Subindo à Alp Numa Tarde de Verão Heidi · Capítulo 13 de 23
Obra Menu

Subindo à Alp Numa Tarde de Verão

O senhor Sesemann, subindo as escadas em grande agitação, bateu à porta da governanta. Pediu-lhe que se apressasse, pois era preciso fazer preparativos para uma viagem. A senhorita Rottenmeier obedeceu ao chamado com a maior indignação, pois eram apenas quatro e meia da manhã. Vestiu-se às pressas, embora com grande dificuldade, por estar nervosa e excitada. Todos os outros criados foram chamados igualmente, e todos, sem exceção, pensaram que o dono da casa fora agarrado pelo fantasma e que tocava a campainha pedindo socorro. Quando desceram todos com expressões aterrorizadas, ficaram sobremodo surpresos ao ver o senhor Sesemann fresco e alegre, dando ordens. John foi mandado preparar os cavalos, e Tinette recebeu ordem de aprontar Heidi para a partida, enquanto Sebastian foi encarregado de buscar a tia de Heidi. O senhor Sesemann instruiu a governanta a arrumar às pressas um baú para Heidi.

A senhorita Rottenmeier sofreu extrema decepção, pois esperava uma explicação para o grande mistério. Mas o senhor Sesemann, evidentemente sem disposição para conversar mais, foi ao quarto da filha. Clara despertara com os ruídos incomuns e escutava ansiosamente. O pai lhe contou o que acontecera e como o médico ordenara que Heidi voltasse para casa, porque seu estado era grave e poderia piorar. Ela poderia até subir ao telhado, ou expor-se a perigos semelhantes, se não fosse curada imediatamente.

Clara ficou dolorosamente surpreendida e tentou impedir o pai de levar adiante seu plano. Ele, porém, permaneceu firme, prometendo levá-la pessoalmente à Suíça no verão seguinte, se agora ela fosse boa e sensata. Assim, a criança, resignando-se, pediu que o baú de Heidi fosse arrumado em seu quarto. O senhor Sesemann a encorajou a reunir um bom enxoval para sua pequena amiga.

A tia de Heidi chegara nesse meio-tempo. Ao lhe dizerem que levasse a sobrinha para casa, encontrou um sem-fim de desculpas, que mostravam claramente que não queria fazê-lo; pois Deta se lembrava muito bem das palavras de despedida do tio. O senhor Sesemann a dispensou e chamou Sebastian. O mordomo recebeu ordem de se preparar para viajar com a criança. Deveria ir até Basle naquele dia e passar a noite num bom hotel que seu patrão indicou. No dia seguinte, a criança deveria ser levada para casa.

— Escute, Sebastian — disse o senhor Sesemann —, e faça exatamente como eu lhe digo. Conheço o hotel em Basle e, se mostrar meu cartão, lhe darão boas acomodações. Vá ao quarto da criança e bloqueie as janelas, de modo que só possam ser abertas com a maior força. Quando Heidi tiver ido para a cama, tranque a porta por fora, pois a criança anda dormindo e poderia sofrer algum mal no hotel estranho. Ela poderia se levantar e abrir a porta; compreende?

— Oh!... Oh!... Então era ela? — exclamou o mordomo.

— Sim, era! Você é um covarde, e pode dizer a John que ele é o mesmo. Homens tão tolos, com medo! — Com isso, o senhor Sesemann foi para seu quarto escrever uma carta ao avô de Heidi.

Sebastian, envergonhado, disse consigo mesmo que deveria ter resistido a John e descoberto tudo sozinho.

Heidi estava vestida com seu traje de domingo e permanecia à espera de novas ordens.

O senhor Sesemann chamou-a então.

— Bom dia, senhor Sesemann — disse Heidi ao entrar.

— O que você acha disso, pequenina? — perguntou ele.

Heidi ergueu os olhos para ele, espantada.

— Parece que você não sabe de nada — riu o senhor Sesemann.

Tinette nem sequer contara à criança, pois julgava abaixo de sua dignidade falar com a vulgar Heidi.

— Você vai para casa hoje.

— Para casa? — repetiu Heidi em voz baixa.

Teve de recuperar o fôlego, tamanha era sua surpresa.

— Não gostaria de ouvir alguma coisa a respeito? — perguntou o senhor Sesemann, sorrindo.

— Oh, sim, gostaria — disse a criança, corando.

— Muito bem, muito bem — disse o bondoso cavalheiro. — Sente-se agora e tome um farto café da manhã, pois partirá logo em seguida.

A criança não conseguia engolir nem um bocado, embora tentasse comer por obediência. Parecia-lhe que tudo aquilo era apenas um sonho.

— Vá até Clara, Heidi, até que a carruagem chegue — disse o senhor Sesemann, bondosamente.

Heidi desejava ir, e então correu ao quarto de Clara, onde havia um enorme baú.

— Heidi, veja as coisas que mandei arrumar para você. Gostou delas? — perguntou Clara.

Havia ali muitas coisas encantadoras, mas Heidi saltou de alegria quando descobriu uma cestinha com doze pãezinhos brancos e redondos para a avó. As crianças haviam esquecido que o momento da despedida chegara, quando anunciaram a carruagem. Heidi ainda precisava buscar todos os seus próprios tesouros no quarto. O livro da vovó foi cuidadosamente guardado, assim como o xale vermelho que a senhorita Rottenmeier deixara para trás de propósito. Depois, pondo seu belo chapéu, deixou o quarto para despedir-se de Clara. Não restava muito tempo para isso, pois o senhor Sesemann esperava para colocar Heidi na carruagem. Quando a senhorita Rottenmeier, que estava parada na escada para despedir-se de sua pupila, viu o embrulho vermelho na mão de Heidi, arrancou-o dela e atirou-o ao chão. Heidi olhou suplicante para seu bondoso protetor, e o senhor Sesemann, vendo quanto ela o estimava, devolveu-o à menina. A criança feliz, ao partir, agradeceu-lhe por toda a sua bondade. Enviou também uma mensagem de agradecimento ao bom velho doutor, a quem suspeitava ser a verdadeira causa de sua partida.

Enquanto Heidi era erguida para dentro da carruagem, o senhor Sesemann assegurou-lhe que Clara e ele jamais se esqueceriam dela. Sebastian a acompanhou com a cesta de Heidi e uma grande bolsa de provisões. O senhor Sesemann gritou:

— Boa viagem!

E a carruagem partiu.

Só quando estava sentada no trem Heidi tomou consciência de para onde ia. Sabia agora que realmente veria outra vez o avô e a avó, além de Pedro e das cabras. Seu único medo era que a pobre avó cega tivesse morrido enquanto ela estivera fora.

Aquilo que mais esperava era entregar os pãezinhos brancos e macios à avó. Enquanto meditava sobre todas essas coisas, adormeceu. Em Basle, foi despertada por Sebastian, pois ali deveriam passar a noite.

Na manhã seguinte, partiram de novo, e levaram muitas horas até chegar a Mayenfeld. Quando Sebastian se viu na plataforma da estação, desejou poder ter viajado mais longe de trem, em vez de ter de subir uma montanha. A última parte da viagem poderia ser perigosa, pois tudo naquele país lhe parecia meio selvagem. Olhando ao redor, descobriu uma pequena carroça com um cavalo magro. Um homem de ombros largos estava justamente carregando grandes sacos que haviam chegado pelo trem. Sebastian, aproximando-se do homem, pediu algumas informações sobre a subida menos perigosa para a Alp. Depois de algum tempo, ficou combinado que o homem levaria Heidi e seu baú até a aldeia e providenciaria que alguém subisse com ela dali.

Nenhuma palavra escapara de Heidi, até que ela disse então:

— Posso subir sozinha da aldeia. Conheço o caminho.

Sebastian sentiu-se aliviado e, chamando Heidi para junto de si, entregou-lhe um pesado rolo de notas e uma carta para o avô. Essas coisas preciosas foram postas no fundo da cesta, debaixo dos pãezinhos, de modo que não pudessem se perder de jeito nenhum.

Heidi prometeu tomar cuidado com elas e foi erguida para a carroça. Os dois velhos amigos apertaram as mãos e se separaram, e Sebastian, com a consciência um pouco pesada por ter abandonado a criança tão cedo, sentou-se na estação para esperar um trem de volta.

O condutor não era outro senão o padeiro da aldeia, que nunca vira Heidi, mas ouvira muito a seu respeito. Conhecera seus pais e adivinhou imediatamente que ela era a criança que havia vivido com o Tio da Alm. Curioso por saber por que ela voltava para casa, começou uma conversa.

— Você é Heidi, a criança que morou com o Tio da Alm?

— Sim.

— Por que está voltando para casa? Não se deu bem?

— Oh, não; ninguém poderia ter se dado melhor do que eu em Frankfurt.

— Então por que está voltando?

— Porque o senhor Sesemann me deixou vir.

— Ora! Por que não ficou?

— Porque eu prefiro estar com meu avô na Alp a estar em qualquer outro lugar da terra.

— Talvez pense de modo diferente quando chegar lá — murmurou o padeiro. — É estranho, contudo, pois ela deve saber — disse consigo mesmo.

Não conversaram mais, e Heidi começou a tremer de emoção ao reconhecer todas as árvores ao longo do caminho e os altos picos das montanhas. Às vezes, sentia como se não pudesse ficar sentada nem mais um instante, mas tivesse de saltar e correr com todas as suas forças. Chegaram à aldeia quando o relógio batia cinco horas. Imediatamente, um grande grupo de mulheres e crianças cercou a carroça, pois o baú e a pequena passageira haviam atraído a atenção de todos. Quando Heidi foi ajudada a descer, viu-se segura e interrogada por todos os lados. Mas, quando perceberam como estava assustada, finalmente a deixaram ir. O padeiro teve de contar sobre a chegada de Heidi com o estranho cavalheiro e assegurou a todos que Heidi amava o avô de todo o coração, dissessem as pessoas o que quisessem a respeito dele.

Enquanto isso, Heidi corria pela trilha acima; de tempos em tempos era obrigada a parar, pois sua cesta estava pesada e ela perdia o fôlego. Seu único pensamento era:

— Se ao menos a avó ainda estiver sentada em seu canto junto à roda de fiar!... Oh, se ela tiver morrido!

Quando a criança avistou enfim a cabana, seu coração começou a bater. Quanto mais depressa corria, mais ele batia, mas por fim abriu a porta, trêmula. Correu para o meio do quarto, incapaz de pronunciar uma única palavra, de tão sem fôlego que estava.

— Oh, Deus — soou de um canto —, nossa Heidi costumava entrar assim. Oh, se eu pudesse tê-la outra vez comigo antes de morrer. Quem chegou?

— Sou eu! Avó, sou eu! — gritou a criança, lançando-se de joelhos diante da velha.

Agarrou-lhe as mãos e os braços e, aninhando-se junto dela, não conseguiu, de alegria, dizer mais nenhuma palavra. A avó ficara tão surpresa que só pôde acariciar em silêncio, repetidas vezes, os cabelos encaracolados da criança.

— Sim, sim — disse por fim —, este é o cabelo de Heidi, e sua voz querida. Oh, meu Deus, eu Te agradeço por esta felicidade.

De seus olhos cegos caíram grossas lágrimas de alegria sobre a mão de Heidi.

— É mesmo você, Heidi? Você voltou mesmo?

— Sim, sim, avó — respondeu a criança. — A senhora não deve chorar, pois eu vim e nunca mais vou deixá-la. Agora a senhora não terá de comer pão preto duro por algum tempo. Veja o que eu lhe trouxe.

Heidi pôs um pãozinho após outro no colo da avó.

— Ah, criança, que bênção você me traz! — exclamou a velha. — Mas você mesma é minha maior bênção, Heidi!

Então, acariciando os cabelos e as faces coradas da criança, suplicou:

— Diga só mais uma palavra, para que eu possa ouvir sua voz.

Enquanto Heidi falava, a mãe de Pedro chegou e exclamou, espantada:

— Mas esta é Heidi. Como pode ser?

A criança se levantou para apertar a mão de Brigida, que não conseguia se recompor diante do esplêndido vestido e do chapéu de Heidi.

— A senhora pode ficar com meu chapéu, eu não o quero mais; ainda tenho o meu velho — disse Heidi, puxando para fora seu velho e amassado chapéu de palha.

Heidi se lembrara das palavras do avô a Deta sobre seu chapéu de plumas; fora por isso que conservara tão cuidadosamente seu chapéu antigo. Brigida, por fim, aceitou o presente depois de muitos protestos. De repente, Heidi tirou o belo vestido e amarrou em torno de si o velho xale. Tomando a mão da avó, disse:

— Adeus, preciso ir para casa, para o avô, agora; mas voltarei amanhã. Boa noite, avó.

— Oh, por favor, volte amanhã, Heidi — implorou a velha, enquanto a segurava firme.

— Por que tirou seu vestido bonito? — perguntou Brigida.

— Prefiro ir ao avô assim, senão talvez ele não me reconheça mais, como a senhora.

Brigida acompanhou a criança para fora e disse misteriosamente:

— Ele a teria reconhecido com o vestido; você devia tê-lo conservado. Por favor, tome cuidado, criança, pois Pedro nos conta que o tio nunca diz uma palavra a ninguém e sempre parece tão zangado.

Mas Heidi não se preocupou e, dizendo boa noite, subiu a trilha com a cesta no braço. O sol da tarde brilhava sobre a relva diante dela. A cada poucos minutos Heidi parava para olhar as montanhas atrás de si. De repente, olhou para trás e contemplou uma glória tão grande como nem mesmo em seu sonho mais vívido havia visto. Os picos rochosos flamejavam na luz brilhante, os campos de neve reluziam e nuvens rosadas flutuavam no alto. A relva parecia uma extensão de ouro, e abaixo dela o vale nadava numa névoa dourada. A criança ficou imóvel, e, em sua alegria e arrebatamento, lágrimas lhe correram pelas faces. Juntou as mãos e, erguendo os olhos ao céu, agradeceu ao Senhor por tê-la trazido de volta para casa. Agradeceu-Lhe por restituí-la às montanhas amadas; em sua felicidade, mal conseguia encontrar palavras para rezar. Só quando o fulgor se apagou Heidi conseguiu seguir novamente pela trilha.

Subiu tão depressa que logo pôde distinguir primeiro as copas das árvores, depois o telhado, por fim a cabana. Agora via o avô sentado em seu banco, fumando cachimbo. Acima da casa, os pinheiros balançavam suavemente e murmuravam na brisa da tarde. Enfim alcançou a cabana e, lançando-se nos braços do avô, abraçou-o e apertou-o com força. Não conseguia dizer nada além de:

— Vovô! Vovô! Vovô!

Em sua emoção.

O velho também nada disse, mas seus olhos estavam úmidos e, soltando por fim os braços de Heidi, sentou-a em seu joelho. Depois de olhá-la por algum tempo, disse:

— Então você voltou para casa, Heidi? Por quê? Certamente não parece muito citadina! Mandaram você embora?

— Oh, não, o senhor não deve pensar isso, vovô. Todos foram tão bons comigo; Clara, o senhor Sesemann e a vovó. Mas, vovô, às vezes eu sentia como se não pudesse mais suportar ficar longe do senhor! Achava que ia sufocar; não podia contar a ninguém, pois isso teria sido ingratidão. De repente, numa manhã, o senhor Sesemann me chamou muito cedo, acho que foi culpa do doutor e... mas penso que isso provavelmente está escrito nesta carta.

Com isso, Heidi tirou da cesta a carta e o rolo de notas, colocando-os no colo do avô.

— Isto pertence a você — disse ele, pondo o rolo ao seu lado.

Depois de ler a carta, guardou-a no bolso.

— Você acha que ainda consegue beber leite comigo, Heidi? — perguntou, enquanto entrava na cabana. — Leve seu dinheiro com você; pode comprar uma cama com ele e roupas por muitos anos.

— Não preciso dele de jeito nenhum, vovô — assegurou-lhe Heidi. — Tenho uma cama, e Clara me deu tantos vestidos que não precisarei de mais nenhum por toda a vida.

— Leve-o e ponha-o no armário, pois algum dia precisará dele.

Heidi obedeceu e dançou pela cabana em seu deleite por ver outra vez todas as coisas queridas. Correndo para o sótão, exclamou em grande decepção:

— Oh, vovô, minha cama desapareceu.

— Ela voltará — chamou o avô lá de baixo. — Como eu poderia saber que você voltaria? Venha tomar seu leite agora!

Heidi, descendo, tomou seu antigo lugar. Agarrou sua tigela e a esvaziou avidamente, como se fosse a coisa mais maravilhosa que já havia provado.

— Vovô, nosso leite é o melhor do mundo inteiro.

De repente, ouvindo um assobio agudo, Heidi correu para fora, enquanto Pedro e todas as suas cabras desciam disparados. Heidi cumprimentou o menino, que parou, enraizado no lugar, fitando-a. Então ela correu para o meio de suas amigas queridas, que também não a haviam esquecido. Schwaenli e Baerli baliram de alegria, e todas as suas outras favoritas se apertaram junto dela. Heidi estava fora de si de felicidade e acariciou a pequena Saltaneve e afagou Pintassilgo, até se sentir empurrada de um lado para o outro entre elas.

— Pedro, por que você não desce e vem me dar boa noite? — chamou Heidi ao menino.

— Você voltou? — exclamou ele por fim.

Então tomou a mão que Heidi lhe oferecia e perguntou, como se ela sempre tivesse estado ali:

— Vai subir comigo amanhã?

— Não, amanhã preciso ir à casa da avó, mas talvez depois de amanhã.

Pedro teve grande dificuldade com suas cabras naquele dia, pois elas não queriam segui-lo. Vez após vez voltavam para Heidi, até que ela entrou no estábulo com Baerli e Schwaenli e fechou a porta.

Quando Heidi subiu ao sótão para dormir, encontrou uma cama fresca e perfumada à sua espera; e dormiu melhor naquela noite do que havia dormido em muitos, muitos meses, pois sua grande e ardente saudade fora satisfeita. Cerca de dez vezes naquela noite, o avô se levantou de seu leito para escutar a respiração tranquila de Heidi. A janela estava tapada com feno, pois dali em diante a lua não teria mais permissão para brilhar sobre Heidi. Mas Heidi dormia em paz, pois vira as montanhas flamejantes e ouvira os pinheiros rugirem.

1/1
Menu

Fazer anotação