Livro II - Capítulo III - Os fatores secundários - indeterminação progressiva da consciência coletiva Da Divisão do Trabalho Social - Tradução Literunico · Capítulo 12 de 18
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Livro II - Capítulo III - Os fatores secundários - indeterminação progressiva da consciência coletiva

## Livro II

## Capítulo III

### Os fatores secundários - indeterminação progressiva da consciência coletiva

#### A indeterminação progressiva da consciência comum e suas causas

Vimos, na primeira parte deste trabalho, que a consciência coletiva se tornava mais fraca e mais vaga à medida que a divisão do trabalho se desenvolvia. É até por efeito dessa indeterminação progressiva que a divisão do trabalho se torna a fonte principal da solidariedade. Uma vez que esses dois fenômenos estão ligados a tal ponto, não é inútil procurar as causas dessa regressão.

Sem dúvida, ao mostrar com que regularidade ela se produz, estabelecemos diretamente que depende de algumas condições fundamentais da evolução social. Contudo, essa conclusão do livro precedente seria ainda mais incontestável se pudéssemos encontrar quais são essas condições.

Essa questão é, aliás, solidária daquela que estamos tratando. Acabamos de mostrar que os progressos da divisão do trabalho se devem à pressão mais forte exercida pelas unidades sociais umas sobre as outras e que as obriga a desenvolver-se em sentidos cada vez mais divergentes. Contudo, essa pressão é a cada instante neutralizada por pressão em sentido contrário, exercida pela consciência comum sobre cada consciência particular.

Enquanto uma nos impele a formar personalidade distinta, a outra nos impõe a regra de nos assemelharmos a todos. Enquanto a primeira nos inclina a seguir a tendência de nossa natureza pessoal, a segunda nos retém e nos impede de desviar-nos do tipo coletivo.

Em outros termos, para que a divisão do trabalho possa nascer e crescer, não basta que haja nos indivíduos germes de aptidões especiais, nem que eles sejam incitados a variar no sentido dessas aptidões. É preciso ainda que as variações individuais sejam possíveis.

Ora, elas não podem produzir-se quando estão em oposição a algum estado forte e definido da consciência coletiva, pois quanto mais forte é um estado, mais ele resiste a tudo que o pode enfraquecer; quanto mais definido, menos lugar deixa às mudanças. Pode-se, portanto, prever que o progresso da divisão do trabalho será tanto mais difícil e lento quanto maior vitalidade e precisão tiver a consciência comum.

Inversamente, será tanto mais rápido quanto mais facilmente o indivíduo puder pôr-se em harmonia com seu meio pessoal. Para isso, porém, não basta que esse meio exista. É preciso ainda que cada um seja livre para adaptar-se a ele, isto é, capaz de mover-se com independência, ainda que todo o grupo não se mova ao mesmo tempo e na mesma direção.

Ora, sabemos que os movimentos próprios dos particulares são tanto mais raros quanto mais desenvolvida é a solidariedade mecânica.

São numerosos os exemplos em que se pode observar diretamente essa influência neutralizadora da consciência comum sobre a divisão do trabalho. Enquanto a lei e os costumes fazem da inalienabilidade e da indivisão da propriedade imobiliária uma obrigação estrita, as condições necessárias ao aparecimento da divisão do trabalho não nasceram. Cada família forma massa compacta, e todas se entregam à mesma ocupação, à exploração do patrimônio hereditário.

Entre os eslavos, a zadruga cresce muitas vezes em proporções tais que a miséria se torna grande. Entretanto, como o espírito doméstico é muito forte, continua-se em geral a viver junto, em vez de procurar fora profissões especiais, como as de marinheiro e de comerciante. Em outras sociedades, nas quais a divisão do trabalho está mais avançada, cada classe tem funções determinadas e sempre as mesmas, subtraídas a toda inovação.

Alhures, há categorias inteiras de profissões cujo acesso é mais ou menos formalmente proibido aos cidadãos. Na Grécia, em Roma, a indústria e o comércio eram carreiras desprezadas. Entre os cabilas, certos ofícios, como os de açougueiro, fabricante de calçados etc., são marcados pela opinião pública. A especialização, portanto, não pode fazer-se nessas diversas direções.

Enfim, mesmo entre povos nos quais a vida econômica já atingiu certo desenvolvimento, como entre nós no tempo das antigas corporações, as funções eram regulamentadas de tal sorte que a divisão do trabalho não podia progredir. Onde todos eram obrigados a fabricar da mesma maneira, toda variação individual era impossível.

O mesmo fenômeno se produz na vida representativa das sociedades. A religião, essa forma eminente da consciência comum, absorve primitivamente todas as funções representativas com as funções práticas. As primeiras só se dissociam das segundas quando a filosofia aparece. Ora, ela só é possível quando a religião perdeu um pouco de seu império. Essa maneira nova de representar as coisas se choca com a opinião coletiva que resiste.

Disse-se às vezes que é o livre exame que faz regredir as crenças religiosas. Ele, contudo, supõe por sua vez regressão prévia dessas mesmas crenças. Só pode produzir-se se a fé comum o permite.

O mesmo antagonismo irrompe cada vez que uma ciência nova se funda. O próprio cristianismo, embora tenha dado desde logo à reflexão individual lugar maior que qualquer outra religião, não pôde escapar a essa lei. Sem dúvida, a oposição foi menos viva enquanto os sábios limitaram seus estudos ao mundo material, já que este era em princípio abandonado à disputa dos homens.

Ainda assim, como esse abandono jamais foi completo, como o Deus cristão não é inteiramente estranho às coisas desta terra, aconteceu necessariamente que, sobre mais de um ponto, as próprias ciências naturais encontraram na fé um obstáculo. A resistência, porém, foi sobretudo enérgica quando o homem se tornou objeto de ciência.

O crente, com efeito, não pode deixar de repugnar à ideia de que o homem seja estudado como ser natural, análogo aos outros, e de que os fatos morais sejam tratados como fatos de natureza. Sabe-se quanto esses sentimentos coletivos, sob as formas diversas que assumiram, dificultaram o desenvolvimento da psicologia e da sociologia.

Não se explicou, portanto, completamente os progressos da divisão do trabalho quando se demonstrou que são necessários por causa das mudanças ocorridas no meio social. Eles dependem ainda de fatores secundários que podem facilitar, dificultar ou até impedir inteiramente seu curso.

Com efeito, não se deve esquecer que a especialização não é a única solução possível para a luta pela vida. Há também a emigração, a colonização, a resignação a uma existência precária e mais disputada, enfim, a eliminação total dos mais fracos por suicídio ou por outro meio.

Visto que o resultado é, em certa medida, contingente, e que os combatentes não são necessariamente empurrados para uma dessas saídas com exclusão das outras, dirigem-se àquela que está mais ao seu alcance. Sem dúvida, se nada impede a divisão do trabalho de se desenvolver, eles se especializam. Se, porém, as circunstâncias tornam esse desfecho impossível ou demasiado difícil, será preciso recorrer a algum outro.

O primeiro desses fatores consiste em independência maior dos indivíduos em relação ao grupo, que lhes permite variar em liberdade. A divisão fisiológica do trabalho está submetida à mesma condição. Mesmo aproximados uns dos outros, diz M. Périer, os elementos anatômicos conservam respectivamente toda a sua individualidade.

Qualquer que seja seu número, tanto nos organismos mais elevados quanto nos mais humildes, alimentam-se, crescem e se reproduzem sem cuidado com seus vizinhos. Nisso consiste a lei de independência dos elementos anatômicos, que se tornou tão fecunda nas mãos dos fisiologistas.

Essa independência deve ser considerada como condição necessária ao livre exercício de uma faculdade mais geral dos plastídeos, a variabilidade sob a ação das circunstâncias exteriores ou mesmo de certas forças imanentes aos protoplasmas.

Graças à aptidão para variar e à independência recíproca, os elementos nascidos uns dos outros e primitivamente todos semelhantes entre si puderam modificar-se em sentidos diferentes, tomar formas diversas, adquirir funções e propriedades novas.

Ao contrário do que se passa nos organismos, essa independência não é, nas sociedades, fato primitivo, pois na origem o indivíduo é absorvido pelo grupo. Vimos, contudo, que ela aparece em seguida e progride regularmente ao mesmo tempo que a divisão do trabalho, por efeito da regressão da consciência coletiva. Resta procurar como essa condição útil da divisão do trabalho social se realiza à medida que se torna necessária.

Sem dúvida, é porque ela própria depende das causas que determinaram os progressos da especialização. Contudo, de que modo o crescimento das sociedades em volume e densidade pode ter esse resultado?

## I

Numa sociedade pequena, como todos estão colocados sensivelmente nas mesmas condições de existência, o meio coletivo é essencialmente concreto. É feito de seres de toda espécie que preenchem o horizonte social. Os estados de consciência que o representam têm, portanto, o mesmo caráter. Primeiro, referem-se a objetos precisos, como este animal, esta árvore, esta planta, esta força natural etc.

Depois, como todos estão situados da mesma maneira diante dessas coisas, elas afetam todas as consciências da mesma forma. Toda a tribo, se não é demasiado extensa, goza ou sofre igualmente as vantagens ou inconvenientes do sol ou da chuva, do calor ou do frio, de tal rio, de tal fonte etc.

As impressões coletivas que resultam da fusão de todas essas impressões individuais são, portanto, determinadas em sua forma e em seus objetos, e, por consequência, a consciência comum tem caráter definido. Ela muda de natureza à medida que as sociedades se tornam mais volumosas.

Porque estas se espalham por superfície mais vasta, a consciência comum é obrigada a elevar-se acima de todas as diversidades locais, a dominar mais o espaço e, por consequência, a tornar-se mais abstrata. Pois quase só coisas gerais podem ser comuns a todos esses meios diversos. Já não é tal animal, e sim tal espécie; tal fonte, e sim as fontes; tal floresta, e sim a floresta em abstrato.

Por outro lado, porque as condições da vida já não são por toda parte as mesmas, esses objetos comuns, quaisquer que sejam, já não podem determinar em todos os lugares sentimentos tão perfeitamente idênticos. As resultantes coletivas, portanto, já não têm a mesma nitidez, e isso tanto mais quanto os elementos componentes são mais dessemelhantes. Quanto mais diferenças houver entre os retratos individuais que serviram para formar um retrato composto, mais indeciso será este.

É verdade que as consciências coletivas locais podem conservar sua individualidade no seio da consciência coletiva geral e que, como abrangem horizontes menores, continuam mais facilmente concretas. Sabemos, contudo, que pouco a pouco se desvanecem no seio da primeira, à medida que se apagam os segmentos sociais aos quais correspondem.

O fato que talvez manifeste melhor essa tendência crescente da consciência comum é a transcendência paralela do mais essencial de seus elementos, quero dizer, a noção da divindade. Na origem, os deuses não são distintos do universo. Todos os seres naturais suscetíveis de ter alguma influência sobre a vida social, de despertar os temores ou as esperanças coletivas, são divinizados.

Esse caráter, aliás, não lhes é comunicado de fora; é-lhes intrínseco. Não são divinos porque um deus habita neles; eles próprios são os deuses. É a esse estágio da evolução religiosa que se deu o nome de naturismo. Pouco a pouco, porém, os deuses se destacam das coisas com as quais se confundiam.

Tornam-se espíritos que, se residem aqui ou ali de preferência, existem contudo fora das formas concretas sob as quais se encarnam. É o reino do animismo. Pouco importa que sejam múltiplos ou que tenham sido, como entre os judeus, reconduzidos à unidade: em um caso e no outro, o grau de imanência é o mesmo. Se estão em parte separados das coisas, continuam no espaço. Permanecem, portanto, muito perto de nós, constantemente misturados à nossa vida.

O politeísmo greco-latino, que é forma mais elevada e mais organizada do animismo, marca progresso novo no sentido da transcendência. A residência dos deuses se torna mais nitidamente distinta da dos homens. Retirados nas alturas misteriosas do Olimpo ou nas profundezas da terra, já só intervêm pessoalmente nos negócios humanos de maneira bastante intermitente.

Enfim, com o cristianismo, Deus sai definitivamente do espaço. Seu reino já não é deste mundo. A dissociação entre a natureza e o divino é até tão completa que degenera em antagonismo. Ao mesmo tempo, a noção da divindade se torna mais geral e mais abstrata, pois é formada não de sensações, como no princípio, e sim de ideias. O Deus da humanidade tem necessariamente menos compreensão que os deuses da cidade ou do clã.

Aliás, ao mesmo tempo que a religião, universalizam-se as regras do direito e as da moral. Ligadas primeiro a circunstâncias locais, a particularidades étnicas, climáticas etc., libertam-se delas pouco a pouco e, no mesmo movimento, tornam-se mais gerais. O que torna sensível esse acréscimo de generalidade é o declínio ininterrupto do formalismo. Nas sociedades inferiores, a própria forma exterior da conduta é predeterminada até em seus detalhes.

A maneira pela qual o homem deve alimentar-se, vestir-se em cada circunstância, os gestos que deve fazer, as fórmulas que deve pronunciar, tudo é fixado com precisão. Ao contrário, quanto mais nos afastamos do ponto de partida, mais as prescrições morais e jurídicas perdem nitidez e precisão. Já só regulam as formas mais gerais da conduta, e as regulam de maneira muito geral, dizendo o que deve ser feito, não de que modo deve ser feito.

Ora, tudo que é definido se exprime sob forma definida. Se os sentimentos coletivos tivessem a mesma determinação de outrora, não se exprimiriam de maneira menos determinada. Se os detalhes concretos da ação e do pensamento fossem tão uniformes, seriam igualmente obrigatórios.

Observou-se muitas vezes que a civilização tinha tendência a tornar-se mais racional e mais lógica. Vê-se agora qual é a causa disso. Só é racional aquilo que é universal. O que desconcerta o entendimento é o particular e o concreto. Só pensamos bem o geral. Por consequência, quanto mais a consciência comum está próxima das coisas particulares, mais exatamente traz sua marca, e também mais ininteligível é.

Daí vem o efeito que as civilizações primitivas produzem sobre nós. Como não podemos reconduzi-las a princípios lógicos, somos levados a ver nelas apenas combinações bizarras e fortuitas de elementos heterogêneos. Na realidade, nada têm de artificial. É preciso apenas procurar suas causas determinantes em sensações e movimentos da sensibilidade, não em conceitos; e, se é assim, é porque o meio social para o qual são feitas não é suficientemente extenso.

Ao contrário, quando a civilização se desenvolve sobre campo de ação mais vasto, quando se aplica a mais pessoas e coisas, as ideias gerais aparecem necessariamente e se tornam predominantes. A noção de homem, por exemplo, substitui no direito, na moral, na religião, a de romano, que, mais concreta, é mais refratária à ciência. É, portanto, o crescimento de volume das sociedades e sua maior condensação que explicam essa grande transformação.

Ora, quanto mais a consciência comum se torna geral, mais lugar deixa às variações individuais. Quando Deus está longe das coisas e dos homens, sua ação já não é de todos os instantes e já não se estende a tudo. Só permanecem fixas regras abstratas, que podem ser livremente aplicadas de maneiras muito diferentes. Ainda assim, elas já não têm o mesmo ascendente nem a mesma força de resistência.

Com efeito, se as práticas e as fórmulas, quando são precisas, determinam o pensamento e os movimentos com necessidade análoga à dos reflexos, ao contrário, esses princípios gerais só podem passar aos fatos com o concurso da inteligência. Ora, uma vez desperta a reflexão, não é fácil contê-la. Quando tomou forças, desenvolve-se espontaneamente para além dos limites que lhe tinham sido assinalados.

Começa-se por pôr alguns artigos de fé acima da discussão. Depois, a discussão se estende até eles. Quer-se dar conta deles, pedem-se suas razões de ser, e, de qualquer maneira que suportem essa prova, deixam nela parte de sua força. Pois ideias refletidas jamais têm a mesma potência coercitiva que instintos. É assim que movimentos deliberados não têm a instantaneidade dos movimentos involuntários.

Porque se torna mais racional, a consciência coletiva se torna, portanto, menos imperativa e, por essa razão ainda, incomoda menos o livre desenvolvimento das variedades individuais.

## II

Essa causa, contudo, não é a que mais contribui para produzir esse resultado.

O que faz a força dos estados coletivos não é apenas serem comuns à geração presente. É sobretudo serem, em sua maioria, legado das gerações anteriores. A consciência comum só se constitui muito lentamente e se modifica do mesmo modo. É preciso tempo para que uma forma de conduta ou uma crença chegue a esse grau de generalidade e cristalização; tempo também para que o perca. Ela é, portanto, quase inteira produto do passado.

Ora, o que vem do passado é geralmente objeto de respeito todo particular. Uma prática à qual todos se conformam unanimemente tem sem dúvida grande prestígio. Se, além disso, é forte pelo assentimento dos ancestrais, ousa-se ainda menos derrogá-la. A autoridade da consciência coletiva é, pois, feita em grande parte da autoridade da tradição. Veremos que esta diminui necessariamente à medida que o tipo segmentar se apaga.

Com efeito, quando ele é muito pronunciado, os segmentos formam tantas pequenas sociedades mais ou menos fechadas umas às outras. Ali onde têm base familiar, é tão difícil mudar de segmento quanto mudar de família, e, quando já não têm senão base territorial, as barreiras que os separam são menos intransponíveis, porém persistem.

Na Idade Média, ainda era difícil a um operário encontrar trabalho em cidade diferente da sua. As alfândegas interiores formavam, aliás, em torno de cada compartimento social, cinturão que o protegia contra infiltrações de elementos estrangeiros.

Nessas condições, o indivíduo é retido no solo onde nasceu pelos vínculos que o prendem a ele e porque é repelido de fora. A raridade das vias de comunicação e transmissão é prova dessa oclusão de cada segmento. Por contragolpe, as causas que mantêm o homem em seu meio natal o ligam a seu meio doméstico.

Primeiro, na origem, ambos se confundem; se mais tarde se distinguem, não se pode afastar muito do segundo quando não se pode ultrapassar o primeiro. A força de atração resultante da consanguinidade exerce, portanto, sua ação com máxima intensidade, já que cada um permanece durante toda a vida colocado bem perto da própria fonte dessa força.

É, com efeito, lei sem exceção que, quanto mais a estrutura social é de natureza segmentar, mais as famílias formam grandes massas compactas, indivisas, reunidas sobre si mesmas.

Ao contrário, à medida que se apagam as linhas de demarcação que separam os diferentes segmentos, é inevitável que esse equilíbrio se rompa. Como os indivíduos já não são contidos em seus lugares de origem e os espaços livres que se abrem diante deles os atraem, não podem deixar de se espalhar. Os filhos já não permanecem imutavelmente presos ao país de seus pais; partem em busca de fortuna em todas as direções.

As populações se misturam, e é isso que faz com que suas diferenças originais acabem de perder-se. A estatística infelizmente não nos permite seguir na história a marcha dessas migrações interiores. Há, contudo, um fato que basta para estabelecer sua importância crescente: a formação e o desenvolvimento das cidades. Com efeito, as cidades não se formam por espécie de crescimento espontâneo, e sim por imigração.

Longe de deverem sua existência e seus progressos ao excedente normal dos nascimentos sobre os óbitos, apresentam, sob esse ponto de vista, déficit geral. É, portanto, de fora que recebem os elementos pelos quais crescem diariamente. Segundo Dunant, o crescimento anual do conjunto da população das trinta e uma grandes cidades da Europa toma 784,6 por mil à imigração.

Na França, o recenseamento de 1881 acusava, sobre o de 1876, aumento de 760.000 habitantes. O departamento do Sena e as quarenta e cinco cidades com mais de 30.000 habitantes absorviam, do número do crescimento quinquenal, mais de 661.000 habitantes, deixando apenas 105.000 para repartir entre as cidades médias, as pequenas cidades e os campos. Não é apenas para as grandes cidades que se dirigem esses grandes movimentos migratórios; irradiam para as regiões vizinhas.

M. Bertillon calculou que, durante o ano de 1886, enquanto na média da França, em 100 habitantes, apenas 11,25 tinham nascido fora do departamento, no departamento do Sena havia 34,67. Essa proporção dos estrangeiros é tanto mais elevada quanto mais populosas são as cidades que o departamento compreende. É de 31,47 no Ródano, de 26,29 nas Bocas do Ródano, de 26,41 no Sena e Oise, de 19,46 no Norte, de 17,62 na Gironda.

Esse fenômeno não é particular às grandes cidades. Produz-se também, embora com intensidade menor, nas pequenas cidades, nos burgos. Todas essas aglomerações aumentam constantemente às custas das comunas menores, de sorte que se vê, a cada recenseamento, o número das cidades de cada categoria aumentar em algumas unidades.

Ora, a mobilidade maior das unidades sociais que esses fenômenos de migração supõem determina enfraquecimento de todas as tradições.

Com efeito, o que faz sobretudo a força da tradição é o caráter das pessoas que a transmitem e inculcam, quero dizer, os antigos. Eles são sua expressão viva. Só eles foram testemunhas daquilo que faziam os ancestrais. São o único intermediário entre o presente e o passado. Por outro lado, gozam, junto às gerações que foram educadas sob seus olhos e sob sua direção, de prestígio que nada pode substituir.

A criança, com efeito, tem consciência de sua inferioridade diante das pessoas mais velhas que a cercam e sente que depende delas. O respeito reverencial que tem por elas se comunica naturalmente a tudo que vem delas, a tudo que dizem e a tudo que fazem. É, portanto, a autoridade da idade que faz em grande parte a autoridade da tradição.

Por consequência, tudo que pode contribuir para prolongar essa influência além da infância só pode fortificar as crenças e práticas tradicionais. É o que acontece quando o homem feito continua a viver no meio em que foi educado, pois permanece então em relação com as pessoas que o conheceram criança e submetido à sua ação. O sentimento que tem por elas subsiste e, por consequência, produz os mesmos efeitos, isto é, contém as veleidades de inovação.

Para que novidades se produzam na vida social, não basta que novas gerações venham à luz. É preciso ainda que não sejam arrastadas com força excessiva a seguir os caminhos de suas predecessoras. Quanto mais profunda é a influência destas, e ela o é tanto mais quanto mais dura, mais obstáculos há às mudanças.

Auguste Comte tinha razão ao dizer que, se a vida humana fosse decuplicada sem que a proporção respectiva das idades fosse por isso modificada, resultaria daí retardamento inevitável, embora impossível de medir, de nosso desenvolvimento social.

O inverso se produz se o homem, ao sair da adolescência, é transplantado para novo meio. Sem dúvida, encontra ali homens mais velhos que ele; contudo, não são aqueles cuja ação sofreu durante a infância. O respeito que tem por eles é, portanto, menor e de natureza mais convencional, pois não corresponde a nenhuma realidade, nem atual nem passada. Ele não depende deles e jamais dependeu; só pode respeitá-los por analogia.

É, aliás, fato conhecido que o culto da idade vai enfraquecendo com a civilização. Tão desenvolvido outrora, reduz-se hoje a algumas práticas de polidez, inspiradas por uma espécie de piedade. Lamentam-se os velhos mais que se os teme. As idades são niveladas. Todos os homens que chegaram à maturidade tratam-se aproximadamente como iguais.

Em consequência desse nivelamento, os costumes dos ancestrais perdem seu ascendente, pois já não têm, junto ao adulto, representantes autorizados. Estamos mais livres diante deles porque estamos mais livres diante daqueles que os encarnam. A solidariedade dos tempos é menos sensível porque já não tem sua expressão material no contato contínuo das gerações sucessivas.

Sem dúvida, os efeitos da primeira educação continuam a fazer-se sentir, porém com menos força, porque não são mantidos.

Esse momento da plena juventude é, aliás, aquele em que os homens são mais impacientes diante de todo freio e mais ávidos de mudança. A vida que circula neles ainda não teve tempo de fixar-se, de tomar definitivamente formas determinadas, e é demasiado intensa para deixar-se disciplinar sem resistência. Essa necessidade se satisfará, portanto, tanto mais facilmente quanto menos contida estiver de fora, e só pode satisfazer-se às custas da tradição.

Esta é mais atacada no momento mesmo em que perde suas forças. Dado esse germe de fraqueza, ele só pode desenvolver-se a cada geração, pois se transmitem com menos autoridade princípios cuja autoridade se sente menos.

Uma experiência característica demonstra essa influência da idade sobre a força da tradição.

Precisamente porque a população das grandes cidades se recruta sobretudo por imigração, compõe-se essencialmente de pessoas que, uma vez adultas, deixaram seus lares e se subtraíram à ação dos antigos. Assim, o número de velhos é ali muito fraco, enquanto o de homens na força da idade é, ao contrário, muito elevado. M. Cheysson demonstrou que as curvas da população de cada grupo de idade, para Paris e para a província, só se encontram nas idades de 15 a 20 anos e de 50 a 55 anos. Entre 20 e 50, a curva parisiense é muito mais elevada; além disso, é mais baixa. Em 1881, contavam-se em Paris 1.118 indivíduos de 20 a 25 anos para 874 no resto do país.

Para o departamento do Sena inteiro, encontram-se, em 1.000 habitantes, 731 de 15 a 60 anos e apenas 76 acima dessa idade, ao passo que a província tem 618 dos primeiros e 106 dos segundos. Na Noruega, segundo Jacques Bertillon, as relações são as seguintes, em 1.000 habitantes:

| Idades | Cidades | Campos | | --- | ---: | ---: | | De 15 a 30 anos | 278 | 239 | | De 30 a 45 anos | 205 | 183 | | De 45 a 60 anos | 110 | 420 | | De 60 anos para cima | 59 | 87 |

Assim, é nas grandes cidades que a influência moderadora da idade está em seu mínimo. Constata-se, ao mesmo tempo, que em nenhuma parte as tradições têm menos império sobre os espíritos. Com efeito, as grandes cidades são os focos incontestados do progresso. É nelas que ideias, modas, costumes e necessidades novas se elaboram para depois se espalharem pelo restante do país. Quando a sociedade muda, é geralmente seguindo-as e imitando-as.

Os humores ali são tão móveis que tudo que vem do passado se torna um pouco suspeito. Ao contrário, as novidades, quaisquer que sejam, gozam de prestígio quase igual ao que outrora tinham os costumes dos ancestrais. Os espíritos ali estão naturalmente orientados para o futuro. Por isso a vida se transforma com rapidez extraordinária: crenças, gostos, paixões estão em perpétua evolução. Nenhum terreno é mais favorável às evoluções de toda espécie.

É que a vida coletiva não pode ter continuidade onde os diferentes estratos de unidades sociais, chamados a substituir-se uns aos outros, são a tal ponto descontínuos.

Observando que, durante a juventude das sociedades e sobretudo no momento de sua maturidade, o respeito pelas tradições é muito maior que durante sua velhice, M. Tarde julgou poder apresentar o declínio do tradicionalismo como fase simplesmente transitória, crise passageira de toda evolução social.

O homem, diz ele, só escapa ao jugo do costume para nele recair, isto é, para fixar e consolidar, ao recair nele, as conquistas devidas à sua emancipação temporária. Esse erro se deve, cremos, ao método de comparação seguido pelo autor e cujos inconvenientes já assinalamos várias vezes.

Sem dúvida, se se aproxima o fim de uma sociedade dos começos daquela que lhe sucede, constata-se retorno do tradicionalismo. Somente essa fase, pela qual começa todo tipo social, é sempre muito menos violenta do que tinha sido no tipo imediatamente anterior.

Jamais, entre nós, os costumes dos ancestrais foram objeto do culto supersticioso que lhes era votado em Roma. Jamais houve em Roma instituição análoga à graphe paranomon do direito ateniense, oposta a toda inovação. Mesmo no tempo de Aristóteles, ainda era na Grécia questão saber se era bom mudar as leis estabelecidas para melhorá-las, e o filósofo só se pronuncia pela afirmativa com a maior circunspecção.

Enfim, entre os judeus, todo desvio da regra tradicional era ainda mais completamente impossível, pois era impiedade. Ora, para julgar a marcha dos acontecimentos sociais, não se devem pôr ponta a ponta as sociedades que se sucedem; deve-se compará-las apenas ao período correspondente de sua carreira.

Se, portanto, é bem verdade que toda vida social tende a fixar-se e a tornar-se costumeira, a forma que assume se torna sempre menos resistente, mais acessível às mudanças. Em outros termos, a autoridade do costume diminui de maneira contínua. É, aliás, impossível que seja de outro modo, visto que esse enfraquecimento depende das condições mesmas que dominam o desenvolvimento histórico.

Por outro lado, visto que as crenças e práticas comuns tiram em grande parte sua força da força da tradição, é evidente que estão cada vez menos em estado de dificultar a livre expansão das variações individuais.

## III

Enfim, à medida que a sociedade se estende e se concentra, envolve o indivíduo de menos perto e, por consequência, pode conter menos bem as tendências divergentes que se manifestam.

Basta, para se assegurar disso, comparar as grandes cidades às pequenas. Nestas últimas, quem procura emancipar-se dos usos recebidos se choca com resistências às vezes muito vivas. Toda tentativa de independência é objeto de escândalo público, e a reprovação geral que se prende a ela é de natureza a desencorajar os imitadores. Ao contrário, nas grandes cidades, o indivíduo é muito mais liberto do jugo coletivo. É fato de experiência que não pode ser contestado.

É que dependemos tanto mais estreitamente da opinião comum quanto mais de perto ela vigia todos os nossos passos. Quando a atenção de todos está constantemente fixada sobre o que cada um faz, o menor desvio é percebido e logo reprimido. Inversamente, cada um tem tanto mais facilidade para seguir seu próprio sentido quanto mais fácil é escapar a esse controle. Ora, como diz um provérbio, em nenhum lugar se está tão bem escondido quanto numa multidão.

Quanto mais extenso e denso é um grupo, mais a atenção coletiva, dispersa sobre ampla superfície, é incapaz de acompanhar os movimentos de cada indivíduo. Ela não se torna mais forte quando eles se tornam mais numerosos. Incide sobre pontos demais ao mesmo tempo para poder concentrar-se em qualquer um deles. A vigilância se faz menos bem porque há gente demais e coisas demais a vigiar.

Além disso, falta, mais ou menos completamente, a grande mola da atenção, a saber, o interesse. Só desejamos conhecer os fatos e gestos de uma pessoa se sua imagem desperta em nós lembranças e emoções que lhe são ligadas, e esse desejo é tanto mais ativo quanto mais numerosos e fortes são os estados de consciência assim despertados.

Se, ao contrário, trata-se de alguém que só percebemos de longe em longe e de passagem, aquilo que lhe diz respeito, por não determinar em nós nenhuma repercussão, deixa-nos frios. Por consequência, não somos incitados nem a informar-nos sobre o que lhe acontece, nem a observar o que faz.

A curiosidade coletiva é, portanto, tanto mais viva quanto mais contínuas e frequentes são as relações pessoais entre os indivíduos. Por outro lado, é claro que elas são tanto mais raras e curtas quanto cada indivíduo está em relação com número maior de outros.

Eis por que a pressão da opinião se faz sentir com menos força nos grandes centros. A atenção de cada um se distrai em direções demais e, além disso, as pessoas se conhecem menos. Mesmo os vizinhos e os membros de uma mesma família estão com menos frequência e menos regularidade em contato, separados a cada instante pela massa dos negócios e das pessoas interpostas.

Sem dúvida, se a população é mais numerosa que densa, pode ocorrer que a vida, dispersa sobre extensão maior, seja menor em cada ponto. A grande cidade se resolve então em certo número de pequenas cidades, e, por consequência, as observações precedentes não se aplicam exatamente.

Contudo, por toda parte onde a densidade da aglomeração está em relação com seu volume, os vínculos pessoais são raros e fracos. Perdem-se mais facilmente os outros de vista, mesmo aqueles que nos cercam de muito perto, e, na mesma medida, deixa-se de interessar por eles. Como essa indiferença mútua tem por efeito afrouxar a vigilância coletiva, a esfera de ação livre de cada indivíduo se estende de fato e, pouco a pouco, o fato se torna direito.

Sabemos, com efeito, que a consciência comum só conserva sua força sob a condição de não tolerar contradições. Ora, em consequência dessa diminuição do controle social, cometem-se diariamente atos que a contradizem, sem que ela reaja. Se há, portanto, atos que se repetem com bastante frequência e uniformidade, acabam por enervar o sentimento coletivo que ferem.

Uma regra já não parece tão respeitável quando deixa de ser respeitada, e isso impunemente. Já não se acha a mesma evidência em artigo de fé que se deixou contestar em excesso. Por outro lado, uma vez que usamos uma liberdade, contraímos a necessidade dela. Ela se torna tão necessária para nós e nos parece tão sagrada quanto as outras. Julgamos intolerável um controle do qual perdemos o hábito. Funda-se um direito adquirido a maior autonomia.

É assim que as usurpações cometidas pela personalidade individual, quando é menos fortemente contida de fora, acabam por receber a consagração dos costumes.

Ora, se esse fato é mais marcado nas grandes cidades, não lhes é especial. Produz-se também nas outras, segundo sua importância. Visto, portanto, que o apagamento do tipo segmentar acarreta desenvolvimento sempre mais considerável dos centros urbanos, eis uma primeira razão pela qual esse fenômeno deve generalizar-se.

Além disso, à medida que a densidade moral da sociedade se eleva, ela própria se torna semelhante a grande cidade que conteria dentro de seus muros o povo inteiro.

Com efeito, como a distância material e moral entre as diferentes regiões tende a desaparecer, elas ficam umas em relação às outras em situação sempre mais análoga à dos diferentes bairros de uma mesma cidade. A causa que, nas grandes cidades, determina enfraquecimento da consciência comum deve, portanto, produzir seu efeito em toda a extensão da sociedade.

Enquanto os diversos segmentos, conservando sua individualidade, permanecem fechados uns aos outros, cada um deles limita estreitamente o horizonte social dos particulares. Separados do restante da sociedade por barreiras mais ou menos difíceis de transpor, nada nos desvia da vida local, e, por consequência, toda a nossa ação se concentra nela.

Contudo, à medida que a fusão dos segmentos se torna mais completa, as perspectivas se estendem, e tanto mais quanto, no mesmo momento, a própria sociedade se torna geralmente mais extensa. Desde então, até o habitante da pequena cidade vive menos exclusivamente da vida do pequeno grupo que o cerca de imediato. Ata com localidades afastadas relações tanto mais numerosas quanto mais avançado é o movimento de concentração.

Suas viagens mais frequentes, as correspondências mais ativas que troca, os negócios que acompanha fora etc. desviam seu olhar do que se passa ao redor dele. O centro de sua vida e de suas preocupações já não se encontra tão completamente no lugar que habita. Interessa-se, portanto, menos por seus vizinhos, porque estes ocupam lugar menor em sua existência.

Aliás, a pequena cidade tem menos domínio sobre ele justamente porque sua vida transborda esse quadro exíguo, porque seus interesses e afeições se estendem muito além.

Por todas essas razões, a opinião pública local pesa com peso menos pesado sobre cada um de nós; e, como a opinião geral da sociedade não está em condição de substituir a precedente, por não poder vigiar de perto a conduta de todos os cidadãos, a vigilância coletiva se afrouxa irremediavelmente, a consciência comum perde sua autoridade, a variabilidade individual cresce.

Em uma palavra, para que o controle social seja rigoroso e a consciência comum se mantenha, é preciso que a sociedade seja dividida em compartimentos bastante pequenos e que envolvam completamente o indivíduo. Ao contrário, ambos se enfraquecem à medida que essas divisões se apagam.

Dir-se-á, porém, que os crimes e delitos aos quais estão ligadas penas organizadas jamais deixam indiferentes os órgãos encarregados de reprimi-los. Seja a cidade grande ou pequena, seja a sociedade densa ou não, os magistrados não deixam impune o criminoso nem o delinquente.

Pareceria, portanto, que o enfraquecimento especial cuja causa acabamos de indicar deveria localizar-se nessa parte da consciência coletiva que só determina reações difusas, sem poder estender-se além. Na realidade, essa localização é impossível, pois essas duas regiões são tão estreitamente solidárias que uma não pode ser atingida sem que a outra o sinta.

Os atos que só os costumes reprimem não são de natureza diferente daqueles que a lei castiga. São apenas menos graves. Se, portanto, há entre eles alguns que perdem toda gravidade, a gradação correspondente dos outros fica perturbada pelo mesmo movimento. Eles descem um grau, ou vários, e parecem menos revoltantes. Quando já não se é de modo algum sensível às pequenas faltas, é-se menos sensível às grandes.

Quando já não se atribui grande importância à simples negligência das práticas religiosas, já não se indigna tanto contra blasfêmias ou sacrilégios. Quando se tomou o hábito de tolerar complacentemente as uniões livres, o adultério escandaliza menos. Quando os sentimentos mais fracos perdem sua energia, os sentimentos mais fortes, que são da mesma espécie e têm os mesmos objetos, não podem conservar integralmente a sua.

É assim que, pouco a pouco, o abalo se comunica à consciência comum inteira.

## IV

Explica-se agora como a solidariedade mecânica está ligada à existência do tipo segmentar, conforme estabelecemos no livro precedente. É que essa estrutura especial permite à sociedade apertar mais de perto o indivíduo, prende-o mais fortemente a seu meio doméstico e, por consequência, às tradições, enfim, ao contribuir para limitar o horizonte social, contribui também para torná-lo concreto e definido.

São, portanto, causas inteiramente mecânicas que fazem com que a personalidade individual seja absorvida pela personalidade coletiva, e são causas da mesma natureza que fazem com que dela se desprenda. Sem dúvida, essa emancipação se revela útil ou, ao menos, é utilizada. Torna possíveis os progressos da divisão do trabalho. De maneira mais geral, dá ao organismo social mais flexibilidade e elasticidade. Contudo, não é porque é útil que se produz.

Ela existe porque não pode deixar de existir. A experiência dos serviços que presta só pode consolidá-la depois que ela existe.

Pode-se perguntar, entretanto, se, nas sociedades organizadas, o órgão não desempenha o mesmo papel que o segmento; se o espírito corporativo e profissional não corre o risco de substituir o espírito de campanário e de exercer sobre os indivíduos a mesma pressão. Nesse caso, eles nada ganhariam com a mudança. A dúvida é tanto mais permitida quanto o espírito de casta teve certamente esse efeito, e a casta é um órgão social.

Sabe-se também quanto a organização dos corpos de ofício dificultou, durante muito tempo, o desenvolvimento das variações individuais. Citamos acima exemplos disso.

É certo que as sociedades organizadas não são possíveis sem sistema desenvolvido de regras que predeterminem o funcionamento de cada órgão. À medida que o trabalho se divide, constitui-se multidão de morais e direitos profissionais. Essa regulamentação, contudo, não deixa de ampliar o círculo de ação do indivíduo.

Em primeiro lugar, o espírito profissional só pode ter influência sobre a vida profissional. Além dessa esfera, o indivíduo goza da liberdade maior cuja origem acabamos de mostrar. É verdade que a casta estende sua ação mais longe; porém, não é um órgão propriamente dito. É segmento transformado em órgão. Toma, portanto, da natureza de um e de outro.

Ao mesmo tempo que é encarregada de funções especiais, constitui sociedade distinta no seio do agregado total. É sociedade-órgão análoga a esses indivíduos-órgãos que se observam em certos organismos. É isso que faz com que envolva o indivíduo de maneira muito mais exclusiva que as corporações ordinárias.

Como essas regras só têm raízes em pequeno número de consciências e deixam indiferente a sociedade em seu conjunto, têm autoridade menor por causa dessa menor universalidade. Oferecem, portanto, resistência menor às mudanças. É por essa razão que, em geral, as faltas propriamente profissionais não têm o mesmo grau de gravidade que as outras.

Por outro lado, as mesmas causas que, de maneira geral, diminuem a força da tradição ao tornar as gerações novas mais independentes das antigas produzem todo o seu efeito sobre os costumes profissionais, que se tornam cada vez menos refratários às inovações.

Enfim, como cada órgão social se torna mais volumoso à medida que os órgãos segmentares se fundem, e isso tanto mais quanto, geralmente, o volume total da sociedade cresce no mesmo momento, as práticas comuns ao grupo profissional se tornam mais gerais e mais abstratas, como aquelas que são comuns a toda a sociedade. Deixam, portanto, lugar mais livre às divergências particulares.

Assim, por sua própria natureza, essa regulamentação incomoda menos que a outra o impulso das variedades individuais e, além disso, incomoda-o cada vez menos.

## Notas

1. Büsschenschütz, Besitz und Erwerb.

2. Segundo Denys de Halicarnasso (IX, 25), durante os primeiros tempos da República, nenhum romano podia fazer-se mercador ou artesão. Cícero ainda fala de todo trabalho mercenário como ofício degradante. De off., I, 42.

3. Hanoteau e Letourneux, La Kabylie, II, 23.

4. Ver Levasseur, Les Classes ouvrières en France jusqu'à la Révolution, passim.

5. Colonies animales, 702.

6. Ver Réville, Religions des peuples non civilisés, I, 67 e seguintes; II, 230 e seguintes.

7. Levasseur, obra citada, I, 239.

8. O leitor vê por si mesmo os fatos que verificam essa lei, da qual não podemos dar aqui demonstração expressa. Ela resulta de pesquisas que fizemos sobre a família e que esperamos publicar proximamente.

9. Citado por Layet, Hygiène des Paysans, último capítulo.

10. Dumont, Dépopulation et Civilisation, 175.

11. Esse número elevado é efeito da vizinhança de Paris.

12. Dictionnaire encyclopédique des Sciences médicales, artigo Migration.

13. Dumont, obra citada, 178.

14. Cours de philosophie positive, IV, 451.

15. La Question de la population, em Annales d'Hygiène, 1884.

16. Annales de la ville de Paris.

17. Lois de l'imitation, 271.

18. Ver, sobre essa graphe, Meier e Schomann, Der attische Process.

19. Aristóteles, Política, II, 8, 1268 b, 26.

20. É verdade que, em uma pequena cidade, o estrangeiro, o desconhecido, não é objeto de vigilância menor que o habitante. Contudo, isso ocorre porque a imagem que o representa se torna muito viva por efeito de contraste, já que ele é a exceção. Não se dá o mesmo em uma grande cidade, onde ele é a regra, quase todos sendo desconhecidos.

21. Há aí uma questão a estudar. Cremos ter notado que, nas cidades populosas, porém pouco densas, a opinião coletiva conserva sua força.

22. A essa causa fundamental é preciso acrescentar a influência contagiosa das grandes cidades sobre as pequenas e das pequenas sobre os campos. Contudo, essa influência é apenas secundária e, aliás, só ganha importância na medida em que a densidade social aumenta.

23. Esse terceiro efeito só resulta em parte da natureza segmentar. A causa principal está no crescimento do volume social. Restaria saber por que, em geral, a densidade cresce ao mesmo tempo que o volume. É uma questão que formulamos.

24. Ver acima, livro I, cap. V, especialmente p. 247 e seguintes.

25. Ver acima, p. 198-199.

26. Ver Périer, Colonies animales, 764.

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