Universo da obra
Universo da obra
Recolta de estrellas (A Tiburcio de Freitas)
Filho meu, de nome escripto
Da minh’alma no Infinito.
Escripto a estrellas e sangue
No pharol da lua langue...
Das tuas azas serenas
Faz manto para estas penas.
Dá-me a esmola de um carinho
Como a luz de um claro vinho.
Com tua mão pequenina
Caminhos em flôr me ensina.
Com teu riso fresco e suave
Oh! dá-me do encanto a chave.
Do teu florão d’Innocencia
Dá-me as rosas da Clemencia.
Como outro Jesús bambino,
Esclarece-me o Destino.
Traz luz ao mundano pégo
Onde sigo, mudo e cégo...
Com teus enleios e graça
Nos meus cuidados perpassa.
Este peito accênde, inflamma
Na mais sacrosanta chamma.
Faz brotar nevados lyrios
Das cruzes dos meus martyrios.
Dá-me um sol de estranho brilho,
Flôr das lagrimas, meu filho.
Rebento triste, orvalhado
Com tanto pranto chorado.
Filho das ancias, das ancias,
Das mysteriosas fragrancias.
Filho de aromas secrétos
E de desejos inquietos.
De suspiros anhelantes
E impaciencias clamantes.
Filho meu, thesouro mago
De todo este affecto vago...
Filho meu, torre mais alta
De onde o meu amôr exalta.
Amphora azul, de onde o incenso
Dos sonhos se eléva denso
Contellação flammejada
De toda esta vida anciada.
Crysol onde lento, lento
Purifico o Sentimento.
Iris curioso onde gyro
E allucinado deliro.
Signo dos signos extremos
Destes tormentos supremos.
Orbita de astros onde pairo
E em febre de luz desvairo.
Vertigem, vertigem viva
Da paixão mais convulsva.
Traz-me uncção, traz-me concórdia
E paz e misericórdia.
Do teu sorriso a frescura
Rios de ouro abra, na Altura.
Abra, accenda labarédas,
Illuminando-me as quédas.
Flôr nocturna da luxuria
Brotada de haste purpurea.
Dos teus olhos dadivosos
Escorram óleos preciosos...
Oleos candidos, dos mundos
Maravilhosos, profundos.
Óleos virgens se derramem
E o meu viver embalsamem.
Embalsamem de eloquentes,
Celestes dons prefulgentes.
Para que eu possa com calma
Erguer os castellos da alma.
Para que eu durma tranquillo
Lá no sepulchral Sigillo.
Ó meu Filho, ó meu eleito
Deslumbramento, perfeito.
Traz novo esplendor ao facho
Com que altos Mysterios acho.
Meu Filho, frágil e térno,
Soccórre-me do atro Inferno.
Onde vibram gladios duros
Por ergástulos escuros.
E cruzam flammineas, fortes,
Negras vidas, negras mortes.
Onde técem Satanazes
Sete circulos vorazes...
1.º de Outubro de 1895.
Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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