Uma Vovó
Na noite seguinte, uma grande expectativa reinava na casa. Tinette havia posto uma touca nova, Sebastian colocava escabelos diante de quase todas as poltronas, e a senhorita Rottenmeier caminhava pela casa com grande dignidade, inspecionando tudo.
Quando a carruagem enfim parou à porta, os criados voaram escada abaixo, seguidos pela senhorita Rottenmeier em passo mais comedido. Heidi fora mandada para seu quarto, a fim de aguardar novas ordens, mas não demorou para que Tinette abrisse a porta e dissesse bruscamente:
— Vá para a sala de estudos!
A vovó, com seu modo bondoso e afetuoso, logo fez amizade com a criança e a fez sentir-se como se a conhecesse desde sempre. Para grande mortificação da governanta, chamou a criança de Heidi, observando à senhorita Rottenmeier:
— Se alguém se chama Heidi, eu a chamo assim.
A governanta logo percebeu que teria de respeitar os modos e as opiniões da avó. A senhora Sesemann sempre sabia o que se passava na casa no mesmo instante em que entrava nela. Na tarde seguinte, Clara estava descansando, e a velha senhora fechara os olhos por cinco minutos, quando se levantou outra vez e foi à sala de jantar. Suspeitando que a governanta provavelmente estivesse dormindo, dirigiu-se ao quarto dessa senhora e bateu alto à porta. Depois de algum tempo, alguém se mexeu lá dentro, e a senhorita Rottenmeier apareceu com o rosto aturdido, fitando a visitante inesperada.
— Rottenmeier, onde está a criança? Como ela passa o tempo? Quero saber — disse a senhora Sesemann.
— Ela apenas fica sentada no quarto, sem mover um dedo; não tem o menor desejo de fazer algo útil, e é por isso que lhe vêm à cabeça coisas tão absurdas que mal se podem mencionar em sociedade educada.
— Eu faria exatamente a mesma coisa se me deixassem sozinha desse jeito. Por favor, traga-a agora ao meu quarto; quero lhe mostrar alguns livros bonitos que trouxe comigo.
— Esse é justamente o problema. O que ela faria com livros? Durante todo este tempo, nem sequer aprendeu o A, B, C, pois é impossível incutir qualquer conhecimento nesse ser. Se o senhor Candidato não fosse paciente como um anjo, já teria desistido de ensiná-la há muito tempo.
— Que estranho! A criança não me parece alguém incapaz de aprender o A, B, C — disse a senhora Sesemann. — Por favor, vá buscá-la agora; de todo modo, poderemos olhar as figuras.
A governanta ia dizer mais alguma coisa, mas a velha senhora já se voltara e seguira para seu quarto. Pensava no que ouvira sobre Heidi, resolvendo examinar melhor o caso.
Heidi veio e olhava com olhos maravilhados as esplêndidas figuras nos grandes livros que a vovó lhe mostrava. De repente, soltou um grito alto, pois ali, numa imagem, viu um rebanho pacífico pastando numa verde pastagem. No meio, um pastor estava de pé, apoiado em seu cajado. O sol poente derramava uma luz dourada sobre tudo. Com olhos ardentes, Heidi devorava a cena; mas, de súbito, começou a soluçar violentamente.
A vovó tomou a mãozinha dela entre as suas e disse com a voz mais suave:
— Vamos, criança, você não deve chorar. Isto lhe lembrou alguma coisa? Agora pare, e esta noite eu lhe contarei a história. Há histórias encantadoras neste livro, que as pessoas podem ler e contar. Enxugue as lágrimas agora, querida, preciso lhe perguntar uma coisa. Levante-se e olhe para mim! Agora voltaremos a ficar alegres!
Heidi não parou de imediato, mas a bondosa senhora lhe deu tempo suficiente para se recompor, dizendo de quando em quando:
— Agora passou. Agora vamos ficar alegres outra vez.
Quando a criança enfim se aquietou, ela disse:
— Conte-me agora como vão suas lições. O que você aprendeu, criança? Diga-me.
— Nada — suspirou Heidi —; mas eu já sabia que nunca conseguiria aprender.
— O que é que você não consegue aprender?
— Não consigo aprender a ler; é difícil demais.
— Ora essa! Quem lhe deu essa informação?
— Pedro me disse, e ele tentou muitas e muitas vezes, mas não conseguiu, porque é difícil demais.
— Bem, que espécie de menino é esse? Heidi, você não deve acreditar no que Pedro lhe diz, mas tentar por si mesma. Tenho certeza de que seus pensamentos estavam em outro lugar quando o senhor Candidato lhe mostrava as letras.
— Não adianta — disse Heidi, num tom como se estivesse resignada ao seu destino.
— Vou lhe dizer uma coisa, Heidi — disse então a bondosa senhora. — Você não aprendeu a ler porque acreditou no que Pedro disse. Agora acreditará em mim, e eu profetizo que você aprenderá em muito pouco tempo, como tantas outras crianças que são como você e não como Pedro. Quando souber ler, vou lhe dar este livro. Você viu o pastor na verde pastagem, e então poderá descobrir todas as coisas estranhas que acontecem com ele. Sim, poderá ouvir a história inteira, e saber o que ele faz com suas ovelhas e suas cabras. Você gostaria de saber, não gostaria, Heidi?
Heidi escutara atentamente e disse agora, com olhos cintilantes:
— Ah, se eu já soubesse ler!
— Não demorará muito, posso ver isso. Venha agora, vamos até Clara.
Com isso, ambas foram para a sala de estudos.
Desde o dia da tentativa de fuga de Heidi, uma grande mudança se operara na criança. Ela compreendera que magoaria seus bondosos amigos se tentasse voltar para casa outra vez. Sabia agora que não podia partir, como sua tia Deta prometera, pois todos, especialmente Clara, o pai dela e a velha senhora, a julgariam ingrata. Mas o peso crescia em seu coração, e ela perdeu o apetite, ficando cada vez mais pálida. À noite, não conseguia dormir de tanta saudade das montanhas, com as flores e a luz do sol, e só em sonhos era feliz. Quando acordava pela manhã, sempre se encontrava em sua alta cama branca, longe de casa. Enterrando a cabeça no travesseiro, muitas vezes chorava por muito, muito tempo.
A senhora Sesemann notara a tristeza da criança, mas deixou passar alguns dias, esperando uma mudança. A mudança, porém, nunca veio, e muitas vezes os olhos de Heidi estavam vermelhos já de manhã cedo. Então, um dia, chamou a criança a seu quarto e disse, com grande compaixão na voz:
— Diga-me, Heidi, o que há com você? O que a deixa tão triste?
Mas, como Heidi não queria parecer ingrata, respondeu tristemente:
— Não posso lhe dizer.
— Não? Não pode contar talvez a Clara?
— Oh, não, não posso contar a ninguém — disse Heidi, parecendo tão infeliz que o coração da velha senhora se encheu de piedade.
— Vou lhe dizer uma coisa, menininha — continuou ela. — Se você tem uma tristeza que não pode contar a ninguém, pode recorrer ao Nosso Pai do Céu. Pode contar a Ele tudo o que a aflige, e, se Lhe pedirmos, Ele pode nos ajudar e tirar de nós o sofrimento. Você me entende, criança? Você não reza todas as noites? Não Lhe agradece por todos os Seus dons e Lhe pede que a proteja do mal?
— Oh, não, eu nunca faço isso — respondeu a criança.
— Você nunca rezou, Heidi? Sabe o que quero dizer?
— Eu só rezava com minha primeira avó, mas faz tanto tempo que me esqueci.
— Veja, Heidi, agora compreendo por que você é tão infeliz. Todos precisamos de alguém que nos ajude, e pense só como é maravilhoso poder ir até o Senhor quando alguma coisa nos angustia e nos causa dor. Podemos contar tudo a Ele e pedir que nos console quando ninguém mais consegue fazê-lo. Ele pode nos dar felicidade e alegria.
Heidi se alegrou com essas notícias e perguntou:
— Podemos contar a Ele tudo, tudo mesmo?
— Sim, Heidi, tudo.
A criança, retirando sua mão da da vovó, disse apressadamente:
— Posso ir agora?
— Sim, claro — foi a resposta, e com isso Heidi correu para seu quarto. Sentando-se num banquinho, juntou as mãos e derramou o coração diante de Deus, implorando-Lhe que a ajudasse e a deixasse voltar para casa, para junto do avô.
Cerca de uma semana depois, o senhor Candidato pediu para ver a senhora Sesemann, a fim de lhe contar algo incomum que acontecera. Chamado ao quarto da senhora, começou:
— Senhora Sesemann, aconteceu algo que eu jamais esperava.
E, com muitas outras palavras, contou à feliz vovó que Heidi aprendera subitamente a ler com a máxima correção, coisa raríssima em principiantes.
— Muitas coisas estranhas acontecem neste mundo — observou a senhora Sesemann, enquanto iam para a sala de estudos testemunhar a nova conquista de Heidi.
Heidi estava sentada bem perto de Clara, lendo-lhe uma história; parecia maravilhada com o estranho e novo mundo que se abrira diante dela. Na ceia, Heidi encontrou sobre seu prato o grande livro com as belas figuras e, olhando em dúvida para a vovó, viu a velha senhora assentir.
— Agora ele pertence a você, Heidi — disse ela.
— Para sempre? Também quando eu for para casa? — perguntou Heidi, confusa de alegria.
— Certamente, para sempre! — assegurou-lhe a vovó. — Amanhã começaremos a lê-lo.
— Mas, Heidi, você não deve ir para casa; não, não por muitos anos — exclamou Clara —, especialmente quando a vovó for embora. Você precisa ficar comigo.
Naquela noite, antes de ir para a cama, Heidi ainda olhou seu livro, e esse livro se tornou seu tesouro mais querido. Ela olhava as belas figuras e lia todas as histórias em voz alta para Clara. A vovó escutava em silêncio e explicava alguma coisa aqui e ali, tornando tudo ainda mais bonito do que antes. Heidi amava, acima de todas, as figuras com o pastor; elas contavam a história do filho pródigo, e a criança lia e relia até quase sabê-la inteira de cor. Desde que Heidi aprendera a ler e possuía o livro, os dias pareciam voar, e aproximava-se o tempo que a vovó fixara para sua partida.