tornam necessária. Não é um instrumento pelo qual esta se realiza. É sua causa determinante.
Como representar, então, a maneira pela qual essa dupla causa produz seu efeito?
## II
Segundo M. Spencer, se o aumento do volume social tem influência sobre os progressos da divisão do trabalho, não é porque os determine. Apenas os acelera. É somente condição auxiliar do fenômeno. Instável por natureza, toda massa homogênea se torna necessariamente heterogênea, quaisquer que sejam suas dimensões. Apenas se diferencia de maneira mais completa e mais rápida quando é mais extensa.
Com efeito, como essa heterogeneidade vem do fato de que as diferentes partes da massa estão expostas à ação de forças diferentes, ela é tanto maior quanto há mais partes diversamente situadas.
É o caso das sociedades. Quando uma comunidade, tornando-se muito populosa, espalha-se por grande extensão de país e ali se estabelece de modo que seus membros vivem e morrem em seus respectivos distritos, mantém suas diversas seções em circunstâncias físicas diferentes, e então essas seções já não podem permanecer semelhantes por suas ocupações.
Aquelas que vivem dispersas continuam a caçar e cultivar a terra. As que se estendem à beira-mar se entregam a ocupações marítimas. Os habitantes de algum lugar escolhido, talvez por sua posição central, como ponto de reuniões periódicas, tornam-se comerciantes, e uma cidade se funda. Uma diferença no solo e no clima faz com que os habitantes dos campos, nas diversas regiões do país, tenham ocupações parcialmente especializadas e se distingam por produzirem bois, carneiros ou trigo. Numa palavra, a variedade dos meios nos quais os indivíduos são colocados produz nestes aptidões diferentes que determinam sua especialização em sentidos divergentes. Se essa especialização aumenta com as dimensões das sociedades, é porque essas diferenças externas aumentam ao mesmo tempo.
Não há dúvida de que as condições exteriores nas quais vivem os indivíduos os marquem com sua impressão e que, sendo diversas, os diferenciem. Trata-se, porém, de saber se essa diversidade, que sem dúvida tem relações com a divisão do trabalho, basta para constituí-la. Certamente, compreende-se que, segundo as propriedades do solo e as condições do clima, os habitantes produzam aqui trigo, ali carneiros ou bois.
Mas as diferenças funcionais nem sempre se reduzem, como nesses exemplos, a simples nuances. Às vezes são tão marcadas que os indivíduos entre os quais o trabalho é dividido formam como espécies distintas e até opostas. Dir-se-ia que conspiram para afastar-se o mais possível uns dos outros.
Que semelhança há entre o cérebro que pensa e o estômago que digere? Do mesmo modo, que há de comum entre o poeta inteiro entregue ao sonho, o sábio inteiro entregue às pesquisas, o operário que passa a vida a tornear cabeças de alfinetes, o lavrador que empurra seu arado, o comerciante atrás do balcão? Por maior que seja a variedade das condições exteriores, ela não apresenta em parte alguma diferenças que estejam em relação com contrastes tão fortemente acusados e que, por consequência, possam dar conta deles.
Mesmo quando se comparam, já não funções muito afastadas umas das outras, e sim apenas ramificações diversas de uma mesma função, é muitas vezes inteiramente impossível perceber a quais dessemelhanças exteriores se pode dever sua separação. O trabalho científico divide-se progressivamente.
Quais são as condições climáticas, geológicas ou mesmo sociais que podem ter dado nascimento a talentos tão diferentes como os do matemático, do químico, do naturalista, do psicólogo etc.?
Mas, mesmo ali onde as circunstâncias exteriores inclinam mais fortemente os indivíduos a especializar-se em sentido definido, elas não bastam para determinar essa especialização. Por sua constituição, a mulher está predisposta a levar vida diferente da do homem. Entretanto, há sociedades em que as ocupações dos sexos são sensivelmente as mesmas.
Por sua idade, pelas relações de sangue que mantém com os filhos, o pai é inteiramente indicado para exercer na família essas funções diretoras cujo conjunto constitui o poder paterno. Entretanto, na família materna, essa autoridade não lhe é atribuída.
Parece muito natural que os diferentes membros da família tenham atribuições, isto é, funções diferentes conforme seu grau de parentesco. Que o pai e o tio, o irmão e o primo não tenham os mesmos direitos nem os mesmos deveres. Há, entretanto, tipos familiares nos quais todos os adultos desempenham o mesmo papel e estão no mesmo pé de igualdade, quaisquer que sejam suas relações de consanguinidade.
A situação inferior ocupada pelo prisioneiro de guerra no seio de uma tribo vitoriosa parece condená-lo, se ao menos sua vida é conservada, às funções sociais mais baixas. Vimos, todavia, que muitas vezes é assimilado aos vencedores e se torna igual a eles.
Com efeito, se essas diferenças tornam possível a divisão do trabalho, não a tornam necessária. Do fato de estarem dadas, não segue forçosamente que sejam utilizadas. São pouca coisa, em suma, ao lado das semelhanças que os homens continuam a apresentar entre si. São apenas germe mal distinto.
Para que delas resulte especialização da atividade, é preciso que sejam desenvolvidas e organizadas, e esse desenvolvimento depende evidentemente de outras causas que a variedade das condições exteriores. Mas, diz M. Spencer, ele se fará por si mesmo, porque segue a linha da menor resistência e porque todas as forças da natureza se dirigem invencivelmente nessa direção.
Certamente, se os homens se especializam, será no sentido marcado por essas diferenças naturais, pois é dessa maneira que terão menos dificuldade e mais proveito. Contudo, por que se especializam? O que os determina a inclinar-se assim para o lado pelo qual se distinguem uns dos outros? M. Spencer explica bastante bem de que maneira se produzirá a evolução, se ela acontecer. Não nos diz, porém, qual é a mola que a produz.
Na verdade, para ele, a questão nem se coloca. Admite, com efeito, que a felicidade cresce com a potência produtiva do trabalho. Todas as vezes, portanto, que é dado um meio novo de dividir mais o trabalho, parece-lhe impossível que não nos apoderemos dele. Sabemos, contudo, que as coisas não se passam assim.
Na realidade, esse meio só tem valor para nós se dele temos necessidade. E como o homem primitivo não tem necessidade alguma de todos esses produtos que o homem civilizado aprendeu a desejar e que uma organização mais complexa do trabalho tem precisamente por efeito fornecer-lhe, não podemos compreender de onde vem a especialização crescente das tarefas se não soubermos como essas necessidades novas se constituíram.
## III
Se o trabalho se divide mais à medida que as sociedades se tornam mais volumosas e mais densas, isso se dá, não porque as circunstâncias exteriores sejam mais variadas, e sim porque a luta pela vida é ali mais ardente.
Darwin observou com muita justeza que a concorrência entre dois organismos é tanto mais viva quanto mais análogos são eles. Tendo as mesmas necessidades e perseguindo os mesmos objetos, encontram-se em rivalidade por toda parte.
Enquanto dispõem de mais recursos do que lhes é necessário, ainda podem viver lado a lado. Mas, se seu número aumenta em proporções tais que todos os apetites já não possam ser suficientemente satisfeitos, a guerra irrompe, e é tanto mais violenta quanto essa insuficiência é mais marcada, isto é, quanto mais elevado é o número dos concorrentes. Tudo se passa de modo muito diferente se os indivíduos que coexistem são de espécies ou variedades diferentes.
Como não se alimentam da mesma maneira e não levam o mesmo gênero de vida, não se incomodam mutuamente. Aquilo que faz prosperar uns não tem valor para os outros. As ocasiões de conflitos diminuem, portanto, com as ocasiões de encontro, e isso tanto mais quanto essas espécies ou variedades estão mais distantes umas das outras.
Assim, diz Darwin, em uma região pouco extensa, aberta à imigração e onde, por consequência, a luta de indivíduo a indivíduo deve ser muito viva, nota-se sempre diversidade muito grande nas espécies que a habitam.
Encontrei uma superfície gramada de três pés por quatro, que ficara exposta durante longos anos às mesmas condições de vida, alimentando vinte espécies de plantas pertencentes a dezoito gêneros e a oito ordens, o que mostra quanto essas plantas diferiam umas das outras. Todo mundo, aliás, notou que, em um mesmo campo, ao lado dos cereais, pode crescer grande número de ervas daninhas.
Os animais também se saem tanto mais facilmente da luta quanto mais diferem. Encontra-se sobre um carvalho até duzentas espécies de insetos que só têm umas com as outras relações de boa vizinhança. Uns se alimentam dos frutos da árvore, outros das folhas, outros da casca e das raízes.
Seria, diz Haeckel, absolutamente impossível que tal número de indivíduos vivesse sobre essa árvore se todos pertencessem à mesma espécie, se todos, por exemplo, vivessem à custa da casca ou apenas das folhas. Do mesmo modo ainda, no interior do organismo, o que suaviza a concorrência entre as diferentes partes orgânicas é que se alimentam de substâncias diferentes.
Os homens sofrem a mesma lei. Em uma mesma cidade, profissões diferentes podem coexistir sem serem obrigadas a se prejudicar reciprocamente, pois perseguem objetos diferentes. O soldado procura a glória militar, o padre a autoridade moral, o homem de Estado o poder, o industrial a riqueza, o sábio a reputação científica. Cada um deles pode, portanto, atingir seu fim sem impedir os outros de atingir o deles.
Isso ainda ocorre quando as funções são menos afastadas umas das outras. O médico oculista não faz concorrência ao que cuida das doenças mentais, nem o sapateiro ao chapeleiro, nem o pedreiro ao marceneiro, nem o físico ao químico etc. Como prestam serviços diferentes, podem prestá-los paralelamente.
Entretanto, quanto mais as funções se aproximam, mais pontos de contato há entre elas e, por consequência, mais ficam expostas a se combater. Como, nesse caso, satisfazem por meios diferentes necessidades semelhantes, é inevitável que procurem, em maior ou menor grau, invadir umas o terreno das outras.
Jamais o magistrado concorre com o industrial. Mas o cervejeiro e o vinhateiro, o fabricante de panos e o fabricante de sedas, o poeta e o músico esforçam-se muitas vezes por suplantar-se mutuamente. Quanto aos que cumprem exatamente a mesma função, só podem prosperar em detrimento uns dos outros.
Se, portanto, se representam as diferentes funções sob a forma de feixe ramificado, saído de tronco comum, a luta está em seu mínimo entre os pontos extremos, ao passo que aumenta regularmente à medida que nos aproximamos do centro. Isso se dá tanto no interior de cada cidade quanto em toda a extensão da sociedade.
As profissões semelhantes situadas nos diferentes pontos do território fazem-se concorrência tanto mais viva quanto mais semelhantes são, desde que a dificuldade das comunicações e dos transportes não restrinja o círculo de sua ação.
Posto isso, é fácil compreender que toda condensação da massa social, sobretudo se acompanhada de aumento da população, determine necessariamente progressos da divisão do trabalho.
Com efeito, representemos um centro industrial que abastece certa região do país com produto especial. O desenvolvimento que é suscetível de atingir é duplamente limitado, primeiro pela extensão das necessidades que se trata de satisfazer, ou, segundo a expressão corrente, pela extensão do mercado, e depois pela potência dos meios de produção de que dispõe. Normalmente, ele produz apenas o necessário, e fica ainda mais aquém de sua capacidade.
Mas, se lhe é impossível ultrapassar o limite assim marcado, esforça-se por atingi-lo, pois é da natureza de uma força desenvolver toda a sua energia enquanto nada vem detê-la. Uma vez chegado a esse ponto, está adaptado a suas condições de existência. Encontra-se em posição de equilíbrio que não pode mudar se nada muda.
Sobrevém, porém, uma região até então independente desse centro, ligada a ele por uma via de comunicação que suprime parcialmente a distância. De imediato, uma das barreiras que detinham seu impulso se abaixa ou ao menos recua. O mercado se estende. Há agora mais necessidades a satisfazer.
Sem dúvida, se todas as empresas particulares que ele compreende já tivessem realizado o máximo de produção que podem atingir, como não poderiam estender-se mais, as coisas permaneceriam no mesmo estado. Tal condição, porém, é inteiramente ideal. Na realidade, há sempre número maior ou menor de empresas que não chegaram a seu limite e que têm, por consequência, velocidade para ir mais longe.
Como um espaço vazio lhes é aberto, procuram necessariamente espalhar-se nele e preenchê-lo. Se aí encontram empresas semelhantes e em estado de resistir-lhes, estas contêm aquelas. Limitam-se mutuamente e, em seguida, suas relações recíprocas não mudam. Há sem dúvida mais concorrentes. Contudo, como partilham mercado mais vasto, a parte de cada um dos dois campos permanece a mesma.
Se, porém, algumas apresentam inferioridade, deverão necessariamente ceder o terreno que ocupavam até então e onde já não podem manter-se nas condições novas em que a luta se engaja. Não têm então outra alternativa senão desaparecer ou transformar-se, e essa transformação deve necessariamente conduzir a nova especialização.
Pois, se, em vez de criar imediatamente uma especialidade a mais, as mais fracas preferissem adotar outra profissão, porém já existente, teriam de entrar em concorrência com aqueles que a exerceram até então. A luta, portanto, estaria apenas deslocada, sem se encerrar, e produziria em outro ponto suas consequências. Finalmente, seria preciso que em algum lugar houvesse eliminação ou nova diferenciação.
Não é necessário acrescentar que, se a sociedade conta efetivamente mais membros ao mesmo tempo que eles estão mais próximos uns dos outros, a luta é ainda mais ardente, e a especialização que daí resulta é mais rápida e mais completa.
Em outros termos, na medida em que a constituição social é segmentar, cada segmento tem seus órgãos próprios, que são como protegidos e mantidos à distância dos órgãos semelhantes pelas divisórias que separam os diferentes segmentos. Mas, à medida que essas divisórias se apagam, é inevitável que os órgãos similares se alcancem, entrem em luta e se esforcem por substituir-se uns aos outros.
Ora, qualquer que seja a maneira pela qual essa substituição se faça, dela não pode deixar de resultar algum progresso na via da especialização. Pois, de um lado, o órgão segmentar que triunfa, se assim se pode falar, só pode bastar à tarefa mais vasta que doravante lhe cabe por uma divisão maior do trabalho. De outro lado, os vencidos só podem manter-se consagrando-se apenas a uma parte da função total que cumpriam até então.
O pequeno patrão se torna contramestre, o pequeno comerciante se torna empregado etc. Essa parte pode, aliás, ser mais ou menos considerável, conforme a inferioridade seja mais ou menos marcada. Chega mesmo a acontecer que a função primitiva se dissocie simplesmente em duas frações de igual importância. Em vez de entrar ou permanecer em concorrência, duas empresas semelhantes reencontram o equilíbrio partilhando sua tarefa comum. Em vez de uma se subordinar à outra, coordenam-se.
Em todos os casos, há aparecimento de especialidades novas. Embora os exemplos precedentes sejam sobretudo tomados à vida econômica, essa explicação se aplica indistintamente a todas as funções sociais. O trabalho científico, artístico etc., não se divide de outra maneira nem por outras razões.
É ainda em virtude das mesmas causas que, como vimos, o aparelho regulador central absorve em si os órgãos reguladores locais e os reduz ao papel de auxiliares especiais.
De todas essas mudanças resulta aumento da felicidade média? Não se vê a que causa ele seria devido. A intensidade maior da luta implica esforços novos e penosos que não são de natureza a tornar os homens mais felizes. Tudo se passa mecanicamente. Uma ruptura de equilíbrio na massa social suscita conflitos que só podem ser resolvidos por divisão do trabalho mais desenvolvida: esse é o motor do progresso.
Quanto às circunstâncias exteriores e às combinações variadas da hereditariedade, tal como os declives do terreno determinam a direção de uma corrente sem criá-la, elas marcam o sentido no qual se faz a especialização onde ela é necessária, sem torná-la necessária. As diferenças individuais que produzem permaneceriam em estado de virtualidade se, para enfrentar dificuldades novas, não fôssemos constrangidos a destacá-las e desenvolvê-las.
A divisão do trabalho é, portanto, resultado da luta pela vida. Mas é seu desfecho suavizado. Graças a ela, com efeito, os rivais não são obrigados a eliminar-se mutuamente, e podem coexistir lado a lado. Assim, à medida que ela se desenvolve, fornece a maior número de indivíduos que, em sociedades mais homogêneas, estariam condenados a desaparecer, os meios de manter-se e sobreviver.
Em muitos povos inferiores, todo organismo mal constituído devia fatalmente perecer, pois não era utilizável para nenhuma função. Às vezes, a lei, adiantando e consagrando de algum modo os resultados da seleção natural, condenava à morte os recém-nascidos enfermos ou fracos, e o próprio Aristóteles achava natural esse uso. Ocorre de modo muito diferente nas sociedades mais avançadas.
Um indivíduo franzino pode encontrar, nos quadros complexos de nossa organização social, um lugar onde lhe seja possível prestar serviços. Se é fraco apenas de corpo e seu cérebro é são, consagrar-se-á aos trabalhos de gabinete, às funções especulativas.
Se é seu cérebro que é débil, terá sem dúvida de renunciar a enfrentar a grande concorrência intelectual. Mas a sociedade tem, nos alvéolos secundários de sua colmeia, lugares bastante pequenos que o impedem de ser eliminado. Do mesmo modo, entre as povoações primitivas, o inimigo vencido é morto. Ali onde as funções industriais estão separadas das funções militares, subsiste ao lado do vencedor na qualidade de escravo.
Há de fato algumas circunstâncias em que funções diferentes entram em concorrência. Assim, no organismo individual, depois de jejum prolongado, o sistema nervoso se alimenta à custa dos outros órgãos, e o mesmo fenômeno se produz se a atividade cerebral assume desenvolvimento excessivo. O mesmo ocorre na sociedade.
Em tempo de fome ou de crise econômica, as funções vitais são obrigadas, para manter-se, a tomar suas subsistências das funções menos essenciais. As indústrias de luxo periclitam, e as porções da fortuna pública que serviam para sustentá-las são absorvidas pelas indústrias de alimentação ou de objetos de primeira necessidade.
Ou então pode ocorrer que um organismo chegue a grau anormal de atividade, desproporcionado às necessidades, e que, para prover as despesas causadas por esse desenvolvimento exagerado, tenha de tomar da parte que cabe aos outros. Por exemplo, há sociedades em que há funcionários demais, soldados demais, oficiais demais, intermediários demais ou padres demais etc. As outras profissões sofrem com essa hipertrofia.
Todos esses casos, porém, são patológicos. Devem-se ao fato de que a nutrição do organismo não se faz regularmente ou de que o equilíbrio funcional está rompido.
Surge, porém, uma objeção ao espírito.
Uma indústria só pode viver se responde a alguma necessidade. Uma função só pode especializar-se se essa especialização corresponde a alguma necessidade da sociedade. Ora, toda especialização nova tem por resultado aumentar e melhorar a produção. Se essa vantagem não é a razão de ser da divisão do trabalho, é sua consequência necessária.
Por conseguinte, um progresso só pode estabelecer-se de maneira durável se os indivíduos sentem realmente a necessidade de produtos mais abundantes ou de melhor qualidade. Enquanto a indústria dos transportes não estava constituída, cada um se deslocava com os meios de que dispunha, e estava habituado a esse estado de coisas. Contudo, para que ela tenha podido tornar-se uma especialidade, foi preciso que os homens deixassem de contentar-se com aquilo que até então lhes bastara e se tornassem mais exigentes.
Mas de onde podem vir essas exigências novas?
São efeito da mesma causa que determina os progressos da divisão do trabalho. Acabamos de ver, com efeito, que estes se devem ao ardor maior da luta. Ora, uma luta mais violenta não ocorre sem emprego maior de forças e, por consequência, sem maiores fadigas.
Para que a vida se mantenha, é sempre preciso que a reparação seja proporcionada ao dispêndio. Eis por que os alimentos que até então bastavam para restaurar o equilíbrio orgânico se tornam doravante insuficientes. É necessária alimentação mais abundante e mais escolhida. É assim que o camponês, cujo trabalho é menos esgotante que o do operário das cidades, sustenta-se igualmente bem, embora com alimentação mais pobre.
Este já não pode contentar-se com alimentação vegetal, e ainda, mesmo nessas condições, tem muita dificuldade em compensar o déficit que um trabalho intenso e contínuo abre todos os dias no orçamento de seu organismo.
Por outro lado, é sobretudo o sistema nervoso central que suporta todos esses custos, pois é preciso engenhar-se para encontrar meios de sustentar a luta, para criar especialidades novas, para aclimatá-las etc. De maneira geral, quanto mais o meio está sujeito à mudança, maior se torna a parte da inteligência na vida, pois só ela pode reencontrar as condições novas de um equilíbrio que se rompe sem cessar e restaurá-lo.
A vida cerebral desenvolve-se, portanto, ao mesmo tempo que a concorrência se torna mais viva, e na mesma medida. Constata-se esse progresso paralelo tanto na elite quanto em todas as classes da sociedade. Sobre esse ponto ainda, basta comparar o operário com o agricultor. É fato conhecido que o primeiro é muito mais inteligente, apesar do caráter mecânico das tarefas às quais muitas vezes está consagrado.
Aliás, não é sem razão que as doenças mentais marcham no mesmo passo que a civilização, nem que atinjam as cidades de preferência aos campos, e as grandes cidades mais que as pequenas. Ora, um cérebro mais volumoso e mais delicado tem exigências diferentes das de um encéfalo mais grosseiro. Penas ou privações que este nem sentia abalam aquele com dor.
Pela mesma razão, são necessários excitantes menos simples para afetar agradavelmente esse órgão, uma vez que ele se refinou, e são necessários em maior número, porque ao mesmo tempo se desenvolveu. Enfim, mais que todas as outras, crescem as necessidades propriamente intelectuais. Explicações grosseiras já não podem satisfazer espíritos mais exercitados. Reclamam-se claridades novas, e a ciência sustenta essas aspirações ao mesmo tempo que as satisfaz.
Todas essas mudanças são, portanto, necessariamente produzidas por causas necessárias. Se nossa inteligência e nossa sensibilidade se desenvolvem e se aguçam, é porque as exercemos mais. E, se as exercemos mais, é porque somos constrangidos pela violência maior da luta que temos de sustentar. Eis como, sem tê-lo querido, a humanidade se acha apta a receber cultura mais intensa e mais variada.
Entretanto, se outro fator não interviesse, essa simples predisposição não poderia suscitar por si mesma os meios de se satisfazer, pois constitui apenas aptidão para gozar e, segundo a observação de M. Bain, simples aptidões para gozar não provocam necessariamente o desejo.
Podemos ser constituídos de maneira a ter prazer em cultivar a música, a pintura, a ciência, e entretanto não desejá-lo, se sempre nos impediram de fazê-lo. Mesmo quando somos impelidos para um objeto por impulso hereditário e muito forte, só podemos desejá-lo depois de entrar em relação com ele.
O adolescente que jamais ouviu falar das relações sexuais nem das alegrias que proporcionam pode muito bem experimentar mal-estar vago e indefinível. Pode ter a sensação de que alguma coisa lhe falta, mas não sabe o quê e, por consequência, não tem desejos sexuais propriamente ditos. Assim, essas aspirações indeterminadas podem com bastante facilidade desviar-se de seus fins naturais e de sua direção normal.
Mas, no momento mesmo em que o homem está em condições de provar essas fruições novas e as chama até inconscientemente, encontra-as ao seu alcance, porque a divisão do trabalho se desenvolveu ao mesmo tempo e as fornece. Sem que haja nisso a menor harmonia preestabelecida, essas duas ordens de fatos se encontram, simplesmente porque são efeitos de uma mesma causa.
Eis a maneira pela qual se pode conceber esse encontro. O atrativo da novidade já bastaria para levar o homem a experimentar esses prazeres. É levado a isso de modo ainda mais natural porque a riqueza e a maior complexidade desses excitantes fazem parecer mais medíocres aqueles com que até então se contentara.
Pode, aliás, adaptar-se mentalmente a eles antes de tê-los experimentado. E, como na realidade correspondem às mudanças feitas em sua constituição, pressente que se achará bem com eles. A experiência vem em seguida confirmar esses pressentimentos. As necessidades que dormiam despertam, determinam-se, tomam consciência de si mesmas e se organizam.
Isso não quer dizer, contudo, que esse ajustamento seja, em todos os casos, tão perfeito, nem que cada produto novo, devido a novos progressos da divisão do trabalho, corresponda sempre a uma necessidade real de nossa natureza. Ao contrário, é verossímil que, com bastante frequência, as necessidades se contraiam apenas porque se tomou hábito do objeto ao qual se referem.
Esse objeto era desprovido de necessidade e utilidade. Aconteceu que se fez dele várias vezes a experiência, e se acostumou tão bem a ele que já não se pode passar sem ele. As harmonias que resultam de causas inteiramente mecânicas só podem ser imperfeitas e aproximadas. Contudo, são suficientes para manter a ordem em geral. É o que ocorre com a divisão do trabalho.
Os progressos que ela faz estão, em geral, ainda que não em todos os casos, em harmonia com as mudanças que se fazem no homem, e é isso que lhes permite durar.
Ainda uma vez, nem por isso somos mais felizes. Sem dúvida, uma vez que essas necessidades foram excitadas, não podem permanecer em sofrimento sem que haja dor. Contudo, nossa felicidade não é maior porque foram excitadas. O ponto de referência pelo qual medíamos a intensidade relativa de nossos prazeres foi deslocado. Daí resulta um abalo de toda a graduação. Essa desclassificação dos prazeres não implica aumento.
Porque o meio já não é o mesmo, tivemos de mudar, e essas mudanças determinaram outras em nossa maneira de ser felizes. Contudo, quem diz mudanças não diz necessariamente progresso. Vê-se quanto a divisão do trabalho nos aparece sob aspecto diferente daquele que tem para os economistas. Para eles, consiste essencialmente em produzir mais. Para nós, essa produtividade maior é apenas consequência necessária, repercussão do fenômeno.
Se nos especializamos, não é para produzir mais. É para poder viver nas condições novas de existência que nos são feitas.
## IV
Um corolário de tudo que precede é que a divisão do trabalho só pode efetuar-se entre os membros de uma sociedade já constituída.
Com efeito, quando a concorrência opõe indivíduos isolados e estranhos uns aos outros, só pode separá-los ainda mais. Se dispõem livremente do espaço, fugirão uns dos outros. Se não podem sair de limites determinados, diferenciar-se-ão de maneira a se tornarem ainda mais independentes uns dos outros. Não se pode citar nenhum caso em que relações de pura hostilidade se tenham transformado em relações sociais sem intervenção de qualquer outro fator.
Assim, como entre os indivíduos de uma mesma espécie animal ou vegetal geralmente não há nenhum vínculo, a guerra que travam só tem por resultado diversificá-los, dar nascimento a variedades dessemelhantes e que se afastam sempre mais umas das outras. É essa disjunção progressiva que Darwin chamou de lei da divergência dos caracteres.
Ora, a divisão do trabalho une ao mesmo tempo que opõe. Faz convergir as atividades que diferencia. Aproxima aqueles que separa. Já que a concorrência não pode ter determinado essa aproximação, é preciso que ela tenha preexistido. É preciso que os indivíduos entre os quais a luta se trava já sejam solidários e o sintam, isto é, pertençam a uma mesma sociedade.
Por isso, ali onde esse sentimento de solidariedade é fraco demais para resistir à influência dispersiva da concorrência, esta engendra efeitos inteiramente diferentes da divisão do trabalho. Nos países onde a existência é difícil demais em consequência da extrema densidade da população, os habitantes, em vez de se especializar, retiram-se definitiva ou provisoriamente da sociedade. Emigram para outras regiões.
Basta, aliás, representar o que é a divisão do trabalho para compreender que não pode ser de outro modo. Ela consiste, com efeito, na partilha de funções até então comuns.
Essa partilha não pode ser executada segundo plano preconcebido. Não se pode dizer de antemão onde deve encontrar-se a linha de demarcação entre as tarefas, uma vez separadas, pois ela não está marcada com tal evidência na natureza das coisas. Depende, ao contrário, de multidão de circunstâncias. É preciso, portanto, que a divisão se faça por si mesma e progressivamente.
Por conseguinte, para que, nessas condições, uma função possa dividir-se em duas frações exatamente complementares, como exige a natureza da divisão do trabalho, é indispensável que as duas partes que se especializam estejam, durante todo o tempo que dura essa dissociação, em comunicação constante. Não há outro meio para que uma receba todo o movimento que a outra abandona e para que se adaptem uma à outra.
Ora, do mesmo modo que uma colônia animal cujos membros estão todos em continuidade de matéria viva constitui um indivíduo, todo agregado de indivíduos que estão em contato contínuo forma uma sociedade. A divisão do trabalho só pode, portanto, produzir-se no seio de uma sociedade preexistente. Com isso, não queremos dizer simplesmente que os indivíduos devam aderir materialmente uns aos outros. É preciso ainda que haja entre eles vínculos morais.
Primeiro, a continuidade material, por si só, dá nascimento a vínculos desse gênero, desde que seja durável. Além disso, eles são diretamente necessários. Se as relações que começam a estabelecer-se no período dos ensaios não fossem submetidas a nenhuma regra, se nenhum poder moderasse o conflito dos interesses individuais, haveria caos do qual não poderia sair nenhuma ordem nova.
Imagina-se, é verdade, que tudo se passa então em convenções privadas e livremente debatidas. Parece, portanto, que toda ação social está ausente. Esquece-se, porém, que os contratos só são possíveis ali onde já existe regulamentação jurídica e, por consequência, uma sociedade.
É, portanto, erradamente que se viu às vezes na divisão do trabalho o fato fundamental de toda vida social. O trabalho não se reparte entre indivíduos independentes e já diferenciados que se reúnem e se associam para pôr em comum suas diferentes aptidões. Pois seria milagre que diferenças assim nascidas ao acaso das circunstâncias pudessem ajustar-se tão exatamente de maneira a formar um todo coerente. Longe de precederem a vida coletiva, dela derivam.
Só podem produzir-se no seio de uma sociedade e sob a pressão de sentimentos e necessidades sociais. É isso que faz com que sejam essencialmente harmônicas. Há, portanto, uma vida social fora de toda divisão do trabalho, mas que esta supõe.
Foi isso que estabelecemos diretamente ao mostrar que há sociedades cuja coesão é essencialmente devida à comunidade das crenças e dos sentimentos, e que é dessas sociedades que saíram aquelas cuja unidade é assegurada pela divisão do trabalho. As conclusões do livro precedente e aquelas às quais acabamos de chegar podem, portanto, servir para controlar-se e confirmar-se mutuamente.
A divisão fisiológica do trabalho está ela própria submetida a essa lei. Só aparece no seio de massas policelulares que já são dotadas de certa coesão.
Para muitos teóricos, é verdade evidente por si mesma que toda sociedade consiste essencialmente em cooperação. Uma sociedade, no sentido científico da palavra, diz M. Spencer, só existe quando à justaposição dos indivíduos se acrescenta a cooperação. Acabamos de ver que esse pretenso axioma é o inverso da verdade.
É, ao contrário, evidente, como diz Auguste Comte, que a cooperação, bem longe de ter podido produzir a sociedade, supõe necessariamente seu prévio estabelecimento espontâneo. O que aproxima os homens são causas mecânicas e forças impulsivas como a afinidade do sangue, o apego a um mesmo solo, o culto dos ancestrais, a comunidade dos hábitos etc. Só quando o grupo se formou sobre essas bases é que a cooperação nele se organiza.
Ainda assim, a única possível no princípio é tão intermitente e fraca que a vida social, se não tivesse outra fonte, seria ela própria sem força e sem continuidade. Com maior razão, a cooperação complexa que resulta da divisão do trabalho é fenômeno ulterior e derivado. Resulta de movimentos internos que se desenvolvem no seio da massa quando esta está constituída.
É verdade que, uma vez aparecida, ela estreita os vínculos sociais e faz da sociedade individualidade mais perfeita. Essa integração, porém, supõe outra, que ela substitui. Para que as unidades sociais possam diferenciar-se, é preciso antes que se tenham atraído e agrupado em virtude das semelhanças que apresentam. Esse procedimento de formação se observa tanto nas origens quanto em cada estágio da evolução.
Sabemos, com efeito, que as sociedades superiores resultam da reunião de sociedades inferiores do mesmo tipo. É preciso primeiro que estas últimas sejam confundidas no seio de uma só e mesma consciência coletiva para que o processo de diferenciação possa começar ou recomeçar. É assim que os organismos mais complexos se formam pela repetição de organismos mais simples, semelhantes entre si, que só se diferenciam depois de associados.
Numa palavra, associação e cooperação são dois fatos distintos, e, se o segundo, quando está desenvolvido, reage sobre o primeiro e o transforma, se as sociedades humanas se tornam cada vez mais grupos de cooperadores, a dualidade dos dois fenômenos nem por isso se desvanece.
Se essa verdade importante foi desconhecida pelos utilitários, é erro ligado à maneira pela qual concebem a gênese da sociedade. Supõem, na origem, indivíduos isolados e independentes, que, em seguida, só podem entrar em relações para cooperar, pois não têm outra razão para transpor o intervalo vazio que os separa e para se associar. Essa teoria, contudo, postula verdadeira criação ex nihilo.
Consiste, com efeito, em deduzir a sociedade do indivíduo. Ora, nada do que conhecemos nos autoriza a crer na possibilidade de tal geração espontânea. Pela confissão de M. Spencer, para que a sociedade possa formar-se nessa hipótese, é preciso que as unidades primitivas passem do estado de independência perfeita ao de dependência mútua.
Mas o que poderia tê-las determinado a transformação tão completa? A perspectiva das vantagens que a vida social oferece? Elas são compensadas, e para além disso, pela perda da independência, pois, para seres nascidos para vida livre e solitária, tal sacrifício é o mais intolerável. Acrescente-se que, nos primeiros tipos sociais, ele é tão absoluto quanto possível, pois em parte alguma o indivíduo é mais completamente absorvido pelo grupo.
Como o homem, se tivesse nascido individualista, segundo a hipótese, teria podido resignar-se a existência que fere tão violentamente sua inclinação fundamental? Quanto a utilidade problemática da cooperação devia parecer pálida ao lado de tamanha queda. De individualidades autônomas tais quais se imaginam só pode sair algo individual, e, por consequência, a própria cooperação, que é fato social submetido a regras sociais, não pode nascer daí.
É assim que o psicólogo que começa por se fechar no seu eu já não pode dele sair para reencontrar o não eu.
A vida coletiva não nasceu da vida individual. Ao contrário, a segunda nasceu da primeira. Só com essa condição se pode explicar como a individualidade pessoal das unidades sociais pôde formar-se e crescer sem desagregar a sociedade.
Com efeito, como nesse caso ela se elabora no seio de meio social preexistente, traz necessariamente sua marca. Constitui-se de maneira a não arruinar essa ordem coletiva da qual é solidária. Permanece adaptada a ela ao mesmo tempo que dela se destaca. Nada tem de antissocial, porque é produto da sociedade.
Longe de ser a personalidade absoluta da mônada, que basta a si mesma e poderia dispensar o resto do mundo, é a de um órgão ou de uma parte de órgão que tem sua função determinada e não pode separar-se do resto do organismo sem correr risco de morte. Nessas condições, a cooperação se torna possível e necessária.
Os utilitários invertem, portanto, a ordem natural dos fatos, e nada é menos surpreendente que essa inversão. É ilustração particular desta verdade geral: aquilo que é primeiro no conhecimento é último na realidade. Precisamente porque a cooperação é o fato mais recente, é ela que antes de tudo impressiona o olhar. Se, portanto, ficamos nas aparências, como faz o senso comum, é inevitável que se veja nela o fato primário da vida moral e social.
Se ela não é toda a moral, tampouco se deve colocá-la fora da moral, como fazem certos moralistas. Tal como os utilitários, esses idealistas a fazem consistir exclusivamente em um sistema de relações econômicas, de arranjos privados cujo único motor seria o egoísmo.
Na realidade, a vida moral circula por todas as relações que a constituem, pois ela não seria possível se sentimentos sociais e, por consequência, morais, não presidissem à sua elaboração.
Objetar-se-á a divisão internacional do trabalho. Parece evidente que, nesse caso ao menos, os indivíduos entre os quais o trabalho se reparte não pertencem à mesma sociedade. É preciso recordar, porém, que um grupo pode, conservando sua individualidade, ser envolvido por outro, mais vasto, que contém vários do mesmo gênero.
Pode-se afirmar que uma função econômica ou outra só pode dividir-se entre duas sociedades se estas participam sob algum aspecto de uma mesma vida comum e, por consequência, pertencem a uma mesma sociedade. Suponde, com efeito, que essas duas consciências coletivas não estejam fundidas uma à outra por algum ponto. Não se vê como os dois agregados poderiam ter o contato contínuo que é necessário, nem, em seguida, como um deles poderia abandonar ao segundo uma de suas funções.
Para que um povo se deixe penetrar por outro, é preciso que tenha deixado de encerrar-se em patriotismo exclusivo e que tenha aprendido outro, mais compreensivo.
De resto, pode-se observar diretamente essa relação dos fatos no exemplo mais marcante de divisão internacional do trabalho que a história nos oferece. Pode-se dizer, com efeito, que ela nunca se produziu verdadeiramente senão na Europa e em nosso tempo. Ora, foi no fim do século passado e no começo deste que começou a formar-se uma consciência comum das sociedades europeias.
Há, diz M. Sorel, um preconceito do qual importa desfazer-se. É representar a Europa do antigo regime como sociedade de Estados regularmente constituída, na qual cada um conformava sua conduta a princípios reconhecidos por todos, na qual o respeito ao direito estabelecido governava as transações e ditava os tratados, na qual a boa-fé dirigia sua execução, na qual o sentimento da solidariedade das monarquias assegurava, com a manutenção da ordem pública, a duração dos compromissos contraídos pelos príncipes.
Uma Europa na qual os direitos de cada um resultassem dos deveres de todos era algo tão estranho aos homens de Estado do antigo regime que foi necessária uma guerra de um quarto de século, a mais formidável que se vira até então, para lhes impor a noção dela e demonstrar sua necessidade. A tentativa feita no Congresso de Viena e nos congressos que se seguiram para dar à Europa uma organização elementar foi progresso, e não retorno ao passado.
Se, contudo, em certos casos, povos que não se prendem por nenhum vínculo, e que às vezes até se olham como inimigos, trocam entre si produtos de maneira mais ou menos regular, é preciso ver nesses fatos apenas simples relações de mutualismo, que nada têm de comum com a divisão do trabalho. Pois, porque dois organismos diferentes têm propriedades que se ajustam utilmente, não se segue que haja entre eles partilha de funções.
## Notas
1. Sociologie, II, 31.
2. Colunt diversi ac discreti, diz Tácito dos germanos, suam quisque domum spatio circum lat. Germain., 16.
3. Ver em Accarias, Précis, I, 640, a lista das servidões urbanas. Cf. Fustel, La Cité antique, p. 65.
4. Raciocinando assim, não entendemos dizer que os progressos da densidade resultem das mudanças econômicas. Os dois fatos se condicionam mutuamente, e isso basta para que a presença de um ateste a do outro.
5. Ver Levasseur, La Population française, passim.
6. Ver Tácito, Germ., 16. Sohm, Ueber die Entstehung der Staedte.
7. Roemische Alterthümer, IV, 3.
8. Ver, sobre esse ponto, Dumont, Dépopulation et Civilisation, Paris, 1890, cap. VIII, e Oettingen, Moralstatistik, p. 273 e seguintes.
9. Ver Levasseur, obra citada, p. 200.
10. Parece-nos que essa é a opinião de M. Tarde em suas Lois de l'imitation.
11. Todavia, há casos particulares, excepcionais, em que a densidade material e a densidade moral talvez não estejam inteiramente em relação. Ver mais abaixo, cap. III, nota final.
12. Sociol., II, 23.
13. A aldeia, que originariamente é apenas um clã fixado.
14. Sobre esse ponto ainda, podemos apoiar-nos na autoridade de Comte. Devo apenas, diz ele, indicar agora a condensação progressiva de nossa espécie como último elemento geral que concorre para regular a velocidade efetiva do movimento social. Pode-se, portanto, reconhecer primeiro com facilidade que essa influência contribui muito, sobretudo na origem, para determinar no conjunto do trabalho humano uma divisão cada vez mais especial, necessariamente incompatível com pequeno número de cooperadores. Além disso, por uma propriedade mais íntima e menos conhecida, embora ainda mais capital, tal condensação estimula diretamente, de maneira muito poderosa, o desenvolvimento mais rápido da evolução social, seja empurrando os indivíduos a tentar esforços novos para assegurar por meios mais refinados uma existência que, de outro modo, se tornaria mais difícil, seja também obrigando a sociedade a reagir com energia mais obstinada e melhor concertada para lutar mais obstinadamente contra o impulso mais poderoso das divergências particulares. A um e a outro título, vê-se que se trata aqui, sobretudo, não do aumento absoluto do número dos indivíduos, e sim de seu concurso mais intenso sobre espaço dado. Cours, IV, 455.
15. Premiers principes, 381.
16. Origine des espèces, 131.
17. Histoire de la Création naturelle, 240.
18. Politique, IV, VIII, 16, 1335 b, 20 e seguintes.
19. Bordier, Vie des Sociétés, 43.
20. Ver Bordier, obra citada, 166 e seguintes.
21. Féré, Dégénérescence et Criminalité, 88.
22. Ver o artigo Aliénation mentale no Dictionnaire encyclopédique des Sciences médicales.
23. Esse desenvolvimento da vida propriamente intelectual ou científica tem ainda outra causa, que veremos no capítulo seguinte.
24. Émotions et Volonté, 419.
25. Sociologie, III, 334.
26. Cours de Philos. posit., IV, 421.
27. Sociologie, III, 332.
28. L'Europe et la Révolution française, I, 9 e 10.
29. Ver Kulischer, Der Handel auf den primitiven Culturstufen, Ztsch. f. Voelkerpsychologie, X, 1877, p. 378, e Schrader, Linguistisch-historische Forschungen zur Handelsgeschichte. Iena, 1886.
30. É verdade que o mutualismo se produz geralmente entre indivíduos de espécies diferentes, mas o fenômeno permanece idêntico mesmo quando ocorre entre indivíduos da mesma espécie. Ver, sobre o mutualismo, Espinas, Sociétés animales, e Giraud, Les Sociétés chez les animaux.
31. Lembramos, ao terminar, que estudamos neste capítulo apenas de que modo, em geral, a divisão do trabalho progride cada vez mais, e dissemos as causas determinantes desse progresso. Pode muito bem ocorrer, porém, que, em uma sociedade particular, certa divisão do trabalho, e sobretudo a divisão econômica do trabalho, seja muito desenvolvida, embora o tipo segmentar ainda esteja bastante pronunciado.
Parece ser esse o caso da Inglaterra. A grande indústria e o grande comércio parecem ali tão desenvolvidos quanto no continente, embora o sistema alveolar ainda seja muito marcado, como provam a autonomia da vida local e a autoridade que a tradição conserva.
O valor sintomático deste último fato será determinado no capítulo seguinte. É que, com efeito, a divisão do trabalho, sendo fenômeno derivado e secundário, como acabamos de ver, passa-se à superfície da vida social, e isso é sobretudo verdadeiro da divisão econômica do trabalho. Ela fica à flor da pele.
Ora, em todo organismo, os fenômenos superficiais, por sua própria situação, são muito mais acessíveis à ação das causas exteriores, mesmo quando as causas internas de que geralmente dependem não são modificadas. Basta, assim, que uma circunstância qualquer excite em um povo necessidade mais viva de bem-estar material para que a divisão econômica do trabalho se desenvolva sem que a estrutura social mude sensivelmente.
O espírito de imitação e o contato de uma civilização mais refinada podem produzir esse resultado. É assim que o entendimento, sendo a parte culminante e por consequência mais superficial da consciência, pode ser modificado com bastante facilidade por influências externas, como a educação, sem que as bases da vida psíquica sejam atingidas. Criam-se assim inteligências bastante suficientes para assegurar o sucesso, mas sem raízes profundas.
Por isso, esse gênero de talento não se transmite pela hereditariedade.
Essa comparação mostra que não se deve julgar o lugar que cabe a uma sociedade na escala social pelo estado de sua civilização, sobretudo de sua civilização econômica, pois esta pode ser apenas imitação, cópia, e recobrir uma estrutura social de espécie inferior. O caso, é verdade, é excepcional, porém se apresenta.
É somente nesses encontros que a densidade material da sociedade não exprime exatamente o estado da densidade moral. O princípio que estabelecemos é, portanto, verdadeiro de maneira muito geral, e isso basta à nossa demonstração.