Livro II - Capítulo IV - Os fatores secundários (continuação) - a hereditariedade Da Divisão do Trabalho Social - Tradução Literunico · Capítulo 13 de 18
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Livro II - Capítulo IV - Os fatores secundários (continuação) - a hereditariedade

## Livro II

## Capítulo IV

### Os fatores secundários (continuação) - a hereditariedade

#### A hereditariedade

No que precede, raciocinamos supondo que a divisão do trabalho dependesse apenas de causas sociais. Entretanto, ela também está ligada a condições orgânico-psíquicas. O indivíduo recebe ao nascer gostos e aptidões que o predispõem a certas funções de preferência a outras, e essas predisposições têm certamente influência sobre a maneira pela qual as tarefas se repartem.

Segundo a opinião mais comum, seria preciso até ver nessa diversidade das naturezas a condição primeira da divisão do trabalho, cuja principal razão de ser seria classificar os indivíduos segundo suas capacidades. É, portanto, interessante determinar exatamente qual é a parte desse fator, tanto mais que ele constitui novo obstáculo à variabilidade individual e, por consequência, aos progressos da divisão do trabalho.

Com efeito, como essas vocações nativas nos são transmitidas por nossos ascendentes, referem-se às condições em que viviam nossos antepassados, não àquelas nas quais o indivíduo se encontra atualmente colocado. Prendem-nos, portanto, à nossa raça, como a consciência coletiva nos prendia ao nosso grupo, e entravam em seguida a liberdade de nossos movimentos.

Como essa parte de nós mesmos está voltada inteiramente para o passado, e para um passado que não nos é pessoal, desvia-nos de nossa esfera de interesses próprios e das mudanças que nela se produzem. Quanto mais desenvolvida é, mais nos imobiliza. A raça e o indivíduo são duas forças contrárias que variam em razão inversa uma da outra.

Na medida em que apenas reproduzimos e continuamos nossos ancestrais, tendemos a viver como eles viveram e somos refratários a toda novidade. Um ser que recebesse da hereditariedade legado demasiado importante e pesado seria quase incapaz de qualquer mudança. É o caso dos animais, que só podem progredir com grande lentidão.

O obstáculo que o progresso encontra desse lado é ainda mais dificilmente superável que aquele que vem da comunidade das crenças e das práticas. Pois estas só são impostas ao indivíduo de fora e por ação moral, ao passo que as tendências hereditárias são congênitas e têm base anatômica.

Assim, quanto maior é a parte da hereditariedade na distribuição das tarefas, mais invariável é essa distribuição e mais difíceis são, por consequência, os progressos da divisão do trabalho, ainda que fossem úteis. É o que acontece no organismo. A função de cada célula é determinada por seu nascimento. Em um animal vivo, diz M. Spencer, o progresso da organização implica tanto que as unidades que compõem cada uma das partes diferenciadas conservem cada uma sua posição quanto que sua descendência lhes suceda nessas posições.

As células hepáticas que, ao cumprir sua função, crescem e dão nascimento a novas células hepáticas, dão lugar a estas quando se dissolvem e desaparecem. As células que delas descendem não se dirigem aos rins, aos músculos, aos centros nervosos para se unir ao cumprimento de suas funções. Também por isso as mudanças que se produzem na organização do trabalho fisiológico são muito raras, muito restritas e muito lentas.

Ora, muitos fatos tendem a demonstrar que, na origem, a hereditariedade exercia influência muito considerável sobre a repartição das funções sociais.

Sem dúvida, entre povos inteiramente primitivos, ela não desempenha, sob esse ponto de vista, papel algum. As poucas funções que começam a especializar-se são eletivas. Contudo, isso ocorre porque ainda não estão constituídas. O chefe ou os chefes mal se distinguem da multidão que dirigem; seu poder é tão restrito quanto efêmero; todos os membros do grupo estão em pé de igualdade.

Contudo, assim que a divisão do trabalho aparece de maneira caracterizada, fixa-se sob forma que se transmite hereditariamente. É assim que nascem as castas. A Índia nos oferece o modelo mais perfeito dessa organização do trabalho, mas ela se encontra em outros lugares. Entre os judeus, as únicas funções nitidamente separadas das outras, as do sacerdócio, eram estritamente hereditárias.

O mesmo ocorria em Roma com todas as funções públicas, que implicavam as funções religiosas e que eram privilégio apenas dos patrícios. Na Assíria, na Pérsia, no Egito, a sociedade se divide da mesma maneira. Onde as castas tendem a desaparecer, são substituídas pelas classes que, por serem menos estreitamente fechadas para fora, nem por isso repousam menos sobre o mesmo princípio.

Seguramente, essa instituição não é simples consequência do fato das transmissões hereditárias. Muitas causas contribuíram para suscitá-la. Ela, porém, não teria podido generalizar-se a tal ponto, nem persistir durante tanto tempo, se em geral não tivesse tido por efeito pôr cada um no lugar que lhe convinha. Se o sistema das castas fosse contrário às aspirações individuais e ao interesse social, nenhum artifício teria podido mantê-lo.

Se, na média dos casos, os indivíduos não tivessem realmente nascido para a função que lhes atribuía o costume ou a lei, essa classificação tradicional dos cidadãos teria sido logo transtornada. A prova é que esse transtorno se produz, de fato, assim que essa discordância se torna manifesta. A rigidez dos quadros sociais apenas exprime, portanto, a maneira imutável pela qual se distribuíam então as aptidões, e essa própria imutabilidade só pode dever-se à ação das leis da hereditariedade.

Sem dúvida, a educação, por se fazer inteira no seio da família e prolongar-se tardiamente pelas razões que dissemos, reforçava sua influência. Contudo, sozinha, não teria podido produzir tais resultados, pois só age util e eficazmente quando se exerce no mesmo sentido da hereditariedade. Em uma palavra, esta última só pôde tornar-se instituição social ali onde desempenhava efetivamente papel social.

De fato, sabemos que os povos antigos tinham sentimento muito vivo do que ela era. Não encontramos seu vestígio apenas nos costumes de que acabamos de falar e em outros semelhantes; ele é diretamente expresso em mais de um monumento literário. Ora, é impossível que erro tão geral seja simples ilusão e não corresponda a nada na realidade. Todos os povos, diz M. Ribot, têm fé, ao menos vaga, na transmissão hereditária.

Seria até possível sustentar que essa fé foi mais viva nos tempos primitivos que nas épocas civilizadas. Foi dessa fé natural que nasceu a hereditariedade de instituição. É certo que razões sociais, políticas, ou mesmo preconceitos, devem ter contribuído para desenvolvê-la e firmá-la; seria absurdo, contudo, crer que ela tenha sido inventada.

Aliás, a hereditariedade das profissões era muitas vezes a regra, ainda quando a lei não a impunha. Assim, a medicina, entre os gregos, foi primeiro cultivada por pequeno número de famílias. Os asclepíades, ou sacerdotes de Esculápio, diziam-se descendentes desse deus. Hipócrates era o décimo sétimo médico da família.

A arte divinatória, o dom de profecia, esse alto favor dos deuses, passavam entre os gregos por transmitir-se o mais frequentemente de pai a filho. Na Grécia, diz Hermann, a hereditariedade da função só era prescrita pela lei em alguns Estados e para certas funções que se prendiam mais estreitamente à vida religiosa, como, em Esparta, os cozinheiros e os tocadores de flauta; os costumes, porém, também a haviam tornado, para as profissões dos artesãos, fato mais geral do que ordinariamente se crê. Ainda hoje, em muitas sociedades inferiores, as funções se distribuem segundo a raça.

Em grande número de tribos africanas, os ferreiros descendem de raça diferente da do restante da população. O mesmo ocorria entre os judeus no tempo de Saul. Na Abissínia, quase todos os artesãos são de raça estrangeira: o pedreiro é judeu; o curtidor e o tecelão são maometanos; o armeiro e o ourives, gregos e coptas. Nas Índias, muitas diferenças de castas que indicam diferenças de ofícios coincidem ainda hoje com diferenças de raças.

Em todos os países de população mista, os descendentes de uma mesma família costumam dedicar-se a certas profissões. É assim que, na Alemanha oriental, os pescadores, durante séculos, eram eslavos. Esses fatos dão grande verossimilhança à opinião de Lucas, segundo a qual a hereditariedade das profissões é o tipo primitivo, a forma elementar de todas as instituições fundadas sobre o princípio da hereditariedade da natureza moral.

Também se sabe quanto, nessas sociedades, o progresso é lento e difícil. Durante séculos, o trabalho permanece organizado da mesma maneira, sem que se pense em inovar. A hereditariedade se oferece aqui a nós com seus caracteres habituais: conservação, estabilidade. Por consequência, para que a divisão do trabalho pudesse desenvolver-se, foi preciso que os homens chegassem a sacudir o jugo da hereditariedade, que o progresso rompesse as castas e as classes.

O desaparecimento progressivo destas últimas tende, com efeito, a provar a realidade dessa emancipação, pois não se vê de que modo, se a hereditariedade nada tivesse perdido de seus direitos sobre o indivíduo, poderia ter-se enfraquecido como instituição. Se a estatística se estendesse bastante longe no passado e sobretudo se fosse mais bem informada sobre esse ponto, ela nos ensinaria muito provavelmente que os casos de profissões hereditárias se tornam sempre menos numerosos.

O que é certo é que a fé na hereditariedade, tão intensa outrora, é hoje substituída por fé quase oposta. Tendemos a crer que o indivíduo é em grande parte filho de suas obras e a desconhecer até os laços que o ligam à sua raça e o fazem depender dela. É pelo menos opinião muito difundida, da qual quase se queixam os psicólogos da hereditariedade.

É até fato bastante curioso que a hereditariedade só tenha realmente entrado na ciência no momento em que estava quase completamente fora da crença. Não há nisso, aliás, contradição. Pois o que afirma no fundo a consciência comum não é que a hereditariedade não existe, e sim que seu peso é menor; e a ciência, como veremos, nada tem que contradiga esse sentimento.

Importa, porém, estabelecer diretamente o fato e sobretudo fazer ver suas causas.

## I

Em primeiro lugar, a hereditariedade perde seu império no curso da evolução porque, simultaneamente, constituíram-se modos novos de atividade que não dependem de sua influência.

Uma primeira prova dessa estagnação da hereditariedade é o estado estacionário das grandes raças humanas. Desde os tempos mais recuados, não se formaram novas; ao menos, se com M. de Quatrefages se dá esse mesmo nome aos diferentes tipos que saíram dos três ou quatro grandes tipos fundamentais, é preciso acrescentar que, quanto mais se afastam de seus pontos de origem, menos apresentam os traços constitutivos da raça.

Com efeito, todos concordam em reconhecer que o que caracteriza esta última é a existência de semelhanças hereditárias. Também por isso os antropologistas tomam por base de suas classificações os caracteres físicos, porque são os mais hereditários de todos.

Ora, quanto mais circunscritos são os tipos antropológicos, mais difícil se torna defini-los em função de propriedades exclusivamente orgânicas, porque estas já não são bastante numerosas nem bastante distintivas. São semelhanças inteiramente morais, estabelecidas com auxílio da linguística, da arqueologia, do direito comparado, que se tornam preponderantes; não há, porém, razão alguma para admitir que sejam hereditárias.

Elas servem para distinguir civilizações mais que raças. À medida que se avança, as variedades humanas que se formam tornam-se, portanto, menos hereditárias; são cada vez menos raças. A impotência progressiva de nossa espécie para produzir raças novas faz até contraste muito vivo com a fecundidade contrária das espécies animais.

Que significa isso, senão que a cultura humana, à medida que se desenvolve, é cada vez mais refratária a esse gênero de transmissão? O que os homens acrescentaram e acrescentam todos os dias a esse fundo primitivo que se fixou desde há séculos na estrutura das raças iniciais escapa, portanto, cada vez mais à ação da hereditariedade.

Se é assim com a corrente geral da civilização, com maior razão o é com cada um dos afluentes particulares que a formam, isto é, com cada atividade funcional e seus produtos.

Os fatos seguintes confirmam essa indução.

É verdade estabelecida que o grau de simplicidade dos fatos psíquicos mede sua transmissibilidade. Com efeito, quanto mais complexos são os estados, mais facilmente se decompõem, porque sua grande complexidade os mantém em estado de equilíbrio instável.

Assemelham-se a essas construções sábias cuja arquitetura é tão delicada que pouca coisa basta para perturbar gravemente sua economia; ao menor abalo, o edifício abalado desmorona, deixando a descoberto o terreno que recobria. É assim que, nos casos de paralisia geral, o eu se dissolve lentamente até que já não reste, por assim dizer, senão a base orgânica sobre a qual repousava.

De ordinário, é sob o choque da doença que esses fatos de desorganização se produzem. Contudo, concebe-se que a transmissão seminal deve ter efeitos análogos. Com efeito, no ato da fecundação, os caracteres estritamente individuais tendem a neutralizar-se mutuamente, pois, como aqueles que são especiais a um dos pais só podem transmitir-se em detrimento do outro, estabelece-se entre eles espécie de luta da qual é impossível que saiam intactos.

Quanto mais complexo é um estado de consciência, mais pessoal ele é, mais traz a marca das circunstâncias particulares nas quais vivemos, de nosso sexo, de nosso temperamento. Pelas partes inferiores e fundamentais de nosso ser, assemelhamo-nos muito mais que por esses cumes. É por estes últimos, ao contrário, que nos distinguimos uns dos outros.

Se, portanto, não desaparecem completamente na transmissão hereditária, ao menos só podem sobreviver apagados e enfraquecidos.

Ora, as aptidões são tanto mais complexas quanto mais especiais. É, com efeito, erro crer que nossa atividade se simplifica à medida que nossas tarefas se delimitam. Ao contrário, ela é simples quando se dispersa sobre multidão de objetos, pois, como então negligencia o que eles têm de pessoal e distinto para visar apenas o que possuem em comum, reduz-se a alguns movimentos muito gerais que convêm a muitas circunstâncias diversas.

Quando se trata, porém, de nos adaptar a objetos particulares e especiais de maneira a levar em conta todas as suas nuances, só podemos consegui-lo combinando número muito grande de estados de consciência, diferenciados à imagem das próprias coisas às quais se referem. Uma vez dispostos e constituídos, esses sistemas funcionam sem dúvida com mais facilidade e rapidez; continuam, contudo, muito complexos.

Que prodigiosa reunião de ideias, imagens e hábitos não se observa no tipógrafo que compõe uma página de impressão, no matemático que combina multidão de teoremas dispersos e deles faz brotar teorema novo, no médico que, por sinal imperceptível, reconhece de golpe uma doença e prevê ao mesmo tempo sua marcha.

Compare-se a técnica tão elementar do antigo filósofo, do sábio que, pela única força do pensamento, empreende explicar o mundo, com a do sábio de hoje, que só chega a resolver problema muito particular por combinação muito complicada de observações, experiências, leituras de obras escritas em todas as línguas, correspondências, discussões etc. É o diletante que conserva intacta sua simplicidade primitiva.

A complexidade de sua natureza é apenas aparente. Como faz profissão de interessar-se por tudo, parece ter multidão de gostos e aptidões diversas. Pura ilusão. Olhai o fundo das coisas e vereis que tudo se reduz a pequeno número de faculdades gerais e simples que, nada tendo perdido de sua indeterminação primeira, desprendem-se com facilidade dos objetos aos quais se ligam para se dirigir depois a outros.

De fora, percebe-se sucessão ininterrupta de acontecimentos variados. Contudo, é o mesmo ator que desempenha todos os papéis sob trajes um pouco diferentes. Essa superfície onde brilham tantas cores sabiamente nuançadas recobre fundo de deplorável monotonia. Ele tornou mais flexíveis e mais finas as potências de seu ser; não soube, porém, transformá-las e refundi-las para delas tirar obra nova e definida; nada ergueu de pessoal e durável sobre o terreno que a natureza lhe legou.

Por consequência, quanto mais especiais são as faculdades, mais dificilmente são transmissíveis. Ou, se conseguem passar de uma geração a outra, não podem deixar de perder sua força e sua precisão. São menos irresistíveis e mais maleáveis; por efeito de sua maior indeterminação, podem mudar mais facilmente sob a influência das circunstâncias de família, fortuna, educação etc.

Em uma palavra, quanto mais se especializam as formas da atividade, mais escapam à ação da hereditariedade.

Citaram-se, entretanto, casos em que aptidões profissionais parecem hereditárias. Dos quadros organizados por M. Galton parece resultar que houve às vezes verdadeiras dinastias de sábios, poetas e músicos. M. de Candolle, por sua vez, estabeleceu que os filhos de sábios muitas vezes se ocuparam de ciência. Essas observações, porém, não têm na matéria nenhum valor demonstrativo.

Não pensamos, com efeito, sustentar que a transmissão de aptidões especiais seja radicalmente impossível. Queremos dizer apenas que, em geral, ela não ocorre, porque só pode efetuar-se por milagre de equilíbrio que não saberia renovar-se com frequência. Não serve, portanto, citar tais ou quais casos particulares em que ela se produziu ou parece ter-se produzido; seria preciso ainda ver que parte eles representam no conjunto das vocações científicas.

Só então se poderia julgar se demonstram realmente que a hereditariedade tem grande influência sobre a maneira pela qual se dividem as funções sociais.

Ora, embora essa comparação não possa ser feita metodicamente, um fato, estabelecido por M. de Candolle, tende a provar quanto é restrita a ação da hereditariedade nessas carreiras. Em 100 associados estrangeiros da Academia de Paris, dos quais M. de Candolle pôde refazer a genealogia, 14 descendem de ministros protestantes e apenas 5 de médicos, cirurgiões ou farmacêuticos.

Em 48 membros estrangeiros da Sociedade Real de Londres em 1829, 8 são filhos de pastores, apenas 4 têm por pais homens da arte médica. Entretanto, o número total destes últimos nos países fora da França deve ser bem superior ao dos eclesiásticos protestantes.

Com efeito, entre as populações protestantes consideradas isoladamente, médicos, cirurgiões, farmacêuticos e veterinários são quase tão numerosos quanto eclesiásticos; e, quando se acrescentam os dos países puramente católicos além da França, constituem total muito mais considerável que o dos pastores e ministros protestantes.

Os estudos que os homens da arte médica fizeram e os trabalhos aos quais devem dedicar-se habitualmente por sua profissão estão muito mais na esfera das ciências que os estudos e trabalhos de um pastor. Se o sucesso nas ciências fosse questão unicamente de hereditariedade, haveria muito mais filhos de médicos, farmacêuticos etc. em nossas listas que filhos de pastores.

Ainda assim, não é de todo certo que essas vocações científicas dos filhos de sábios se devam realmente à hereditariedade. Para ter o direito de atribuí-las a ela, não basta constatar similitude de gostos entre pais e filhos. Seria preciso ainda que estes últimos tivessem manifestado suas aptidões depois de terem sido educados, desde a primeira infância, fora de sua família e em meio estranho a toda cultura científica.

Ora, de fato, todos os filhos de sábios sobre os quais incidiu a observação foram educados em suas famílias, onde naturalmente encontraram mais socorros intelectuais e encorajamentos do que seus pais haviam recebido. Há também os conselhos e o exemplo, o desejo de se assemelhar ao pai, de utilizar seus livros, suas coleções, suas pesquisas, seu laboratório, que são, para espírito generoso e avisado, estimulantes enérgicos.

Enfim, nos estabelecimentos em que terminam seus estudos, os filhos de sábios se acham em contato com espíritos cultivados ou próprios para receber alta cultura, e a ação desse novo meio apenas confirma a do primeiro.

Sem dúvida, nas sociedades em que é regra que a criança siga a profissão do pai, tal regularidade não pode explicar-se por simples concurso de circunstâncias exteriores, pois seria milagre que se produzisse em cada caso com identidade tão perfeita. Contudo, o mesmo não se dá com esses encontros isolados e quase excepcionais que se observam hoje.

É verdade que vários dos homens científicos ingleses aos quais M. Galton se dirigiu insistiram em gosto especial e inato que teriam sentido desde a infância pela ciência que deviam cultivar mais tarde. Mas, como observa M. de Candolle, é muito difícil saber se esses gostos vêm do nascimento ou das impressões vivas da juventude e das influências que os provocam e dirigem.

Aliás, esses gostos mudam, e os únicos importantes para a carreira são os que persistem. Nesse caso, o indivíduo que se distingue em uma ciência ou continua a cultivá-la com prazer não deixa jamais de dizer que ela é nele gosto inato. Ao contrário, aqueles que tiveram gostos especiais na infância e depois não pensaram mais neles não falam disso.

Pense-se na multidão de crianças que caçam borboletas ou fazem coleções de conchas, insetos etc. e não se tornam naturalistas. Conheço também bom número de exemplos de sábios que tiveram, quando jovens, a paixão de fazer versos ou peças de teatro e que, na sequência, tiveram ocupações bem diferentes.

Outra observação do mesmo autor mostra quanto é grande a ação do meio social sobre a gênese dessas aptidões. Se fossem devidas à hereditariedade, seriam igualmente hereditárias em todos os países; os sábios saídos de sábios estariam na mesma proporção entre todos os povos do mesmo tipo. Ora, os fatos se manifestaram de maneira inteiramente diversa. Na Suíça houve, desde dois séculos, mais sábios agrupados por família que sábios isolados.

Na França e na Itália, o número dos sábios que são únicos em sua família constitui, ao contrário, a imensa maioria. As leis fisiológicas são, entretanto, as mesmas para todos os homens. Logo, a educação em cada família, o exemplo e os conselhos dados devem ter exercido influência mais marcada que a hereditariedade sobre a carreira especial dos jovens sábios. É, aliás, fácil compreender por que essa influência foi mais forte na Suíça que na maioria dos países.

Os estudos ali se fazem até a idade de dezoito ou vinte anos em cada cidade e em condições tais que os alunos vivem em casa junto dos pais. Isso era sobretudo verdadeiro no século passado e na primeira metade do século atual, particularmente em Genebra e Basileia, isto é, nas duas cidades que forneceram a maior proporção de sábios unidos entre si por laços de família.

Alhures, especialmente na França e na Itália, sempre foi ordinário que os jovens fossem educados em colégios onde residem e se encontram por consequência afastados das influências de família.

Não há, portanto, nenhuma razão para admitir a existência de vocações inatas e imperiosas para objetos especiais. Ao menos, se as há, elas não são a regra. Como observa igualmente M. Bain, o filho de grande filólogo não herda um único vocábulo; o filho de grande viajante pode, na escola, ser superado em geografia pelo filho de um mineiro. Isso não quer dizer que a hereditariedade não tenha influência; o que ela transmite são faculdades muito gerais, não aptidão particular para tal ou tal ciência. O que a criança recebe dos pais é alguma força de atenção, certa dose de perseverança, julgamento são, imaginação etc.

Cada uma dessas faculdades, porém, pode convir a multidão de especialidades diferentes e nelas assegurar sucesso. Eis uma criança dotada de imaginação bastante viva; se desde cedo está em relação com artistas, tornar-se-á pintor ou poeta; se vive em meio industrial, tornar-se-á engenheiro de espírito inventivo; se o acaso a coloca no mundo dos negócios, será talvez um dia financista audacioso.

Bem entendido, levará por toda parte consigo sua natureza própria, sua necessidade de criar e imaginar, sua paixão pelo novo. Contudo, as carreiras nas quais poderá utilizar seus talentos e satisfazer sua inclinação são muito numerosas. Foi, aliás, o que M. de Candolle estabeleceu por observação direta.

Ele levantou as qualidades úteis nas ciências que seu pai herdava de seu avô; eis a lista: vontade, espírito de ordem, julgamento são, certa potência de atenção, afastamento das abstrações metafísicas, independência de opinião. Era certamente bela herança, mas com ela se poderia tornar igualmente administrador, homem de Estado, historiador, economista, grande industrial, excelente médico ou, enfim, naturalista, como foi M. de Candolle.

É, portanto, evidente que as circunstâncias tiveram larga parte na escolha de sua carreira, e é de fato o que nos ensina seu filho. Somente o espírito matemático e o sentimento musical poderiam muito bem ser disposições de nascimento, devidas a herança direta dos pais. Essa aparente anomalia não surpreenderá se lembrarmos que esses dois talentos se desenvolveram muito cedo na história da humanidade.

A música é a primeira das artes, e as matemáticas, a primeira das ciências que os homens cultivaram. Essa dupla faculdade deve, portanto, ser mais geral e menos complexa do que se crê, e é isso que explicaria sua transmissibilidade.

Pode-se dizer o mesmo de outra vocação, a do crime. Segundo a justa observação de M. Tarde, as diferentes variedades do crime e do delito são profissões, embora nocivas; às vezes, têm até técnica complexa. O escroque, o moedeiro falso, o falsário são obrigados a desenvolver mais ciência e mais arte em seu ofício que muitos trabalhadores normais.

Ora, sustentou-se que não somente a perversão moral em geral, como também as formas específicas da criminalidade, eram produto da hereditariedade. Chegou-se até a crer possível elevar a mais de 40% a cota do criminoso nato. Se essa proposição fosse provada, seria preciso concluir que a hereditariedade tem às vezes grande influência sobre a maneira pela qual se repartem as profissões, mesmo especiais.

Para demonstrá-la, tentaram-se dois métodos diferentes. Muitas vezes contentou-se alguém em citar casos de famílias que se dedicaram inteiramente ao mal, e isso durante várias gerações. Contudo, além de não se poder determinar dessa maneira a parte relativa da hereditariedade no conjunto das vocações criminosas, tais observações, por numerosas que possam ser, não constituem experiências demonstrativas.

Do fato de o filho de um ladrão tornar-se ele próprio ladrão, não se segue que sua imoralidade seja herança legada por seu pai. Para interpretar assim os fatos, seria preciso poder isolar a ação da hereditariedade da ação das circunstâncias, da educação etc.

Se a criança manifestasse sua aptidão para o roubo depois de ter sido educada em família perfeitamente sadia, então se poderia, com razão, invocar a influência da hereditariedade. Possuímos, porém, muito poucas observações desse gênero que tenham sido feitas metodicamente. Não se escapa à objeção fazendo notar que as famílias assim arrastadas ao mal são às vezes muito numerosas.

O número nada altera a questão, pois o meio doméstico, que é o mesmo para toda a família, seja qual for sua extensão, basta para explicar essa criminalidade endêmica.

O método seguido por M. Lombroso seria mais conclusivo se desse os resultados que o autor esperava. Em vez de enumerar certo número de casos particulares, ele constitui anatômica e fisiologicamente o tipo do criminoso.

Como os caracteres anatômicos e fisiológicos, sobretudo os primeiros, são congênitos, isto é, determinados pela hereditariedade, bastará estabelecer a proporção dos delinquentes que apresentam o tipo assim definido para medir exatamente a influência da hereditariedade sobre essa atividade especial.

Viu-se que, segundo Lombroso, ela seria considerável. Contudo, o número citado só exprime a frequência relativa do tipo criminoso em geral. Tudo que se pode concluir disso, por consequência, é que a propensão ao mal em geral é muitas vezes hereditária; dele nada se pode deduzir em relação às formas particulares do crime e do delito. Sabe-se, aliás, hoje que esse pretenso tipo criminoso nada tem, na realidade, de específico. Muitos traços que o constituem encontram-se alhures.

Tudo que se percebe é que ele se assemelha ao dos degenerados, dos neurastênicos. Ora, se esse fato é prova de que, entre os criminosos, há muitos neurastênicos, não se segue que a neurastenia conduza sempre e invencivelmente ao crime. Há pelo menos tantos degenerados que são honestos, quando não são homens de talento ou de gênio.

Se, portanto, as aptidões são tanto menos transmissíveis quanto mais especiais, a parte da hereditariedade na organização do trabalho social é tanto maior quanto menos dividido é este. Nas sociedades inferiores, onde as funções são muito gerais, elas reclamam apenas aptidões igualmente gerais que podem passar de uma geração a outra com mais facilidade e integralidade.

Cada um recebe ao nascer todo o essencial para sustentar seu personagem; o que deve adquirir por si mesmo é pouca coisa ao lado do que conserva da hereditariedade. Na Idade Média, o nobre, para cumprir seu dever, não precisava de muitos conhecimentos nem de práticas muito complicadas, e sim sobretudo de coragem, que recebia com o sangue.

O levita e o brâmane, para desempenhar seu emprego, não precisavam de ciência muito volumosa, cujas dimensões podemos medir pelas dos livros que a continham. Precisavam, porém, de superioridade nativa da inteligência, que os tornava acessíveis a ideias e sentimentos aos quais o vulgo estava fechado.

Para ser bom médico no tempo de Esculápio, não era necessário receber cultura muito extensa. Bastava ter gosto natural pela observação e pelas coisas concretas; e, como esse gosto é bastante geral para ser facilmente transmissível, era inevitável que se perpetuasse em certas famílias e que, por consequência, a profissão médica ali fosse hereditária.

Explica-se muito bem que, nessas condições, a hereditariedade se tivesse tornado instituição social. Sem dúvida, não foram essas causas inteiramente psicológicas que puderam suscitar a organização das castas. Contudo, uma vez nascida sob o império de outras causas, ela durou porque se achou perfeitamente conforme tanto aos gostos dos indivíduos quanto aos interesses da sociedade.

Já que a aptidão profissional era qualidade da raça de preferência à do indivíduo, era inteiramente natural que o mesmo ocorresse com a função. Já que as funções se distribuíam imutavelmente da mesma maneira, só podia haver vantagens em que a lei consagrasse o princípio dessa distribuição.

Quando o indivíduo tem apenas a menor parte na formação de seu espírito e de seu caráter, não poderia ter parte maior na escolha de sua carreira; se mais liberdade lhe fosse deixada, em geral ele não saberia o que fazer dela.

Se ao menos uma mesma capacidade geral pudesse servir em profissões diferentes. Contudo, precisamente porque o trabalho é pouco especializado, só existe pequeno número de funções separadas umas das outras por diferenças marcadas; por consequência, quase não se pode ter êxito senão em uma delas. A margem deixada às combinações individuais é, portanto, ainda restrita desse lado. Em definitivo, acontece com a hereditariedade das funções o mesmo que com a dos bens.

Nas sociedades inferiores, a herança transmitida pelos ancestrais, e que consiste mais frequentemente em imóveis, representa a parte mais importante do patrimônio de cada família particular. O indivíduo, por causa da pouca vitalidade que têm então as funções econômicas, não pode acrescentar grande coisa ao fundo hereditário. Por isso a posse pertence à família, ser coletivo composto de todos os membros da geração atual e de toda a sequência das gerações.

É por isso que os bens patrimoniais são inalienáveis. Nenhum dos representantes efêmeros do ser doméstico pode dispor deles, pois não são dele. São da família, como a função é da casta. Mesmo quando o direito tempera suas proibições primeiras, uma alienação do patrimônio ainda é considerada forfaitura; é, para todas as classes da população, o que uma mésalliance é para a aristocracia. É traição contra a raça, defecção.

Assim, embora a tolere, a lei por muito tempo lhe opõe toda sorte de obstáculos. Daí vem o direito de retrato.

Não se dá o mesmo nas sociedades mais volumosas, onde o trabalho é mais dividido. Como as funções são mais diversificadas, uma mesma faculdade pode servir em profissões diferentes. A coragem é necessária ao mineiro, ao aeronauta, ao médico, ao engenheiro, tanto quanto ao soldado. O gosto da observação pode igualmente fazer de um homem romancista, autor dramático, químico, naturalista, sociólogo.

Em uma palavra, a orientação do indivíduo é predeterminada de maneira menos necessária pela hereditariedade.

O que diminui sobretudo a importância relativa desta última é que a parte das aquisições individuais se torna mais considerável. Para pôr em valor o legado hereditário, é preciso acrescentar a ele muito mais que outrora. Com efeito, à medida que as funções se especializaram mais, aptidões simplesmente gerais já não bastaram.

Foi preciso submetê-las a elaboração ativa, adquirir todo um mundo de ideias, movimentos e hábitos, coordená-los, sistematizá-los, refundir a natureza, dar-lhe forma e figura novas.

Compare-se, e tomamos pontos de comparação bastante próximos um do outro, o homem honesto do século XVII, com espírito aberto e pouco guarnecido, ao sábio moderno, armado de todas as práticas e de todos os conhecimentos necessários à ciência que cultiva; o nobre de outrora, com sua coragem e sua altivez naturais, ao oficial de hoje, com sua técnica laboriosa e complicada, e se julgará da importância e variedade das combinações que pouco a pouco se superpuseram ao fundo primitivo.

Porque são muito complexas, essas combinações sábias são frágeis. Estão em estado de equilíbrio instável que não poderia resistir a forte abalo. Se ao menos se reencontrassem idênticas nos dois pais, talvez pudessem sobreviver à crise da geração. Contudo, tal identidade é inteiramente excepcional.

Primeiro, são especiais a cada sexo; depois, à medida que as sociedades se estendem e se condensam, os cruzamentos se fazem sobre superfície mais ampla, aproximando indivíduos de temperamentos mais diferentes. Toda essa magnífica vegetação de estados de consciência morre, portanto, conosco, e só transmitimos a nossos descendentes germe indeterminado.

A eles cabe fecundá-lo de novo e, por consequência, podem mais facilmente, se necessário, modificar-lhe o desenvolvimento. Já não são obrigados tão estreitamente a repetir o que fizeram seus pais. Sem dúvida, seria erro crer que cada geração recomeça de novo, integralmente, a obra dos séculos, o que tornaria impossível todo progresso.

Do fato de o passado já não se transmitir com o sangue, não se segue que se aniquile: permanece fixado nos monumentos, nas tradições de toda sorte, nos hábitos que a educação dá. A tradição, porém, é laço muito menos forte que a hereditariedade; predetermina de maneira sensivelmente menos rigorosa e menos nítida o pensamento e a conduta. Vimos, aliás, de que modo ela própria se tornava mais flexível à medida que as sociedades se tornavam mais densas.

Campo mais largo se acha, portanto, aberto às variações individuais, e esse campo se alarga cada vez mais à medida que o trabalho se divide.

Em uma palavra, a civilização só pode fixar-se no organismo pelas bases mais gerais sobre as quais repousa. Quanto mais se eleva acima delas, mais se liberta do corpo; torna-se cada vez menos coisa orgânica e cada vez mais coisa social. Então, porém, já não é por intermédio do corpo que pode perpetuar-se, isto é, a hereditariedade é cada vez mais incapaz de assegurar sua continuidade.

Ela perde, portanto, seu império, não por ter cessado de ser lei de nossa natureza, e sim porque nos são necessárias, para viver, armas que ela não nos pode dar. Sem dúvida, de nada nada podemos tirar, e os materiais primeiros que só ela nos entrega têm importância capital. Contudo, aqueles que se acrescentam a eles também têm grande importância. O patrimônio hereditário conserva grande valor; já representa apenas parte cada vez mais restrita da fortuna individual.

Nessas condições, já se explica que a hereditariedade tenha desaparecido das instituições sociais e que o vulgo, não percebendo mais o fundo hereditário sob as adições que o recobrem, já não lhe sinta tanto a importância.

## II

Há mais. Há toda razão para crer que o contingente hereditário diminui não somente em valor relativo, como também em valor absoluto. A hereditariedade se torna fator menor do desenvolvimento humano, não somente porque há multidão cada vez maior de aquisições novas que ela não pode transmitir, como também porque aquelas que transmite dificultam menos as variações individuais. É conjectura que os fatos seguintes tornam muito verossímil.

Pode-se medir a importância do legado hereditário para espécie dada pelo número e pela força dos instintos. Ora, já é muito notável que a vida instintiva se enfraqueça à medida que se sobe na escala animal. O instinto, com efeito, é maneira de agir definida, ajustada a fim estreitamente determinado. Leva o indivíduo a atos invariavelmente os mesmos e que se reproduzem automaticamente quando estão dadas as condições necessárias; é fixo em sua forma.

Sem dúvida, pode-se fazê-lo desviar a rigor, mas, além de tais desvios exigirem longo desenvolvimento para serem estáveis, não têm outro efeito senão substituir um instinto por outro instinto, um mecanismo especial por outro da mesma natureza. Ao contrário, quanto mais o animal pertence a espécie elevada, mais o instinto se torna facultativo. Já não é, diz M. Perrier, a aptidão inconsciente para formar combinação de atos indeterminados; é a aptidão para agir diferentemente segundo as circunstâncias. Dizer que a influência da hereditariedade é mais geral, mais vaga, menos imperiosa, é dizer que é menor. Em vez de aprisionar a atividade do animal em rede rígida, deixa-lhe jogo mais livre.

Como diz ainda M. Perrier, no animal, ao mesmo tempo que a inteligência aumenta, as condições da hereditariedade são profundamente modificadas.

Quando se passa dos animais ao homem, essa regressão é ainda mais marcada. O homem faz tudo que fazem os animais, e mais ainda; apenas o faz sabendo o que faz e por que o faz. Essa única consciência de seus atos parece libertá-lo de todos os instintos que o impeliriam necessariamente a cumprir esses mesmos atos. Seria demasiado longo enumerar todos os movimentos que, instintivos no animal, deixaram de ser hereditários no homem.

Mesmo ali onde o instinto sobrevive, tem menos força, e a vontade pode mais facilmente assenhorear-se dele.

Não há então razão alguma para supor que esse movimento de recuo, que prossegue de maneira ininterrupta das espécies animais inferiores às espécies mais elevadas, e destas ao homem, cesse bruscamente com o advento da humanidade. Por acaso o homem, no dia em que entrou na história, estava totalmente liberto do instinto? Ainda hoje sentimos seu jugo.

Por acaso as causas que determinaram essa libertação progressiva, cuja continuidade acabamos de ver, teriam subitamente perdido sua energia? É evidente que se confundem com as próprias causas que determinam o progresso geral das espécies e, como este não se detém, elas tampouco poderiam ter-se detido. Tal hipótese é contrária a todas as analogias. É até contrária a fatos bem estabelecidos.

Está, com efeito, demonstrado que a inteligência e o instinto variam sempre em sentido inverso um do outro. Não precisamos, por ora, procurar de onde vem essa relação; limitamo-nos a afirmar sua existência. Ora, desde as origens, a inteligência do homem não deixou de se desenvolver. O instinto, portanto, deve ter seguido marcha inversa.

Por consequência, embora não se possa estabelecer essa proposição por observação positiva dos fatos, deve-se crer que a hereditariedade perdeu terreno no curso da evolução humana.

Outro fato corrobora o precedente. Não somente a evolução não fez surgir raças novas desde o começo da história, como também as raças antigas regridem continuamente. Com efeito, uma raça é formada por certo número de indivíduos que apresentam, em relação a um mesmo tipo hereditário, conformidade bastante grande para que as variações individuais possam ser negligenciadas. Ora, a importância destas últimas aumenta continuamente.

Os tipos individuais tomam relevo sempre maior em detrimento do tipo genérico, cujos traços constitutivos, dispersos de todos os lados, confundidos com multidão de outros, indefinidamente diversificados, já não podem ser facilmente reunidos em todo dotado de alguma unidade. Essa dispersão e esse apagamento começaram, aliás, mesmo entre povos muito pouco avançados.

Por causa de seu isolamento, os esquimós parecem colocados em condições muito favoráveis à manutenção da pureza de sua raça. Entretanto, as variações da estatura ultrapassam ali os limites individuais permitidos. Na passagem de Hotham, um esquimó se assemelhava exatamente a um negro; no estreito de Spafarret, a um judeu, segundo Seeman. O rosto oval, associado a nariz romano, não é raro, segundo King.

Sua tez é ora muito escura, ora muito clara. Se é assim em sociedades tão restritas, o mesmo fenômeno deve reproduzir-se de maneira muito mais acentuada em nossas grandes sociedades contemporâneas. Na Europa central, encontram-se lado a lado todas as variedades possíveis de crânios, todas as formas possíveis de rostos. O mesmo se dá com a tez.

Segundo as observações feitas por Virchow sobre dez milhões de crianças tomadas em diferentes classes da Alemanha, o tipo louro, característico da raça germânica, só foi observado de 43 a 33 vezes por 100 no Norte; de 32 a 25 vezes no Centro; de 24 a 18 no Sul. Compreende-se que, nessas condições que pioram continuamente, o antropologista quase não possa constituir tipos nitidamente definidos.

As pesquisas recentes de M. Galton confirmam e permitem explicar esse enfraquecimento da influência hereditária.

Segundo esse autor, cujas observações e cálculos parecem dificilmente refutáveis, os únicos caracteres que se transmitem regular e integralmente pela hereditariedade em um grupo social dado são aqueles cuja reunião constitui o tipo médio. Assim, um filho nascido de pais excepcionalmente altos terá altura inferior à deles e se aproximará mais da mediocridade. Inversamente, se forem demasiado baixos, será mais alto que eles. M. Galton pôde até medir, ao menos de maneira aproximada, essa relação de desvio.

Se concordamos em chamar pai médio um ser composto que representaria a média dos dois pais reais, transpostos os caracteres da mulher para que possam ser comparados aos do pai, somados e divididos juntos, o desvio do filho em relação a esse padrão fixo será de dois terços do desvio do pai.

M. Galton estabeleceu essa lei tanto para a altura quanto para a cor dos olhos e as faculdades artísticas. É verdade que só fez incidir suas observações sobre os desvios quantitativos, não sobre os desvios qualitativos que os indivíduos apresentam em relação ao tipo médio. Contudo, não se vê por que a lei se aplicaria a uns e não aos outros.

Se a regra é que a hereditariedade só transmite bem os atributos constitutivos desse tipo no grau de desenvolvimento em que nele se encontram, deve também só transmitir bem os atributos que nele se encontram. O que é verdadeiro das grandezas anormais dos caracteres normais deve sê-lo, com maior razão, dos próprios caracteres anormais. Eles devem, em geral, só passar de uma geração a outra enfraquecidos e tender a desaparecer.

Essa lei se explica, aliás, sem dificuldade. Com efeito, uma criança herda tanto de seus pais quanto de todos os seus ascendentes. Sem dúvida, a ação dos primeiros é particularmente forte por ser imediata; a das gerações anteriores, porém, pode acumular-se quando se exerce no mesmo sentido e, graças a essa acumulação que compensa os efeitos do afastamento, pode atingir grau de energia suficiente para neutralizar ou atenuar a precedente.

Ora, o tipo médio de um grupo natural é aquele que corresponde às condições da vida média, por consequência às mais ordinárias. Exprime a maneira pela qual os indivíduos se adaptaram àquilo que se pode chamar meio médio, tanto físico quanto social, isto é, ao meio no qual vive o maior número.

Essas condições médias eram as mais frequentes no passado pela mesma razão que faz com que sejam as mais gerais no presente. Eram, portanto, aquelas em que se achava colocada a maior parte de nossos ascendentes. É verdade que, com o tempo, puderam mudar; mas geralmente só se modificam com lentidão. O tipo médio permanece, portanto, sensivelmente o mesmo por longo tempo.

Em seguida, é ele que se repete com mais frequência e da maneira mais uniforme na série das gerações anteriores, ao menos naquelas que estão bastante próximas para fazer sentir eficazmente sua ação. É graças a essa constância que adquire fixidez que o torna centro de gravidade da influência hereditária.

Os caracteres que o constituem são os que têm mais resistência, que tendem a transmitir-se com mais força e precisão. Aqueles, ao contrário, que dele se afastam só sobrevivem em estado de indeterminação tanto maior quanto maior é o afastamento. Eis por que os desvios que se produzem jamais são senão passageiros e nem chegam a manter-se por algum tempo senão de maneira muito imperfeita.

Todavia, essa própria explicação, aliás um pouco diferente da proposta pelo próprio M. Galton, permite conjecturar que sua lei, para ser perfeitamente exata, precisaria ser levemente retificada. Com efeito, o tipo médio de nossos ascendentes só se confunde com o de nossa geração na medida em que a vida média não mudou. Ora, de fato, variações se produzem de uma geração a outra e acarretam mudanças na constituição do tipo médio.

Se os fatos recolhidos por M. Galton parecem, entretanto, confirmar sua lei tal como a formulou, é porque ele quase só a verificou para caracteres físicos relativamente imutáveis, como a altura ou a cor dos olhos. Contudo, se se observassem pelo mesmo método outras propriedades, orgânicas ou psíquicas, é certo que se perceberiam os efeitos da evolução.

Por consequência, falando com rigor, os caracteres cujo grau de transmissibilidade é máximo não são aqueles cujo conjunto constitui o tipo médio de uma geração dada, e sim aqueles que seriam obtidos tomando a média entre os tipos médios das gerações sucessivas. Sem essa retificação, aliás, não se poderia explicar como a média do grupo pode progredir, pois, se se toma ao pé da letra a proposição de M. Galton, as sociedades seriam sempre e invencivelmente reconduzidas ao mesmo nível, já que o tipo médio de duas gerações, mesmo distantes uma da outra, seria idêntico.

Ora, longe de essa identidade ser a lei, vê-se, ao contrário, mesmo caracteres físicos tão simples como a altura média ou a cor média dos olhos mudarem pouco a pouco, embora muito lentamente.

A verdade é que, se se produzem no meio mudanças que duram, as modificações orgânicas e psíquicas daí resultantes acabam por fixar-se e integrar-se no tipo médio que evolui. As variações que nele se produzem pelo caminho não poderiam ter o mesmo grau de transmissibilidade que os elementos que nele se repetem constantemente.

O tipo médio resulta da superposição dos tipos individuais e exprime o que eles têm de mais comum. Por consequência, os traços de que é formado são tanto mais definidos quanto mais identicamente se repetem nos diferentes membros do grupo, pois, quando essa identidade é completa, nele se reencontram integralmente com todos os seus caracteres e até em suas nuances.

Ao contrário, quando variam de um indivíduo a outro, como são mais raros os pontos pelos quais coincidem, o que deles subsiste no tipo médio se reduz a lineamentos tanto mais gerais quanto maiores são as diferenças. Ora, sabemos que as dessemelhanças individuais vão-se multiplicando, isto é, que os elementos constitutivos do tipo médio se diversificam cada vez mais.

Esse próprio tipo deve, portanto, compreender menos traços determinados, e isso tanto mais quanto mais diferenciada é a sociedade. O homem médio toma fisionomia cada vez menos nítida e acusada, aspecto mais esquemático. É abstração cada vez mais difícil de fixar e delimitar. Por outro lado, quanto mais as sociedades pertencem a espécie elevada, mais rapidamente evoluem, visto que a tradição se torna mais flexível, como estabelecemos.

O tipo médio muda, portanto, de uma geração a outra. Por consequência, o tipo duplamente composto que resulta da superposição de todos esses tipos médios é ainda mais abstrato que cada um deles e se torna sempre mais abstrato. Visto que é a hereditariedade desse tipo que constitui a hereditariedade normal, vê-se que, segundo a palavra de M. Perrier, as condições desta última se modificam profundamente.

Sem dúvida, isso não quer dizer que ela transmita menos coisas de maneira absoluta, pois, se os indivíduos apresentam mais caracteres dessemelhantes, apresentam também mais caracteres. O que ela transmite, porém, consiste cada vez mais em predisposições indeterminadas, em maneiras gerais de sentir e pensar que podem especializar-se de mil maneiras diferentes.

Já não são, como outrora, mecanismos completos, exatamente arranjados em vista de fins especiais, e sim tendências muito vagas que não comprometem definitivamente o futuro. A herança continua rica; apenas já não está toda em bens líquidos. A maior parte dos valores de que se compõe ainda não está realizada, e tudo depende do uso que será feito dela.

Essa flexibilidade maior dos caracteres hereditários deve-se tanto a seu estado de indeterminação quanto ao abalo que receberam por efeito das mudanças pelas quais passaram. Sabe-se, com efeito, que um tipo é tanto mais instável quanto mais desvios já sofreu. Às vezes, diz M. de Quatrefages, as menores causas transformam rapidamente esses organismos tornados, por assim dizer, instáveis. O boi suíço, transportado para a Lombardia, torna-se boi lombardo em duas gerações.

Duas gerações bastam também para que nossas abelhas da Borgonha, pequenas e pardas, se tornem na Bresse grandes e amarelas. Por todas essas razões, a hereditariedade deixa sempre mais campo às combinações novas. Não somente há número crescente de coisas sobre as quais ela não tem presa, como também as propriedades cuja continuidade assegura se tornam mais plásticas.

O indivíduo é, portanto, menos fortemente preso a seu passado. Torna-se-lhe mais fácil adaptar-se às circunstâncias novas que se produzem, e os progressos da divisão do trabalho tornam-se assim mais fáceis e mais rápidos.

## Notas

1. Stuart Mill, Économie politique.

2. Spencer, Sociol., III, 349.

3. Ribot, L'Hérédité, 2ª ed., p. 360.

4. Ibid., 345.

5. Ribot, obra citada, p. 365. Cf. Hermann, Griech. Antiq., IV, 353, nota 3.

6. Ibid., 395, nota 2, cap. I, 33. Para os fatos, ver especialmente: Platão, Eutífron, 11 C; Alcibíades, 121 A; República, IV, 421 D; sobretudo Protágoras, 328 A; Plutarco, Apopht., Lacon, 208 B.

7. Schmoller, La Division du travail, em Rev. d'écon. polit., 1888, p. 590.

8. Ribot, obra citada, p. 360.

9. Ver L'Espèce humaine.

10. Histoire des sciences et des savants, 2ª ed., p. 293.

11. Obra citada, p. 294.

12. English Men of Science, 1874, p. 144 e seguintes.

13. Obra citada, p. 320.

14. Obra citada, p. 296.

15. Obra citada, p. 299.

16. Émotions et Volonté, 53.

17. Obra citada, p. 318.

18. Lombroso, L'Homme criminel, 669.

19. Ver Féré, Dégénérescence et Criminalité.

20. Anatomie et Physiologie animale, 201. Cf. o prefácio de L'Intelligence des animaux, de Romanes, p. XXIII.

21. Guyau, Morale anglaise, 1ª ed., 330.

22. Topinard, Anthropologie, 458.

23. Wagner, Die Kulturzüchtung des Menschen, em Kosmos, 1886, Heft, p. 27.

24. Natural Inheritance. Londres, 1889.

25. Obra citada, 101.

26. Ver Arréat, Récents travaux sur l'hérédité, em Rev. phil., abril de 1890, p. 414.

27. Artigo Races em Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales, t. LXXX, p. 372.

28. O que parece haver de mais sólido nas teorias de Weismann poderia servir para confirmar o que precede. Sem dúvida, não está provado que, como sustenta esse sábio, as variações individuais sejam radicalmente intransmissíveis pela hereditariedade.

Contudo, parece ter estabelecido fortemente que o tipo normalmente transmissível é o tipo genérico, não o individual, e que tem por substrato orgânico, de algum modo, os elementos reprodutores; estabeleceu ainda que esse tipo não é tão facilmente atingido, segundo se supôs às vezes, pelas variações individuais. Ver Weismann, Essais sur l'hérédité, tradução francesa, Paris, 1892, especialmente o terceiro ensaio, e Ball, Hérédité et Exercice, tradução francesa, Paris, 1891. Daí resulta que, quanto mais indeterminado e plástico é esse tipo, mais também o fator individual ganha terreno.

Sob outro ponto de vista ainda, essas teorias nos interessam. Uma das conclusões de nosso trabalho às quais atribuímos maior importância é esta ideia: os fenômenos sociais derivam de causas sociais, não de causas psicológicas; longe de ser a simples generalização de um tipo individual, o tipo coletivo é aquele do qual este nasceu.

Em outra ordem de fatos, Weismann demonstra do mesmo modo que a raça não é simples prolongamento do indivíduo; que o tipo específico, do ponto de vista fisiológico e anatômico, longe de ser um tipo individual perpetuado no tempo, tem sua evolução própria, e que o segundo se destacou do primeiro, longe de ser sua fonte.

Sua doutrina é, como a nossa, ao que nos parece, protesto contra as teorias simplistas que reduzem o composto ao simples, o todo à parte, a sociedade ou a raça ao indivíduo.

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