Capítulo 4 - Canal de manutenção
Cibele Serras recebeu a gravação às vinte e duas horas, quando se preparava para encerrar o plantão.
O arquivo tinha quarenta e três segundos. Nos primeiros sete, uma bomba funcionava ao fundo. Depois vinha a voz de Nivaldo Freire pedindo confirmação sobre a concretagem no eixo leste. Outra voz ordenava que ele aguardasse. Aos vinte e nove segundos, Aristeu Varga entrava na comunicação:
— Quem autorizou esse chamado?
A gravação terminava logo depois da ordem para Nivaldo permanecer onde estava.
Cibele ouviu duas vezes. Na terceira, ligou o analisador e abriu a forma de onda. O trecho inicial trazia o ruído contínuo de uma rede subterrânea: ventiladores, reatores elétricos e a vibração de um trem distante. A entrada de Aristeu tinha outro fundo. O canal recebera a fala por um ponto diferente.
Salomé Ramires observava de pé, ao lado da bancada. Chegara à central de comunicação com uma ordem de preservação assinada e um perito da polícia. Janara Alvim e Sandro Belmonte aguardavam na sala contígua, separados dos equipamentos.
— A senhora reconhece o canal? — perguntou Salomé.
— Manutenção trinta e sete. Saiu da operação regular há três anos.
— Nivaldo usou um canal desativado?
— O rádio escolhe a rede disponível conforme a área. No eixo leste, o repetidor deveria encaminhar a chamada para manutenção vinte e dois.
Cibele apontou as duas faixas na tela.
— A fala de Nivaldo entrou pela rede do canteiro. A resposta de Aristeu chegou por uma injeção externa.
— Telefone?
— Pode ser console, cabo de teste ou outro rádio ligado perto de um repetidor. Preciso dos registros.
Ela abriu o painel de eventos. A rede guardava horário, equipamento, repetidor e intensidade de cada transmissão. Pesquisou o intervalo entre duas e quarenta e cinco e três e dez da madrugada. O rádio de Nivaldo aparecia ligado ao nó `R-22-L`. A resposta inicial vinha do console da central.
A entrada de Aristeu surgia sem identificação de equipamento.
O sistema atribuía a origem ao nó `R-12-A`, retirado da planta ativa.
— Aqui — disse Cibele.
Salomé se inclinou.
— O que significa o A?
— Ala antiga.
— Qual ala?
Cibele abriu o mapa técnico. A linha colorida atravessava a estação em construção, acompanhava um duto de ventilação e terminava sob um quarteirão ocupado por um hospital desativado. O prédio fora demolido até o segundo pavimento. Os subsolos continuavam ligados à rede de serviços.
O nó R-12-A ficava em uma sala de repetidores abaixo da antiga lavanderia.
— Esse equipamento deveria estar desligado — explicou Cibele. — O cabo continuou instalado porque parte da rede alimenta sensores de drenagem. A voz, entretanto, perdeu autorização no sistema.
— Alguém reativou?
— Alguém alimentou o transmissor por fora do painel.
O perito pediu uma cópia dos registros. Cibele exportou o intervalo inteiro, gerou a impressão digital do arquivo e entregou o dispositivo lacrado. Salomé acompanhou o procedimento.
— Quantas pessoas conseguem chegar a essa sala? — perguntou a delegada.
— Equipe de telecomunicação, manutenção elétrica, chefia de turno e segurança patrimonial. A porta usa chave mecânica porque o leitor eletrônico foi retirado.
— Existe lista de cópias?
— No papel, sim.
Cibele abriu o histórico de alarmes. O nó R-12-A despertara outras vezes nos últimos três meses. As ativações duravam poucos minutos e coincidiam com a madrugada. Em cada evento, o sistema registrava consumo elétrico abaixo do limite que acionaria a central.
— Fizeram a alimentação para ficar sob o alarme — disse ela.
— Isso exige conhecimento técnico?
— Exige um multímetro e acesso ao manual.
— Onde fica o manual?
— Na rede interna.
Salomé anotou.
Cibele filtrou as transmissões associadas ao nó. A maioria continha ruído. Algumas carregavam pedaços de mensagens operacionais. Um aviso de troca de turno aparecia repetido em três datas. Uma ordem de abertura de portão surgia às quatro da manhã de domingo, quando o portão permanecera fechado.
Ela selecionou o evento mais recente, gravado às três e quatro daquela madrugada.
Uma voz feminina disse:
— Setor PV-37 liberado às quatro. Equipe fora da área.
Cibele retirou os fones.
— Essa voz é sua? — perguntou Salomé.
— É.
— A senhora transmitiu?
— Estava em casa.
O perito observou a forma de onda. Cibele abriu o arquivo bruto e marcou cinco cortes. Cada palavra possuía um fundo diferente. “Setor” vinha de uma inspeção do mês anterior. “PV-37” fora retirado de uma rotina de drenagem. “Liberado” pertencia a um teste de elevador. O horário e a ordem final tinham origem em chamadas separadas.
— Montaram a frase — concluiu Salomé.
— Usaram gravações da própria rede.
— Dá para descobrir onde?
— O arquivo foi reproduzido no R-12-A. A montagem pode ter sido feita em qualquer computador.
Cibele pesquisou o código de PV-37. O poço deixara de existir nas listas de manutenção havia dezessete anos, depois de uma atualização cadastral. Ainda assim, o termo aparecia em sete transmissões recentes.
Uma delas usava a voz de Enéas Lessa.
O topógrafo informava uma leitura de cota e pedia repetição. A gravação tinha data de terça-feira, às vinte e três e cinquenta e seis, oito minutos depois da mensagem enviada à irmã.
— O rádio de Enéas transmitiu depois do último contato familiar — disse Cibele.
— Ele falava com quem?
Cibele carregou o áudio.
— Central, topografia no D-5. A leitura fechou em sete metros. Solicito revisão da planta antes do preenchimento.
A central respondeu:
— Aguarde no local.
Depois, outra voz:
— Leve o equipamento ao PV-37.
O identificador também estava vazio. A origem era o R-12-A.
— Reconhece? — perguntou Salomé.
Cibele separou a fala e ampliou as frequências. Vozes transmitidas por rádio perdiam detalhes. Comparar timbre exigia amostras e perícia. Ela podia afirmar que o ponto de entrada coincidia com a chamada de Aristeu. Qualquer identificação pessoal ficaria para o laboratório.
— Mesma porta técnica — respondeu. — Ainda sem nome.
Salomé ligou para a equipe da delegacia e pediu inclusão da gravação no pedido de busca. Enquanto ela falava, Cibele abriu o mapa físico dos cabos. O nó da ala antiga se conectava a um distribuidor dentro da obra. Entre o R-12-A e o corredor leste havia cento e quarenta metros de cabo radiante, uma linha instalada ao longo da parede para permitir comunicação em áreas fechadas.
O sinal recebido pelo rádio de Nivaldo tinha intensidade alta demais para a distância registrada.
Cibele refez o cálculo.
— Delegada.
Salomé interrompeu a ligação.
— O que encontrou?
— Durante a chamada de Nivaldo, o nó aparecia na ala antiga. A potência indica uma fonte a menos de vinte metros do rádio.
— O sistema mente sobre a localização?
— O identificador do nó foi copiado. Alguém instalou outro transmissor e deu a ele o mesmo nome.
— Perto do muro.
— Entre dezesseis e dezenove metros.
O perito pediu que ela demonstrasse o cálculo. Cibele repetiu usando o nível de recepção do rádio, a perda estimada do cabo e a potência comum dos transmissores de teste. A margem cabia dentro da antiga câmara de alívio indicada por Janara.
Salomé foi até a sala contígua e chamou a engenheira. Janara entrou com a planta dobrada.
Cibele marcou um círculo na área eliminada do desenho recente.
— O sinal falso saiu daqui.
Janara mediu a distância com a escala.
— A câmara tem dezessete metros de extensão, contando o acesso ao dreno profundo.
— Existe energia?
— O projeto antigo previa duas tomadas de serviço.
— Uma basta — disse Cibele.
Sandro acompanhava pela porta. Salomé pediu que ele aguardasse fora.
— A informação ainda está sob preservação — falou.
— Meu remetente pode correr risco.
— Por isso a entrada fica fora da matéria.
Sandro fechou a porta.
Cibele procurou eventos em tempo real. O nó R-12-A continuava ativo, consumindo seis watts. Abriu um canal de diagnóstico e enviou um pulso curto. O sistema registrou retorno em trinta e quatro milissegundos.
— O transmissor responde.
— Podemos escutar? — perguntou Janara.
— O canal carrega telemetria neste momento.
Na tela, pacotes chegavam a cada cinco segundos. Informavam pressão, rotação e temperatura. Cibele reconheceu o protocolo de uma bomba de concreto.
— Há uma bomba ligada à rede.
Janara leu os valores.
— Pressão baixa, motor em espera. A linha está cheia ou pronta para receber.
— A concretagem acabou ontem — disse Salomé.
— O equipamento ficou preparado para outra etapa — respondeu Janara.
Cibele exportou os pacotes. O consumo do nó caiu de seis watts para zero durante a gravação.
O retorno cessou.
Ela enviou outro pulso. Nada.
Alguém desligara o transmissor depois do diagnóstico.
— Viram nossa consulta — disse Cibele.
Salomé pegou o telefone.
— Ou ouviram o canal.
Janara olhou a planta. O círculo desenhado em torno da câmara tocava o muro fotografado por Nivaldo.
Cibele fechou a saída de áudio da central e isolou os canais usados pela equipe policial.
No registro, a última resposta do transmissor trazia um horário: vinte e duas e vinte e sete.
Do outro lado da cidade, sob o canteiro cercado, alguém acabara de retirar a energia de um aparelho instalado a dezessete metros do muro.