Capítulo XL María · Capítulo 41 de 66
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Capítulo XL

Capítulo XL

Quando cheguei às fazendas na manhã do dia seguinte, encontrei na casa de moradia o médico que substituía Mayn na assistência a Feliciana. Ele, por seu porte e fisionomia, parecia mais um capitão reformado do que aquilo que assegurava ser. Fez-me saber que havia perdido toda esperança de salvar a enferma, pois estava atacada por uma hepatite que, em seu último período, já resistia a toda espécie de aplicações; e concluiu manifestando-me ser de opinião que se chamasse um sacerdote.

Entrei no aposento onde se achava Feliciana. Juan Ángel já estava ali e admirava-se de que sua mãe não lhe respondesse ao louvar-lhe a Deus. Encontrar Feliciana em estado tão desesperador não podia deixar de comover-me.

Dei ordem para que se aumentasse o número de escravizadas que a serviam; fiz colocá-la em um quarto mais cômodo, ao que ela se havia oposto humildemente, e mandou-se buscar o sacerdote no povoado.

Aquela mulher que ia morrer longe de sua pátria; aquela mulher que tão doce afeto me tivera desde que foi para nossa casa; em cujos braços tantas vezes adormeceu Maria quando menina... Mas eis sua história, que, referida por Feliciana em linguagem rústica e patética, entreteve alguns serões de minha infância.

Magmahú havia sido, desde sua adolescência, um dos chefes mais distintos dos exércitos de Achanti, nação poderosa da África ocidental. O destemor e a perícia que mostrara nas frequentes guerras que o rei Say Tuto Kuamina sustentou contra os Achimis até a morte de Orsué, caudilho destes; a completa vitória que alcançou sobre as tribos do litoral sublevadas contra o rei por Carlos Macharty, a quem o próprio Magmahú deu morte no campo de batalha, fizeram com que o monarca o cumulasse de honras e riquezas, confiando-lhe ao mesmo tempo o comando de todas as suas tropas, a despeito dos êmulos do afortunado guerreiro, os quais nunca lhe perdoaram haver merecido tamanho favor.

Passada a breve paz conseguida com a derrota de Macharty, pois os ingleses, já com exército próprio, ameaçavam os Achantis, todas as forças do reino saíram em campanha.

Travou-se a batalha, e poucas horas bastaram para convencer os ingleses da insuficiência de suas armas mortíferas contra o valor dos africanos. Ainda indecisa a vitória, Magmahú, resplandecente de ouro e terrível em seu furor, percorria as hostes, animando-as com sua intrepidez; e sua voz dominava o estrondo das baterias inimigas. Mas em vão enviou ordens aos chefes das reservas para que entrassem em combate, atacando o flanco mais debilitado dos invasores. A noite interrompeu a luta; e quando, à primeira luz do dia seguinte, Magmahú passou revista às suas tropas, dizimadas pela morte e pela deserção e acovardadas pelos chefes que haviam impedido a vitória, compreendeu que seria vencido e preparou-se para lutar e morrer. O rei, que chegou em tão terríveis momentos ao campo de suas hostes, viu-as e pediu a paz. Os ingleses a concederam e celebraram tratados com Say Tuto Kuamina. Desde aquele dia Magmahú perdeu o favor de seu rei.

Irritado o valente chefe com a injusta conduta do monarca, e não querendo dar a seus êmulos o prazer de vê-lo humilhado, resolveu expatriar-se. Antes de partir, determinou lançar às correntes do Tando o sangue e as cabeças de seus mais belos escravizados, como oferenda a seu Deus. Sinar era entre eles o mais jovem e garboso. Filho este de Orsué, o desventurado caudilho dos Achimis, caiu prisioneiro pelejando com valentia na sangrenta jornada em que seu pai foi vencido e morto; mas, temendo Sinar e seus compatriotas escravizados a sanha implacável dos Achantis, haviam-lhes ocultado a nobre estirpe do prisioneiro que tinham.

Somente Nay, única filha de Magmahú, conheceu aquele segredo. Ainda menina quando Sinar veio como servo para a casa do vencedor de Orsué, cativou-a a princípio a digna mansidão do jovem guerreiro e, mais tarde, seu engenho e sua formosura. Ele lhe ensinava as danças de sua terra natal, os amorosos e sentidos cantares do país de Bambuk; referia-lhe as maravilhosas lendas com que sua mãe o havia entretido na infância; e, se algumas lágrimas rolavam então pela tez cor de uva das faces do escravizado, Nay costumava dizer-lhe:

— Pedirei tua liberdade a meu pai para que voltes ao teu país, já que és tão infeliz aqui.

E Sinar não respondia; mas seus grandes olhos deixavam de chorar e fitavam sua jovem senhora de tal maneira que ela parecia, naqueles momentos, a escrava.

Um dia em que Nay, acompanhada por sua servidumbre, saíra a passear pelas cercanias de Cumasia, Sinar, que guiava o belo avestruz em que ia sentada sua senhora como sobre brancas almofadas de Bornú, fez a ave andar tão precipitadamente que, pouco depois, encontraram-se a grande distância da comitiva. Sinar, detendo-se, com os olhos flamejantes e um sorriso de triunfo nos lábios, disse a Nay, apontando-lhe o vale que tinham aos pés:

— Nay, ali está o caminho que conduz ao meu país: vou fugir de meus inimigos, mas tu irás comigo: serás rainha dos Achimis, e minha única mulher; eu te amarei mais do que à mãe desventurada que chora minha morte, e nossos descendentes serão invencíveis levando nas veias meu sangue e o teu. Olha e vem: quem se atreverá a pôr-se em meu caminho?

Ao dizer estas últimas palavras, ergueu o amplo manto de pele de pantera que lhe caía dos ombros, e sob ele brilharam as coronhas de duas pistolas e a guarnição de um sabre turco cingido com um xale vermelho de Zerbi.

Sinar, de joelhos, cobriu de beijos os pés de Nay, pendentes sobre a macia plumagem do avestruz, e este puxava carinhosamente com o bico as vistosas vestes de sua senhora.

Muda e absorta ao ouvir as amorosas e tremendas palavras do escravizado, ela reclinou enfim sobre o regaço a bela cabeça de Sinar, dizendo-lhe:

— Tu não queres ser ingrato comigo, e dizes que me amas e me levas para ser rainha em tua pátria; eu não devo ser ingrata com meu pai, que me amou antes de ti, e a quem minha fuga causaria desespero e morte. Espera, e partiremos juntos com seu consentimento; espera, Sinar, que eu te amo...

E Sinar estremeceu ao sentir sobre a fronte os lábios ardentes de Nay.

Dias e dias correram, e Sinar esperava, porque em sua escravidão era feliz.

Magmahú saiu em campanha contra as tribos insurretas por Macharty, e Sinar não acompanhou seu senhor à guerra como os outros escravizados. Ele havia dito a Nay:

— Prefiro a morte antes de combater contra povos que foram aliados de meu pai.

Ela, na véspera da partida das tropas, deu ao amante, sem que ele o percebesse, uma bebida na qual havia espremido uma planta soporífera; e o filho de Orsué ficou assim impossibilitado de marchar, pois permaneceu por vários dias dominado por um sono invencível, que Nay interrompia à vontade, derramando-lhe nos lábios um óleo aromático e vivificante.

Mas, declarada depois a guerra pelos ingleses a Say Tuto Kuamina, Sinar apresentou-se a Magmahú para dizer-lhe:

— Leva-me contigo às batalhas: combaterei ao teu lado contra os brancos; prometo-te que merecerei comer seus corações assados pelos sacerdotes e que trarei no pescoço colares de dentes dos homens louros.

Nay deu-lhe bálsamos preciosos para curar feridas; e, pondo plumas sagradas no penacho de seu amante, rociou com lágrimas o ébano daquele peito que ela acabava de ungir com óleo odorífero e pós de ouro.

Na sangrenta jornada em que os chefes achantis, invejosos da glória de Magmahú, impediram-no de alcançar a vitória sobre os ingleses, uma bala de fuzil rompeu o braço esquerdo de Sinar.

Terminada a guerra e feita a paz, o intrépido capitão dos Achantis voltou humilhado ao lar; e Nay, durante alguns dias, só deixou de enxugar o pranto que a ira arrancava de seu pai para ir ocultamente dar alívio a Sinar, curando-lhe amorosamente a ferida.

Tomada por Magmahú a resolução de abandonar a pátria e oferecer aquele sangrento sacrifício ao rio Tando, falou assim à filha:

— Vamos, Nay, buscar solo menos ingrato que este para meus netos. Os mais belos e famosos chefes do Gâmbia, país que visitei em minha juventude, envaidecer-se-ão de me dar asilo em seus lares e de preferir-te às suas mais belas mulheres. Estes braços ainda estão fortes para combater, e possuo riquezas suficientes para ser poderoso onde quer que um teto nos cubra... Mas antes de partir é necessário que aplaquemos a cólera do Tando, encarniçado contra mim por meu amor à glória, e que lhe sacrifiquemos a flor de nossos escravizados; Sinar entre eles, o primeiro...

Nay caiu sem sentidos ao ouvir aquela terrível sentença, deixando escapar dos lábios o nome de Sinar. Suas escravas a recolheram, e Magmahú, fora de si, mandou vir Sinar à sua presença. Com o sabre desembainhado, disse-lhe, tartamudeando de ira:

— Escravo! Puseste teus olhos em minha filha; em castigo farei que se fechem para sempre.

— Tu o podes — respondeu sereno o mancebo —: não será o meu o primeiro sangue dos reis dos Achimis com que teu sabre se avermelha.

Magmahú ficou desconcertado ao ouvir tais palavras, e o tremor de sua destra fazia ressoar sobre o pavimento o curvo alfanje que empunhava.

Nay, desprendendo-se de suas escravas, que a detinham aterradas, entrou no aposento onde estavam Sinar e Magmahú, e, abraçando-se aos joelhos deste, banhava-lhe os pés com lágrimas, exclamando:

— Perdoa-nos, senhor, ou mata-nos a ambos!

O velho guerreiro, arrojando de si a arma temível, deixou-se cair em um divã e murmurou, ao ocultar o rosto com as mãos:

— E ela o ama!... Orsué, Orsué! Já te vingaram.

Sentada Nay sobre os joelhos de seu pai, estreitava-o nos braços e, cobrindo de beijos a cabeleira branca dele, dizia-lhe soluçante:

— Terás dois filhos em vez de um: aliviaremos tua velhice, e seu braço te defenderá nos combates.

Magmahú ergueu a cabeça e, fazendo sinal a Sinar para que se aproximasse, disse-lhe com voz e semblante terríveis, estendendo para ele a destra:

— Esta mão deu morte a teu pai; com ela arranquei-lhe do peito o coração... e meus olhos se deleitaram em sua agonia...

Nay selou com os seus os lábios de Magmahú e, voltando-se precipitadamente para Sinar, estendeu para ele suas lindas mãos, dizendo-lhe com amoroso acento:

— Estas curaram tuas feridas, e estes olhos choraram por ti.

Sinar caiu de joelhos diante de sua amada e de seu senhor, e este, depois de alguns momentos, disse-lhe, abraçando a filha:

— Eis o que te darei em prova de minha amizade no dia em que estiver seguro da tua.

— Juro por meus deuses e pelo teu — respondeu o filho de Orsué — que a minha será eterna.

Passados dois dias, Nay, Sinar e Magmahú saíram de Cumasia favorecidos pela escuridão da noite, levando trinta escravizados de ambos os sexos, camelos e avestruzes para cavalgar, e outros carregados com as mais preciosas joias e baixelas que possuíam; grande quantidade de tíbar e cauris, mantimentos e água, como para uma longa viagem.

Muitos dias gastaram naquela perigosa peregrinação. A caravana teve a fortuna de encontrar bom tempo e de não topar com os sereres. Durante a viagem, Sinar e Nay dissipavam a tristeza do coração de Magmahú entoando em dueto canções alegres; e, nas noites serenas, à luz da lua e ao lado da tenda da caravana, os venturosos amantes ensaiavam graciosas danças ao som das trombetas de marfim e das liras dos escravizados.

Por fim chegaram ao país dos Kombu-Manez, nas margens do Gâmbia; e aquela tribo celebrou com suntuosas festas e sacrifícios a chegada de tão ilustres hóspedes.

Desde tempos imemoriais, os Kombu-Manez e os Cambez faziam entre si uma guerra cruel, guerra atiçada em ambos os povos não somente pelo ódio que se professavam, mas por uma criminosa avareza. Uns e outros trocavam com os europeus traficantes de escravizados os prisioneiros que faziam nos combates, por armas, pólvora, sal, ferro e aguardente; e, à falta de inimigos para vender, os chefes vendiam seus súditos, e muitas vezes aqueles e estes, seus filhos.

O valor e a perícia militar de Magmahú e Sinar foram por algum tempo de grande proveito aos Kombu-Manez na guerra contra seus vizinhos, pois travaram contra eles repetidos combates, nos quais obtiveram um êxito até então não alcançado. Obrigado Magmahú a optar entre degolar os prisioneiros ou vendê-los aos europeus, teve de consentir no último, obtendo ao mesmo tempo a vantagem de que o chefe dos Kombu-Manez impusesse penas temidas àqueles de seus súditos que alienassem seus dependentes ou seus filhos.

Uma tarde em que Nay fora com algumas de suas escravas banhar-se nas margens do Gâmbia, e em que Sinar, sob a sombra de um gigantesco baobá, lugar onde sempre se isolavam por algumas horas nos dias de paz, a esperava com amorosa impaciência, dois pescadores amarraram sua piroga na mesma margem onde Sinar estava, e nela vinham dois europeus: um deles pôs-se trabalhosamente em terra e, ajoelhando-se sobre a praia, orou por alguns momentos; os pálidos raios do sol moribundo, atravessando as folhagens, iluminaram-lhe a face tostada pelos sóis e orlada por uma espessa barba quase branca. Como, ao pôr-se de joelhos, havia colocado sobre a areia o largo chapéu de canas que trazia, as brisas do Gâmbia brincavam com sua longa e emaranhada cabeleira. Tinha uma veste talar negra, enlameada e feita em farrapos, e brilhava-lhe sobre o peito um crucifixo de cobre.

Assim o encontrou Nay ao aproximar-se em busca de seu amante. Os dois pescadores subiram nesse momento o cadáver do outro europeu, o qual estava vestido da mesma maneira que seu companheiro.

Os pescadores referiram a Sinar como haviam encontrado dois brancos sob uma barraca de folhas de palmeira, duas léguas acima do Gâmbia, o jovem expirante e o ancião ungindo-o enquanto pronunciava orações em uma língua estranha.

O velho sacerdote permaneceu por algum tempo abstraído de tudo quanto o rodeava. Logo que se pôs de pé, Sinar, levando Nay pela mão, assustada diante daquele estrangeiro de traje e figura tão raros, perguntou-lhe de onde vinha, que objetivo tinha sua viagem e de que país era; e ficou surpreso ao ouvi-lo responder, embora com alguma dificuldade, na língua dos Achimis:

— Venho de teu país: vejo pintada em teu peito a serpente vermelha dos nobres Achimis, e falas seu idioma. Minha missão é de paz e de amor: nasci na França. As leis deste país não permitem dar sepultura ao cadáver do estrangeiro? Teus compatriotas choraram sobre os de outros dois de meus irmãos, puseram cruzes sobre suas tumbas, e muitos as trazem de ouro pendentes do pescoço. Deixar-me-ás, pois, enterrar o estrangeiro?

Sinar respondeu-lhe:

— Parece que dizes a verdade, e não deves ser mau como os brancos, embora te pareças com eles; mas há quem mande mais do que eu entre os Kombu-Manez. Vem conosco: apresentarei-te ao chefe deles e levaremos o cadáver de teu amigo para saber se permite que o enterres em seus domínios.

Enquanto percorriam o curto trecho que os separava da cidade, Sinar falava com o missionário, e Nay se esforçava por entender o que diziam; seguiam-nos os dois pescadores, conduzindo em uma manta o cadáver do jovem sacerdote.

Durante o diálogo, Sinar convenceu-se de que o estrangeiro era veraz, pelo modo como respondeu às perguntas que lhe fez sobre o país dos Achimis: reinava nele um irmão seu, e a Sinar julgavam morto. O missionário explicou-lhe os meios de que se valera para conquistar o afeto de algumas tribos dos Achimis; afeto que tivera por origem o acerto com que havia curado alguns enfermos, e a circunstância de ter sido um deles a escrava favorita do rei. Os Achimis lhe haviam dado uma caravana e víveres para que se dirigisse à costa com o único de seus companheiros que sobrevivia; mas, surpreendidos na viagem por uma partida inimiga, alguns de seus guardiões os abandonaram e outros foram mortos; contentando-se os vencedores em deixar os sacerdotes sem guias no deserto, temerosos talvez de que os vencidos voltassem à peleja. Muitos dias viajaram sem outro guia que o sol e sem mais alimento que as frutas que encontravam nos oásis, e assim haviam chegado à margem do Gâmbia, onde, devorado pela febre, acabava de expirar o jovem quando os pescadores os encontraram.

Magmahú e Sinar levaram o sacerdote à presença do chefe dos Kombu-Manez, e o segundo lhe disse:

— Eis aqui um estrangeiro que te suplica lhe permitas enterrar em teus domínios o cadáver de seu irmão e tomar descanso para poder continuar viagem a seu país: em troca, promete curar teu filho.

Naquela noite, Sinar e dois escravizados seus ajudaram o missionário a sepultar o cadáver. Ajoelhado o ancião à beira da cova que os escravizados iam enchendo, entoou um canto profundamente triste, e a lua fazia brilhar na barba branca do ministro lágrimas que rolavam para umedecer a terra estrangeira que lhe ocultava o denodado amigo.

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