Capítulo 8 - Debaixo do hospital
O portão da antiga lavanderia ficava atrás de uma fileira de carros apreendidos.
A laje do hospital ocupava quase todo o terreno. Ervas cresciam nas juntas, e placas de concreto cobriam os lugares em que escadas e elevadores haviam sido cortados. O estacionamento municipal instalara refletores, câmeras e um contêiner para os funcionários. Nenhum deles possuía a chave do cadeado preso ao portão subterrâneo.
O metal trazia o nome do consórcio gravado no corpo.
Salomé registrou o objeto antes de autorizar o corte. Um bombeiro usou tesoura hidráulica. O cadeado cedeu às nove e vinte e três.
Atrás do portão havia uma rampa curta, coberta por poeira e marcas recentes de pneus estreitos. Janara mediu a largura.
— Carrinho de carga ou bomba rebocável.
Nivaldo apontou duas faixas cinzentas junto às paredes.
— Mangueira arrastada. O concreto caiu e alguém lavou o piso.
A água da limpeza deixara uma crosta nos ralos. A perícia recolheu amostras.
O resgate desceu primeiro. Medidores indicaram oxigênio seguro na rampa e queda gradual depois da primeira curva. Cibele entrou com um receptor portátil. O cabo radiante seguia preso ao teto, embora o projeto informasse sua retirada.
— A rede continua inteira — disse. — Cortaram somente a alimentação oficial.
Ela conectou um gerador de tom ao cabo. O sinal correu por trinta e oito metros e encontrou uma derivação.
— Há equipamento ligado adiante.
A equipe avançou por um corredor revestido de azulejos brancos. Marcas retangulares nas paredes indicavam armários retirados. Canos antigos terminavam em flanges fechadas. O mapa chamava o trecho de apoio técnico da lavanderia.
Na primeira sala, encontraram a bomba de concreto.
O reservatório estava limpo. A mangueira saía pela porta dos fundos e desaparecia num furo aberto no piso. Um painel adaptado recebia comandos por cabo de rede. Cibele fotografou as conexões antes de retirar o cartão de controle.
— Operação remota — afirmou.
Nivaldo examinou o contador de horas.
— Trabalhou cinquenta e dois minutos nesta madrugada.
— Volume aproximado? — perguntou Janara.
— Entre oito e doze metros cúbicos. Depende das pausas.
— Preenchimento parcial da galeria.
A mangueira tinha resíduos do mesmo tom encontrado junto à placa. A perícia lacrou o painel e colheu concreto do funil.
Depois da sala, o corredor se dividia. O lado esquerdo levava à central térmica. O direito descia por degraus largos até o subsolo dois.
Cibele escolheu o lado direito. A derivação do cabo seguia naquela direção.
O piso mostrava marcas de sola e rodas. Uma faixa limpa junto à parede indicava que algum objeto comprido fora puxado. O resgatista levantou a mão perto de uma porta dupla.
Um ruído mecânico surgia atrás dela em intervalos regulares.
Nivaldo encostou o detector de vibração no metal.
— Compressor pequeno.
A porta estava fechada por duas travas externas. Salomé pediu registro em vídeo. O resgate retirou as travas e abriu a folha direita.
O ar saiu quente. Uma mangueira de ventilação atravessava o teto e terminava perto do chão. O compressor alimentava o fluxo por uma tomada instalada fora da sala.
Havia um colchão fino, um balde, embalagens de alimento e uma cadeira de metal presa ao piso. As correias da cadeira estavam abertas.
No canto, uma mulher dormia deitada sobre uma manta.
O resgatista chamou e recebeu um movimento fraco. Aproximou-se, avaliou respiração e pulso, depois pediu maca.
— Rejane Côrtes? — perguntou Salomé da porta.
A mulher abriu os olhos. Levou alguns segundos para fixá-los.
— Quem perguntou?
— Polícia. A senhora está protegida.
Rejane tentou sentar. O resgatista segurou seus ombros.
— O homem voltou?
— A área está sob controle — respondeu Salomé. — Vamos tirar a senhora daqui.
Rejane tinha um corte suturado de forma improvisada junto à sobrancelha e marcas avermelhadas nos pulsos. Recebeu oxigênio, água em pequenos goles e uma manta limpa. Quando a maca entrou, ela recusou deitar até entregar uma chave curta que escondia dentro da meia.
— Armário da sala seguinte — disse. — Ele guardou os papéis.
Salomé embalou a chave.
— Quem é ele?
Rejane fechou os olhos por alguns segundos.
— Aristeu.
O nome foi registrado diante da câmera corporal.
— A senhora viu o rosto?
— Trabalhamos no mesmo prédio. Ele entrou no arquivo na quinta.
— Veio sozinho?
— No arquivo, sim. No carro havia alguém dirigindo.
— Reconheceu?
— Vidros escuros.
O resgate levou Rejane até a rampa. Uma ambulância aguardava no estacionamento. Salomé designou uma investigadora para acompanhá-la e combinar depoimento médico posterior.
Antes de sair, Rejane segurou o punho do casaco da delegada.
— Tem outra pessoa.
— Onde?
— Mais fundo. Ouvi durante a noite.
— Batidas?
— Uma voz. Chamou Enéas.
Salomé pediu detalhes. Rejane lembrava de uma palavra pronunciada duas vezes e de um golpe contra cano. O compressor dificultava ouvir.
— A voz respondeu quando a senhora chamou?
— Aristeu entrou e aumentou a máquina.
Salomé acionou outra equipe de busca. Janara e Nivaldo estudaram o mapa. A sala seguinte tinha ligação com a galeria do dreno e com uma casa de bombas antiga.
Cibele aproximou o receptor do chão. Havia tráfego de dados na derivação.
— Um sensor envia leitura a cada dez segundos.
— Que leitura? — perguntou Janara.
— Temperatura e oxigênio.
— Outro compartimento ventilado.
Seguiram até o armário indicado por Rejane. A chave abriu uma porta de aço. Dentro havia as onze páginas impressas, um gravador digital, dois telefones e crachás de trabalhadores.
O primeiro documento tinha o código `OS-17441`. O título dizia:
`Apoio emergencial a resgate de pessoal — câmara de alívio / AC-H2`.
Os nomes Aquilino Brandão e Piauí apareciam no quadro de equipe retida.
Janara leu a hora da emissão: dezessete anos antes, às três e quatorze da madrugada.
A versão revisada fora criada às quatro e dois. Trocava resgate por preenchimento de vazio e retirava os nomes.
Salomé guardou a descoberta para a perícia.
O gravador continha três arquivos recentes. No primeiro, Aristeu perguntava a Rejane quem ordenara a troca da digitalização. A arquivista citava a diretoria de implantação e explicava que recebera instrução por telefone. Aristeu repetia datas e nomes de setores. Sua voz mantinha tom baixo, sem gritos.
No segundo arquivo, Rejane dizia que copiara o original e procurara Tâmara Góis.
O terceiro continha apenas o compressor e uma pergunta:
— Quanto tempo você esperaria por alguém que soubesse onde está?
Rejane respondia:
— Já entreguei o documento.
Aristeu encerrava a gravação.
Salomé lacrou o aparelho. A pergunta mostrava o método: ele prendia pessoas ligadas aos registros e controlava a espera. A ventilação prolongava o confinamento.
Cibele seguiu o cabo que saía do armário. Ele atravessava uma parede e descia por um conduíte. O mapa indicava uma casa de bombas dez metros abaixo.
A porta dessa área estava livre. Atrás dela, uma escada de concreto contornava um poço central. O ar ficava mais frio a cada lance. Na base, uma grade separava a equipe de uma galeria estreita.
O concreto bombeado pela madrugada ocupava o lado esquerdo. À direita, sobrava um vão de pouco mais de um metro. A mangueira continuava presa dentro da massa.
O sensor de Cibele estava além da barreira.
O resgate removeu a grade e lançou uma câmera sobre o concreto. A lente alcançou a casa de bombas. Havia outra cadeira, um cobertor e uma caixa de ferramentas aberta.
Nenhuma pessoa.
No chão, um rádio transmitia a cada dez segundos os dados de um sensor colocado dentro de um tubo de ventilação. O aparelho criava a leitura que Cibele detectara.
— Isca técnica — disse ela. — Queria atrair quem seguisse o sinal.
Janara examinou o teto da galeria. Pequenas fissuras atravessavam uma viga. O concreto novo pressionava uma parede lateral.
— Retirem a equipe da base. A carga mudou.
Todos voltaram para a escada. Um engenheiro da perícia instalou marcadores e confirmou deslocamento mínimo. A busca prosseguiria por outro acesso.
Nivaldo permaneceu junto ao último lance, ouvindo os canos. O compressor da cela de Rejane fora desligado. Restavam água no dreno e vibração distante.
Ele tocou o corrimão com a chave.
Um golpe correu pela tubulação.
Esperou.
O retorno veio do alto, perto da rampa. Um resgatista movera uma maca.
Nivaldo guardou a ferramenta. O código perderia valor se qualquer ruído virasse resposta.
No estacionamento, Rejane já estava dentro da ambulância. Salomé pediu autorização médica para duas perguntas.
— Quem estava no muro quando Nivaldo ouviu as batidas?
— Eu.
— Aristeu retirou a senhora por qual caminho?
— Abriu uma placa no chão. Disse que a parede precisava ficar fechada até o concreto chegar. Depois me trouxe para cá.
— A senhora viu Enéas?
Rejane assentiu.
— Na quinta à noite. Ele estava numa sala abaixo desta. Tinha um ferimento na cabeça e conseguia andar.
— Aristeu levou os dois?
— Enéas já estava com outro homem.
— Reconheceu?
— Usava capacete branco. Aristeu chamava ele de chefe.
As portas da ambulância se fecharam.
Salomé olhou para o hospital reduzido a laje. O caso acabara de ganhar um segundo autor vivo, ligado à hierarquia da obra.
Dentro do armário, o documento de dezessete anos antes guardava os primeiros dois nomes que a versão oficial apagara.