Capítulo 7 - Sete metros de diferença
Às sete da manhã, Janara tinha cinco plantas abertas no chão da sala de reuniões da delegacia.
As folhas formavam uma sequência de dezessete anos. A primeira mostrava a câmara de alívio ligada ao dreno profundo e ao subsolo do antigo hospital. A segunda mantinha o traçado, com uma anotação sobre reforço. Na terceira, o acesso tinha seis metros a menos. A quarta retirava o metro restante. A versão entregue ao mandado terminava no muro.
Sandro fotografou as datas.
— Dividiram a alteração em duas revisões.
— Três — corrigiu Janara. — A primeira mudou o nome da câmara. A segunda encurtou o desenho. A terceira declarou o trecho preenchido.
Salomé acompanhava a comparação ao lado de um quadro branco. Dormira por pouco mais de uma hora numa cadeira da própria sala. O cabelo ainda guardava a marca do elástico.
— Quem assinou?
Janara mostrou os carimbos. A revisão de dezessete anos antes trazia assinaturas da fiscalização, da construtora e da gerência de implantação. A folha seguinte tinha apenas duas rubricas digitalizadas. A última usava um certificado emitido para o arquivo técnico, sem nome de engenheiro.
— Certificado institucional aprova protocolo — explicou Janara. — Alteração estrutural exige responsável técnico.
— O sistema aceitou.
— O sistema confere validade do certificado. Responsabilidade depende de quem decidiu usá-lo.
Salomé escreveu no quadro: `quem possuía o certificado`.
Um agente entrou com o conteúdo recuperado do cartão de memória do transmissor. Havia arquivos de áudio, tabelas de horários e cópias de ordens de serviço. A pasta mais recente continha um documento chamado `OS-17441R`.
Janara reconheceu o número da planta mais antiga.
A ordem revisada descrevia preenchimento emergencial de vazio, com volume de cento e oitenta metros cúbicos. O serviço aparecia concluído dezessete anos antes. Um campo informava que a execução ocorrera sem trabalhadores no setor.
O documento fora digitalizado três semanas antes.
— Quem fez a digitalização? — perguntou Salomé.
O agente abriu os metadados.
— Rejane Côrtes, arquivo central do consórcio.
— Localizem.
O retorno veio em poucos minutos. Rejane faltara ao trabalho na sexta-feira. A chefia recebera uma mensagem informando crise de enxaqueca. O telefone desligara na quinta, às vinte e uma e dez.
O cadastro de acesso registrava a saída dela do arquivo às vinte e uma e vinte e dois. Nenhuma câmera cobria a porta dos fundos.
Salomé pediu uma equipe no endereço da arquivista e outra no local de trabalho.
Sandro abriu a ordem no próprio computador.
— O arquivo termina com R. Existe versão sem a letra.
A busca no cartão encontrou apenas referências. Um índice apontava para `OS-17441`, descrita como apoio a resgate e estabilização temporária. O arquivo original havia sido removido do servidor.
Janara comparou os volumes. Cento e oitenta metros cúbicos preenchiam a câmara inteira e parte da galeria inferior. A busca da madrugada mostrara concreto apenas perto da placa.
— A ordem declara um serviço que nunca chegou ao volume registrado — disse. — Alguém recebeu pelo preenchimento integral.
— E manteve os sete metros fora da planta — completou Sandro.
Salomé acrescentou ao quadro: `pagamento`.
O telefone de Sandro vibrou. A editora do jornal queria a matéria da manhã. Ele saíra da redação na tarde anterior e ainda entregara apenas uma nota ampliada. Tinha imagens do tapume, a resposta do consórcio e a confirmação do mandado. Os detalhes da câmara estavam sob restrição policial.
— Preciso publicar algo — avisou.
— Publique o desaparecimento, a concretagem posterior e a busca autorizada — respondeu Salomé. — A rota inferior fica fora.
— O consórcio vai negar o resto.
— Registre a negativa.
— E o vídeo?
— Preservado.
Sandro guardou o telefone.
— Se eu souber que Enéas saiu com Aristeu e omitir, protejo quem?
Salomé sustentou o olhar.
— Você sabe que uma pessoa com diferença de altura usou o capacete. Existe um crachá de retorno. A identificação segue em apuração. Publicar o nome agora avisa o procurado sobre a prova que recuperamos.
— Ele já fugiu.
— Ainda precisamos localizar quem está vivo.
Sandro voltou ao computador. Escreveu a abertura diante dos três: o topógrafo desapareceu na terça; uma concretagem fechou um acesso na quinta; a polícia abriu o muro na madrugada de sábado. Mencionou a retirada da etiqueta e a existência de vestígios sob análise. Incluiu a versão do consórcio na íntegra.
Enviou sem descrever a galeria.
Pouco depois das oito, a equipe no arquivo central ligou. Encontrara o computador de Rejane ligado, com a mesa vazia e o armário destrancado. Uma impressora registrara onze páginas na quinta-feira, às vinte e seis minutos depois das oito da noite.
O trabalho tinha o título `OS-17441_original`.
As páginas impressas haviam sumido.
Salomé pediu cópia da fila de impressão e do armazenamento temporário. O agente respondeu que o disco fora limpo por uma rotina administrativa às vinte e duas horas.
— A rotina ocorre todos os dias? — perguntou.
— Só naquela máquina e só naquela noite.
Outro agente telefonou do apartamento de Rejane. A porta estava trancada, sem marcas de arrombamento. A cama permanecia feita. Na geladeira, havia uma marmita etiquetada para sexta-feira. Uma vizinha vira a arquivista entrar num carro cinza depois do expediente. O motorista usava colete de obra.
— Tratem como desaparecimento ligado — determinou Salomé.
Janara indicou uma anotação no canto da ordem revisada. O código `AC-H2` aparecia junto ao volume.
— Ala técnica do hospital, subsolo dois.
— Origem do material? — perguntou Salomé.
— Ponto de lançamento. O concreto entraria por lá para preencher a galeria.
O mapa do hospital estava entre os arquivos recolhidos. O prédio principal perdera os andares superiores durante a demolição. A lavanderia, a central térmica e os túneis de serviço ficaram sob uma laje de proteção. O acesso atual pertencia a um estacionamento municipal usado para veículos apreendidos.
Salomé acionou a prefeitura e pediu abertura imediata.
Sandro recebeu uma ligação de número desconhecido. Colocou no viva-voz após avisar.
— Falo com Sandro Belmonte? — perguntou uma mulher.
— Sim.
— Meu nome é Tâmara Góis. Trabalho com auditoria de contratos urbanos. Li sua matéria.
Salomé fez sinal para que continuasse.
— O que encontrou? — perguntou Sandro.
— Pagamentos de manutenção para uma estrutura que os relatórios públicos tratam como preenchida.
— Qual estrutura?
— AC-H2. O contrato muda o nome ao longo dos anos. Câmara, galeria, reserva técnica. O centro de custo continua recebendo despesa.
— Desde quando acompanha?
— Rejane Côrtes me procurou há quatro dias. Queria saber quem autorizara pagamentos depois do encerramento.
Salomé assumiu a conversa.
— Aqui é a delegada Salomé Ramires. Quando falou com Rejane pela última vez?
— Quinta-feira, perto das oito da noite. Ela disse que tinha o documento original e levaria uma cópia para fora do arquivo.
— Marcaram encontro?
— Hoje cedo. Ela faltou.
— Onde está a documentação que recebeu?
— Num repositório do órgão de controle e numa cópia externa.
— Preserve tudo. Uma equipe vai encontrá-la.
Tâmara respirou fundo.
— Rejane tem medo de perder o emprego. Ela demorou três semanas para me dar o próprio nome.
— A senhora sabe quem pediu a troca do arquivo?
— Rejane citou uma ordem verbal da diretoria de implantação. Também disse que um encarregado apareceu no arquivo depois que ela imprimiu as páginas.
— Nome?
— Aristeu Varga.
Salomé encerrou depois de combinar o local protegido.
Janara voltou à sequência das plantas. O código AC-H2 aparecia na revisão intermediária. Um retângulo estreito ligava a antiga lavanderia ao ponto em que a placa do dreno fora soldada.
— A entrada do hospital alcança a parte vazia — disse.
— Distância? — perguntou Salomé.
— Quarenta e dois metros até a placa. Os sete metros omitidos começam no final.
Nivaldo chegou acompanhado pela investigadora. Trazia o desenho das bombas e uma lista dos trabalhadores habilitados a operar a linha.
Janara mostrou o código.
— Conhece AC-H2?
— Acesso de carga da lavanderia. Fechou antes de eu entrar na equipe do eixo leste.
— Existe porta?
— Portão de chapa. O cadeado ficava na administração do hospital.
— A prefeitura vai abrir.
Nivaldo estudou a planta.
— Se bombearam concreto pela madrugada, a mangueira entrou aqui. O portão precisa estar livre.
O estacionamento municipal confirmou a existência da estrutura. Um funcionário localizara o portão atrás de veículos removidos. O cadeado tinha sido trocado e trazia a marca do consórcio.
Salomé recolheu as plantas.
— Resgate, gases, perícia e telecomunicação. Saímos em dez minutos.
Sandro fechou o computador. A matéria já circulava nas redes locais. O consórcio publicara uma nota acusando o jornal de transformar manutenção rotineira em especulação.
Nos comentários, familiares de outros desaparecidos mencionavam obras, túneis e empregados que nunca voltaram do turno. Havia histórias sem data e acusações sem prova.
Uma mensagem direta se destacava:
`Minha irmã trabalha no arquivo. Rejane nunca teve enxaqueca. Encontrem ela.`
Sandro mostrou a Salomé.
A delegada fotografou o contato e pediu que ele preservasse a mensagem.
Janara dobrou a planta na linha da antiga lavanderia. A diferença de sete metros deixara de ser erro de desenho. Era uma área paga, mantida e retirada dos registros de acesso.
Às oito e quarenta e seis, a equipe seguiu para o hospital.