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Mocidade Morta

Universo da obra

Mocidade Morta

Capítulo 1 · Mocidade Morta

Capítulo I

I

Por este sábado de outubro, flava manhã de sol e alta alegria azul de céu aberto, Telésforo de Andrade, dignitário da Rosa, palma d' Academia de França, resplandecente de várias nobilitações estrangeiras, expunha à admiração patrícia o seu novo quadro, um vasto painel estendido por quatorze metros, contando doze de altura, "pincelado a gênio, com maravilhosas nuanças de tons e admirável composição de linhas, à clássica".

Esta rara obra, estardalhaçante de reclamos, tantaneada no jornalismo indígena, anunciada por epígrafes a gordo normando em louvores escorrendo, colunas abaixo, com trestalos regozijantes d'adjetivação pirotécnica, a primeira da decantada série que o seu famoso talento educado na Europa se propunha a produzir para o glorioso renome das armas imperiais nas façanhas bélicas de 1865 a 70, teve a consagração de um panteon de pinho, ao molde do agripino? , enorme como uma rotunda e vistoso de frescas brochadas de gesso e oca.

O colosso de tábuas, almanjarrado em meio de uma praça, empertigava, na pompa soberba das construções capitolinas, o grande frontispício saliente, em duas filas de oito colunas cenografadas com intuitos d'efeito óptico, e para apoio resistente do frontão, triângulo em faixas denticuladas de cujo tímpano se destacavam, sob uma grinalda de loureiro suspensa, os romanos caracteres amarelos de uma inscrição, tarjados de verde: Nobilis et decorum est pro patria laborare; e no friso a palavra Exposição, a negro, amplas letras atarracadas, num acuso proposital de tabuleta para percepção à distância e clareza explicativa da monstruosidade entabuada.

Fisgas de mastros, serpenteadas d'espirais multicores, varavam de todos os ângulos, de todos os cantos do panteon, abrindo seus panos coloridos, festivamente, à cálida viração que os açoitava com um ruído sem eco de fuzilaria longínqua, fazendo-os tremular, flamular no espaço em que a luz transbordante do céu entornava a sua volatilização d'oiro, faiscante e quente, luz pagã e franca, d'églogas e bacanais, que vai reanimando, revivendo e acordando tudo para o evoé à Vida, que exubera os verdes tintos, tufados e frisados na serra distante, que brilha na caliça oftalmizante dos muros, põe irradiações d'astros acesos em serenidades de matinas mádidas na vidraçaria das casas e longe, no declínio extremo do horizonte, tem pulverizações de pólen candente disseminado, diafaneidade visionada de uma gaze jalde aberta em apoteose, batida do clarão fantástico dos holofotes.

Um cheiro acre de folhagem esparzida, desgalhada de fresco, infiltrava-se no ar, saturando-o, como se boiasse em torno do bojo, suspenso na claridade, turibulando à sua grandeza os aromas capitosos dos antigos festivais de triunfo, cheios da pandorga épica de campânulas e trombetas ao escaldar hosânico das recepções aos bravos, sob a agitação farfalhenta de palmas e florear de tirsos. .. .

Havia minutos que a Regente chegara. Viera inaugurar a exposição e, por exagero de aparato emprestado à solenidade, trouxera um galhardo piquete de cavalarianos, sabres desnudados e rútilos, à estribeira do seu coche de curvas molas flexíveis, em forma de enormes SS negros, vergados e retidos, tirado a seis, de sota e palafreneiro, um escanhoado paspalhete, grave na sua libré verde e de largo cairel de prata afivelado.

Metais retiniam em agudezas tintilantes, de uma nítida clareza alegre, ferindo o burburinho zonzoneado da turba que se agrupara em alas, curiosamente. E então, por entre os renques opostos, de vez a vez compactos e mais estreitados, os convidados iam desfilando, silenciosos, sob a inquirição persistente de olhares. Chegavam aos poucos, em bandos, extravasados de carruagens que estacavam súbitas: havia um rumor, um cochichar de multidão, ringir de fechos e cracs secos, cavos, de portinholas batidas. Passava a diplomacia, com seus vistosos uniformes bem-vestidos; passava a rica finança de suíças oleosas, rotundos ventres ostensivos e cintilações de brilhantes engastoados; passava a alta feminilidade aristocrática, sedas frufrulantes, valiosas joalheirias bizarras e discretas nudezas em veloutine, de uma macieza tenra e perfumada. Vinham, depois, a burocracia ensobrecasacada, ictérica de ronceirismos e manhas, a boca repuxada nas comissuras pela bajulice pronta;

anchos medalhões políticos, graves e míopes; jornalistas circunspectos como artigos de fundo; generais de peitos constelados. .. . Toda a nobreza do Império concorrera solícita, correra reverente, em peregrinagem admirativa, ao panteon de Telésforo, dignitário da Rosa e palma d' Academia de França. A folhagem gemia à pressão dos passos, o aroma crescia, alastrava-se no ar. Ondulava, por momentos, um sussurro de comentários. Depois, caía um silêncio recolhido, de pasmo e respeito, e só as bandeiras e galhardetes se agitavam, desfraldados à luz, frenéticos na viração, acenando, acenando sempre às longes montanhas pontilhadas de casarios brancos, às árvores ramalhudas de um parque próximo, à fachada rude dos edifícios, como se quisessem chamar todo o mundo, mostrar-lhe a glória daquele bojo empanzinado, regorgitando de gente, o triunfo enorme daquele acontecimento. .. .

Junto do embasamento reunira-se, à parte, um pequeno grupo de rapazes. Eram quatro Insubmissos de vestes coçadas e jovialidade boêmia. Um deles, que dava pelo nome de Camilo Prado, trazia melhor asseio de cuidados caseiros, parecia o mais amado, pela diferença com que o tratavam; era um anêmico escanifrado com ares de fidalguia abastardada, vago olhar cinzento, umedecido pelas dolências das tuberculoses incipientes e pequeno bigode de fios lisos, à chim; outro, que lhe ficava à esquerda, o Franklin, mais magro do que ele, tinha o imberbe rosto dos colegiais e farta cabeleira loiro-cendrado sob um terrível chapéu negro, de abas de cilada; à sua direita perfilava-se o terceiro magriço, Artur de Almeida, muito orgulhoso num colarinho novo e tão alto que lhe impedia o movimento do oval lamartiniano da cabeça; por trás deles ficava o anguloso contorno, em entalhamento d'ébano, da cara etíope do Sabino, a que a serenidade inteligente do olhar emeigava numa resignação de mártir.

Epigramas e facécias partiam deste grupo, destacando-o da boçalidade admirada do ajuntamento. Olhares desconfiados vigiavam-o d'esguelha, temendo intranquilidades, e um ossudo imundo, de pele olivária dos viciosos crônicos, que chupava o cigarro por uma boquilha de cerejeira, atendia-o, piscando o lúzio tratante, fazendo-se de sagaz. De repente um carro estacou.

O pajem pulou prestes, rodopiando com as abas de uma infame libré amarrotada, a abrir a portinhola. Um velho condecorado desceu, dificilmente, com esforço, gemendo a anquilósis de seus membros d'entanguido, estendeu a mão para o sombrio interior da caleche: um pezinho fino, em pelica Ferry, surgiu, e logo uma cabeça aureolada por um filó armado em pala oblonga, crivado de forget-me-not e ixoras, curvou-se, dobrou sobre o busto, desdobrou-se para fora, e um corpo de galante morena, da frescura aromática dos cremes gelados na leveza primaveral do seu claro vestido de toile, saltou para a escadaria.

De ouvido em ouvido correu um murmáúrio respeitoso: — O Barão de B. .. . — Mas, os do grupo desviaram a atenção para um rapaz, que chegava:

— Bravos, Agrário!

O recém-vindo tinha um largo riso de força no rosto redondo, de grandes olhos pardos e rebuscadores; duas agulhetas de bigodilho negro, caprichosamente ceradas, curvavam-se-lhe às pálpitas ventas do curto nariz grosso como ferrões alerta de lacraus assanhados.

— Que troça! .. .. hein?

— Nada. Faziam guarda de honra ao panteon.

Agrário meteu-se no grupo, a falar, a gesticular, com saracotes de peralta, a cabeça erguida com audácia, a palavra clara na boca sensual, de bons dentes afastados e fortes. Trazia um fato novo de casimira cinzenta, chapéu de palha e um escândalo de seda vermelha enchia grongronas de peru sob o seu colarinho nítido.

Indagaram dele onde tinha arranjado aquele "ultraje ao burguês", que era um estandarte de guerra. .. . e ele confessou, desembaraçadamente, bem alto, que obtivera-o da dedicação amorosa de uma costureirinha da Notre Dame de Paris. Aplaudiram-no.

E, já enfiando os polegares nas cavas do colete, com hostilidades no olhar:

— Atenção! AÍ vem uma das sete maravilhas do Brasil.

Era o Benedito, um professor das Belas-Artes. Apressara o passo, suarento, a mover os braços, desengonçado como um manequim vestido, impulsionado por molas mecânicas. Apenas no terceiro degrau, foi sacando do bolso o convite. Atrapalhou-se, tirou uma papelada que se lhe escorregou das mãos, dispersando-se, voando, borboleteando. .. .

. .. .Uma gargalhada estourou, coriscaram chalaças. O sujeito ficou de zarcão. Tinha apanhado os papéis atarantadamente, quase fulminado de vexame e desapareceu, aturdido, desajeitado, zambro, pela porta do panteon.

E nesse instante um rumor, indefinido ao princípio, logo abafado, profundo, perdido por último em piasplás de matracas distantes, reboou no bojo:

esganiçavam lá dentro — bravô. .. . brra-vô. Cobrindo o esmorecer dos ecos, uma charanga rompeu a sinfonia do Guarani: rasgos de notas selvagens deflagrando-se logo em sonoridades agrupadas, violentas, impetuosas como estrugidos e espadanos de cascatas despenhadas, roncando caudais espumarentos d'águas, pelo alcantil das penhas brutas, no imenso rumorejar das florestas Ínvias. De momento, a grandeza do panteon pareceu altear-se, bojar-se a mais, desmesurada, inchada de glória. Acenavam as bandeiras, flamejavam os galhardetes. Toda uma agitação triunfal o envolvia: o sussurro da turba apinhada, o retintim dos freios e picar das esporas na bainha dos sabres, o sôfrego escarvar dos corcéis inflamados pela música, os reluzentes metais das fardas, a grande luz do dia. .. . E agora os curiosos aumentavam o ajuntamento. Dos bondes, que rodavam por perto, vinham desejos de saltar, de pasmar, como aquele rumorejante povo diante do templo vistoso, onde a pátria exultava no palpitar dos corações, nos deslumbrados eixos visuais de milhares d'olhos. Mas, ao terminar a música, a pouco e a pouco, o estafamento da espera invadiu a multidão. Escoavam-se os minutos, as horas, na impertinência das curiosidades contidas. O sol, a pino, causticava. Já havia queixas, desdéns, insolências. Um indivíduo menoscabava a arte com uma ironia amarga e cínica. Outro, de chapéu desabado, envenenava a maçada com o ódio rubro da sua fúria política, injuriando a Princesa. Alguns questionavam assuntos do governo. Esmoía-se devagar a inveja das posições privilegiadas, dos que foram convidados e deviam estar lá dentro fascinados, libando o gozo estético do célebre painel, na boa companhia de mulheres belas. .. .

Sobretudo das mulheres belas! No grupo, um dos rapazes protestava preferir a moreninha do Barão de B. .. . à honra de admirar a obra genial de Telésforo. E recebia aprovações. "Dessem-lhes o mulherio que andava por lá e se ficassem com todos os quadros do imortal pintor." O da boquilha de cerejeira radiava naquela chocarrice concupiscente, dando de olho à interpretação perspicaz da sua gafeira priápica, prevendo arrepanho de saias e camações desveladas à tactibilidade erótica dos dedos sarrentos. Irritado pela prurigem sensual dos seus instintos, largou a tagarelar sobre rameiras do fanico, de que ele tinha uso inexcedível, mas os rapazes repeliram-no a debique, borrando-o de qualificativos corrosivos que lhe lanhavam a podridão íntima, entortando na sua boca escorbútica sorrisos azedos e desconfiados. Por fim a Regente apareceu no peristilo, cercada de áulicos. A charanga marcial bateu o hino; o coche principesco rodou para o embasamento, deflanqueando a muitidão. Um murmúrio cresceu, parou no ar; retiniram sabres, num lambido frio de lâminas descobertas; corcéis corcovearam, sacudindo freios e sobre a turba, acima de todas as cabeças, esfuziaram pontas de aço retesadas, do piquete em forma.

Telésforo acompanhava a Princesa, curvo, sorridente, quase rastejante.

Ela, loira, desse loiro vago e sumido d'esbatimento pictural, trazia um vestido "afogado" de seda plúmbea, guarnecido de veludo negro; da farta mancha escura, magnificamente delineada, de seu corpo inteiro emergia o roseamento fresco da sua carne: um belo pescoço d'estátua, velado um pouco pela alta golilha de rendas e a cabeça, sem esmeros finos de traços, mas de uma doçura sadia de mulher fidalga, sob um pequenino toucado severo de Hausfrau". O Conde, a seu lado, inclinava o ouvido duro a um cortesão. Durante minutos o artista teve os dedos enluvados da Condessa" em sua mão nervosa, beijou-os com reverência. Depois o coche partiu rápido, num estrépito de galopes. E ele ficou-se, então, entre as colunas cenografadas do panteon de pinho, cercado de dignitários e barões, opulento, majestoso nas suas honrarias. Irradiava-lhe na fisionomia a inocultável satisfação dos recompensados, que ruborescia, ao de leve, as suas faces morenas, estrelava seus grandes olhos meridionais, sorria na camação grossa de seus lábios, espiritualizando-lhe o rosto, aclarando, desgarrando-o do esquema típico dos medíocres com fatalidades expressivistas de gênio, caracterizado a capricho pela cabeleira de anéis, descida para a vasta fronte pálida num canutilho grisalho.

Dignitários e barões retrocederam passos, desapareceram pela estreita porta da rotunda. Telésforo ficou. Ao vê-lo, a turba arfou de pasmo. Os jornais tinham-na assombrado com a sua fama. Durante semanas, durante meses, foi um fanfarrar precursor de arautismo medicvo: contaram os seus sucessos na Europa culta, nas burburinhentas e faustosas capitais da Civilização; esmiuçaram detalhes de chez lui, Os seus gostos, as suas raridades colecionadas, a Sua existência íntima. A pena considerada do Conselheiro Costa Vargas, um velho ídolo bojudo, apoplético de erudição, arqueando ao peso de louros tribunícios e jornalísticos, constelou com citações latinas, na frontaria colunada de um jornal, a ênfase castiça de assinalado artigo em que o consagrava, para todos os efeitos da Posteridade, irrevogavelmente — Gênio, com maiúscula hierárquica. Fez-se, em derredor do seu nome, um círculo luminoso, feérico, que foi iluminar o céu dos recôncavos provincianos, as regiões remotas do enorme território pátrio.

A multidão tinha-o, neste momento, diante dos olhos. Era ele, em carne e osso, o herói! ele, na completação do seu ser, sem falhas deixadas às mãos da admiração estrangeira; ele inteiro, de baixo para cima, das plantas à calotte craniana, todo ele, na compleição anatômica do seu organismo, com a integridade natural das suas funções de vivo, desde as mais simples e visíveis até as mais complicadas e secretas. Nada faltava que lhe diminuísse a grandeza. No busto, os crachás ofertados, chispavam irisações de preciosa areia de brilhantes, a dignitária barrava-lhe o tórax, sobre a saudade roxa duma fita de seda entrelaçavam-se palmas de oiro, e na sua compostura, no seu aplomb de cabeça arrogante, bigodes cerados em agulhões, cavaignac retorcido e aparado à altura do queixo, havia a altivez atraente dos Superiores, que correm mundo no papel das gravuras ou nos cartões fotográficos, a preço reduzido, para o encaixilhamento mural do fetichismo intelectivo dos afinados e virtuosi. Era assim que ela o imaginara, empalecido por vigílias e coberto de glórias.

Quando o laureado artista, o grande Telésforo, voltou da sua abstração à realidade, percebeu que, havia minutos, toda aquela pinha popular, trêmula e ansiante, aguardava o consentimento de ingresso. Curiosos galgaram os degraus do peristilo: tinham-se plantado em sua frente, suspensos de um gesto da sua destra, de um entreabrir complacente de seus lábios. E ele, então, deixando cair o olhar sobre a enorme massa palpitante, sorriu desvanecido, alar' gou com o braço um generoso gesto franqueador.

Por mais uma vez Telésforo sentiu-se predestinado. A multidão invadiu o templo, acotovelou-se, conquistando a primazia da entrada, rolou confusamente, promiscuamente, em troços resfolegantes, febril e múrmura. Os primeiros, que entraram, impelidos pelo grosso da onda, recuaram diante dele, para o não tocar, como se uma auréola invisível o circundasse, o separasse do resto dos mortais. Aos primeiros imitaram os segundos, e depois outros, e mais outros, e a turba inteira. Olhava-se-o com veneração. Algumas bocas tentaram servilidades sorridentes; muitas cabeças inclinaram-se. Um escrofuloso, de pálpebras tresnoitadas, deitou-lhe aos crachás uma olhadela desesperada; as garras crisparam-se-lhe carfológicas. Telésforo nem reparou.

O fluxo invasor empurrou avante o larápio, envolvendo-o nas suas filas movediças. No recinto, uma claridade morna, contida entre paredes gríseas, escorria do alto, da clarabóia velada, para o fundo fechado pela imensa moldura reluzente da tela, encimada por um escudo imperial, sobre troféus de batalhas. Da entrada, em rampa, apenas se distinguia a grande mancha azul do céu. Um povo enchia o imenso bojo. O ambiente abafava. Tépido e enervante, picando o olfato, volatilizava-se um estranho misto de perfumarias de luxo, essências reles de bazar, exalações cutâneas. Amadores, entendidos na precisão das perspectivas, estatelavam, binoculando com a destra em canudo; havia pálpebras cerradas, procurando aerizações; queixos para o ar, extáticos, numa imobilidade muçulmana, de preces. E do singular amontoado de cabeças, irrompia d'espaço a espaço, em conjuntos de ramilhetes, em isolamentos de exemplares seletos, a linda coloração variegada dos chapéus femininos, que lembram vivezas de várzeas solarengas, empós a ceifa, sob a fecundação da luz macia, quando giestas e papoulas sorriem ao Floreal que chega.

Os Insubmissos desciam passo a passo, na ondulação arrastada, abandonada, dos curiosos; devagar, varando aos poucos pequenas falhas de grupos, brechas ocasionais nas fileiras de admiradores fascinados, ganhavam os melhores pontos de observação. Já do centro da rotunda, onde mais denso se tornara o aglomero, via-se o vasto painel na sua grandeza de quatorze metros, enchendo o alto fundo do panteon; de relance — o peso safiroso d'abóbada caindo numa gradação lenta para o cinábrio vago das auroras crescentes, e ao demorar da vista — nuanças, esbatimentos vaporosos, um calor aéreo de amarelos, panos de muros, uma torre alvejando lá-baixo, violáceas sinuosidades de coxilhas. .. . E para o meio da tela, em disposições intermediárias, na tenuidade de uma fumaraça branca, apareciam listras de lâminas, bonés de soldadesca em pelotões consecutivos, distendendo-se, coleando pelo declive do terreno remoto, diminuindo, confundindo-se, à distância, num tom impreciso de debuxos e esmaecimentos de cor.

Agora, nos planos próximos, os relevos se acusavam, brilhavam as tintas: feições pasmadas de infantes a meio corpo, armas esguias de bandeirolas frementes de um esquadrão de lanceiros, duas manchas auriverdes de estandartes desfraldados, uma, vaga, atormentada na eterização branda da longitude; outra, perto, mais larga, mais colorida, batendo ao vento sobre a floresta de aço dos batalhões. .. .

Dominando a ampla planimetria do fundo, erguia-se o grupo principal, sobre um barranco que formava o primeiro plano e esboroava-se num declive brusco, tortuoso e extenso; na curva desse caminho surgia, numa cavalgata de generais, o uniforme vermelho de um chefe inimigo. À frente do grupo dominante, o Imperador estacara o seu hidrópico e grande cavalo branco.

O Senhor Dom Pedro, mão à rédea, o braço d'espada apoiado pelo pulso ao cinturão lavrado, fitava com altivez o prisioneiro de guerra, que se aproximava; o seu corpanzil esganchado na cavalgadura, tinha a erectibilidade dos Invencíveis, a que um poncho de gaúcho, atirado pelos ombros, aumentava de arrogância. Guardava-o um simétrico Estado-Maior, elevadas patentes do exército, nobres nos seus fardões de gala, com a fulguração marchetada de medalhas e insígnias. .. .

Daqui, dali, dedos varavam o espaço, apontando os personagens; os seus nomes eram citados; comentavam-se-lhes os méritos; o zonzonear das vozes reverberava no ar como num interior afanoso de oficinas. Olhos fixavam, parvamente, na tarja baixa da moldura, um círculo de louros entrelaçados ao redor do dístico: Rendição de Uruguaiana - 28 de setembro de 1865. Sentia-se, vindo da tela, esmorecido, quase diluído, o olor dos vernizes e dos óleos. Num grupo, três senhoras teimavam a respeito de uma das figuras do Estado-Maior. Mas Telésforo veio explicar-lhes que era o General Mitre, "o bravo dom Bartolomeu Mitre", e uma moreninha de rosto gorduchito, com uns magníficos olhos de ave notuma, papagueou, acalorada, vitoriosa, sacudindo a cabeça:

— É o que eu dizia, é o que eu dizia. .. .

O laureado artista teve uma frase amável, rápido paralisada, porque um obeso ensobrecasacado abriu-lhe os braços:

— Ó grande Rafael! — e o foi levando para mais vizinho do quadro, a perguntar, interessado, se a luz era da tarde ou da manhã. .. . Mas, "tudo magistral! Magistral!"

Telésforo passeiou o olhar pelo painel. A sua obra pareceu-lhe mais vasta. Era um pórtico franqueado para o cenário daquele dia 28 de setembro, É trazendo à percepção de cada qual a flagrante verdade do fato. A impressão apoderou-se de toda sua sensibilidade psíquica, apagou-lhe a fria perscrutação do habituado, para incendiar dentro dele a admiração de si mesmo, como se nunca houvesse visto este enorme quadro, e todas as suas faculdades, absorvidas pelo poder atentivo, lhe trouxessem a estranha sensação de um sonho consciente. E, de olhos abertos ao clarão das cores, imobilizou-se, mudo, dominado, visualizante, percebendo apenas a extensão indefinida de um horizonte d'oiro, panos de muros, uma torre alvejando lá-baixo, por onde se estendia a preguiça sinuosa das coxilhas. .. . E a su'alma, vivendo nessa luz, pairando nesse oiro de sol matinal, descansando nessa brancura de torre, embebida no azul, volteando na fumaraça das planimetrias, palpitando em cada figura, levava-o para a tela, trazia a tela para ele, unificando-os, produtor e produto, numa só entidade, fazendo deste o coração, o sangue, a alma dessoutro.

Num momento ele corporificou a sua obra; ela desaparecera por completo, e de suas tintas, de suas perspectivas, de seus traços, unicamente restava Telésforo, fitado por milhares d'olhos, admirado, idolatrado, indo como a intangibilidade de um espírito, como um fluido telepático, aos recessos de cada ser; carunchando no labirinto dos cérebros, correndo por células, levantando idéias, acendendo pensamentos, vindos aos lábios, abrindo-os em interjeições de respeito, espalhar-se pela atmosfera, atomizar-se nos Tempos! .. ..

Duas senhoras estenderam-lhe as mãos. Uma, alta e pálida, com o porte augusto de uma rainha viúva, em gorgorão negro; outra, de cabelos fulvos e um nostálgico olhar verde-onda, na correção de um foulard branco. Ele acolheu-as cortês, mas estremunhado, atordoado ainda. E a de porte augusto de rainha viúva:

— Quero protestar-lhe a minha admiração.

Telésforo, comovido, dobrou-se em uma curvatura, submisso; teria genuflexado, se a de cabelos fulvos não se mostrasse curiosa de informações:

queria saber do quanto lhe custara essa obra-prima, que opiniões externaram as sumidades européias. .. . — dizia, parando nele o seu nostálgico olhar verdeonda, misterioso e belo como um mar de lenda.

Prazerosamente penetrado desse cuidado, contou a facilidade? com que trabalhara, "gastara três anos, e esse tempo, porque todos os dias tinha o seu atelier invadido por uma sociedade distintíssima, que lhe roubava as horas em deliciosas palestras; quando não eram visitas a palácios, a museus, a estabelecimentos de instrução! .. .." E como as senhoras atendiam, presas na sua admiração, falou no luxo dos príncipes com que convivera, chegou a pontilhar, subtilmente, uma aventura de amor. .. . porém as senhoras pestanejaram embaraçadas; uma tornou-se ligeiramente lívida, a outra estremeceu num relâmpago de rubor, e logo ele, saltando sobre o pequenino escândalo, com uma perícia de truque diplomático, que sufocava a oportunidade de juízos, comunicou estar esboçando um novo quadro, desta vez assunto mais delicado: o Enterramento de Atalá. Dependia do governo.

— Ah! muito bonito — disse a pálida. — E a Academia?

— Não sei, minha senhora, o governo quer que eu a dirija. .. . Não sei. .. .

Aquilo vai tão mal! Demais — acrescentou com esgares de ironia —, demais, não falta quem a dirija, e melhor do que eu.

As senhoras compreenderam-no, antepuseram a sua autoridade às conveniências e proteções políticas.

—. .. Descambo para o ocaso, minhas senhoras, estou no declínio. .. .

Relanceou o olhar, de novo, ao quadro; volveu-o à multidão; fixou-o no grupo dos Insubmissos, que ali estava, a dous passos dele. Essa rápida revista tranqúilizou-o e como se uma renovada circulação de seiva rebatesse o seu desalento, concluiu:

— Em todo o caso, se me permitem a imodéstia, hei de desaparecer como o sol! .. ..

— Certamente — aprovou, inesperado, um adamado senhor, de mocidade artificial. Ouvira-lhe as últimas palavras "quando vinha, respeitosamente, trazer-lhe o seu parabém, porque o quadro estava maravilhoso. la além do sublime!"

Sibilava os ss, numa dicção afetada. Todo ele recendia a baunilha. Cumprimentou às senhoras com discreta familiaridade, e se "o nosso artista lhe desse vênia, faria uma pequena observação".

— Oh! Senhor Visconde. .. . — murmurou Telésforo, protestando a maior veneração ao seu autorizado julgamento.

O Visconde inclinou a cabeça luzente de tinturaria: uma risca, muito certa, dividia os cabelos, pelo meio, em duas pastas sobre a testa. Agradeceu e continuou:

— O nosso distinto artista não acha demasiado gordo o cavalo de Sua Majestade?

Telésforo, que aguardara, reverentemente, o reparo, observou a tela durante algum tempo; depois, sem lhe despegar logo os olhos, retorquiu de manso, com urbanidade:

— Peço a Vossa Excelência para notar que o cavalo de Sua Majestade é um produto do Rio da Prata. .. .

— Bem. Muito bem. Assim, tem razão. Contudo, o nosso artista daria melhor prova do bom gosto do nosso sábio monarca, se o fizesse montado num puro-sangue.

O artista sorriu, condescendente e afável, mas respondeu que era uma questão de respeito à Verdade: mudar a montaria do Imperador seria deturpar um fato histórico.

O Visconde calou os argumentos. Esteve olhando o quadro, vagarosamente, como amador, alisando com a mão enluvada o queixo escanhoado e macio. Num gesto aprovativo e pretensioso de significação, meneiou a cabeça, balbuciou um louvor; ia se retirar, porém notou uma comenda no peito do artista.

— Oh! a Coroa de Ferro! . .. . — exclamou, examinando-a. — Muito honroso. Duplico o meu parabém. — Sacudiu a destra de Telésforo num shakehands afetuoso, e foi-se, empertigado, um pouco forçado do ombro esquerdo, a cabeça senhoril, a sobrecasaca espartilhando-lhe a cinta delgada.

Aos poucos a multidão decrescia. Enfatuadas celebridades da política e do jornalismo vinham "apertar-lhe a mão". Por vezes enlearam-se, exclamativos, em abraços. O entusiasmo obliterava do espírito o senso e o esclarecimento; admiradores chegavam a lhe negar o direito da perpetuidade do seu apelido, fundindo-o, anonimanizando-o, na responsabilidade histórica dos Mestres. Chamavam-lhe Ticiano, Rafael, Murilo, Velásquez! O exagero resvalava, pela inconsciência cognominativa, para o estortego do ridículo. E Telésforo sorria, talvez pensando no deslumbramento purificador das idades, na clarividência de uma época por vir, ainda mergulhada no mistério das gênesis, imperceptível e obscura no seu tardio embrionismo de compreendedora, de ultra-requintada, formando-se, quintessenciando-se, de geração em geração, através de séculos, em camadas superpostas como os protoplasmas criadores, até corporificar, com as perfeições acumuladas, um todo uniforme, completo, extraordinário, outra geração ou outra raça, superiormente sensibilizadas, poderosamente intelectuais, para divinizar um Nome, estendê-lo à contemplação das Eras! .. ..

Devia ser tarde: a luz rareava. As duas senhoras despediram-se; e, mal se havia extinguido o exalo inebriante dos seus movimentos, já Telésforo era acometido por um descarnado colega, amarelento e carapinhoso, de botins que ringiam.

— Oh! Feliciano! .. .. — exclamou o artista; e, estreitados, trocavam-se palmadinhas carinhosas nas espaldas. Quando se desabraçaram, o Feliciano tremia, abalado por tão grande honra, com babugens de felicidade na dentuça.

E Telésforo, agarrando-se-lhe à manga, confidencial, quase ao ouvido dele:

— Então que há sobre a Academia?

— De novo, nada. Os homens estão na brecha.

— Pois a Princesa, ainda hoje, falou-me a respeito. Nem imaginas o que eu lhe ouvi! Se a Posteridade falasse por sua boca. .. .

Suspendeu a frase; seus olhos brilharam procurando a tela, e após um momento, pronunciando palavra por palavra, numa forçada ironia, que lhe adocicava deliciosamente a palatina, terminou:

—. .. a história das artes só teria o clarão do meu talento!

O amarelaço meneiou a caforina, ? emudecido. Caiu um silêncio. A luz ia minguando docemente — apenas uma claridade outonal, levíssima, de sombras saudosas das Trindades plangentes, derramava-se pelo recinto quase deserto. Pelo sossego do bojo, ouvia-se o ciciar de vozes, em conchavo, na parçaria dos Insubmissos. Telésforo começava a arquejar ao cansaço daquela glorificação. Confessou "estar esfalfado". A própria roupa pesava-lhe; era como se tudo quanto ouvira de encomiástico, todas as louvaminheirices, tivessem ficado sobre ele, nos seus bolsos, nas dobras do seu fato, nos seus poros, na sua cabeça, na suw'alma, pesando muito. O colarinho incomodava-o, suado e quebradiço; as calças escorregavam, deslocavam-se das pontas do colete. Esquadrinhou para os lados: unicamente restavam ali o Feliciano e os rapazes, que o observavam. Então, resoluto, meteu os polegares nos cós, e repuxou-as, a sorrir para o amigo, a desculpar-se dessa irreverência. Mas Feliciano não o atendeu: pregara o olhar na tela, deslumbrado.

— É alguma cousa. .. . hein? — despertou-o Telésforo, sacudindo-lhe com familiaridade a gola do fraque. — Quero ver, agora, o que a inveja vem dizer da minha obra. Estou aqui, estou crucificado pelos zoilos, à maneira de S.

Paulo, de cabeça para o chão. .. ."º Mas, que façam igual, que consigam isso, que eu consegui hoje. .. .

E levantou os ombros com desprezo.

— Ora! Que m'importa o rabear das víboras? ! Eu não vivo nas trevas!

Ataquem-me de face! .. ..

Parou. O grupo ouvia-o. Tinha-se aproximado dele. Agrário afastara-se, precavido, e sorrateiramente, para a porta, e o Feliciano, abeberado da honrosa intimidade do grande artista, seguia-lhe as palavras, dando com a cabeça aprovações. Seu olhar magnetizara-se nele: automático, esquecido de si mesmo, tinha cruzado as mãos às costas, e pendulava um guarda-chuva pendente do torçal de berloques. A voz de Telésforo desenrolava-se num crescendo de apóstrofes e orgulho, cujas frases crepitavam em labaredas ou referviam em estalidos frouxos como cames humanas nos fogaréus dos sambenitos.

— Inveja. .. . — balbuciou Feliciano.

— Sim, inveja. Mas eu não invejo ninguém. Eu sou isto!

Num largo distendimento do braço, simulou abranger o imenso painel.

A magnitude sintética do gesto estancou as palavras nos seus lábios, fechando-os com o selo sagrado da ultima ratio". Em repente ansioso percorre a sua obra, temendo que ela houvesse desaparecido na penumbra vespertina, que as suas tintas não fossem mais que"? uma impressão recordada, uma lembrança morosa, o esgrafio de uma reminiscência tênue. Não! Ela ali estava, enorme, quatorze metros de pano estendido, destinado aos séculos, brilhando ainda a riqueza de seus tons amarelos, como uma pulverização de oiro, um resto de luz etema, que os tempos iriam valorizando, penetrando de vez a mais, no tecido, brunindo e metalizando, até amalgamá-lo com a valiosa refulgência das libras empilhadas do seu preço. Ah! quem fazia aquilo, era um Vencedor!

E ele não sentira a vitória nas aclamações desse dia? Que era esse bojo, esse amontoado de tábuas, senão uma glorificação? Levantaram-no como um Templo, deram-lhe a forma monumental dos capitólios, encheram-no com o que a nobreza possuía de mais acatado, e o povo, em massa emocionada, em ondas sucessivas, viera aclamá-lo! Que mais? Tudo tivera. Em horas, em dous simples circuitos de ponteiros assinalando a marcha desse brilhante dia azul de outubro, vira para além, para o infinito; percebera as letras aurifulgentes do seu nome, galgando a catadupa estrugidora da Vida, parando na História para a eterna rememoração"? da Humanidade, como um sol sem poente! Vencera, enfim! Que poder demolidor, que força destruidora o viriam arrancar da sua eminência? Que o alvejassem com bestas de ironias e catapultas de motejos, virotões e pelouros cairiam sem o atingir, nunca mais, nunca mais! .. .. da mesma maneira que uma saraivada de fundibulários, visando o inimigo acobertado pelo manto sagrado do ídolo. .. . Do ídolo! E em que era ele menor que um ídolo? .. ..

No borbulhar da sua fantasia cresceu uma visão dos priscos tempos atenienses em que devera ter nascido e se ficado na estrutura esculturada de um deus omnipresente, venerado no seu pedestal de pórfiro, no ádito das Academias, onde viriam anciões togados apontar a sublimidade das suas obras a éfebos embevecidos, suaves insexuais ebúmeos, d'olhar aceso em sonhos, que repetiriam, em êxtasis, a tradição do seu nome, cantando-o como um verso sonoro, espocado num beijo entre o fresco desfolho de jasmins e rosas de duas bocas amantes. .. . Ah! se ele tivesse nascido nesse tempo! .. .. Mas, que lhe importava a ninharia de milênios? .. .. E tufou-lhe o peito, inundou-lhe os pulmões, varou-lhe a garganta, um histérico desejo de gritar, de fazer repercutir pelo mundo, pelos céus, pelos sóis, a sua glória excelsa, como um cântico sempiterno, ecoando na imensidade, nas fulgurações da luz, na indestructibilidade do ar!

Acordado, volveu ao Feliciano. Ia falar-lhe, quando um dos Insubmissos, o Franklin, estacou defronte da tela, e abrindo os braços, profeticamente, berrou:

— Sublime! Único! Telesforomidal!

E foi-se com os companheiros, às gargalhadas.

Telésforo estremeceu, lívido como um cadáver. As exclamações do rapaz reboaram no recinto, enchendo-o com um fragor de trovão que arrebenta e rola. Os ouvidos do artista estalaram numa trituração de ossos; ziguezagueou-lhe nas vértebras um corisco frígido e com ele uma dolorosa, angustiosa sensação de desabamento, tal se se aluísse em pó, se se desmantelasse em fragmentos inúteis. Durante longos minutos, permaneceu assombrado; ao pânico sucedera-lhe um atordoamento de sangue nas pupilas, um remoinhar de idéias azoinadas, julgando-se presa de alucinação cataléptica, pensando numa crise d'esgotamento, pela contínua vibração nervosa. Anelante, apreensivo, fitou o espaço e um vazio nirvânico dominou-lhe a retina. Tremeu apavorado, sem voz; mas, num arfante, desarcado esforço, arreganhou com violência as pálpebras, esgazeou o olhar para diante: fizera-se uma opacidade de longes hibernais no fundo do painel, as figuras do primeiro plano pareciam flutuar, dissolvidas, na indecisão das mortalhas de um nevoeiro, e a imensa moldura era como um pórtico metálico, em escâncara, para o Passado, luciluzindo na densidade d'esgarçadas recordações penosas. Uma melancolia derramava-se na rotunda, deslizando pela vidraçaria baça da clarabóia, subtil e penetrante, fremindo em arrepios de asas desmedidas que se abrem flácidas, espargindo a poeira olvidante das trevas, num ruflo cansado de gemido agônico.

As carótidas de Telésforo batiam em solavancos; a respiração siflava nas suas narinas com titilações de ânsia, e só, muito lentamente, depois de i demorado fitar, foi que ele compreendeu a razão desse diluimento, dessa transição de efeito. Num hausto de alívio fixou o amigo, inda mais amarelento e descarnado, e numa voz sumida, repassada em soluços, perguntou:

— Que biltres são esses?

—. .. São — disse o Feliciano, medrosamente, num sussurro trêmulo — o Zui!

Telésforo arregalou o olhar, espantado, sem compreender o que ouvia. .. . i

— o Zu!

j

Mocidade Morta

Sinopse

Leia gratuitamente Mocidade Morta, de Gonzaga Duque, romance brasileiro de 1899 em domínio público. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir do PDF OCR da Fundação Casa de Rui Barbosa, com novo OCR do miolo, revisão de ruído e capítulos em HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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