Capítulo XXXVII María · Capítulo 38 de 66
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Capítulo XXXVII

Capítulo XXXVII

Depois de três dias, a febre ainda resistia a todos os esforços do médico para combatê-la: os sintomas eram tão alarmantes que nem a ele mesmo era possível ocultar, em certos momentos, a angústia que o dominava.

Era meia-noite. O doutor chamou-me dissimuladamente ao salão para dizer-me:

— O senhor não desconhece o perigo em que se acha seu pai: já não me resta outra esperança senão a que deposito nos efeitos de uma copiosa sangria que vou aplicar-lhe, para a qual está convenientemente preparado. Se ela e os medicamentos que tomou esta tarde não produzirem daqui ao amanhecer uma excitação e um delírio crescentes, será difícil conseguir uma crise. É tempo de manifestar-lhe — continuou depois de alguma pausa — que, se ao vir o dia não se houver apresentado essa crise, nada mais me resta a fazer. Por ora, faça com que a senhora se retire, porque, aconteça ou não o que desejo, ela não deve estar no aposento: passa de meia-noite, e esse é um bom pretexto para suplicar-lhe que tome algum descanso. Se o senhor julgar conveniente, rogue também às senhoritas que nos deixem a sós.

Observei-lhe que estava seguro de que elas resistiriam, e que, mesmo que se conseguisse, aquilo poderia desconsolar ainda mais minha mãe.

— Vejo que o senhor se dá conta do que está acontecendo, sem perder a coragem que o caso requer — disse-me, examinando escrupulosamente, à luz da vela próxima, as lancetas de seu estojo de bolso. — Ainda não há por que desesperar.

Saímos do salão para pôr em prática aquilo que ele estimava como último recurso.

Meu pai estava dominado pelo mesmo torpor: durante o dia e o decorrer da noite, o delírio não havia cessado. Sua imobilidade tinha algo daquela que produz o esgotamento das últimas forças: quase surdo a todo chamado, somente os olhos, que abria com dificuldade algumas vezes, deixavam perceber que ouvia; e sua respiração era ansiosa.

Minha mãe soluçava sentada à cabeceira da cama, a fronte apoiada nas almofadas e tendo entre as mãos uma das de meu pai. Emma e Maria, ajudadas por Luisa, que naquela noite viera substituir suas filhas, preparavam os utensílios para o banho em que se faria a sangria.

Mayn pediu a luz; Maria aproximou-a da cama: pelo rosto rolavam-lhe, como contra sua vontade, algumas lágrimas, enquanto o médico fazia o exame que desejava.

Uma hora depois, terminado tudo o que o doutor estimava como recurso extremo, disse-nos:

— Quando o relógio der duas e meia, devo estar aqui; mas, se o sono me vencer, que me chamem.

Apontando em seguida para o enfermo, acrescentou:

— Deve-se deixá-lo em completa calma.

E retirou-se depois de dizer, quase risonho, alguma brincadeira às moças sobre a necessidade que os velhos têm de dormir na hora certa: jovialidade digna de agradecimento, pois não tinha outro fim senão tranquilizá-las.

Minha mãe tornou a ver se aquilo que durante uma hora se fizera produzia algum efeito consolador; mas conseguimos convencê-la de que o doutor estava cheio de esperanças para o dia seguinte; e, abatida pelo cansaço, adormeceu no aposento de Emma, onde Luisa ficou fazendo-lhe companhia.

O relógio deu duas horas.

Maria e Emma já sabiam que o doutor desejava a manifestação de certos sintomas, e espiaram por longo tempo, com ansiosa curiosidade, o sono de meu pai. O enfermo parecia mais tranquilo, e uma vez pedira água, embora com voz muito débil, bastante inteligível, o que lhes fez conceber esperança de que a sangria produzisse bons resultados.

Emma, depois de esforços inúteis para evitá-lo, adormeceu na poltrona que estava à cabeceira da cama. Maria, reclinada a princípio em um dos braços do pequeno sofá que ocupávamos, deixara cair sobre ele, rendida enfim, a cabeça, cujo perfil ressaltava no damasco cor de púrpura das almofadas: tendo-se-lhe desfeito o reboço do xale de seda que trazia, este negrejava, caído sobre o níveo linho da saia, que, com os babados amarrotados, parecia, favorecida pela sombra, formada de espumas. Em meio ao silêncio que nos rodeava, percebia-se sua respiração, suave como a de uma criança que adormeceu em nossos braços.

Soaram três horas. O ruído do relógio fez Maria mover-se ligeiramente, como para incorporar-se; mas o sono foi outra vez mais poderoso que sua vontade. Afundada a cintura na roupa que dela descia até o tapete, ficava visível um pé quase infantil, calçado com uma chinela vermelha salpicada de lantejoulas.

Eu a contemplava com ternura indizível, e meus olhos, voltados algumas vezes para o leito de meu pai, tornavam a buscá-la, porque minha alma estava ali, acariciando aquela fronte, escutando as batidas daquele coração, esperando ouvir a cada instante alguma palavra que me revelasse algum de seus sonhos, porque seus lábios pareciam tentar balbuciá-la.

Um gemido doloroso do enfermo interrompeu aquele alheamento que aliviava meu espírito; e a realidade reapareceu tão espantosa como era.

Aproximei-me do leito: meu pai, que se apoiava em um dos braços, olhou-me com fixa obstinação, dizendo-me enfim:

— Aproxima-me a roupa, que já é muito tarde.

— É noite, senhor — respondi-lhe.

— Como noite? Quero levantar-me.

— É impossível — observei-lhe suavemente —; não vê que isso lhe faria muito mal?

Deixou cair outra vez a cabeça sobre as almofadas e pronunciava em voz baixa palavras que não entendi, enquanto movia as mãos pálidas e emagrecidas, como se estivesse fazendo uma conta. Vendo-o procurar alguma coisa a seu lado, apresentei-lhe meu lenço.

— Obrigado — disse-me, como se falasse com um estranho; e, depois de enxugar com ele os lábios, procurou sobre a colcha que o cobria um bolso para guardá-lo.

Tornou a ficar adormecido por alguns momentos. Eu me aproximava da mesa para saber a hora em que o delírio havia começado, quando ele, sentado na cama e descerrando as cortinas que lhe ocultavam a luz, deixou ver a cabeça lívida e o olhar assombrado, dizendo-me:

— Quem está aí?... Olá! Olá!

Tomado por certo espanto invencível, apesar do que prometia aquele delírio tão semelhante à loucura, procurei fazê-lo recostar-se. Cravando em mim um olhar quase terrível, perguntou:

— Ele não esteve aqui? Neste momento se levantou daquela cadeira.

— Quem?

Pronunciou o nome que eu temia.

Passado um quarto de hora, incorporou-se outra vez, dizendo-me com voz já mais vigorosa:

— Não lhe permitam entrar; que me espere. Vejamos a roupa.

Supliquei-lhe que não insistisse em levantar-se, mas, em tom imperativo, replicou:

— Oh! Que teimosia!... A roupa!

Ocorreu-me que Maria, que exercera sobre ele em momentos semelhantes tão poderosa influência, poderia ajudar-me; mas não me resolvi a separar-me do leito, receoso de que meu pai se levantasse. O estado de debilidade real em que se achava impedia-o de permanecer muito tempo sentado; e voltou a reclinar-se aparentemente tranquilo. Então me aproximei de Maria e, tomando-lhe a mão que lhe pendia sobre a saia, chamei-a muito baixo. Ela, sem afastar a mão da minha, incorporou-se sem abrir os olhos; mas, logo que me viu, apressou-se a cobrir os ombros com o xale e, pondo-se de pé, disse-me:

— Que é preciso, hã?

— É — respondi-lhe — que o delírio começou, e desejo que me acompanhes, caso o acesso seja muito forte.

— Há quanto tempo?

— Vai para uma hora.

Aproximou-se do leito, quase contente pela boa notícia que eu lhe dava, e, afastando-se dele nas pontas dos pés, veio dizer-me:

— Mas ele está dormindo outra vez.

— Já verás que isso dura pouco.

— E por que não me despertaste antes?

— Dormias tão profundamente que me deu pena fazê-lo.

— E Emma também? Ela é a culpada de eu ter adormecido.

Aproximou-se de Emma e disse-me:

— Olha como está linda. Pobrezinha! Vamos chamá-la?

— Já vês — respondi-lhe — que dá pena despertar quem dorme assim.

Tomou o lábio inferior de minha irmã e, segurando-lhe depois a cabeça com ambas as mãos, chamou-a, inclinando-se até que suas frontes se tocaram. Emma despertou quase assustada, mas, sorrindo logo, tomou nas suas as mãos com que Maria lhe acariciava as têmporas.

Meu pai acabava de sentar-se com mais facilidade do que até então tivera. Permaneceu alguns momentos silencioso e como que espiando os ângulos escuros do aposento. As moças o olhavam aterradas.

— Vou lá! — prorrompeu ele enfim —; vou neste instante!

Procurou algo sobre a cama e, dirigindo-se de novo àquele que julgava esperá-lo, acrescentou:

— Perdoe-me por fazê-lo esperar um instante.

E, dirigindo-se a mim:

— Minha roupa... Que é isto? A roupa!

Maria e Emma permaneciam imóveis.

— É que ela não está aqui — respondi-lhe —; foram buscá-la.

— Para que a levaram?

— Devem ter ido trocá-la por outra.

— Mas que demora é esta? — disse, enxugando o suor da fronte. — Os cavalos estão prontos? — continuou.

— Sim, senhor.

— Vá dizer a Efraín que o espero para montarmos antes que se faça tarde. Mova-se, homem! Juan Ángel, o café. Não, não... isto é intolerável!

E aproximava-se da beira da cama para saltar ao chão: Maria acercou-se dele, dizendo-lhe:

— Não, papai, não faça isso.

— Que não o quê? — respondeu-lhe com aspereza.

— Que, se o senhor se levantar, o doutor se impacientará, porque isso lhe fará mal.

— Que doutor?

— Pois o médico que veio vê-lo, porque o senhor está enfermo.

— Eu estou bom, ouves? Bom! E quero levantar-me. Onde está esse menino, que não aparece?

— É necessário que eu chame Mayn — disse ao ouvido de Maria.

— Não, não — respondeu-me, detendo-me por uma das mãos e ocultando de meu pai aquele gesto com seu corpo.

— Mas é indispensável.

— É que não deves deixar-nos sozinhas. Dize a Emma que vá despertar Luisa para que o chame.

Assim o fiz, e Emma saiu.

Meu pai insistia, já irritado, em levantar-se. Tive de alcançar-lhe a roupa que pedia e resolvi ajudá-lo a vestir-se, fechando antes as cortinas. Saltou da cama imediatamente que se julgou vestido. Estava lívido, o cenho contraído; um tremor constante agitava-lhe os lábios, como se estivesse possuído de ira, e seus olhos tinham um brilho sinistro ao girarem nas órbitas, buscando algo por toda parte. O pé sangrado o impedia de andar bem, apesar de ter aceitado meu braço para apoiar-se. Maria, de pé, as mãos cruzadas sobre a saia, deixando conhecer no rosto a aflição e a dor que a angustiavam, não se atrevia a dar um passo em nossa direção.

— Abra essa porta — disse meu pai, aproximando-se da que conduzia ao oratório.

Obedeci-lhe. O oratório estava sem luz. Maria apressou-se a preceder-nos com uma e, colocando-a perto daquela bela imagem da Virgem que tanto se parecia com ela, pronunciou palavras que não ouvi, e seus olhos suplicantes fixaram-se, rasos de lágrimas, no rosto da imagem. Meu pai deteve-se no umbral. Seu olhar tornou-se menos inquieto, e apoiou-se com mais força em meu braço.

— Deseja sentar-se? — perguntei-lhe.

— Sim... bem... vamos — respondeu com voz quase suave.

Eu o havia tornado a acomodar na cama quando o doutor entrou: referiu-se-lhe o que se passara, e ele se mostrou contente, depois de lhe tomar o pulso.

Meia hora depois, Mayn aproximou-se outra vez para examinar o enfermo, que dormia profundamente: preparou uma poção e, entregando-a a Maria, disse-lhe:

— A senhorita vai dar-lhe isto, insistindo para que ele tome com essa doçurazinha que temos.

Ela tomou a taça com certo temor, e nos aproximamos da cama, levando eu a luz. O doutor ocultou-se atrás das cortinas para observar o enfermo sem ser visto.

Maria chamou meu pai com seu mais suave acento. Ele, logo que despertou, levou a mão ao lado, queixando-se ao mesmo tempo; fixou-se em Maria, que insistia para que tomasse a poção, e disse-lhe:

— Às colheradas; não posso levantar-me.

Ela começou a dar-lhe assim a bebida.

— Está doce? — perguntou-lhe.

— Sim, mas basta com isso.

— Tem muito sono?

— Sim. Que horas são?

— Vai amanhecer.

— Tua mamãe?

— Descansando um pouco. Tome mais algumas colheradas disto, e depois dormirá muito bem.

Ele significou com a cabeça que não. Maria buscou os olhos do médico para consultá-lo, e ele lhe fez sinal para que lhe desse mais da bebida. O enfermo resistia, e ela lhe disse, fazendo gesto de provar o conteúdo da taça:

— Mas é muito agradável. Outra colherada, outra, e nada mais.

Os lábios de meu pai se contraíram tentando sorrir, e receberam o líquido. Maria enxugou-lhos com seu lenço, dizendo-lhe com a mesma ternura com que costumava despedir-se de Juan depois de deixá-lo deitado:

— Está bem, então: agora dormir muito.

E fechou as cortinas.

— Com uma enfermeira como a senhorita — observou-lhe o doutor, enquanto ela colocava a luz sobre a mesa — nenhum dos meus enfermos morreria...

— Quer dizer que já?... — interrompeu ela.

— Respondo por tudo.

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