Capítulo XVII María · Capítulo 18 de 66
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Capítulo XVII

Capítulo XVII

Dez dias haviam passado desde que tivera lugar aquela penosa conferência. Não me sentindo capaz de cumprir os desejos de meu pai quanto à nova espécie de trato que, segundo ele, eu devia usar com Maria, e preocupado dolorosamente com a proposta de casamento feita por Carlos, eu buscara toda sorte de pretextos para afastar-me da casa. Passei aqueles dias ora encerrado em meu quarto, ora na propriedade de José, as mais das vezes vagando a pé pelos arredores. Levava por companheiro em meus passeios algum livro no qual não conseguia ler, minha espingarda, que nunca disparava, e Mayo, que me seguia fatigando-se. Enquanto eu, dominado por uma profunda melancolia, deixava correr as horas oculto nos lugares mais agrestes, ele procurava em vão cochilar, enroscado sobre a folhagem seca, de onde o desalojavam as formigas ou o faziam saltar, impaciente, os mutucas e pernilongos. Quando o velho amigo se cansava da inação e do silêncio, que lhe eram antipáticos apesar de seus achaques, aproximava-se de mim e, recostando a cabeça sobre um de meus joelhos, olhava-me carinhoso, para depois afastar-se e esperar-me a algumas varas de distância, na vereda que conduzia à casa; e, em seu afã de que empreendêssemos a marcha, uma vez conseguido que eu o seguisse, excedia-se até dar alguns saltos de alegria, entusiasmos juvenis nos quais, além de esquecer sua compostura e gravidade senil, saía pouco airosamente.

Certa manhã, minha mãe entrou em meu quarto e, sentando-se à cabeceira da cama, da qual eu ainda não havia saído, disse-me:

— Isto não pode ser: não deves continuar vivendo assim; eu não me conformo.

Como eu guardasse silêncio, continuou:

— O que fazes não é o que teu pai exigiu; é muito mais; e tua conduta é cruel para conosco e mais cruel para com Maria. Eu estava persuadida de que teus frequentes passeios tinham por objeto ir à casa de Luisa, por causa do carinho que ali te têm; mas Braulio, que veio ontem à tarde, nos fez saber que havia cinco dias não te via. Que é que te causa essa profunda tristeza que não consegues dominar nem nos poucos momentos que passas em companhia da família, e que te faz buscar constantemente a solidão, como se já te fosse enfadonho estar conosco?

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Maria, senhora — respondi-lhe —, deve ser completamente livre para aceitar ou não a sorte que Carlos lhe oferece; e eu, como amigo dele, não devo tornar ilusórias as esperanças que, com fundamento, deve alimentar de ser aceito.

Assim revelava, sem poder evitá-lo, a dor mais insuportável que me atormentara desde a noite em que soube da proposta dos senhores de M***. Nada haviam chegado a ser para mim, diante daquela proposta, os fatais prognósticos do doutor sobre a enfermidade de Maria; nada a necessidade de separar-me dela por muitos anos.

— Como pudeste imaginar tal coisa? — perguntou-me, surpresa, minha mãe. — Mal ela terá visto duas vezes teu amigo: justamente uma em que ele esteve aqui algumas horas, e outra em que fomos visitar sua família.

— Mas, minha mãe, pouco é o tempo que falta para que se justifique ou se desvaneça o que pensei. Parece-me que bem vale a pena esperar.

— És muito injusto, e te arrependerás de havê-lo sido. Maria, por dignidade e por dever, sabendo dominar-se melhor que tu, oculta o muito que tua conduta a está fazendo sofrer. Custa-me acreditar no que vejo; assombra-me ouvir o que acabas de dizer. Eu, que pensei dar-te uma grande alegria e remediar tudo fazendo-te saber o que Mayn nos disse ontem ao despedir-se!

— Diga-me, diga-me — supliquei, incorporando-me.

— Para quê, agora?

— Ela não será sempre... não será sempre minha irmã?

— Tarde pensas assim. Ou é que pode um homem ser cavalheiro e fazer o que tu fazes? Não, não; isso não deve fazer um filho meu... Tua irmã! E esqueces que estás dizendo isso a quem te conhece mais que tu mesmo! Tua irmã! E sei que te ama desde que eu vos fazia dormir a ambos sobre meus joelhos! É agora que acreditas nisso? Agora que eu vinha falar-te desse assunto, assustada pelo sofrimento que a pobrezinha procura inutilmente ocultar-me.

— Eu não quero, nem por um instante, dar-lhe motivo para um desgosto como o que me deixa conhecer. Diga-me o que devo fazer para remediar o que a senhora achou reprovável em minha conduta.

— Assim deve ser. Não desejas que eu a queira tanto quanto a ti?

— Sim, senhora; e assim é, não é verdade?

— Assim será, ainda que eu me houvesse esquecido de que ela não tem outra mãe senão eu, das recomendações de Salomón e da confiança de que ele me julgou digna; porque ela o merece e te ama tanto. O doutor assegura que o mal de Maria não é o que sofreu Sara.

— Ele disse isso?

— Sim; teu pai, já tranquilizado por esse lado, quis que eu te fizesse sabê-lo.

— Poderei, pois, voltar a ser com ela como antes? — perguntei, fora de mim.

— Quase...

— Oh! Ela me desculpará; não crê a senhora? O doutor disse que não há nenhuma espécie de perigo? — acrescentei. — É necessário que Carlos o saiba.

Minha mãe olhou-me com estranheza antes de responder:

— E por que se lhe haveria de ocultar? Resta-me dizer-te o que creio que deves fazer, visto que os senhores de M*** hão de vir amanhã, segundo anunciam. Dize esta tarde a Maria... Mas que podes dizer-lhe que baste para justificar tua frieza, sem faltar às ordens de teu pai? E, ainda que pudesses falar-lhe do que ele te exigiu, não poderias desculpar-te, pois, para fazeres o que fizeste nestes dias, há uma causa que, por orgulho e delicadeza, não deves descobrir. Eis aí o resultado. É forçoso que eu manifeste a Maria o motivo real de tua tristeza.

— Mas se a senhora o fizer, se fui leviano em acreditar no que acreditei, que pensará ela de mim?

— Pensará menos mal do que te considerando capaz de uma veleidade e de uma inconsequência mais odiosas que tudo.

— A senhora tem razão até certo ponto; mas eu lhe suplico que não diga a Maria nada do que acabamos de falar. Incorri em um erro, que talvez me tenha feito sofrer mais a mim que a ela, e devo remediá-lo; prometo-lhe que o remediarei: exijo-lhe somente dois dias para fazê-lo como se deve.

— Bem — disse-me, levantando-se para ir embora —; sais hoje?

— Sim, senhora.

— Aonde vais?

— Vou retribuir a Emigdio sua visita de boas-vindas; e é imprescindível, porque ontem mandei dizer-lhe, pelo administrador de seu pai, que me esperasse hoje para almoçar.

— Mas voltarás cedo.

— Às quatro ou cinco.

— Vem comer aqui.

— Sim. A senhora está outra vez satisfeita comigo?

— Como não? — respondeu, sorrindo. — Até a tarde, pois: darás lembranças afetuosas às senhoras, de minha parte e da parte das moças.

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