Livro III - Capítulo III - Outra forma anormal
## Livro III
## Capítulo III
### Outra forma anormal
Resta-nos descrever uma última forma anormal.
Acontece muitas vezes, em uma empresa comercial, industrial ou de outro tipo, que as funções são distribuídas de tal maneira que oferecem matéria insuficiente à atividade dos indivíduos. Que haja nisso deplorável perda de forças é evidente; contudo, não temos de nos ocupar aqui do lado econômico do fenômeno. O que nos deve interessar é outro fato que acompanha sempre esse desperdício, a saber, incoordenação mais ou menos grande dessas funções.
Sabe-se, com efeito, que, em uma administração na qual cada empregado não tem com que ocupar-se suficientemente, os movimentos se ajustam mal entre si, as operações se fazem sem conjunto; em uma palavra, a solidariedade se afrouxa, a incoerência e a desordem aparecem. Na corte do Baixo Império, as funções eram especializadas ao infinito e, apesar disso, resultava daí verdadeira anarquia. Assim, eis casos em que a divisão do trabalho, levada muito longe, produz integração muito imperfeita.
De onde vem isso? Seríamos tentados a responder que falta órgão regulador, uma direção. A explicação é pouco satisfatória, pois, com muita frequência, esse estado doentio é obra do próprio poder diretor. Para que o mal desapareça, não basta que exista ação reguladora; é preciso que ela se exerça de certa maneira. Aliás, sabemos de que maneira ela se exercerá.
O primeiro cuidado de um chefe inteligente e experimentado será suprimir os empregos inúteis, distribuir o trabalho de modo que cada um esteja suficientemente ocupado, aumentar por consequência a atividade funcional de cada trabalhador, e a ordem renascerá espontaneamente ao mesmo tempo que o trabalho será organizado de modo mais econômico. Como isso se faz? É o que se vê mal à primeira vista.
Pois, afinal, se cada funcionário tem tarefa bem determinada, se a cumpre exatamente, terá necessariamente necessidade dos funcionários vizinhos e não poderá deixar de se sentir solidário deles. Que importa que essa tarefa seja pequena ou grande, desde que seja especial? Que importa que absorva ou não seu tempo e suas forças?
Importa muito, ao contrário. É que, de maneira geral, a solidariedade depende muito estreitamente da atividade funcional das partes especializadas. Esses dois termos variam um com o outro. Onde as funções são lânguidas, por mais especiais que sejam, coordenam-se mal entre si e sentem incompletamente sua dependência mútua. Alguns exemplos tornarão esse fato muito sensível.
Em um homem, "a sufocação opõe resistência à passagem do sangue através dos capilares, e esse obstáculo é seguido por congestão e parada do coração; em poucos segundos, produz-se grande perturbação em todo o organismo, e ao fim de um minuto ou dois as funções cessam". A vida inteira depende, portanto, muito estreitamente da respiração.
Mas, em uma rã, a respiração pode ser suspensa por longo tempo sem acarretar nenhuma desordem, seja porque lhe baste a aeração do sangue que se efetua através da pele, seja mesmo porque, totalmente privada de ar respirável, ela se contente com o oxigênio armazenado em suas substâncias orgânicas.
Há, portanto, independência bastante grande e, por consequência, solidariedade imperfeita entre a função de respiração da rã e as outras funções do organismo, já que estas podem subsistir sem o socorro daquela. Esse resultado se deve ao fato de que as substâncias orgânicas da rã, tendo atividade funcional menor que as do homem, também têm menor necessidade de renovar seu oxigênio e de se desembaraçar do ácido carbônico produzido por sua combustão.
Do mesmo modo, um mamífero precisa alimentar-se com muita regularidade; o ritmo de sua respiração, no estado normal, permanece sensivelmente o mesmo; seus períodos de repouso jamais são muito longos. Em outros termos, suas funções respiratórias, suas funções de nutrição, suas funções de relação são sem cessar necessárias umas às outras e ao organismo inteiro, a tal ponto que nenhuma delas pode permanecer suspensa por muito tempo sem perigo para as outras e para a vida geral.
A serpente, ao contrário, só se alimenta a longos intervalos; seus períodos de atividade e de entorpecimento estão muito distantes uns dos outros; sua respiração, muito aparente em certos momentos, é às vezes quase nula, isto é, suas funções não estão ligadas de maneira muito estreita, e podem isolar-se umas das outras sem inconveniente. A razão é que sua atividade funcional é menor que a dos mamíferos.
Sendo mais fraco o gasto das substâncias orgânicas, elas precisam de menos oxigênio; sendo menor o desgaste, as reparações são menos frequentemente necessárias, assim como os movimentos destinados a perseguir uma presa e apoderar-se dela. M. Spencer observou, aliás, que se encontram na natureza inorgânica exemplos do mesmo fenômeno.
"Vede", diz ele, "uma máquina muito complicada cujas partes não estão bem ajustadas ou se tornaram demasiado frouxas por efeito do desgaste; examinai-a quando vai parar. Observareis certas irregularidades de movimento perto do momento em que ela chega ao repouso: algumas partes param primeiro, voltam a mover-se por efeito da continuação do movimento das outras, e então se tornam, por sua vez, causas de renovação do movimento nas outras partes que haviam cessado de se mover.
Em outros termos, quando as mudanças rítmicas da máquina são rápidas, as ações e reações que exercem umas sobre as outras são regulares e todos os movimentos ficam bem integrados; mas, à medida que a velocidade diminui, produzem-se irregularidades, os movimentos se desintegram."
O que faz com que todo acréscimo da atividade funcional determine acréscimo de solidariedade é que as funções de um organismo só podem tornar-se mais ativas sob a condição de se tornarem também mais contínuas. Consideremos uma delas em particular.
Como nada pode sem o concurso das outras, ela só pode produzir mais se as outras também produzem mais; mas o rendimento destas, por sua vez, só pode elevar-se se o da precedente se eleva ainda uma vez por novo contragolpe. Todo acréscimo de atividade em uma função, implicando acréscimo correspondente nas funções solidárias, implica novo acréscimo na primeira: isso só é possível se esta se torna mais contínua.
Bem entendido, aliás, esses contragolpes não se produzem indefinidamente; chega um momento em que o equilíbrio se estabelece de novo. Se os músculos e os nervos trabalham mais, precisarão de alimentação mais rica, que o estômago lhes fornecerá sob a condição de funcionar com mais atividade; mas, para isso, será preciso que receba mais materiais nutritivos a elaborar, e esses materiais só poderão ser obtidos por novo gasto de energia nervosa ou muscular.
Uma produção industrial maior necessita imobilização de maior quantidade de capital sob forma de máquinas; mas esse capital, por sua vez, para poder manter-se, reparar suas perdas, isto é, pagar o preço de seu aluguel, reclama produção industrial maior. Quando o movimento que anima todas as partes de uma máquina é muito rápido, é ininterrupto porque passa sem descanso de umas às outras. Elas se arrastam mutuamente, por assim dizer.
Se, além disso, não é apenas uma função isolada, e sim todas ao mesmo tempo, que se tornam mais ativas, a continuidade de cada uma delas será ainda aumentada. Em consequência, serão mais solidárias. Com efeito, por serem mais contínuas, estão em relações de maneira mais seguida e têm mais continuamente necessidade umas das outras. Sentem melhor, portanto, sua dependência.
Sob o reino da grande indústria, o empreendedor é mais dependente dos operários, desde que estes saibam agir de concerto; pois as greves, ao deterem a produção, impedem o capital de se manter. O operário, por sua vez, também pode menos facilmente ficar sem trabalho, porque suas necessidades cresceram com seu trabalho.
Quando, ao contrário, a atividade é menor, as necessidades são mais intermitentes, e o mesmo ocorre com as relações que unem as funções. Elas só sentem de tempos em tempos sua solidariedade, que por isso mesmo é mais frouxa.
Se, portanto, o trabalho fornecido é pouco considerável e, além disso, insuficiente, é natural que a própria solidariedade seja menos perfeita e até falte mais ou menos completamente. É o que acontece nessas empresas em que as tarefas são partilhadas de tal sorte que a atividade de cada trabalhador fica rebaixada abaixo do que deveria ser normalmente.
As diferentes funções são então demasiado descontínuas para que possam ajustar-se exatamente umas às outras e caminhar sempre de concerto; daí vem a incoerência que nelas se constata.
Mas são necessárias circunstâncias excepcionais para que a divisão do trabalho se faça dessa maneira. Normalmente, ela não se desenvolve sem que a atividade funcional cresça ao mesmo tempo e na mesma medida. Com efeito, as mesmas causas que nos obrigam a especializar-nos mais nos obrigam também a trabalhar mais.
Quando o número dos concorrentes aumenta no conjunto da sociedade, aumenta também em cada profissão particular; a luta aí se torna mais viva e, por consequência, são precisos mais esforços para poder sustentá-la. Além disso, a divisão do trabalho tende por si mesma a tornar as funções mais ativas e mais contínuas.
Os economistas há muito disseram as razões desse fenômeno; eis as principais. Primeiro, quando os trabalhos não são divididos, é preciso sem cessar deslocar-se, passar de uma ocupação a outra. A divisão do trabalho poupa todo esse tempo perdido; segundo a expressão de Karl Marx, ela estreita os poros da jornada.
Segundo, a atividade funcional aumenta com a habilidade, com o talento do trabalhador que a divisão do trabalho desenvolve; há menos tempo empregado em hesitações e tateamentos.
O sociólogo americano Carey pôs muito bem em relevo esse caráter da divisão do trabalho. "Não pode", diz ele, "existir continuidade nos movimentos do colono isolado. Dependendo, para sua subsistência, de sua potência de apropriação e forçado a percorrer imensas superfícies de terreno, ele se acha muitas vezes em perigo de morrer por falta de alimento.
Mesmo quando consegue obtê-lo, é forçado a suspender suas buscas e a pensar em efetuar a mudança de residência indispensável para transportar ao mesmo tempo suas subsistências, sua miserável habitação e a si mesmo. Chegado ali, é forçado a tornar-se por sua vez cozinheiro, alfaiate... Privado do socorro da luz artificial, suas noites ficam completamente sem emprego, ao mesmo tempo que o poder de fazer de seus dias uso frutífero depende inteiramente das chances da temperatura.
Descobrindo enfim, contudo, que tem um vizinho, fazem-se trocas entre eles; mas, como ambos ocupam partes diferentes da ilha, veem-se forçados a aproximar-se exatamente como as pedras com auxílio das quais moem seu trigo... Além disso, quando se encontram, apresentam-se dificuldades para fixar as condições do comércio, em razão da irregularidade no abastecimento das diversas mercadorias das quais querem desfazer-se.
O pescador teve sorte favorável e pescou grande quantidade de peixes; mas o acaso permitiu ao caçador obter peixe e, nesse momento, ele só precisa de frutas, e o pescador não as possui. Sendo a diferença, tal qual sabemos, indispensável à associação, a ausência dessa condição ofereceria aqui obstáculo difícil de superar.
Entretanto, com o tempo, a riqueza e a população se desenvolvem e, com esse desenvolvimento, manifesta-se acréscimo no movimento da sociedade; desde então, o marido troca serviços com os da mulher, os pais com os dos filhos, e os filhos trocam serviços recíprocos; um fornece o peixe, outro a carne, um terceiro o trigo, enquanto um quarto transforma a lã em pano.
A cada passo, constatamos acréscimo na rapidez do movimento, ao mesmo tempo que acréscimo de força por parte do homem."
Aliás, de fato, pode-se observar que o trabalho se torna mais contínuo à medida que se divide mais. Os animais, os selvagens, trabalham da maneira mais caprichosa, quando são levados pela necessidade de satisfazer alguma necessidade imediata. Nas sociedades exclusivamente agrícolas e pastorais, o trabalho fica quase todo suspenso durante a má estação. Em Roma, era interrompido por multidão de festas ou dias nefastos.
Na Idade Média, as paradas ainda se multiplicam. Entretanto, à medida que se avança, o trabalho se torna ocupação permanente, hábito, e até, se esse hábito está suficientemente consolidado, necessidade. Mas ele não teria podido constituir-se, e a necessidade correspondente não teria podido nascer, se o trabalho tivesse permanecido irregular e intermitente como outrora.
Somos assim levados a reconhecer nova razão que faz da divisão do trabalho fonte de coesão social. Ela torna os indivíduos solidários, conforme dissemos até aqui, porque limita a atividade de cada um, e também porque a aumenta. Ela acrescenta à unidade do organismo pelo simples fato de acrescentar à sua vida; ao menos, no estado normal, não produz um desses efeitos sem o outro.
## Notas
1. Spencer, Principes de biologie, ii, 131.
2. Spencer, Principes de biologie, II, 131.
3. Bem entendido, isso é apenas uma maneira de expor as coisas. Não foi assim que elas se passaram historicamente. O homem não descobriu um belo dia que tinha um vizinho.
4. Science sociale, trad. franç., I, 229-231.
5. Ver Marquardt, Roem Staatsverwaltung, III, 545 e seguintes.
6. Ver Levasseur, Les Classes ouvrières en France jusqu'à la Révolution, I, 474 e 475.