Capítulo XX María · Capítulo 21 de 66
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Capítulo XX

Capítulo XX

Minha mãe e Emma saíram ao corredor para me receber. Meu pai montara para ir visitar os trabalhos.

Pouco depois, chamaram-me à sala de jantar, e não tardei em acudir, porque ali esperava encontrar Maria; mas enganei-me; e, como perguntasse a minha mãe por ela, respondeu-me:

— Como esses senhores vêm amanhã, as moças estão atarefadas para que fiquem muito bem feitos uns doces; creio que já acabaram e que virão agora.

Eu ia levantar-me da mesa quando José, que subia do vale à montanha tocando duas mulas carregadas de cana-brava, parou no altinho de onde se divisava o interior e gritou-me:

— Boa tarde! Não posso chegar, porque levo uma chúcara e a noite me alcança. Deixo-lhe aí um recado com as meninas. Madrugue bastante amanhã, porque a coisa está certa.

— Está bem — respondi-lhe —; irei muito cedo; lembranças a todos.

— Não se esqueça dos balins!

E, saudando-me com o chapéu, continuou a subir.

Dirigi-me ao meu quarto para preparar a espingarda, não tanto porque ela precisasse de limpeza, quanto por buscar pretexto para não permanecer na sala de jantar, onde afinal Maria não se apresentou.

Eu tinha aberta na mão uma caixinha de espoletas quando vi Maria vir em minha direção trazendo-me o café, que provou com a colherinha antes de me ver.

As espoletas se espalharam pelo chão mal ela se aproximou.

Sem decidir-se a olhar-me, deu-me boa tarde e, colocando com mão insegura o pratinho e a xícara na balaustrada, buscou por um instante, com olhos tímidos, os meus, que a fizeram corar; então, ajoelhada, pôs-se a recolher as espoletas.

— Não faças isso — disse-lhe —, eu o farei depois.

— Tenho olhos muito bons para procurar coisas miúdas — respondeu —; dá-me a caixinha.

Estendeu o braço para recebê-la, exclamando ao vê-la:

— Ai! Se espalharam todas!

— Não estava cheia — observei, ajudando-a.

— E amanhã se precisa destas — disse, soprando o pó das que tinha na palma rosada de uma das mãos.

— Por que amanhã e por que destas?

— Porque, como essa caçada é perigosa, parece-me que errar um tiro seria terrível, e conheço pela caixinha que estas são as que o doutor te deu outro dia, dizendo que eram inglesas e muito boas...

— Tu ouves tudo.

— Algumas vezes eu teria dado algo para não ouvir. Talvez fosse melhor não ires a essa caçada... José deixou um recado contigo por nosso intermédio.

— Queres que eu não vá?

— E como poderia eu exigir isso?

— Por que não?

Olhou-me e não respondeu.

— Já me parece que não há mais nenhuma — disse, pondo-se de pé e olhando o chão ao redor. — Eu me vou. O café já deve estar frio.

— Prova-o.

— Mas não acabes de carregar essa espingarda agora... Está bom — acrescentou, tocando a xícara.

— Vou guardar a espingarda e tomá-lo; mas não vás embora.

Eu havia entrado em meu quarto e tornado a sair.

— Há muito que fazer lá dentro.

— Ah, sim — respondi —: preparar doces e enfeites para amanhã. Vais, então?

Fez com os ombros, inclinando ao mesmo tempo a cabeça para um lado, um movimento que significava: como quiseres.

— Devo-te uma explicação — disse-lhe, aproximando-me dela. Queres ouvir-me?

— Não digo que há coisas que eu não gostaria de ouvir? — respondeu, fazendo soar as espoletas dentro da caixinha.

— Eu julgava que aquilo que eu...

— É verdade isso que vais dizer; isso que crês.

— O quê?

— Que a ti, sim, eu deveria ouvir; mas desta vez, não.

— Como deves ter pensado mal de mim nestes dias!

Ela lia, sem responder-me, os letreiros da caixinha.

— Nada te direi, pois; mas dize-me o que supuseste.

— Para quê, agora?

— Quer dizer que tampouco me permites desculpar-me contigo?

— O que eu gostaria de saber é por que fizeste isso; entretanto, tenho medo de sabê-lo, justamente porque para nada dei motivo; e sempre pensei que terias algum que eu não devia saber... Mas, como parece que estás contente outra vez... eu também estou contente.

— Não mereço que sejas tão boa como és comigo.

— Talvez seja eu quem não mereça...

— Fui injusto contigo, e, se o permitisses, pedir-te-ia de joelhos que me perdoasses.

Seus olhos, velados havia pouco, luziram com toda a sua beleza, e ela exclamou:

— Ai! Não, meu Deus! Eu esqueci tudo... ouves bem? Tudo! Mas com uma condição — acrescentou depois de uma curta pausa.

— A que quiseres.

— No dia em que eu fizer ou disser algo que te desagrade, tu me dirás; e eu não tornarei a fazê-lo nem a dizê-lo. Não é muito fácil?

— E eu não devo exigir de tua parte o mesmo?

— Não, porque eu não posso aconselhar-te, nem saber sempre se o que penso é o melhor; além disso, tu sabes o que vou dizer-te antes que eu o diga.

— Estás certa, pois, de que viverás convencida de que te amo com toda a minha alma? — disse-lhe em voz baixa e comovida.

— Sim, sim — respondeu muito baixo; e, quase tocando-me os lábios com uma das mãos para indicar-me que me calasse, deu alguns passos em direção ao salão.

— Que vais fazer? — perguntei-lhe.

— Não ouves que Juan me chama, e chora porque não me encontra?

Indecisa por um momento, havia em seu sorriso tal doçura e tão amorosa languidez em seu olhar, que ela já desaparecera e eu ainda a contemplava extasiado.

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