A Senhorita Rottenmeier Tem um Dia Incômodo
Quando Heidi abriu os olhos na manhã seguinte, não sabia onde estava. Encontrou-se numa cama branca e alta, num quarto espaçoso. Olhando ao redor, viu longas cortinas brancas diante das janelas, várias cadeiras e um sofá coberto de cretone; num canto, avistou um lavatório com muitas coisas curiosas em cima.
De repente, Heidi se lembrou de todos os acontecimentos do dia anterior. Saltando da cama, vestiu-se com grande pressa. Estava ansiosa para olhar o céu e o chão lá embaixo, como sempre fizera em casa. Qual não foi sua decepção quando descobriu que as janelas eram altas demais para que pudesse ver qualquer coisa, exceto as paredes e janelas em frente. Tentando abri-las, foi de uma a outra, mas em vão. A pobre criança sentiu-se como um passarinho colocado pela primeira vez numa gaiola reluzente. Por fim, teve de se resignar e sentou-se num banquinho baixo, pensando na neve derretendo nas encostas e nas primeiras flores da primavera que saudara com tanto encanto.
De repente, Tinette abriu a porta e disse secamente:
— O café está pronto.
Heidi não tomou aquilo como uma convocação, pois o rosto da criada era desdenhoso e severo. Esperava pacientemente para ver o que aconteceria em seguida quando a senhorita Rottenmeier irrompeu no quarto, dizendo:
— O que há, Adelheid? Você não entendeu? Venha tomar café!
Heidi seguiu imediatamente a senhora até a sala de jantar, onde Clara a cumprimentou com um sorriso. Parecia muito mais feliz do que de costume, pois esperava que coisas novas acontecessem naquele dia. Quando o café da manhã passou sem perturbações, permitiram que as duas crianças fossem juntas para a biblioteca, e logo as deixaram sozinhas.
— Como posso ver lá embaixo, até o chão? — perguntou Heidi.
— Abra uma janela e espie — respondeu Clara, divertida com a pergunta.
— Mas é impossível abri-las — disse Heidi, tristemente.
— Oh, não. Você não consegue, e eu também não posso ajudá-la; mas, se pedir a Sebastian, ele fará isso para você.
Heidi ficou aliviada. A pobre criança se sentira como prisioneira em seu quarto. Clara então perguntou a Heidi como era sua casa, e Heidi lhe contou com alegria sobre sua vida na cabana.
O preceptor chegara nesse meio-tempo, mas não foi convidado a ir à sala de estudos, como de costume. A senhorita Rottenmeier estava muito agitada com a chegada de Heidi e com todas as complicações que dela surgiam. Na verdade, era ela a responsável por aquilo, pois arranjara tudo sozinha. Apresentou o caso infeliz ao professor, pois queria que ele a ajudasse a se livrar da criança. O senhor Candidato, porém, era sempre cuidadoso em seus juízos e não tinha medo de ensinar principiantes.
Quando a senhora viu que ele não ficaria do seu lado, deixou-o entrar sozinho na sala de estudos, pois o A, B, C lhe causava grandes horrores. Enquanto ela ponderava muitos problemas, ouviu-se no aposento ao lado um ruído assustador, como de alguma coisa caindo, seguido por um grito chamando Sebastian por socorro. Correndo para lá, ela viu uma pilha de livros e papéis no chão, com a toalha da mesa por cima. Uma corrente negra de tinta se espalhava por todo o comprimento do quarto. Heidi havia desaparecido.
— Pronto! — exclamou a senhorita Rottenmeier, torcendo as mãos. — Tudo encharcado de tinta. Já se viu acontecer coisa semelhante? Esta criança não nos traz senão desgraças.
O professor estava de pé, olhando para a devastação, mas Clara se divertia imensamente com aqueles acontecimentos e disse:
— Heidi não fez de propósito e não deve ser castigada. Na pressa de sair, prendeu-se à toalha da mesa e a puxou para baixo. Acho que ela nunca deve ter visto uma carruagem em toda a vida, pois, quando ouviu uma passar fazendo estrondo, saiu correndo feito louca.
— Eu não lhe disse, senhor Candidato, que ela não tem a menor noção de comportamento? Ela nem sequer sabe que precisa ficar quieta durante as lições. Mas para onde foi? O que diria o senhor Sesemann se ela tivesse fugido?
Quando a senhorita Rottenmeier desceu as escadas para procurar a criança, viu-a parada à porta aberta, olhando para a rua.
— O que está fazendo aqui? Como pode sair correndo desse jeito? — ralhou a senhorita Rottenmeier.
— Ouvi os pinheiros farfalharem, mas não consigo vê-los e já não os ouço mais — respondeu Heidi, olhando para a rua com grande perplexidade.
O ruído da carruagem que passava lhe recordara o rugido do vento sul na Alp.
— Pinheiros? Que absurdo! Não estamos numa floresta. Venha comigo agora ver o que você fez.
Quando Heidi viu a devastação que causara, ficou muito surpresa, pois não a notara em sua pressa.
— Isto nunca mais deve acontecer — disse a senhora, severamente. — Você deve ficar quieta durante as lições; se se levantar de novo, eu a amarrarei à cadeira. Está me ouvindo?
Heidi entendeu e prometeu ficar quieta durante as lições daquele momento em diante. Depois que os criados puseram o quarto em ordem, já era tarde, e não havia mais tempo para os estudos. Ninguém teve tempo de bocejar naquela manhã.
À tarde, enquanto Clara descansava, Heidi foi deixada sozinha. Plantou-se no vestíbulo e esperou que o mordomo subisse a escada com as pratarias. Quando ele chegou ao topo dos degraus, ela lhe disse:
— Quero lhe perguntar uma coisa.
Viu que o mordomo parecia zangado, então o tranquilizou, dizendo que não queria fazer mal nenhum.
— Muito bem, senhorita, o que é?
— Meu nome não é senhorita. Por que não me chama de Heidi?
— A senhorita Rottenmeier me mandou chamá-la de senhorita.
— Mandou? Bem, então deve ser assim. Já tenho três nomes — suspirou a criança.
— O que posso fazer pela senhorita? — perguntou Sebastian então.
— Pode abrir uma janela para mim?
— Certamente — respondeu ele.
Sebastian trouxe um banquinho para Heidi, pois o peitoril da janela era alto demais para que ela pudesse enxergar por cima. Com grande desapontamento, Heidi virou a cabeça.
— Não vejo nada além de uma rua de pedra. Do outro lado da casa é do mesmo jeito?
— Sim.
— Aonde se vai para olhar lá de cima para todas as coisas?
— A uma torre de igreja. Está vendo aquela ali, com a cúpula dourada? De lá se pode avistar tudo.
Heidi desceu imediatamente do banquinho e correu escada abaixo. Abrindo a porta, viu-se na rua, mas já não conseguia enxergar a torre. Vagou de rua em rua, sem ousar dirigir-se a nenhuma das pessoas ocupadas. Ao passar por uma esquina, viu um menino que trazia um realejo nas costas e um animal curioso no braço. Heidi correu até ele e perguntou:
— Onde fica a torre com a cúpula dourada?
— Não sei — foi a resposta.
— Quem pode me dizer?
— Não sei.
— Você pode me mostrar outra igreja com uma torre?
— Claro que posso.
— Então venha e me mostre.
— O que você vai me dar por isso? — disse o menino, estendendo a mão.
Heidi não tinha nada no bolso além de uma pequena figura de flores. Clara lhe dera aquilo apenas naquela manhã, de modo que ela relutava em se separar dela. A tentação de olhar lá do alto para o vale, porém, era grande demais, e ela lhe ofereceu o presente. O menino sacudiu a cabeça, para satisfação de Heidi.
— O que mais você quer?
— Dinheiro.
— Não tenho nenhum, mas Clara tem. Quanto devo lhe dar?
— Vinte centavos.
— Está bem, mas venha.
Enquanto caminhavam pela rua, Heidi descobriu o que era um realejo, pois nunca vira um. Quando chegaram diante de uma velha igreja com uma torre, Heidi ficou sem saber o que fazer em seguida, mas, tendo descoberto uma campainha, puxou-a com toda a força. O menino concordou em esperar Heidi e mostrar-lhe o caminho de volta para casa se ela lhe desse pagamento dobrado.
A fechadura rangeu então por dentro, e um velho abriu a porta. Com voz irritada, disse:
— Como se atreve a tocar a campainha para mim? Não vê que ela é apenas para quem quer ver a torre?
— Mas eu quero — disse Heidi.
— O que você quer ver? Alguém a mandou aqui? — perguntou o homem.
— Não; mas quero olhar lá de cima.
— Vá para casa e não tente fazer isso de novo.
Com isso, o guarda da torre ia fechar a porta, mas Heidi segurou-lhe as abas do casaco e suplicou que a deixasse entrar. O guarda da torre olhou para os olhos da criança, que estavam quase cheios de lágrimas.
— Muito bem, venha, se faz tanta questão — disse ele, tomando-a pela mão.
Os dois subiram então muitos, muitos degraus, que se estreitavam cada vez mais. Quando chegaram ao alto, o velho ergueu Heidi até a janela aberta.
Heidi não viu nada além de um mar de chaminés, telhados e torres, e seu coração afundou.
— Oh, céus, é diferente do que pensei que fosse — disse ela.
— Pois então! O que uma menininha como você poderia saber sobre uma vista? Agora vamos descer, e você deve prometer que nunca mais tocará a campainha da minha torre.
No caminho, passaram por um sótão onde uma grande gata cinzenta guardava sua nova família dentro de uma cesta. Essa gata apanhava meia dúzia de camundongos todos os dias para si, pois a velha torre era cheia de ratos e camundongos. Heidi a fitou com surpresa e ficou encantada quando o velho abriu a cesta.
— Que gatinhos encantadores, que criaturinhas espertas! — exclamou, encantada, ao vê-los rastejar, saltar e rolar.
— Gostaria de ficar com um? — perguntou o velho.
— Para mim? Para ficar? — perguntou Heidi, pois mal podia acreditar em seus ouvidos.
— Sim, claro. Pode levar vários, se tiver espaço para eles — disse o velho, contente por encontrar um bom lar para os gatinhos.
Como Heidi ficou feliz! É claro que havia espaço suficiente na enorme casa, e Clara ficaria encantada ao ver aquelas criaturinhas espertas.
— Como posso levá-los comigo? — perguntou a criança, depois de tentar em vão apanhar um.
— Posso levá-los à sua casa, se você me disser onde mora — disse o novo amigo de Heidi, enquanto acariciava a gata velha, que vivia com ele havia muitos anos.
— Leve-os à casa do senhor Sesemann; há um cachorro dourado na porta, com uma argola na boca.
O velho vivia na torre havia muito tempo e conhecia todo mundo; Sebastian também era um amigo especial seu.
— Eu sei — disse ele. — Mas a quem devo mandá-los? Você pertence ao senhor Sesemann?
— Não. Por favor, mande-os para Clara; tenho certeza de que ela vai gostar.
Heidi mal conseguia afastar-se das coisinhas bonitas, por isso o velho pôs um gatinho em cada um de seus bolsos para consolá-la. Depois disso, ela se foi.
O menino esperava pacientemente por ela e, quando Heidi se despediu do guarda da torre, perguntou ao menino:
— Você sabe onde fica a casa do senhor Sesemann?
— Não — foi a resposta.
Ela a descreveu tão bem quanto pôde, até que o menino se lembrou. Partiram então e, logo, Heidi se encontrou puxando a campainha da porta. Quando Sebastian chegou, disse:
— Depressa.
Heidi entrou, e o menino ficou do lado de fora, pois Sebastian nem sequer o vira.
— Suba depressa, senhoritazinha — apressou-a ele. — Estão todos esperando pela senhorita na sala de jantar. A senhorita Rottenmeier parece um canhão carregado. Como pôde fugir desse jeito?
Heidi sentou-se tranquilamente em sua cadeira. Ninguém disse palavra, e fez-se um silêncio desconfortável. Por fim, a senhorita Rottenmeier começou, com voz severa e solene:
— Falarei com você mais tarde, Adelheid. Como pode sair de casa sem uma palavra? Seu comportamento foi muito negligente. Imagine só, andar por aí até tão tarde!
— Miau! — foi a resposta.
— Eu não... — começou Heidi. — Miau!
Sebastian quase atirou a travessa sobre a mesa e desapareceu.
— Isto é demais — tentou dizer a senhorita Rottenmeier, mas sua voz estava rouca de fúria. — Levante-se e saia da sala.
Heidi levantou-se. Começou de novo:
— Eu fiz...
— Miau! Miau! Miau!
— Heidi — disse Clara então —, por que você continua dizendo “miau”, se vê que a senhorita Rottenmeier está zangada?
— Não sou eu que estou fazendo isso, são os gatinhos — explicou ela.
— O quê? Gatos? Gatinhos? — gritou a governanta. — Sebastian, Tinette, tirem essas coisas horríveis daqui!
Com isso, correu para a sala de estudos e trancou-se lá dentro, pois temia gatinhos mais do que qualquer coisa na terra. Quando Sebastian terminou de rir, entrou na sala. Já previra a agitação, pois avistara os gatinhos quando Heidi chegou. A cena agora era muito pacífica; Clara segurava os pequenos gatinhos no colo, e Heidi estava ajoelhada ao seu lado. Ambas brincavam felizes com as duas graciosas criaturas. O mordomo prometeu cuidar dos recém-chegados e preparou-lhes uma cama numa cesta.
Muito tempo depois, quando chegou a hora de ir para a cama, a senhorita Rottenmeier abriu a porta cautelosamente.
— Eles já foram embora? — perguntou.
— Sim — respondeu o mordomo, agarrando depressa os gatinhos e levando-os dali.
A reprimenda que a senhorita Rottenmeier pretendia dar a Heidi foi adiada para o dia seguinte, pois a senhora estava exausta demais depois do susto. Todos foram calmamente para a cama, e as crianças estavam felizes ao pensar que seus gatinhos tinham uma cama confortável.