Capítulo LXIII María · Capítulo 64 de 66
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Capítulo LXIII

Capítulo LXIII

Dois meses depois da morte de Maria, no dia dez de setembro, eu ouvia de Emma o final daquele relato que ela retardara o máximo que lhe fora possível. Já era noite, e Juan dormia sobre meus joelhos, costume que havia adquirido desde meu regresso, porque acaso adivinhava instintivamente que eu procurava substituir-lhe em parte o amor e os cuidados maternais de Maria.

Emma entregou-me a chave do armário em que estavam guardados, na casa da serra, os vestidos de Maria e tudo aquilo que ela recomendara especialmente que se guardasse para mim.

Na madrugada do dia que se seguiu a essa noite, pus-me a caminho de Santa R., onde fazia duas semanas que permanecia meu pai, depois de haver deixado prevenido tudo o que era necessário para meu regresso à Europa, o qual eu devia empreender no dia dezoito daquele mês.

No dia doze, às quatro da tarde, despedi-me de meu pai, a quem fizera crer que desejava passar a noite na fazenda de Carlos, para dessa maneira estar mais cedo em Cali no dia seguinte. Quando abracei meu pai, ele tinha nas mãos um pacote selado e, entregando-mo, disse:

— A Kingston: contém a última vontade de Salomón e o dote de sua filha. Se meu interesse por ti — acrescentou com voz que a emoção tornava trêmula — me fez afastar-te dela e talvez precipitar sua morte... tu saberás desculpar-me... Quem deve fazê-lo, se não és tu?

Ouvida a resposta que, profundamente comovido, dei a essa desculpa paternal, tão terna quanto humildemente apresentada, estreitou-me de novo em seus braços. Ainda persiste em meu ouvido seu acento ao pronunciar aquele adeus!

Saindo à planície de *** depois de haver vadeado o Amaime, esperei Juan Ángel para indicar-lhe que tomasse o caminho da serra. Olhou-me como assustado com a ordem que recebia; mas, vendo-me dobrar para a direita, seguiu-me tão de perto quanto lhe foi possível, e pouco depois o perdi de vista.

Eu já começava a ouvir o ruído das correntes do Sabaletas; divisava as copas dos salgueiros. Detive-me no alto da colina. Dois anos antes, em uma tarde como aquela, que então harmonizava com minha felicidade e agora era indiferente à minha dor, eu avistara dali mesmo as luzes daquele lar onde, com amorosa ansiedade, era esperado. Maria estava ali... Agora aquela casa fechada e seus arredores solitários e silenciosos: então o amor que nascia, e agora o amor sem esperança! Ali, a poucos passos da vereda que a grama começava a apagar, eu via a larga pedra que nos serviu de assento tantas vezes naquelas felizes tardes de leitura. Estava enfim próximo ao pomar confidente de meus amores: as pombas e os tordos batiam asas, piando e gemendo nas folhagens das laranjeiras; o vento arrastava folhas secas sobre o calçamento da escadaria.

Saltei do cavalo, abandonando-o à sua vontade, e, sem força nem voz para chamar, sentei-me em um daqueles degraus de onde tantas vezes sua voz acolhedora e seus olhos amantes me disseram adeuses.

Algum tempo depois, já quase noite, senti passos perto de mim: era uma velha escravizada que, havendo visto meu cavalo solto na estrebaria, saía para saber quem era seu dono. Seguia-a trabalhosamente Mayo: a vista daquele animal, amigo de minha infância, carinhoso companheiro de meus dias de felicidade, arrancou gemidos ao meu peito: apresentando-me a cabeça para receber um afago, lambia o pó de minhas botas e, sentando-se a meus pés, uivou dolorosamente.

A escravizada trouxe as chaves da casa e, ao mesmo tempo, avisou-me que Braulio e Tránsito estavam na montanha. Entrei no salão e, dando alguns passos nele sem que meus olhos nublados pudessem distinguir os objetos, caí no sofá onde com ela me havia sentado sempre, onde pela primeira vez lhe falei de meu amor.

Quando levantei o rosto, rodeava-me uma completa escuridão. Abri a porta do aposento de minha mãe, e minhas esporas ressoaram lugubremente naquele recinto frio e oloroso a tumba. Então uma força nova em minha dor fez-me precipitar ao oratório. Eu ia pedi-la a Deus... nem ele podia querer já devolvê-la a mim na terra! Ia buscá-la ali onde meus braços a haviam estreitado, onde pela primeira vez meus lábios descansaram sobre sua fronte... A luz da lua que se erguia, penetrando pela gelosia entreaberta, deixou-me ver o único que eu devia encontrar: o pano fúnebre meio caído da mesa onde seu ataúde descansara; os restos dos círios que haviam iluminado o túmulo... o silêncio surdo aos meus gemidos, a eternidade muda diante de minha dor!

Vi luz no aposento de minha mãe: era que Juan Ángel acabava de pôr uma vela em uma das mesas; tomei-a, ordenando-lhe com um gesto que me deixasse só, e dirigi-me à alcova de Maria. Algo de seus perfumes havia ali... Velando as últimas prendas de seu amor, seu espírito devia estar me esperando. O crucifixo ainda sobre a mesa; as flores murchas sobre sua peanha; o leito onde morrera, já desmantelado; ainda tingidas algumas taças com as últimas poções que lhe haviam dado. Abri o armário: todos os aromas dos dias de nosso amor exalaram-se combinados dele. Minhas mãos e meus lábios palparam aqueles vestidos tão conhecidos para mim. Puxei a gaveta que Emma me havia indicado; o cofre precioso estava ali. Um grito escapou de meu peito, e uma sombra cobriu-me os olhos ao desenrolarem-se entre minhas mãos aquelas tranças que pareciam sensíveis aos meus beijos.

Uma hora depois... Meu Deus! tu o sabes. Eu havia percorrido o pomar chamando-a, pedindo-a às folhagens que nos haviam dado sombra, e ao ermo que em seus ecos apenas me devolvia seu nome. À beira do abismo coberto pelas roseiras, em cujo fundo informe e escuro branqueavam as névoas e troava o rio, um pensamento criminoso estancou por um instante minhas lágrimas e esfriou minha fronte...

Uma pessoa de quem as roseiras me ocultavam pronunciou meu nome perto de mim: era Tránsito. Ao aproximar-se de mim, meu rosto deve ter-lhe causado espanto, pois por alguns momentos permaneceu assombrada. A resposta que dei à súplica que me fez para que deixasse aquele lugar revelou-lhe talvez, com sua amargura, todo o desprezo que em tais instantes eu tinha pela vida. A pobre moça pôs-se a chorar sem insistir por ora; mas, reanimada, balbuciou com a voz dolente de uma escrava queixosa:

— Também não quer ver Braulio nem meu filho?

— Não chores, Tránsito, e perdoa-me — disse-lhe. — Onde estão?

Ela estreitou uma de minhas mãos sem haver enxugado ainda suas lágrimas, e conduziu-me ao corredor do jardim, onde seu marido me esperava. Depois que Braulio recebeu meu abraço, Tránsito pôs em meus joelhos um precioso menino de seis meses, e, ajoelhada a meus pés, sorria a seu filho e me olhava complacida acariciar o fruto de seus inocentes amores.

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