Capítulo 11 - Oito horas Enterrado nas Profundezas · Capítulo 11 de 18
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Capítulo 11 - Oito horas

O pacote chegou ao correio de Sandro às dezessete e trinta e oito.

Continha um relatório assinado por Gilvan Barreto, oito fotografias do poço S-9 e uma planilha de pagamentos. O último arquivo era uma imagem capturada naquela tarde. Gilvan aparecia entrando na Estação Mercado Novo com a pasta sob o braço.

A mensagem tinha uma condição:

`Confirme tudo antes de procurar a polícia. Às duas da manhã, o acesso será fechado. Gilvan sabe onde está Enéas.`

Sandro leu duas vezes. O endereço do remetente usava serviço temporário. Os metadados dos arquivos tinham sido removidos.

Ele encaminhou a imagem para a editora e pediu que segurasse a publicação. Depois abriu o relatório de Gilvan. O documento aprovava a vistoria física do S-9. As fotografias anexas eram anteriores à conclusão da forma. Uma delas repetia o mesmo trabalhador ao fundo, com roupas diferentes, indicando montagem de dias distintos.

Havia fraude suficiente para uma matéria.

A última linha da mensagem continha urgência suficiente para uma ligação.

Sandro abriu a conversa com Salomé. O indicador mostrava que ela estava online. Ele começou a escrever, parou e apagou.

A fonte pedira confirmação. Caso entregasse o pacote inteiro, perderia acesso aos arquivos e à pessoa que afirmava conhecer a localização de Enéas. A polícia poderia impor sigilo. O jornal ficaria com a mesma nota oficial de sempre.

Sandro enviou apenas uma pergunta:

`Encontraram Gilvan?`

Salomé respondeu:

`Busca em andamento. Avise se ele procurar você.`

Sandro guardou o pacote.

Nos últimos três anos, ele entregara quatro investigações depois que órgãos públicos convocaram entrevistas coletivas. Em cada caso, a apuração própria virara complemento da versão oficial. A chefia mantinha seu nome na matéria, enquanto o título destacava a operação policial.

O pacote oferecia aquilo que sempre faltara: documento, vítima e local antes do anúncio público.

Sandro abriu a agenda da redação e criou uma entrada privada para duas da manhã. Disse a si mesmo que enviaria tudo a Salomé logo depois de confirmar o lote. A decisão ganhou aparência de método quando recebeu horário e tarefa.

Ele evitou escrever por que a confirmação precisava ocorrer antes do aviso.

Às dezoito e quatro, ligou para o número profissional de Gilvan. A chamada caiu na caixa postal. Tentou o relógio vinculado ao telefone. Uma voz atendeu em meio a ruído de trem.

— Gilvan?

— Quem deseja?

— Sandro Belmonte. Recebi seu relatório do S-9.

— Eu jamais enviei.

— Tenho as fotografias.

O homem respirou perto do microfone.

— Onde conseguiu?

— Uma fonte.

— Entregue à polícia.

— A fonte diz que você sabe onde Enéas está.

— Querem me colocar no mesmo lugar.

— Quem?

A ligação caiu.

Sandro tentou de novo. O relógio estava desligado.

Durante a ligação, uma gravação automática anunciara a próxima estação. Sandro reproduziu o áudio e aumentou o volume.

— Mercado Novo — dizia a voz ao fundo.

Ele já possuía a estação exata, o prazo de fechamento e a confirmação de que Gilvan temia ser colocado “no mesmo lugar”. Abriu a conversa de Salomé outra vez. O cursor permaneceu depois de `Gilvan falou comigo`.

Uma nova mensagem da fonte cobriu a tela antes do envio.

Ele olhou a mensagem para Salomé. Digitou `Gilvan falou comigo`. Antes de enviar, recebeu uma nova comunicação do remetente:

`Arquivo público 2010/EMN/44. Compare a fotografia 6. Você terá o primeiro caso.`

O link levava ao processo de manutenção da Estação Mercado Novo. Sandro baixou o PDF. A fotografia seis mostrava um muro construído dezesseis anos antes. A etiqueta presa à forma correspondia ao lote mais antigo encontrado no apartamento de Aristeu.

Na folha seguinte, o relatório declarava consumo de quarenta metros cúbicos acima do projeto. A justificativa dizia perda por vazamento.

Sandro telefonou para a fornecedora. O atendimento de sábado funcionava apenas para clientes. Ligou para um antigo contato da editoria de obras, enviou o código e pediu confirmação reservada.

Enquanto esperava, escreveu a matéria. Explicou a ligação entre o gerente desaparecido e a concretagem excedente. Deixou o nome de Aristeu fora até obter fonte documental.

Às dezenove e vinte, a editora perguntou se podia acionar o jurídico.

— Ainda falta confirmar o lote — respondeu.

— A polícia recebeu?

— Depois da confirmação.

— A mensagem fala em duas da manhã.

— Temos mais de seis horas.

— E Gilvan?

— Está vivo. Falei com ele.

Sandro percebeu o modo como usara a informação: a voz de Gilvan virara prova de que havia tempo.

Às vinte e dez, a editora iniciou uma chamada de vídeo. Queria examinar a origem do pacote antes de envolver os advogados. Sandro compartilhou a planilha e o relatório. Ocultou a mensagem que mencionava o fechamento às duas.

— A fonte pediu alguma coisa? — perguntou ela.

— Confirmação documental.

— Dinheiro?

— Nada.

— Contato exclusivo?

— Por enquanto.

A editora pediu que ele produzisse uma cronologia e mantivesse os arquivos originais. Sandro registrou o horário de recebimento, o link público e o pedido à fornecedora. Na linha sobre Gilvan, escreveu apenas `contato realizado`.

Às vinte e cinquenta e quatro, Salomé enviou uma mensagem coletiva aos profissionais que acompanhavam o caso:

`Gilvan Barreto está desaparecido. Qualquer contato deve ser informado imediatamente.`

Sandro leu. O aviso transformava a ligação em informação solicitada pela polícia. Ele deixou o telefone virado para baixo e esperou a fornecedora.

À zero e trinta, o contato da fornecedora confirmou o lote e o volume. Também enviou o nome de quem recebera a carga: Otacílio Brenner, então assistente da gerência.

Sandro ligou para a editora.

— Temos a primeira parede.

O jurídico pediu os arquivos. A revisão começou. A matéria poderia sair na atualização das duas da manhã.

Uma imagem nova chegou à uma e trinta e nove. Mostrava a pasta de Gilvan caída num piso de concreto. Ao lado, o relógio do fiscal marcava dezoito e dezessete.

O texto dizia:

`Você confirmou. Agora pode contar.`

Sandro telefonou para Salomé.

— Recebi documentos sobre Mercado Novo e Gilvan.

— Quando?

— No fim da tarde.

— Horário exato.

— Dezessete e trinta e oito.

— O que dizia?

— Que um acesso seria fechado às duas. Falei com Gilvan às dezoito.

— Onde ele estava?

— Ouvi trem. A ligação caiu.

— Envie tudo agora.

Sandro encaminhou o pacote, as mensagens e o áudio gravado automaticamente pelo aplicativo do jornal. Salomé encerrou sem outra pergunta.

À uma e cinquenta e oito, viaturas e resgate chegaram à Estação Mercado Novo. O serviço de fim de semana deixava uma entrada técnica aberta. As câmeras internas mostravam Gilvan descendo com um homem de uniforme às dezoito e doze. O acompanhante usava máscara contra poeira e crachá virado.

Às dezoito e dezessete, o relógio de Gilvan perdera conexão.

O pacote ficara oito horas sem chegar à polícia.

A editora cancelou a publicação e convocou o jurídico. Pediu que Sandro registrasse por escrito todas as decisões desde o recebimento.

— Você falou com uma possível vítima e guardou a localização — disse.

— Eu tinha uma estação, sem setor.

— Tinha horário de fechamento.

— A fonte podia estar manipulando.

— Por isso a polícia precisava receber.

Sandro abriu o histórico. A primeira mensagem a Salomé perguntava apenas se Gilvan fora encontrado. Ele escolhera esconder aquilo que dava sentido à pergunta.

Às duas e trinta e dois, Salomé ligou.

— Encontramos sangue e o relógio de Gilvan perto de um elevador de carga. A equipe busca os níveis inferiores.

— Ele estava vivo às dezoito.

— Estava.

— Posso ajudar com os arquivos.

— Já temos os arquivos. A partir de agora, você fica fora das áreas isoladas e dos briefings reservados.

— Entendo.

— Preciso que entenda outra coisa. O remetente sabia que você tentaria confirmar antes de dividir. Usou sua rotina para ganhar tempo.

— Otacílio?

— Ainda apuramos.

— A primeira carga foi recebida por ele.

— Essa informação chegou oito horas tarde.

Salomé encerrou.

Sandro saiu da redação e foi até o perímetro da estação. Chegou depois que o resgate desceu. A fita policial mantinha a imprensa na praça. Dezenas de pessoas filmavam a entrada, e parentes de Enéas aguardavam junto a uma viatura.

Ele reconheceu a irmã do topógrafo. Ela olhou em sua direção e voltou a falar com a investigadora.

Sandro permaneceu fora. Possuía a informação central do caso e perdera o direito de cruzar a fita.

Quando voltou à redação, Sandro ficou sozinho. A televisão da parede transmitia imagens da Estação Mercado Novo cercada por viaturas. Um repórter de outra emissora falava diante da entrada.

No computador, a matéria pronta começava com uma frase sobre o primeiro crime de uma série. Sandro leu o texto e percebeu que Gilvan aparecia somente como fiscal suspeito. Em nenhum parágrafo surgia como homem assustado que pedira ajuda.

Ele fechou o arquivo.

Às três e seis, uma mensagem de Rejane chegou pelo telefone da investigadora:

`Aristeu perguntava quanto tempo cada pessoa esperaria por alguém. Diga à equipe que ele marca o tempo.`

Sandro encaminhou imediatamente.

Depois abriu um documento vazio e escreveu:

`17h38 — pacote recebido.`

Na linha seguinte:

`18h04 — contato com Gilvan.`

Continuou até registrar a ligação para Salomé, à uma e quarenta.

O intervalo cabia numa página curta.

Oito horas em que ele possuíra uma ameaça, uma estação e a voz de um homem vivo.

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