#desafio 365 dias
Dia 11 - Ela.
Queria falar para ela do novo cheiro em minhas mãos.
Era um cheiro tangível: uma fórmula alquímica que se fez forma e criou asas. Mas não fugiu. Sobrevoou-me e fez festa no ar e me inebriou e me entorpeceu. Era um cheiro que produzia outros aromas mais sutis. Cheiros, agora, meus. Só meus. Meus, embora, com ela, eu desejasse compartilhar meus sentidos; dizer-lhe essa minha percepção do cheiro: ampliando-o, amadeirando-lhe ainda mais, dando-lhe contornos, me tornando o continente.
Eu queria mesmo era confidenciar para ela a nova leveza do toque.
Era aquela vontade de marcar um café só para ela me olhar nos olhos e prestar atenção em mim. Porque nada mais importaria senão minha narrativa, minha descrição. E nossa discrição. Eu contaria a ela sobre o paradoxo dos pesos que aliviam os ombros. Dizer-lhe que, enfim, encontrei as fronteiras e estou sim rompendo ferro por ferro essas grades. Seria tudo sobre minha liberdade. E minhas descobertas, que também seriam dela ao final.
E tinha toda essa coisa do filtro Bordeaux.
Porque meus olhos se despediram dos tons cinza. Eles são agora todo orgasmo e o mundo se debruça sobre mim como se eu tropeçasse e derrubasse o vinho todo no carpete. Eu, o próprio carpete. Era para ela rir. Não das formas exatas, mas das minhas palavras que lhes davam textura. Era para ela ver a beleza que eu via. Ter, pelo menos por um minuto, a ingenuidade das minhas pálpebras, a inocência de meus dedos e o desejo de minha boca.
Mas ela preferiu ver com olhos dela, analíticos. E foi o fim.
Sylvvia Rubraurora
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#desafio 365 dias
#
Dia 10 - Trecho de "Bárbara & Cléber" 來來來
Seu corpo é quente. Seus cabelos, cheirosos. Seu suor, doce. Mentiria se dissesse que nunca me passou pela cabeça namorar Cecília. Enterro meu membro mais fundo, sentindo suas unhas correrem por minhas costas, o que me causa ainda mais desejo de acelerar meus movimentos.
De olhos fechados, por cima dela, a sinto envolver meus quadris com suas coxas grossas. Ela é uma mulher gostosa, de seios fartos, por onde enfio meu nariz, deixando minha língua para fora, como um animal sedento.
Quando chega a seu clímax, ela puxa meu rosto para que eu lhe beije os lábios. Dessa vez foi quase, entretanto ainda me resta alguma consciência e pendo meu rosto em direção a seu pescoço, lambendo-o e alcançando o lóbulo de sua orelha, o qual mordo, lhe arrancando suspiros. Permito esvaziar-me no preservativo; o quarto desse encontro.
Sylvvia Rubraurora
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Dia 10 - Trecho de "Bárbara & Cléber" 來來來
Seu corpo é quente. Seus cabelos, cheirosos. Seu suor, doce. Mentiria se dissesse que nunca me passou pela cabeça namorar Cecília. Enterro meu membro mais fundo, sentindo suas unhas correrem por minhas costas, o que me causa ainda mais desejo de acelerar meus movimentos.
De olhos fechados, por cima dela, a sinto envolver meus quadris com suas coxas grossas. Ela é uma mulher gostosa, de seios fartos, por onde enfio meu nariz, deixando minha língua para fora, como um animal sedento.
Quando chega a seu clímax, ela puxa meu rosto para que eu lhe beije os lábios. Dessa vez foi quase, entretanto ainda me resta alguma consciência e pendo meu rosto em direção a seu pescoço, lambendo-o e alcançando o lóbulo de sua orelha, o qual mordo, lhe arrancando suspiros. Permito esvaziar-me no preservativo; o quarto desse encontro.
Sylvvia Rubraurora
#desafio 365 dias
Dia 09 - Comente sobre um livro de conteúdo filosófico.
Eu sempre digo que minhas narrativas favoritas são aquelas em que o espaço é a estrutura mais importante; mais que a ação, inclusive. O espaço está lá, impávido, sempre deixando marcas de suas características em toda a obra.
E muito desse meu pensamento vem da leitura de Gaston Bachelard que em sua Poética do Espaço (1958) nos traz uma discussão filosófica sobre as relações entre nossa psique e os espaços com os quais lidamos, mais especificamente os espaços da “casa”.
O melhor desse livro é a sua poesia. A linguagem de Bachelard é maravilhosa e as metáforas sobre os recantos íntimos da casa (quarto, porão, sótão) fazem desse livro, apesar de ser filosófico, poético.
Para Bachelard, a imaginação poética é um fenômeno criador e ele vai trabalhar esta noção não apenas na Poética do Espaço, mas também em seus outros títulos: A Poética do Devaneio, A Psicanálise do Fogo, A Água e os Sonhos, O Ar e os Sonhos, A Terra e os Devaneios da Vontade.
Dia 09 - Comente sobre um livro de conteúdo filosófico.
Eu sempre digo que minhas narrativas favoritas são aquelas em que o espaço é a estrutura mais importante; mais que a ação, inclusive. O espaço está lá, impávido, sempre deixando marcas de suas características em toda a obra.
E muito desse meu pensamento vem da leitura de Gaston Bachelard que em sua Poética do Espaço (1958) nos traz uma discussão filosófica sobre as relações entre nossa psique e os espaços com os quais lidamos, mais especificamente os espaços da “casa”.
O melhor desse livro é a sua poesia. A linguagem de Bachelard é maravilhosa e as metáforas sobre os recantos íntimos da casa (quarto, porão, sótão) fazem desse livro, apesar de ser filosófico, poético.
Para Bachelard, a imaginação poética é um fenômeno criador e ele vai trabalhar esta noção não apenas na Poética do Espaço, mas também em seus outros títulos: A Poética do Devaneio, A Psicanálise do Fogo, A Água e os Sonhos, O Ar e os Sonhos, A Terra e os Devaneios da Vontade.
#desafio 365 dias
Dia 08 – Fale sobre um livro infanto-juvenil marcante
Taí um tema que eu poderia falar por horas!
Minha memória da infância é muito ruim, porém eu até hoje lembro do poema infantil “Pé de Pilão”, de Mário Quintana — “A vó do pato era uma fada/ que ficou enfeitiçada / Nunca, nunca envelhecia/ e era loira como o dia!” (juro que digitei da memória, sem filar no google!)
Porém, mesmo que eu saiba de cor e salteado, não é sobre esse poema que eu quero falar — ao menos não hoje. Quero trazer para vocês um livro infantil que eu já li na vida adulta (um presentão de uma querida amiga): A Morte, o Pato e a Tulipa, do autor alemão Wolf Erlbruch.
É simplesmente um livro maravilhoso, que aborda, de maneira sensível e poética, o dificil tema do fim da vida: é a história de um pato que encontra a Morte e acaba por desenvolver uma amizade com ela.
O livro, de maneira acessível e respeitosa, traz a morte, não como algo a ser temido, mas como uma parte natural da vida.
Recomendo muito a leitura em qualquer idade!
Dia 08 – Fale sobre um livro infanto-juvenil marcante
Taí um tema que eu poderia falar por horas!
Minha memória da infância é muito ruim, porém eu até hoje lembro do poema infantil “Pé de Pilão”, de Mário Quintana — “A vó do pato era uma fada/ que ficou enfeitiçada / Nunca, nunca envelhecia/ e era loira como o dia!” (juro que digitei da memória, sem filar no google!)
Porém, mesmo que eu saiba de cor e salteado, não é sobre esse poema que eu quero falar — ao menos não hoje. Quero trazer para vocês um livro infantil que eu já li na vida adulta (um presentão de uma querida amiga): A Morte, o Pato e a Tulipa, do autor alemão Wolf Erlbruch.
É simplesmente um livro maravilhoso, que aborda, de maneira sensível e poética, o dificil tema do fim da vida: é a história de um pato que encontra a Morte e acaba por desenvolver uma amizade com ela.
O livro, de maneira acessível e respeitosa, traz a morte, não como algo a ser temido, mas como uma parte natural da vida.
Recomendo muito a leitura em qualquer idade!
#desafio 365 dias
Dia 07 — Perfil das personagens da série De Presa a Deusa
Hoje eu quero falar um pouquinho mais dessas três deusas que dão voz aos meus três livros: ‘Sem Fôlego’, ‘Loucuras de um Luto’ e ‘Barbara & Cleber’.
Cláudia Toledo – Sem Fôlego
Cláudia é uma mulher inteligente, formada em Ciências da Computação pela UFPE. Sua história começa em 2018, quando ela tinha 32 anos e trabalhava como Analista de Softwares na empresa Soft American Solutions.
Herdou da mãe as feições negras e, do pai, olhos azuis. A primeira grande mudança em sua vida, foi quando se tornou órfã de mãe e foi morar com seu pai, um rico empresário russo.
Apesar de ser muito inteligente, interessante e bonita, tinha problemas em encontrar um homem decente. Nesta procura, ela encontrou Eirik — um homem que parecia perfeito.
E daí, a história de Sem Fôlego começa.
***
Milena Souza – Loucuras de um Luto
Milena é uma mulher que é “boa em tudo que faz”. Formada em Letras, especializou-se em idiomas e trabalha como tradutora, revisora e intérprete de LIBRAS na mesma empresa que Cláudia. Porém ela tem uma vida dupla e sequer seus amigos mais próximos imaginam o que ela faz nos fins de semana.
Morena, de cabelos lisos e com franja, ela é uma mulher magra, fruto de distúrbios alimentares na adolescência. Filha de feminista, sempre teve abertura para confidenciar à mãe todas as suas experiências.
Sua história se passa em abril de 2023, quando ela é chamada para depor, pois é a única suspeita de um crime. Nesse depoimento, ela conta sua trajetória de 2018 a 2023, quando ocorreu o crime.
***
Bárbara Lins ¬– Bárbara & Cléber
Bárbara Lins foi vítima de tráfico humano ainda na infância. Sobrevivente do ab*s0 se*ual sofrido, foi resgatada pela polícia federal quando tinha apenas oito anos.
Depois de passar uns meses em um orfanato, ela foi adotada por um casal que faz parte da Agência — uma organização secreta que luta contra o crime organizado — e foi levada para a Inglaterra, onde treinou para ser uma assassina de homens cruéis.
Branca, de cabelos castanhos com luzes em suas pontas, Bárbara é faixa preta em Krav Maga, porém sua verdadeira paixão se encontra no piano.
Sua história se passa em 2013, quando ela ainda tinha 19 anos. Sua missão foi se infiltrar na casa de um agente da polícia federal, fingindo ser uma diarista. O que ela não esperava era reencontrar o policial que a resgatou. E é a partir desse reencontro que sua narrativa começa.
Dia 07 — Perfil das personagens da série De Presa a Deusa
Hoje eu quero falar um pouquinho mais dessas três deusas que dão voz aos meus três livros: ‘Sem Fôlego’, ‘Loucuras de um Luto’ e ‘Barbara & Cleber’.
Cláudia Toledo – Sem Fôlego
Cláudia é uma mulher inteligente, formada em Ciências da Computação pela UFPE. Sua história começa em 2018, quando ela tinha 32 anos e trabalhava como Analista de Softwares na empresa Soft American Solutions.
Herdou da mãe as feições negras e, do pai, olhos azuis. A primeira grande mudança em sua vida, foi quando se tornou órfã de mãe e foi morar com seu pai, um rico empresário russo.
Apesar de ser muito inteligente, interessante e bonita, tinha problemas em encontrar um homem decente. Nesta procura, ela encontrou Eirik — um homem que parecia perfeito.
E daí, a história de Sem Fôlego começa.
***
Milena Souza – Loucuras de um Luto
Milena é uma mulher que é “boa em tudo que faz”. Formada em Letras, especializou-se em idiomas e trabalha como tradutora, revisora e intérprete de LIBRAS na mesma empresa que Cláudia. Porém ela tem uma vida dupla e sequer seus amigos mais próximos imaginam o que ela faz nos fins de semana.
Morena, de cabelos lisos e com franja, ela é uma mulher magra, fruto de distúrbios alimentares na adolescência. Filha de feminista, sempre teve abertura para confidenciar à mãe todas as suas experiências.
Sua história se passa em abril de 2023, quando ela é chamada para depor, pois é a única suspeita de um crime. Nesse depoimento, ela conta sua trajetória de 2018 a 2023, quando ocorreu o crime.
***
Bárbara Lins ¬– Bárbara & Cléber
Bárbara Lins foi vítima de tráfico humano ainda na infância. Sobrevivente do ab*s0 se*ual sofrido, foi resgatada pela polícia federal quando tinha apenas oito anos.
Depois de passar uns meses em um orfanato, ela foi adotada por um casal que faz parte da Agência — uma organização secreta que luta contra o crime organizado — e foi levada para a Inglaterra, onde treinou para ser uma assassina de homens cruéis.
Branca, de cabelos castanhos com luzes em suas pontas, Bárbara é faixa preta em Krav Maga, porém sua verdadeira paixão se encontra no piano.
Sua história se passa em 2013, quando ela ainda tinha 19 anos. Sua missão foi se infiltrar na casa de um agente da polícia federal, fingindo ser uma diarista. O que ela não esperava era reencontrar o policial que a resgatou. E é a partir desse reencontro que sua narrativa começa.
#desafio 365 dias
Dia 06 - Quereres
Não queria que você me tivesse percebido por essa maneira de falar quando fico irritada: aponto meu dedo indicador na direção do nariz de quem quer que seja e aumento o tom voz. Horrível; ditatorial. Um péssimo hábito; meu tom de feminista cansada em explicar o óbvio.
Porque esse é o lado que, agora, eu exponho. É o que salta aos olhos.
Não que eu quisesse que você me percebesse pelo emaranhado de teorias nas quais me meti. Ou das quais me fiz. Mas você me viu em meio a tantas citações. E foi no susto dos seus olhos, quando as falei, que percebi que você havia me visto. E não era nelas que eu queria ser encontrada. Não queria que passasse os olhos num rol de títulos de livros, discos e filmes e me descobrisse.
Porque é esse lado que eu, agora, escondo. Um lado que não me é mais.
Não queria que você pensasse em mim como a garota que usa coturno. Nem como a menina de cachos no cabelo. Nem como mulher de 30 que se passa fácil por uma de 18. Não queria que você me conhecesse pelo meu nariz empinado e por meu sorriso cheio de respostas para tudo.
Afinal esse é o lado que todo mundo vê.
Dia 06 - Quereres
Não queria que você me tivesse percebido por essa maneira de falar quando fico irritada: aponto meu dedo indicador na direção do nariz de quem quer que seja e aumento o tom voz. Horrível; ditatorial. Um péssimo hábito; meu tom de feminista cansada em explicar o óbvio.
Porque esse é o lado que, agora, eu exponho. É o que salta aos olhos.
Não que eu quisesse que você me percebesse pelo emaranhado de teorias nas quais me meti. Ou das quais me fiz. Mas você me viu em meio a tantas citações. E foi no susto dos seus olhos, quando as falei, que percebi que você havia me visto. E não era nelas que eu queria ser encontrada. Não queria que passasse os olhos num rol de títulos de livros, discos e filmes e me descobrisse.
Porque é esse lado que eu, agora, escondo. Um lado que não me é mais.
Não queria que você pensasse em mim como a garota que usa coturno. Nem como a menina de cachos no cabelo. Nem como mulher de 30 que se passa fácil por uma de 18. Não queria que você me conhecesse pelo meu nariz empinado e por meu sorriso cheio de respostas para tudo.
Afinal esse é o lado que todo mundo vê.
#desafio 365 dias
Dia 05 - Cite um livro do seu autor favorito. Como você definiria o motivo de ser seu autor favorito e por que escolheu esse livro dentre os que ele já escreveu?
Difícil escolher um autor favorito porque tenho alguns. Para este post, vamos de Italo Calvino, pois, para mim, sua escrita é a mais inovadora e experimental em termos de romance. Nada nunca é tedioso ou “mais do mesmo”.
Mais difícil ainda é citar o melhor livro dele. Temos um Barão que mora nas árvores; um cavaleiro que, por inexistir, é o melhor dentre eles; um visconde que foi para guerra contra os “mouros”, mas leva um tiro de canhão e volta, literalmente, partido ao meio; um castelo onde as pessoas se juntam para, por meio de cartas de tarô, criar narrativas.
Porém, o que eu considero “melhor” é “Se um Viajante numa Noite de Inverno” porque ele leva a metalinguagem ao extremo e brinca com as ideias de leitura e escrita. Nele, nós — leitores — vamos acompanhar a história do Leitor que tenta ler o novo romance de Italo Calvino, mas que por meio de interrupções (não direi quais para não dar spoiler) é levado a começar outros livros. Então cada capítulo do livro é um novo começo de livro!
O outro motivo de eu escolhê-lo é porque acredito que é o melhor começo de livro que eu já li. Segue um trechinho para vocês conferirem:
“Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, ‘Se um viajante numa noite de inverno’. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: ‘Não, não quero ver televisão!’ Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado!’ (…) Regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se. (…) Procure providenciar tudo aquilo que possa vir a interromper a leitura. Se você fuma, deixe os cigarros e os cinzeiros ao alcance da mão. O que falta ainda? Fazer xixi? Bom, isso é com você.”
Dia 05 - Cite um livro do seu autor favorito. Como você definiria o motivo de ser seu autor favorito e por que escolheu esse livro dentre os que ele já escreveu?
Difícil escolher um autor favorito porque tenho alguns. Para este post, vamos de Italo Calvino, pois, para mim, sua escrita é a mais inovadora e experimental em termos de romance. Nada nunca é tedioso ou “mais do mesmo”.
Mais difícil ainda é citar o melhor livro dele. Temos um Barão que mora nas árvores; um cavaleiro que, por inexistir, é o melhor dentre eles; um visconde que foi para guerra contra os “mouros”, mas leva um tiro de canhão e volta, literalmente, partido ao meio; um castelo onde as pessoas se juntam para, por meio de cartas de tarô, criar narrativas.
Porém, o que eu considero “melhor” é “Se um Viajante numa Noite de Inverno” porque ele leva a metalinguagem ao extremo e brinca com as ideias de leitura e escrita. Nele, nós — leitores — vamos acompanhar a história do Leitor que tenta ler o novo romance de Italo Calvino, mas que por meio de interrupções (não direi quais para não dar spoiler) é levado a começar outros livros. Então cada capítulo do livro é um novo começo de livro!
O outro motivo de eu escolhê-lo é porque acredito que é o melhor começo de livro que eu já li. Segue um trechinho para vocês conferirem:
“Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, ‘Se um viajante numa noite de inverno’. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: ‘Não, não quero ver televisão!’ Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado!’ (…) Regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se. (…) Procure providenciar tudo aquilo que possa vir a interromper a leitura. Se você fuma, deixe os cigarros e os cinzeiros ao alcance da mão. O que falta ainda? Fazer xixi? Bom, isso é com você.”
#desafio 365 dias
Dia 04 - Poema
Nada a dizer.
Nestes dias, nada me comove.
Nada me propõe um verbo e, sequer, reconheço-me poeta.
Talvez nem seja.
Talvez seja apenas o engano alheio
Que se torna o aplauso desejado por meu ego.
Mas nestes dias, desprezo-o.
Recolho-me a um canto, sem camisa,
Lendo poemas sempre lidos, sempre ecos.
Neles, me encontro muda.
Sequer uma despedida se anuncia…
Sequer um beijo na testa, inocente convite.
Nada interrompe meu silêncio.
Permito-me sentir a morte,
Tão bela quanto mil aves negras
Que levantam voo
Em um quase desespero.
É fim de tarde.
Sylvvia Rubraurora
Dia 04 - Poema
Nada a dizer.
Nestes dias, nada me comove.
Nada me propõe um verbo e, sequer, reconheço-me poeta.
Talvez nem seja.
Talvez seja apenas o engano alheio
Que se torna o aplauso desejado por meu ego.
Mas nestes dias, desprezo-o.
Recolho-me a um canto, sem camisa,
Lendo poemas sempre lidos, sempre ecos.
Neles, me encontro muda.
Sequer uma despedida se anuncia…
Sequer um beijo na testa, inocente convite.
Nada interrompe meu silêncio.
Permito-me sentir a morte,
Tão bela quanto mil aves negras
Que levantam voo
Em um quase desespero.
É fim de tarde.
Sylvvia Rubraurora
#desafio 365dias
3 - Conte para nós sobre um livro que você já leu mais de uma vez ou especificamente o livro que você já leu mais vezes. O que te motivou?
Existe um desespero em viver. Para alguns, é impossível fugir e, na minha concepção, estes se tornaram os melhores poetas que li.
“poesia é kamikase
você me quer suspensa no alto de uma miragem
e eu vou desmoronar” (Lucila Nogueira)
“Desespero Blue” é um livro de poesias da maravilhosa e inesquecível Lucila Nogueira (que infelizmente nos deixou em 2016). Já li e reli incontáveis vezes: em algumas, o livro por completo; noutras, um poema em específico, chamado “Sentimento Súbito”. Curioso que outros livros da poeta que eu li privilegiavam a forma, rima e métrica. Porém, em Desespero Blue — como não poderia deixar de ser —, a poetisa se joga no deleite de versos aos quais chamamos de “livres”, mas que, bem sabemos, estão longe de sê-los.
Vou deixar, para vocês conhecerem, um trechinho do poema que mais li em minha vida. Sentimento Súbito:
[...]
a água que lavou as letras da biblioteca
é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação
que tanto estudo não resolve o desamparo
e que continua desabitada a casa que sou
finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor
ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor
e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno
que eu já sinto dor
[...]
você não entendeu nada
você não percebeu que eu sou um fósforo apagado
esquecido na fuligem com memória do passado
que a vida cai pesadamente em meu cabelo azulado
e para a tela grande perder o colorido basta uma pilha se gastar
[...]
porque você nada sabe da insônia
e existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito.
(Eterna) Lucila Nogueira
3 - Conte para nós sobre um livro que você já leu mais de uma vez ou especificamente o livro que você já leu mais vezes. O que te motivou?
Existe um desespero em viver. Para alguns, é impossível fugir e, na minha concepção, estes se tornaram os melhores poetas que li.
“poesia é kamikase
você me quer suspensa no alto de uma miragem
e eu vou desmoronar” (Lucila Nogueira)
“Desespero Blue” é um livro de poesias da maravilhosa e inesquecível Lucila Nogueira (que infelizmente nos deixou em 2016). Já li e reli incontáveis vezes: em algumas, o livro por completo; noutras, um poema em específico, chamado “Sentimento Súbito”. Curioso que outros livros da poeta que eu li privilegiavam a forma, rima e métrica. Porém, em Desespero Blue — como não poderia deixar de ser —, a poetisa se joga no deleite de versos aos quais chamamos de “livres”, mas que, bem sabemos, estão longe de sê-los.
Vou deixar, para vocês conhecerem, um trechinho do poema que mais li em minha vida. Sentimento Súbito:
[...]
a água que lavou as letras da biblioteca
é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação
que tanto estudo não resolve o desamparo
e que continua desabitada a casa que sou
finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor
ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor
e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno
que eu já sinto dor
[...]
você não entendeu nada
você não percebeu que eu sou um fósforo apagado
esquecido na fuligem com memória do passado
que a vida cai pesadamente em meu cabelo azulado
e para a tela grande perder o colorido basta uma pilha se gastar
[...]
porque você nada sabe da insônia
e existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito.
(Eterna) Lucila Nogueira
#desafio 365 dias
Dia 02 - Qual livro que mais odiou?
Teve relação com algum momento que viveu?
Estou sentindo que serei cancelada... E, antes de qualquer outra coisa, digo que amo os poemas eróticos de Hilda Hilst, mas eu odiei ler “O Caderno Rosa de Lori Lamby”.
Eu sempre dou 15 páginas para o livro me prender, por isso minha lista de livros inacabados é enorme. Porém precisei ler alguns por completo para a faculdade e este livro específico da Hilda Hilst foi um destes.
O livro é um diário de uma menina de 8 anos que é levada a prostituir-se para “ajudar” o pai, um escritor falido que deseja usar as experiências dela para vender seus livros. Algumas pessoas chamam de “arrebatador”, outros de “soco no estômago”; há quem diga que é uma crítica ferrenha e bem-humorada ao mercado editorial.
Eu? Bem, eu odiei cada página desse livro, apesar de não ter nada a ver com o “momento” em que eu li. Acho que os temas da p3d0f1l1a e da pr0st1tuição infantil exigem um respeito pelas vítimas que a autora joga no lixo, por meio de uma escrita ácida e obscena.
Dia 02 - Qual livro que mais odiou?
Teve relação com algum momento que viveu?
Estou sentindo que serei cancelada... E, antes de qualquer outra coisa, digo que amo os poemas eróticos de Hilda Hilst, mas eu odiei ler “O Caderno Rosa de Lori Lamby”.
Eu sempre dou 15 páginas para o livro me prender, por isso minha lista de livros inacabados é enorme. Porém precisei ler alguns por completo para a faculdade e este livro específico da Hilda Hilst foi um destes.
O livro é um diário de uma menina de 8 anos que é levada a prostituir-se para “ajudar” o pai, um escritor falido que deseja usar as experiências dela para vender seus livros. Algumas pessoas chamam de “arrebatador”, outros de “soco no estômago”; há quem diga que é uma crítica ferrenha e bem-humorada ao mercado editorial.
Eu? Bem, eu odiei cada página desse livro, apesar de não ter nada a ver com o “momento” em que eu li. Acho que os temas da p3d0f1l1a e da pr0st1tuição infantil exigem um respeito pelas vítimas que a autora joga no lixo, por meio de uma escrita ácida e obscena.