Com o Avô Heidi · Capítulo 2 de 23
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Com o Avô

Depois que Deta desapareceu, o tio sentou-se outra vez no banco, soltando grandes nuvens de fumaça pelo cachimbo. Não falava, mas mantinha os olhos pregados no chão. Enquanto isso, Heidi olhou ao redor e, descobrindo o estábulo das cabras, espiou para dentro. Nada se podia ver ali. Procurando alguma coisa mais interessante, avistou os três velhos pinheiros atrás da cabana. Ali o vento rugia entre os galhos, e as copas das árvores balançavam de um lado para o outro. Heidi ficou parada, escutando. Depois que o vento amainou um pouco, contornou a cabana e voltou até o avô. Encontrou-o exatamente na mesma posição e, plantando-se diante do velho, com os braços cruzados atrás das costas, pôs-se a fitá-lo. O avô, erguendo os olhos, viu a criança imóvel à sua frente.

— O que você quer fazer agora? — perguntou-lhe.

— Quero ver o que há dentro da cabana — respondeu Heidi.

— Então venha — disse o avô, e, com isso, levantou-se e entrou na casa.

— Leve suas coisas com você — ordenou ele.

— Não as quero mais — respondeu Heidi.

O velho, voltando-se, lançou-lhe um olhar penetrante. Os olhos negros da menina cintilavam na expectativa de tudo o que estava por vir.

— Inteligência não lhe falta — murmurou consigo mesmo.

Em voz alta, acrescentou:

— Por que não precisa mais delas?

— Quero andar por aí como as cabras de pés ligeiros!

— Muito bem, pode andar; mas vá buscar as coisas e nós as poremos no armário.

A criança obedeceu à ordem. O velho abriu então a porta, e Heidi o seguiu para dentro de um cômodo bastante espaçoso, que ocupava toda a extensão da cabana. Num canto havia uma mesa e uma cadeira, e em outro, a cama do avô. Do outro lado do aposento, uma grande chaleira estava suspensa sobre a lareira, e, em frente a ela, havia uma porta larga embutida na parede. O avô a abriu. Era o armário, onde guardava todas as suas roupas. Numa prateleira havia algumas camisas, meias e toalhas; em outra, alguns pratos, xícaras e copos; e na prateleira de cima Heidi pôde ver um pão redondo, um pouco de toucinho e queijo. Naquele armário o avô guardava tudo de que necessitava para sua subsistência. Quando ele o abriu, Heidi empurrou suas coisas para tão longe atrás das roupas do avô quanto pôde alcançar. Não queria que fossem encontradas tão cedo. Depois de olhar atentamente ao redor do quarto, perguntou:

— Onde vou dormir, vovô?

— Onde você quiser — respondeu ele.

Aquilo convinha perfeitamente a Heidi. Ela espiou todos os cantos do aposento e examinou cada recanto para encontrar um lugar aconchegante onde dormir. Ao lado da cama do velho, viu uma escada de mão. Subindo por ela, chegou a um sótão de feno, cheio de feno fresco e perfumado. Por uma janelinha redonda, podia olhar para muito longe, vale abaixo.

— Quero dormir aqui em cima — chamou Heidi lá de cima. — Oh, aqui é lindo. Por favor, suba, vovô, e veja o senhor mesmo.

— Eu conheço — soou a voz de baixo.

— Estou fazendo a cama agora — tornou a gritar a menininha, enquanto corria ocupada de um lado para o outro. — Oh, venha cá em cima e traga um lençol, vovô, porque toda cama precisa ter lençol.

— É mesmo? — disse o velho.

Depois de algum tempo, ele abriu o armário e remexeu dentro dele. Por fim, puxou de debaixo das camisas um comprido pano grosseiro. Parecia-se de algum modo com um lençol, e com ele subiu ao sótão. Ali já havia uma caminha arrumada com capricho. O feno fora amontoado bem alto na parte de cima, de modo que a cabeça de quem dormisse ali ficasse exatamente diante da janela.

O avô ficou muito satisfeito com a disposição. Para que não se sentisse o chão duro, tornou o leito duas vezes mais espesso. Depois, ele e Heidi juntos puseram o pesado lençol por cima, prendendo bem as pontas. Heidi olhou pensativa para sua cama nova e fresca e disse:

— Vovô, esquecemos uma coisa.

— O quê? — perguntou ele.

— Não tenho coberta. Quando vou para a cama, sempre me enfio entre o lençol e a coberta.

— O que faremos se eu não tiver nenhuma? — perguntou o avô.

— Não faz mal, vou pegar mais um pouco de feno para me cobrir — tranquilizou-o Heidi, e já se dirigia ao monte de feno quando o velho a deteve.

— Espere só um minuto — disse ele, e desceu até sua própria cama. Dela tirou um grande e pesado saco de linho e o levou à criança.

— Isto não é melhor do que feno? — perguntou.

Heidi puxou o saco de um lado para o outro com toda a sua força, mas não conseguiu desdobrá-lo, pois era pesado demais para seus bracinhos. O avô pôs a coberta espessa sobre a cama enquanto Heidi o observava. Quando tudo ficou pronto, ela disse:

— Que cama bonita eu tenho agora, e que coberta esplêndida! Eu só queria que já fosse noite, para poder dormir nela.

— Acho que primeiro poderíamos comer alguma coisa — disse o avô. — Você não acha?

Heidi havia esquecido todo o resto em seu interesse pela cama; mas, quando foi lembrada do jantar, percebeu como estava terrivelmente faminta. Muito cedo, naquela manhã, antes da longa viagem, comera apenas um pedaço de pão e tomara uma xícara de café fraco. Heidi disse, aprovando:

— Acho que poderíamos, vovô!

— Então vamos descer, já que estamos de acordo — disse o velho, seguindo logo atrás dela.

Indo até a lareira, ele afastou a grande chaleira e alcançou uma menor, que estava suspensa por uma corrente. Depois, sentando-se num banquinho de três pernas, acendeu um fogo vivo. Quando a chaleira ferveu, o velho pôs um grande pedaço de queijo num comprido garfo de ferro e o segurou sobre o fogo, virando-o de um lado para o outro, até que ficasse dourado em todas as faces. Heidi o observara com avidez. De repente, correu até o armário. Quando o avô trouxe uma panela e o queijo tostado para a mesa, encontrou-a já bem posta, com dois pratos, duas facas e o pão no meio. Heidi vira os objetos no armário e sabia que seriam necessários para a refeição.

— Fico contente em ver que você sabe pensar por si mesma — disse o avô, enquanto punha o queijo sobre o pão —, mas ainda falta alguma coisa.

Heidi viu a panela fumegante e correu de volta ao armário com toda a pressa. Havia uma única tigelinha na prateleira. Isso não perturbou Heidi, porém, pois ela viu dois copos atrás. Com as três coisas, voltou à mesa.

— Você sabe mesmo se virar! Mas onde vai se sentar? — perguntou o avô, que ocupava ele próprio a única cadeira.

Heidi voou até a lareira e, trazendo de volta o banquinho, sentou-se nele.

— Agora você tem um assento, mas está baixo demais. Na verdade, você é pequena demais para alcançar a mesa da minha cadeira. Agora, enfim, vai ter alguma coisa para comer!

E, com isso, o avô encheu a tigelinha de leite. Colocando-a sobre sua cadeira, empurrou-a para tão perto do banquinho quanto possível, e assim Heidi teve uma mesa diante de si. Ordenou-lhe que comesse o grande pedaço de pão e a fatia de queijo dourado. Ele próprio se sentou a um canto da mesa e começou seu jantar. Heidi bebeu sem parar, pois sentia uma sede imensa depois da longa caminhada. Tomando fôlego, pousou a tigelinha.

— Que tal o leite? — perguntou-lhe o avô.

— Nunca provei coisa melhor — respondeu Heidi.

— Então terá mais.

E, com isso, o avô encheu novamente a tigelinha. A menininha comeu e bebeu com o maior prazer. Depois que terminou, os dois saíram para o estábulo das cabras. Ali o velho se ocupou de suas tarefas, e Heidi o observou atentamente enquanto ele varria e punha palha fresca para as cabras dormirem. Depois foi até a pequena oficina ao lado e fabricou uma cadeira alta para Heidi, para o maior espanto da menininha.

— O que é isto? — perguntou o avô.

— É uma cadeira para mim. Tenho certeza, porque é tão alta. Como foi feita depressa! — disse a criança, cheia de admiração e assombro.

— Ela sabe o que é o quê, e tem os olhos no lugar certo — disse o avô consigo mesmo, enquanto caminhava ao redor da cabana, prendendo aqui e ali um prego ou uma tábua solta. Vagava com seu martelo e seus pregos, consertando tudo que necessitava de reparo. Heidi o seguia a cada passo e observava o trabalho com grande prazer e atenção.

Por fim, chegou a noite. Os velhos pinheiros murmuravam, e um vento poderoso rugia e uivava através das copas das árvores. Aqueles sons arrebatavam o coração de Heidi e o enchiam de felicidade e alegria. Ela dançava e saltava debaixo das árvores, pois aqueles sons a faziam sentir como se uma coisa maravilhosa lhe tivesse acontecido. O avô estava parado à porta, observando-a, quando de repente se ouviu um assobio agudo. Heidi ficou imóvel, e o avô veio juntar-se a ela do lado de fora. Das alturas descia uma cabra após a outra, com Pedro no meio delas. Soltando um grito de alegria, Heidi correu para o centro do rebanho, saudando suas velhas amigas. Quando todas chegaram à cabana, detiveram-se no caminho, e duas cabras belas e esguias saíram do rebanho, uma branca e a outra marrom. Aproximaram-se do avô, que lhes estendeu um pouco de sal nas mãos, como fazia todas as noites. Heidi acariciou ternamente primeiro uma e depois a outra, parecendo fora de si de alegria.

— Elas são nossas, vovô? As duas pertencem a nós? Elas vão para o estábulo? Vão ficar conosco? — perguntava Heidi sem cessar, em sua excitação.

O avô mal conseguia intercalar um “sim, sim, claro” entre suas numerosas perguntas. Quando as cabras lamberam todo o sal, o velho disse:

— Entre, Heidi, e busque sua tigela e o pão.

Heidi obedeceu e voltou imediatamente. O avô ordenhou uma tigela cheia da cabra branca, cortou um pedaço de pão para a criança e mandou que ela comesse.

— Depois você pode ir para a cama. Se precisar de camisas e outras peças de linho, vai encontrá-las no fundo do armário. Tia Deta deixou um embrulho para você. Agora, boa noite; preciso cuidar das cabras e fechá-las para a noite.

— Boa noite, vovô! Oh, por favor, diga-me como elas se chamam — gritou Heidi atrás dele.

— A branca se chama Schwaenli, e a marrom eu chamo de Baerli — foi a resposta.

— Boa noite, Schwaenli! Boa noite, Baerli! — gritou a menininha em voz alta, pois elas acabavam de desaparecer no estábulo.

Heidi então se sentou no banco e tomou sua ceia. O vento forte quase a arrancava de seu lugar, por isso apressou a refeição, para poder entrar e subir até sua cama. Dormiu nela tão bem quanto um príncipe em seu leito real.

Pouco depois de Heidi ter subido, antes que escurecesse de todo, o velho também procurou sua cama. Estava sempre de pé pela manhã com o sol, que, naqueles dias de verão, nascia cedo sobre a encosta da montanha. A noite foi selvagem e tempestuosa; a cabana tremia nas rajadas, e todas as tábuas rangiam. O vento uivava pela chaminé, e os velhos pinheiros se agitavam com tanta força que muitos galhos secos despencavam com estrondo. No meio da noite, o avô se levantou, dizendo consigo mesmo:

— Tenho certeza de que ela está com medo.

Subindo pela escada, foi até a cama de Heidi. No primeiro instante tudo estava mergulhado em trevas, quando, de repente, a lua saiu de trás das nuvens e lançou sua luz brilhante sobre o leito de Heidi. Suas faces ardiam vermelhas, e ela repousava tranquilamente sobre os braços redondos e rechonchudos. Devia estar tendo um sonho feliz, pois sorria enquanto dormia. O avô permaneceu ali, observando-a, até que uma nuvem passou diante da lua e deixou tudo em completa escuridão. Então desceu para procurar novamente sua cama.

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