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O Romance de um Homem Rico

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O Romance de um Homem Rico

Capítulo 1 · O Romance de um Homem Rico

Prólogo da terceira edição

« — Este foi o mais querido dos meus romances» C. Castelo Branco, Prefacio da 2a. edição do Romance de um homem rico.

Quando Camilo Castelo Branco escrevia no seu livro dilecto esta sentença: — «O homem não acha em si os alívios da razão quando os vícios lha degeneram», estava julgando a sua própria alma no tribunal austero da consciência.

Não vejam em isto censura, os melindrosos por conta alheia.

O romancista, se não é um armador de encomendas, um preparador de efeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que lhes atribuiu, se com eles ama, odeia, chora ou blasfema, faz como o sábio, o mártir da medicina, que, para se convencer e para não falsear a ciência que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.

Camilo era aqui o pensador, o filosofo, o analisador frio do seu excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não ver distinctamente o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe lucida a verdade, fosse onde fosse o esconderijo dela, fosse qual fosse a distancia em que demorasse.

Se o romancismo é mester, o escritor é artífice; se é arte, se é ato impulsivo, o romancista é poeta.

Quando Camilo Castelo Branco escrevia no seu romance mais querido: — «Não sei que haja aí outros incentivos que me chamem aos olhos as lágrimas do coração. Quem me quiser ver chorar e vibrar de não sei que veemente e religioso entusiasmo, conte-me cazos da natureza de aqueles: faça-me acreditar na existência de umas almas que vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina», declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o gênero da sua poesia.

E como quem diz: — o sintoma da sua doença.

Pois não têm sido apodados de — loucos — os poetas? Se loucura é a desconformidade de atos ou de sentimentos com as regras da fria, pautadas e articuladas no código do senso-comum, vamos, que não têm os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos seus contemporâneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum rasto de fátua fosforescência na travessia longa ou curta da sua derrota.

Loucura lucida, mas loucura incontestável; loucura impulsiva e incurável, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os aplaude e os escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.

A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que profetisa e chora, loucuras foram; por mais que os poetas de hoje queiram malsinar aqueles homens de ajuizados, na própria defesa, estulta, egoísta e cobarde.

Produziram prodígios, mas o prodígio é producto abortivo ou monstruoso; não cabe nas leis da normalidade.

Alguns têm conseguido furtar ao teatro anatômico da crítica os vestígios do corpo de delito; é certo. Virgílio, por exemplo, e Horácio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas cezareos, — os Metastasios do império, um, inventando genealogias realengas:

«Mecenas atavis œdite regibus»

outro, cantando apoteoses divinas:

«Deus nobis hœc otia fecit. »

Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do gênio e segredando lhe estrofes acomodatícias.

Desde sempre, e felizmente, andou o são juízo a enxertasse no gênio. Raras vezes pegou a enxertia; é certo.

O gênio não é só o demônio incubo dos poetas, e demônio recalcitrante ao exorcismo; torna-se em eles mais patente, porque, sob aquela forma, estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incêndio; ao menos — aparente. O gênio expõe o sábio de qualquer gênero a todos os perigos; — Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução de um problema; Galileu ouza afrontar as letras sagradas e só consegue apagar a fogueira de um auto de fé por um ato de fé, ou de prudencia; Giordano Bruno é queimado diante do Vaticano, exactamente onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o vírus-rabico expôz-se a morrer da pior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue da verruga persiana para ver se era violenta a doença, e morre da experiência; Parkinson inocula o lúpus, expondo-se, — herói sem himnos! — à morte, pela humanidade; outro aproxima-se de uma crátera para devassar os segredos da erupção vulcânica.

Quantos insensatos!

Se depois da loucura da ciência quiser alguém percorrer a da religião, — S. Macário, S. Simeão Stilita, Santo Antônio, as alucinações dos êxtase em que se vê Deus e os ceos, o gênio das profecias, a inspiração dos apóstolos, a coragem alegre dos mártires, que exuberâncias de loucura, que degenerescências pathologicas, provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a ciência nos estudos da sua extensissima simptomatologia?

E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...

A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São também uns sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas desconformidades com as regras da fria razão, pautadas e articuladas no código do senso-comum. Produzem as monstruosidades de Alexandre no Oriente, dos trezentos nas Termopilas, dos Gracchos em Roma, de Antônio em Filipes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em França; de Bonaparte na Itália, do Infante-Santo em Fez, de Saldanha no Porto e em Montevidéu, de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e de Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas suas conquistas, de Xavier no apostolado. — Deus, família e pátria! — O que estes motes produziram de loucuras!

E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos desvios da razão e do senso-comum não produziram e não produzem! desses que espantam o mundo e se julgou, — ingenua simplicidade! — que honravam e enobreciam a especie humana?

Tudo o que foi épico e se chamou grande e belo e mereceu cânticos e triunfos e apoteoses e história e monumentos e centenários e culto, através de séculos e milênios, tudo hoje é condenado pela sentença fulminante deste bom-senso burguêz, comesinho, utilitário, pratico, omnipotente e inexorável. A transformação parece completa; Sancho depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu desenterrou o bezerro de ouro, não para o adorar mas para o negociar; o código depôz a história; a pirataria depôz o código; as notas e as ações bancarias colaram-se nas folhas da epopêa.

Cristo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição: esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento, — foi um rebaixamento; inútil por improficuo. E será ineficaz enquanto a ciência, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que geram as grandezas, e com elas o desnivelamento sucessivo da humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociais.

Aí estão elas — nas ciências, nas artes, nos descobrimentos de toda a especie; mais humanos, mais profícuos talvez que os antigos, mas careceram de eles; que não pode haver continuação sem principio. Das pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlântico, o Pacifico, e rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os istmos nascêram os abridores de canais; as assoladoras naus, que até escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos sequestrados ao convívio dos outros povos do mundo, andaram, com graves perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quais hoje passa livremente o comércio, por baixo dos quais hoje se assenta o telegrafo.

Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do gênio se não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido Camilo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciência que tenho estado a fugir de colocar na classe dos loucos o nosso presado romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por conjectura eu tenho de o meter nesta companhia, que me vi forçado a provar-me que a companhia pode ser de gente desafortunada, mas é provadamente ilustre.

Nunca a fria razão, nunca o senso-comum fizeram couza que não fosse fria e comum. Excelentes caixeiros e guarda-livros do comércio, excelentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na guerra, excelentes oficiais da fazenda, na marinha, professores, sacerdotes (para cônegos, não para missionários), juízes, magníficos ecônomos e descobridores de pechinchas — o espirito conservador — os Wichnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantíssimo, imprescindivel serviço faz à humanidade esta gente de são juízo e razão fria, mas, por conselho dela, nem a mãe defenderia o filho contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra as chamas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o náufrago contra as ondas. Temperatura igual e morna; — a selvageria tropical, primitiva, tendo Sancho na presidência e o velho de Camões no conselho de estado.

O senso-comum até, por concessão transitória, — sagaz bom-velho! — já criou, para iludir e desnortear poetas e romancistas, uma literatura; em ódio às artes, uma arte; em ódio ao gênio, engenhos. Louvável empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê enxamear a loucura, a mais grave das moléstias, e com ela exgota a sua terapêutica. Benemérito desejo! Mau será se a cura for pior que a doença.

De muito dizer-se ao teórico: — sê pratico! — faz-se dele às vezes um ladrão, às vezes um assassino, às vezes tudo isto, com prendas variadissimas.

De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola; — um grande poeta e um grande romancista... contrafeitos; e com eles — o satanismo e o naturalismo; porém — naturalismo — de mesa de autopsia ou de laboratório chimico.

— «Faz-me tristeza pensar, — escreveu Camilo num dos prefácios do seu Amor de perdição, — faz-me tristeza pensar eu que floreei nesta futilidade da novela quando as dores da alma podiam ser descriptas sem grande desaire da gramática e da decência. Uzava-se então a retorica de preferencia ao calão. O escritor antepunha a frequência de Quintiliano à do Collette-encarnado. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrófulas à face do leitor! naquele tempo, inflorava-se a pústula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcizar num espelho fiel.............................. Já não verei onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande revolução rigolboche. » —

À república das letras, tão ilustrada e ilustre, histérica, porque é feminina, e devendo ser democrata, porque é república, faltava o tom e o vocabulário ultra ou infra-humanos da sem-cerimônia. A grande dama era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar acomodatícia, ao arrancar-se dos altos coturnos, entendeu que o melhor era ficar sem meias, como na Grécia e na Judeia, e não lavar mais os pés; imitação de Santo Antônio, segundo o testemunho de Maudslei.

Não se modificou — transfigurou-se; o que, longe de provar juízo prova só mais uma degenerescência pathologica da mesma doença.

Para que tentar esta cura? Se não fosse inútil seria prejudicial. Na Fedra pôs Platão na boca de Sócrates: — «Os maiores bens são produzidos por um delírio inspirado pelos deuzes. » — O — Est Deus in nobis, — que traduz, senão a loucura do gênio? De Cristo escrevia S. João — «Ele é possesso do demônio e está fora do senso-comum, para que o escutais? »

Feliz culpa esta do desvario genial, quando pode, em bem, em honra ou em gloria da humanidade exaltar a fantazia, depurar os instinctos, aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e electrizar a atmosfera social, varrendo dela os miasmas pútridos desse positivismo absorvente e sufocante que paira e pouza sobre os povos como as nevoas densas da palude.

Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenufares, pela sua beleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromáticas, toma, enreda, enlaça e asfixia a descuidada gente que se lhe aproxima.

Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos arvoredos. — A muzica, os perfumes, os matizes, a transparência do éter, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, sem aplicação culinária nem apropriação inventariável! E contudo, patrimonio de todos.

num livro adorável de Octávio Feuillet, livro que se dignou traduzir para português o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma rapariga nervosa que pretendia simular de positivista: — «De mim digo que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de crer que ainda há na terra almas capazes de sentimentos generosos. Creio no desinteresse, creio até no heroísmo, porque tenho conhecido heróis. Além disso apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu caramanchão e também me apraz edificar a minha catedral nas nuvens que passam. Tudo isto pode ser que seja ridiculissimo, minha formoza menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os tezouros do pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a singularidade de nos não lastimarmos. » —

Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola novissima. Sei-os de cor, pois com as suas criticas me têm por vezes honrado. Nunca me ofenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, que nunca lhes quis mal.

Tinha pena de ver grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as flores do mal; tinha pena! menos por eles, que andavam embandeirados em triunfos e iluminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e não faziam. Enquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não aplaudia era por ver o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha a ingenuidade de julgar sagrados.

Camilo Castelo Branco deixava o coração dictar os seus livros, e daí o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, indignar ou amar. Cobria as suas lágrimas com um véu de ceticismo que o mostrava mais viril, e deixava em vacilação os espíritos fortes sobre a verdadeira essência da sua índole de escritor.

Ceticismo embrionário; dúvida da própria dúvida.

Desesperança formal nunca eu lha conheci.

Quando vacilava respondia a si próprio, depois de ler o livro do padre Álvaro Teixeira: — «A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para saírem de novo à arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusilânimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a criatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a pujança dos seus músculos de ouro, da sua impavidez e soberba. »

— Deus — era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo a mais constrictora ânsia da sua alma.

Quem há de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça paternal, — a da caridade? — «A solidão sem Deus não serve para infelizes maus» — nos diz ele no seu livro de consolações — O romance de um homem rico — onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da resignação:

— «Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado... Paciência é a arma, é o triunfo, é a porção divina do homem, é a bem-aventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e encontram os de Deus. »

E quando, a sabôr do seu íntimo sentimento lhe corria a pena inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo através da janela do seu gabinete de trabalho, que a fantasia lhe transportára para uma cela de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:

— «Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como aditamento à «Flor dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. » —

E também lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito como ele é, não podia desconhecer que a verdade da representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da arte: — «Rien em est beau que lé vrai». — Por isso ele nos diz: —... «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade. » —

Mas há naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a índole do artista que o reproduz.

O choró é real; o rizo, também; o afeto, a paixão violenta, existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra literária ou obra de arte que se funda nestes afetos, sentimentos ou mostras externas de sentir, é romântica, forçoso é confessar que o romantismo existe na natureza.

Não desconheçamos porém que também é real o monturo, a podridão, a devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasfêmia, a praga.

Compreendo que seja conveniência da literatura e das artes ir procurar revelações e inspirações por todos esses teatros em que a humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe fixar a caracterisação e dal-o por único realismo, é falsificar a verdade, é calumniar o que é belo e grande, é derrancar o bom gosto e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a literatura não é educadora, não é nada e para nada serve.

Se a família, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquilo que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os eremitas do passado, os que foram formados em outra escola com outros princípios e outras aspirações.

E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aqueles que tais impuridades espremem dos bicos das suas penas!

Vêrem a cútis fina e transparente de uma mulher formoza e em vez de sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com enleio e prazer, as veias azuis, por onde corre um sangue generoso, mas, com asco, a futura escrófula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se sôb aquela mal empregada transparência, o verme roedor da sepultura! — chamar-lhe à maceração poética, de namorada mas virginal insomnia, — sinais de cançada lubricidade! Desconhecer que há virtudes, achar na flor só veneno, achar na bondade só hipocrisia, na heroicidade e na abnegação cálculos interesseiros e mais nada, no lar só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, falseado logo na origem e pouco agradecível nas tendencias.

Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A propósito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não aceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando Camilo escreve a Corja ou o Euzébio Macário e Zola escreve o Sonho. Passos dados para a concórdia senão para a unificação das escolas, couza por ora difícil mas não impossível, num próximo futuro.

Há na Brasileira de Prazins uma última, talvez definitiva, feição literária de Camilo Castelo Branco. Ali encontram-se primorosos quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo de um assassinato encomendado e ajustado, o carregar da clavina, a saída furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas ante o crucifixo, até que ele volta do seu malogrado intento, dando logar ao jubilo, em ação de graças, da mizeranda espoza, que julga ter obtido o milagre pela intercessão das suas lágrimas e das orações de suas filhas, são primores de arte dos mais subidos quilates.

O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de santos e livrinhos de orações, à porta do templo onde funcionam os missionários, e a murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrílego bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asfixiante dos exorcismos aplicados à pobre histérica, sobre sêrem paineis de genuína e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos procedimentos inquisitoriais e do abastardamento e falsificação dos textos sagrados, postos à disposição de um fanatismo intransigente ou de uma hipocrisia revoltante.

Ali, sim, pode estudar-se o verdadeiro, o possível realismo, num romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.

* * *

Camilo Castelo Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente ansiedade e vão sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em edições populares. É certo que os contemporâneos do grande escritor se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em plebiscitos — primeiro escritor português da actualidade, — honrado pelos poderes públicos, à porfia, procurado por todos aqueles que os combates da imprensa traziam dele distanciados, a unanimidade congrega-se em tôrno dele, no unisono de uma apoteose sem exemplo.

Portugal do século XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas ingratidões.

Ele o reconhece agradecido, aguardando numa ansiedade dolorosissima ver-se restituido ao estudo e ao trabalho — sua religião e seu confôrto.

Teve de abandonar a lida, o heroico triumfador. Aguia que desafiava os deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no insondável abismo de uma escuridão a cada instante mais densa.

Como ele espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um relâmpago, tênue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!

Eu tenho assistido a essa luta que mais parece uma agonia.

A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios de ação, mas pede-lhe paciência! e o homem que escreveu este livro, que soube dar tantos conselhos e oferecer tantos exemplos de resignação, não pode resignar-se.

Como todas as casas lhe dão trevas, foge de todas as casas, de todas as terras, e até de todo o convívio, — porque ouvir, somente, — aqueles que o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia a dia, vai julgando incurável.

Sabe que a sua ansiedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose pode mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.

Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e efêmera dá-lhe fugidia esperança; e ele pensa então e fala nas Chronicas duas rainhas que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina promete-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e ele escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança fugidia como o relâmpago que lhe cruzára pela retina! A descrença volta inexorável e com ela o inferno e os tratos do sempiterno horror.

Então a ânsia do suicídio toma-o de novo e ele afaga o rewolver, como seu último recurso.

Tristissimo.

Assim vive, — se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes pior que a morte, — o nosso grande romancista, à hora em que escrevo estas linhas. Muitas vezes sufoca-o a dor, e ele pede em júbilos que a morte lhe venha num espasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos aflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os braços a procurar mão valedora....

Meu pobre amigo!

Contudo a ciência luta e espera e com a ciência espera, solicita, a amizade. Só ele não quer, ou não pode acreditar, sequer, nesta esperança.

Vive hoje em Bemfica, em país primaveral; numa casa cheia de confortos e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Ali o visitam os seus mais íntimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.

Quantas vezes tem ele repetido:

— «Que eu veja! pouquíssimo embora! o absolutamente indispensável para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi O romance de um homem rico! »

Carnaxide, 1 de julho de 1889.

Thomaz Ribeiro.

O Romance de um Homem Rico

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