Que ninguém leia.
Que ninguém leia
Todos os meus anseios
As páginas proferidas em alto e bom som
Os berros trementes que saíram das letras
O choro sentido, que às linhas sangrou.
Que ninguém veja o meu descontrole,
O sentimento tosco que me perspassou.
Que ninguém saiba, da boba centelha
Que me tornou, justo o que sou.
Que a sorte me afague, que ninguém releria
Todos os poemas que das letras jorrou
Enquanto eu sofria, sorria ou gemia
Num canto, ao relento do meu eu, que sobrou.
Quisera um dia, queimar essas estrofes, mal lidas
E malditos pedaços da minha alma proscrita.
Que se queime tudo, ardendo em chumaços
As palavras que o tempo, tão duro ensinou.
Eliz Leão
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Tem dias
que o amor está bem de perto
na beira de um rio
no chão de areia
na estrada
o por do sol
a lua cheia
tem dias
que sou muito vivo, esperto
de volta sorrio
ouço a sereia
marcada
pelo anzol
buscando a ceia
tem dias
que nossas dores
tem sabor de sorvete
sobre o cavalete
as cores
tem dias laranjas
que sob as franjas
escondem-se amores
Edu Liguori
que o amor está bem de perto
na beira de um rio
no chão de areia
na estrada
o por do sol
a lua cheia
tem dias
que sou muito vivo, esperto
de volta sorrio
ouço a sereia
marcada
pelo anzol
buscando a ceia
tem dias
que nossas dores
tem sabor de sorvete
sobre o cavalete
as cores
tem dias laranjas
que sob as franjas
escondem-se amores
Edu Liguori
Meus Meninos
Pensei em repetir um texto já publicado, aproveitando o dia dos pais (já que não sou um). Lembrei que havia feito o texto inspirado em alguma pérola da Cris Ribeiro (ela tem tanta coisa espetacular que o difícil é não se inspirar no que ela escreve). Pra quem já leu, passe. Pra quem não leu... Bem, leia, talvez valha a pena...
Meus meninos ainda não eram meus meninos quando os conheci; um já tinha 8 e o outro, 5. E eu, justo eu, um autista que não há tinha sido um bom tio, nem um bom primo, nem um bom irmão, nem um bom cunhado mais velho, fiquei com a incumbência de ser um bom padrasto.
Eles não gostaram de mim logo de cara; achavam que eu estava vindo pra tomar o lugar do pai. Não era verdade; o pai já havia abandonado esse posto, e o que eu estava fazendo era tentar preencher um espaço já vago, mas como demonstrar isso para duas crianças?
Talvez por isso eu tenha sido tão duro, tão intransigente, tão crítico e austero. Talvez por isso, eles, que nunca haviam encontrado limite e autoridade, tenham se apegado a mim como um porto seguro - algo que eu não era, inconstante que fui, genioso e chato e ranzinza e exigente.
Mas... O tempo foi passando. E o amor que eu antes tinha pela mãe deles foi virando um amor por três, um amor pela família que não era minha. Eu me cobrei como pai e exigi tudo o que eles poderiam ser como filhos.
E quantas vezes um deles não veio me mostrar algo incrível, e eu não deixei porque não tinha tempo? Quantas vezes os impedi de falar sobre a nova série, o novo jogo, o novo livro, porque havia "trabalho importante" a ser feito? Hoje, olho para dentro de mim, com os olhos do passado, e encontro momentos em que eu poderia ter estado mais com eles, em que eu deveria ter mandado às favas aqueles chefes que sequer sabiam meu nome, nem que eu tinha filhos e família e que devia ser exemplo. Olho para trás com a percepção de que devia ter sido mais presente, mais amigo, mais amoroso. Mais pai.
Mas, hoje, um deles gosta de rock, é músico, está trabalhando com TI. Tudo isso é exemplo do padrasto. O outro, mais novo, adora desenhar e ler, e torce para o meu Flamengo, em vez do Corinthians do pai. Em que momento eu fui tão importante na vida deles? Em que momento eu fui exemplo de alguma coisa?
Hoje eu olho para trás com orgulho, com a certeza de que passei bons valores e bons pensamentos. Olho para trás e percebo que errei muito, e que eles não tiveram a melhor das vidas, e que muito é culpa minha, mesmo eu sabendo que, no fundo, caí de para-quedas nas vidas deles e fiz o melhor que pude. A vida não dá novas chances, não te permite testes nem reloads. Fiz o que achei certo, e, se hoje acho que poderia ter feito melhor, é porque, assim como eles, eu cresci.
E eles cresceram! E hoje eu consigo ser o amigo, o padrasto, o pai, porque eles já evoluíram e aprenderam sobre as minhas limitações. Eles me criaram, mais do que eu a eles. Eles me compreenderam porque, por óbvio, se tornaram pessoas muito melhores que eu. Opa! Mas será que também eu não tenho alguma parcela de mérito nisso?...
Ainda tenho saudade da época em que podia ajustar algo na educação deles. Ainda não percebi que hoje, ainda posso fazer isso. Ainda tenho tristeza em perceber que, um dia, eu fui jovem como eles, e tinha meus ídolos, ainda que hoje já os veja como pessoas comuns. Ainda tenho um certo orgulho de chegar até aqui, vivo, tendo passado dias de dificuldade. Ainda olho para trás e não sei se fui um bom pai, se devia ter sido, se tomei o lugar alheio ou se simplesmente fui improvisando, porque a vida não permite ensaio.
Ainda vou me orgulhar do que fui para eles. Ainda vou me orgulhar do que fui para mim. Ainda vou me orgulhar do que sou, enfim.
E, aí, sim, a vida terá válido a pena. Porque há algo que aprendi tentando ser pai: viver não é algo que façamos por nós mesmos.
Pensei em repetir um texto já publicado, aproveitando o dia dos pais (já que não sou um). Lembrei que havia feito o texto inspirado em alguma pérola da Cris Ribeiro (ela tem tanta coisa espetacular que o difícil é não se inspirar no que ela escreve). Pra quem já leu, passe. Pra quem não leu... Bem, leia, talvez valha a pena...
Meus meninos ainda não eram meus meninos quando os conheci; um já tinha 8 e o outro, 5. E eu, justo eu, um autista que não há tinha sido um bom tio, nem um bom primo, nem um bom irmão, nem um bom cunhado mais velho, fiquei com a incumbência de ser um bom padrasto.
Eles não gostaram de mim logo de cara; achavam que eu estava vindo pra tomar o lugar do pai. Não era verdade; o pai já havia abandonado esse posto, e o que eu estava fazendo era tentar preencher um espaço já vago, mas como demonstrar isso para duas crianças?
Talvez por isso eu tenha sido tão duro, tão intransigente, tão crítico e austero. Talvez por isso, eles, que nunca haviam encontrado limite e autoridade, tenham se apegado a mim como um porto seguro - algo que eu não era, inconstante que fui, genioso e chato e ranzinza e exigente.
Mas... O tempo foi passando. E o amor que eu antes tinha pela mãe deles foi virando um amor por três, um amor pela família que não era minha. Eu me cobrei como pai e exigi tudo o que eles poderiam ser como filhos.
E quantas vezes um deles não veio me mostrar algo incrível, e eu não deixei porque não tinha tempo? Quantas vezes os impedi de falar sobre a nova série, o novo jogo, o novo livro, porque havia "trabalho importante" a ser feito? Hoje, olho para dentro de mim, com os olhos do passado, e encontro momentos em que eu poderia ter estado mais com eles, em que eu deveria ter mandado às favas aqueles chefes que sequer sabiam meu nome, nem que eu tinha filhos e família e que devia ser exemplo. Olho para trás com a percepção de que devia ter sido mais presente, mais amigo, mais amoroso. Mais pai.
Mas, hoje, um deles gosta de rock, é músico, está trabalhando com TI. Tudo isso é exemplo do padrasto. O outro, mais novo, adora desenhar e ler, e torce para o meu Flamengo, em vez do Corinthians do pai. Em que momento eu fui tão importante na vida deles? Em que momento eu fui exemplo de alguma coisa?
Hoje eu olho para trás com orgulho, com a certeza de que passei bons valores e bons pensamentos. Olho para trás e percebo que errei muito, e que eles não tiveram a melhor das vidas, e que muito é culpa minha, mesmo eu sabendo que, no fundo, caí de para-quedas nas vidas deles e fiz o melhor que pude. A vida não dá novas chances, não te permite testes nem reloads. Fiz o que achei certo, e, se hoje acho que poderia ter feito melhor, é porque, assim como eles, eu cresci.
E eles cresceram! E hoje eu consigo ser o amigo, o padrasto, o pai, porque eles já evoluíram e aprenderam sobre as minhas limitações. Eles me criaram, mais do que eu a eles. Eles me compreenderam porque, por óbvio, se tornaram pessoas muito melhores que eu. Opa! Mas será que também eu não tenho alguma parcela de mérito nisso?...
Ainda tenho saudade da época em que podia ajustar algo na educação deles. Ainda não percebi que hoje, ainda posso fazer isso. Ainda tenho tristeza em perceber que, um dia, eu fui jovem como eles, e tinha meus ídolos, ainda que hoje já os veja como pessoas comuns. Ainda tenho um certo orgulho de chegar até aqui, vivo, tendo passado dias de dificuldade. Ainda olho para trás e não sei se fui um bom pai, se devia ter sido, se tomei o lugar alheio ou se simplesmente fui improvisando, porque a vida não permite ensaio.
Ainda vou me orgulhar do que fui para eles. Ainda vou me orgulhar do que fui para mim. Ainda vou me orgulhar do que sou, enfim.
E, aí, sim, a vida terá válido a pena. Porque há algo que aprendi tentando ser pai: viver não é algo que façamos por nós mesmos.
#Desafio 221
222 de 365
Três vezes o pulso,
batida do tempo
suspenso,
eco de silêncios
entrelaçados:
ritmo denso.
Dois,
a dualidade:
sombra e luz,
prumo e desvio,
em gesto tríplice,
a cifra seduz.
No vão
da espera,
o instante
revela:
sem pressa
no toque,
nem eco
na tela.
Número que dança
entre finito e eterno,
guarda e liberta,
no campo das horas,
a beleza
encoberta.
Crs Ribeiro
222 de 365
Três vezes o pulso,
batida do tempo
suspenso,
eco de silêncios
entrelaçados:
ritmo denso.
Dois,
a dualidade:
sombra e luz,
prumo e desvio,
em gesto tríplice,
a cifra seduz.
No vão
da espera,
o instante
revela:
sem pressa
no toque,
nem eco
na tela.
Número que dança
entre finito e eterno,
guarda e liberta,
no campo das horas,
a beleza
encoberta.
Crs Ribeiro
#Desafio 220
Ele chegou lento…
manhã fria que se espreguiça na vidraça.
Mês da nova idade.
Novos ciclos.
Talvez caminhos que o destino rabisque
com a ponta cega de um lápis.
Pelo que palpita o teu peito?
O que ainda ousa querer?
Vai ter coragem…
de fazer?
A vida é só passagem:
dias a mais,
vida a menos.
E enquanto fingimos eternidade,
os sonhos criam poeira nos ossos.
Agosto não é acaso.
É a gosto de quem
segura as rédeas.
Tudo é direção.
A vida só floresce
para quem decide.
A caixa de Pandora
se abriu há muito.
Entre escombros e ruínas,
sobrou algo pequeno,
teimoso,
indomável:
Esperança.
Ela está olhando pra você.
E não vai esperar para sempre.
Crs Carneiro
Ele chegou lento…
manhã fria que se espreguiça na vidraça.
Mês da nova idade.
Novos ciclos.
Talvez caminhos que o destino rabisque
com a ponta cega de um lápis.
Pelo que palpita o teu peito?
O que ainda ousa querer?
Vai ter coragem…
de fazer?
A vida é só passagem:
dias a mais,
vida a menos.
E enquanto fingimos eternidade,
os sonhos criam poeira nos ossos.
Agosto não é acaso.
É a gosto de quem
segura as rédeas.
Tudo é direção.
A vida só floresce
para quem decide.
A caixa de Pandora
se abriu há muito.
Entre escombros e ruínas,
sobrou algo pequeno,
teimoso,
indomável:
Esperança.
Ela está olhando pra você.
E não vai esperar para sempre.
Crs Carneiro
Ele sabe.
Sabe o dia que ela nasceu
Sabe as coisas que ela ama.
Sabe tudo que ela odeia.
Tudo que a faz chorar e sorrir.
Ele sabe os horários dos médicos, o tamanho das roupas e sapatos.
Ele sabe as vacinas que ela precisa tomar.
Sabe as dores e sabe sanar.
Ele sabe quem são os melhores amigos, o nome da professora, pois participa de cada etapa da vida dela.
Ele a segurou no choro ao tomar vacinas, trocou, deu banho. Cantou pra ela dormir.
Leu pra ela desde a barriga.
Ele sabe seus sonhos e os apoia e incentiva.
Ele já inventou mundos com ela.
Ele deseja um mundo muito melhor, pra ela.
Ele sabe ser pai.
Ele ama ser o pai da nossa menina. Ele é pai dos enteados, até.
Ele sabe o que significa ser.
Amamos você, vida.
Feliz dia.
Você é a pessoa mais importante da nossa vida e conquista esse lugar todos os dias.
Eliz Leão
Sabe o dia que ela nasceu
Sabe as coisas que ela ama.
Sabe tudo que ela odeia.
Tudo que a faz chorar e sorrir.
Ele sabe os horários dos médicos, o tamanho das roupas e sapatos.
Ele sabe as vacinas que ela precisa tomar.
Sabe as dores e sabe sanar.
Ele sabe quem são os melhores amigos, o nome da professora, pois participa de cada etapa da vida dela.
Ele a segurou no choro ao tomar vacinas, trocou, deu banho. Cantou pra ela dormir.
Leu pra ela desde a barriga.
Ele sabe seus sonhos e os apoia e incentiva.
Ele já inventou mundos com ela.
Ele deseja um mundo muito melhor, pra ela.
Ele sabe ser pai.
Ele ama ser o pai da nossa menina. Ele é pai dos enteados, até.
Ele sabe o que significa ser.
Amamos você, vida.
Feliz dia.
Você é a pessoa mais importante da nossa vida e conquista esse lugar todos os dias.
Eliz Leão
Há dias em que penso em você,
Lembro da risada,
Do abraço
Do seu cheiro de banho tomado
E do cheiro dos seus cabelos, cheirosos, tão macios e branquinhos.
Lembro das manhãs de sábado, quando íamos à feira,
E dos domingo assistindo os programas da manhã.
Eu acordava às seis apenas pra estar contigo.
Os nossos programas da National Geografic, onde assistíamos os animais, que tanto amávamos... Eu ainda amo pai.
Por sua causa, eu respeito o nosso planeta.
Por sua causa, eu ensinei seus netos, meus filhos,( dois deles, os quais você nem ao menos teve a chance de conhecer), a amar tanto quanto você, os animais.
Sou grata por ser sua filha.
Você foi uma pessoa incrível.
Te amo, pra sempre. Seu nome, e mais do que isso, seu amor por nós, sempre será presente em mim.
Sentimos muito sua falta, todos os dias.
Eliz Leão
Lembro da risada,
Do abraço
Do seu cheiro de banho tomado
E do cheiro dos seus cabelos, cheirosos, tão macios e branquinhos.
Lembro das manhãs de sábado, quando íamos à feira,
E dos domingo assistindo os programas da manhã.
Eu acordava às seis apenas pra estar contigo.
Os nossos programas da National Geografic, onde assistíamos os animais, que tanto amávamos... Eu ainda amo pai.
Por sua causa, eu respeito o nosso planeta.
Por sua causa, eu ensinei seus netos, meus filhos,( dois deles, os quais você nem ao menos teve a chance de conhecer), a amar tanto quanto você, os animais.
Sou grata por ser sua filha.
Você foi uma pessoa incrível.
Te amo, pra sempre. Seu nome, e mais do que isso, seu amor por nós, sempre será presente em mim.
Sentimos muito sua falta, todos os dias.
Eliz Leão
A menina e o menino
Olha como
⠀ a bola se
⠀move
⠀ no pé do menino
⠀ que tenta impressionar
⠀ a menina da plateia.
Mas não é a menina loira,
dos olhos azuis,
de blusa branca,
com a frase estampada:
“Joaquim é o melhor.”
⠀É a outra
⠀a de vestido rosado,
⠀cheio de florzinhas,
⠀cabelos pretos,
⠀óculos pequenos no rosto atento:
⠀ a mais bonita de todas.
Mesmo que o Joaquim,
ORELHUDO,
⠀ insista em dizer
⠀ que a mais linda
⠀ da plateia
⠀é vesga.
Por Rafael Araújo
Olha como
⠀ a bola se
⠀move
⠀ no pé do menino
⠀ que tenta impressionar
⠀ a menina da plateia.
Mas não é a menina loira,
dos olhos azuis,
de blusa branca,
com a frase estampada:
“Joaquim é o melhor.”
⠀É a outra
⠀a de vestido rosado,
⠀cheio de florzinhas,
⠀cabelos pretos,
⠀óculos pequenos no rosto atento:
⠀ a mais bonita de todas.
Mesmo que o Joaquim,
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⠀ insista em dizer
⠀ que a mais linda
⠀ da plateia
⠀é vesga.
Por Rafael Araújo
#Desafio 202
MÍOPIA NO COSMOS
Me abracei tão de dentro
que virei universo.
O caos?
Tá no meu bolso,
feito fósforo gasto.
Silêncio não é falta
é excesso de tudo
que já não grita.
Transbordo quieta,
mas ardo por dentro.
Não caibo em mim
(e nem pretendo).
Crs Ribeiro
MÍOPIA NO COSMOS
Me abracei tão de dentro
que virei universo.
O caos?
Tá no meu bolso,
feito fósforo gasto.
Silêncio não é falta
é excesso de tudo
que já não grita.
Transbordo quieta,
mas ardo por dentro.
Não caibo em mim
(e nem pretendo).
Crs Ribeiro