Capítulo XIV
Capítulo XIV
Passados três dias, ao descer uma tarde da montanha, pareceu-me notar algum sobressalto nos semblantes dos criados com quem cruzei nos corredores interiores. Minha irmã contou-me que Maria havia sofrido um ataque nervoso; e, ao acrescentar que ela ainda estava sem sentidos, procurou acalmar quanto pôde minha dolorosa ansiedade.
Esquecido de toda precaução, entrei na alcova onde estava Maria e, dominando o frenesi que me teria feito estreitá-la contra meu coração para devolvê-la à vida, aproximei-me desconcertado de seu leito. Aos pés dele estava sentado meu pai: fixou em mim um de seus olhares intensos e, voltando-o depois para Maria, parecia querer fazer-me uma censura ao mostrá-la. Minha mãe estava ali; mas não levantou a vista para me procurar, porque, sabedora de meu amor, compadecia-me como sabe compadecer uma boa mãe, na mulher amada por seu filho, o próprio filho.
Permaneci imóvel contemplando-a, sem atrever-me a averiguar qual era seu mal. Estava como adormecida: seu rosto, coberto de palidez mortal, via-se meio oculto pela cabeleira desfeita, na qual se descobriam, amarrotadas, as flores que eu lhe havia dado pela manhã; a fronte contraída revelava um padecimento insuportável, e um leve suor lhe umedecia as têmporas; dos olhos fechados haviam tentado brotar lágrimas que brilhavam detidas nos cílios.
Compreendendo meu pai todo o meu sofrimento, pôs-se de pé para retirar-se; mas, antes de sair, aproximou-se do leito e, tomando o pulso de Maria, disse:
— Tudo passou. Pobre menina! É exatamente o mesmo mal de que padeceu sua mãe.
O peito de Maria elevou-se lentamente, como para formar um soluço, e, ao voltar ao estado natural, exalou apenas um suspiro. Assim que meu pai saiu, coloquei-me à cabeceira do leito e, esquecendo-me de minha mãe e de Emma, que permaneciam silenciosas, tomei de sobre a almofada uma das mãos de Maria e banhei-a na torrente de minhas lágrimas até então contidas. Media toda a minha desgraça: era o mesmo mal de sua mãe, que morrera muito jovem atacada por uma epilepsia incurável. Essa ideia se apossou de todo o meu ser para quebrantá-lo.
Senti algum movimento naquela mão inerte, à qual meu alento não podia devolver o calor. Maria já começava a respirar com mais liberdade, e seus lábios pareciam esforçar-se para pronunciar alguma palavra. Moveu a cabeça de um lado para outro, como se tentasse desfazer-se de um peso esmagador. Passado um momento de repouso, balbuciou palavras ininteligíveis, mas enfim se percebeu entre elas claramente o meu nome. De pé, eu, devorando-a com meus olhares, talvez lhe apertei demais as mãos entre as minhas, talvez meus lábios a chamaram. Abriu lentamente os olhos, como feridos por uma luz intensa, e fixou-os em mim, fazendo esforço para reconhecer-me. Meio incorporando-se um instante depois, «que é isto?», disse-me, afastando-me; «que me aconteceu?», continuou, dirigindo-se a minha mãe. Tratamos de tranquilizá-la, e com um acento em que havia algo de censura, que então não pude explicar a mim mesmo, acrescentou: «estás vendo? eu o temia».
Ficou, depois do acesso, dolorida e profundamente triste. Voltei à noite para vê-la, quando a etiqueta estabelecida por meu pai em tais casos o permitiu. Ao despedir-me dela, retendo-me por um instante a mão, «até amanhã», disse-me, e acentuou esta última palavra como costumava fazer sempre que, interrompida nossa conversa em algum serão, ficava desejando o dia seguinte para que a concluíssemos.