Capítulo XLIII
Capítulo XLIII
Exploravam-se naquele tempo muitas minas de ouro no Chocó; e, se se leva em conta o sistema rudimentar empregado para lavrá-las, bem merecem ser qualificados de consideráveis seus produtos. Os donos ocupavam quadrilhas de escravizados em tais trabalhos. Introduziam-se pelo Atrato a maior parte das mercadorias estrangeiras que se consumiam no Cauca e, naturalmente, as destinadas a ser vendidas no Chocó. Os mercados de Kingston e de Cartagena eram os mais frequentados pelos comerciantes importadores. Existia em Turbo um armazém.
Isto indicado, é fácil estimar quão taticamente Sardick havia estabelecido sua residência: as comissões de muitos negociantes; a compra de ouro e a frequente troca que fazia com os Cunas ribeirinhos de tartaruga, tagua, peles, cacau e borracha por sais, aguardente, pólvora, armas e bugigangas eram, sem contar suas utilidades como agricultor, especulações bastante lucrativas para tê-lo satisfeito e avivar-lhe a risonha esperança de regressar rico a seu país, de onde viera miserável. Servia-lhe de poderoso auxiliar seu irmão Thomas, estabelecido em Cuba e capitão do navio negreiro que acompanhei em sua viagem. Descarregado o bergantim dos artigos que naquela ocasião trazia e que, à sua chegada ao porto de Havana, havia recebido, e ocupado com produções indígenas, armazenadas por William durante alguns meses, tudo isso foi executado em duas noites e com o maior sigilo pelos criados dos contrabandistas; o capitão dispôs-se a partir.
Aquele homem que tão desapiedadamente tratara os companheiros de Nay, desde o dia em que, ao levantar um chicote sobre ela, a viu desabar inerte a seus pés, dispensou-lhe toda a consideração de que sua rude índole era capaz. Compreendendo Nay que o capitão ia embarcar, não pôde sufocar seus soluços e lamentos, supondo que aquele homem tornaria a ver em breve as costas da África de onde a havia arrebatado. Aproximou-se dele, pediu-lhe de joelhos e por gestos que não a deixasse, beijou-lhe os pés e, imaginando em sua dor que poderia compreendê-la, disse-lhe:
— Leva-me contigo. Eu serei tua escrava; procuraremos Sinar, e assim terás dois escravos em vez de um. Tu, que és branco e que cruzas os mares, saberás onde ele está e poderemos encontrá-lo... Nós adoramos o mesmo Deus que tu, e seremos fiéis a ti, contanto que jamais nos separes.
Devia estar bela em seu doloroso frenesi. O marinheiro contemplou-a em silêncio: uma estranha sorriso dobrou-lhe os lábios, que a barba loura e espessa que ele acariciava não conseguiu velar; passou-lhe pela fronte uma sombra vermelha, e seus olhos deixaram ver a mansidão dos do chacal quando a fêmea o acaricia. Por fim, tomando-lhe uma mão e levando-a contra o peito, deu-lhe a entender que, se prometesse amá-lo, partiriam juntos. Nay, altiva como uma rainha, pôs-se de pé, deu as costas ao irlandês e entrou no aposento imediato. Ali a recebeu Gabriela, que, depois de indicar-lhe temerosa que guardasse silêncio, significou-lhe que havia agido bem e prometeu amá-la muito. Como, depois de apontar-lhe o céu, lhe mostrou um crucifixo, ficou assombrada ao ver Nay cair de joelhos diante dele e orar soluçando, como se pedisse a Deus aquilo que os homens lhe negavam.
Decorridos seis meses, Nay já se fazia entender em castelhano, graças à constância com que Gabriela se empenhava em ensinar-lhe sua língua. Esta já sabia como se convertera a africana; e o que conseguira compreender de sua história a interessava cada vez mais em seu favor. Mas quase em nenhuma hora estavam sem lágrimas os olhos da filha de Magmahú: o canto de alguma ave americana que lhe recordava as de seu país, ou a vista de flores parecidas com as dos bosques do Gâmbia, avivava sua dor e a fazia gemer. Como, durante as curtas viagens do irlandês, Gabriela lhe permitia dormir em seu aposento, ouvira-a muitas vezes chamar em sonhos por seu pai e por seu esposo.
As despedidas dos companheiros de infortúnio haviam ido quebrantando o coração da escravizada, e enfim chegou o dia em que se despediu do último. Ela não havia sido vendida, e era tratada com menos crueldade, não tanto porque a amparasse o afeto de sua senhora, mas porque a desventurada ia ser mãe, e seu senhor esperava vendê-la melhor uma vez nascido o manumisso. Aquele avaro negociava de contrabando com sangue de reis.
Nay havia resolvido que o filho de Sinar não seria escravo.
Em certa ocasião em que Gabriela lhe falava do céu, usou de toda a sua selvagem franqueza para perguntar-lhe:
— Os filhos dos escravizados, se morrem batizados, podem ser anjos?
A crioula adivinhou o pensamento criminoso que Nay acariciava e resolveu fazê-la saber que, no país em que estava, seu filho seria livre quando completasse dezoito anos.
Nay respondeu apenas em tom de lamento:
— Dezoito anos!
Dois meses depois deu à luz um menino e empenhou-se em que fosse cristianizado imediatamente. Assim que acariciou o filho com o primeiro beijo, compreendeu que Deus lhe enviava com ele um consolo; e, orgulhosa de ser mãe do filho de Sinar, voltaram a seus lábios os sorrisos que pareciam haver fugido deles para sempre.
Um jovem inglês que regressava das Antilhas ao interior da Nova Granada descansou por acaso, naqueles meses, na casa de Sardick, antes de empreender a penosa navegação do Atrato. Trazia consigo uma preciosa menina de três anos, a quem parecia amar ternamente.
Eram eles meu pai e Ester, a qual começava apenas a acostumar-se a responder ao novo nome de Maria.
Nay supôs que aquela menina fosse órfã de mãe, e cobrou por ela particular carinho. Meu pai temia confiá-la a Nay, apesar de Maria só se mostrar contente nos braços da escravizada ou brincando com seu filho; mas Gabriela o tranquilizou, contando-lhe o que sabia da história da filha de Magmahú, relato que comoveu o estrangeiro. Este compreendeu a imprudência cometida pela esposa de Sardick ao fazê-lo sabedor da data em que a africana fora trazida à terra granadina, visto que as leis do país proibiam desde 1821 a importação de escravizados; e, em tal virtude, Nay e seu filho eram livres. Mas guardou-se bem de dar a conhecer a Gabriela o erro cometido e esperou uma ocasião favorável para propor a William que lhe vendesse Nay.
Um norte-americano que regressava a seu país depois de haver realizado em Citará uma carga de farinha deteve-se na casa de Sardick, esperando, para continuar viagem, a chegada a Pisisí dos botes que vinham de Cartagena conduzindo as mercadorias que meu pai importava. O ianque viu Nay e, tomado por sua gentileza, falou a William durante a refeição do desejo que tinha de levar uma escravizada de belas condições, pois a procurava com o fim de presenteá-la à esposa. Nay lhe foi oferecida, e o norte-americano, depois de regatear o preço por uma hora, pesou ao irlandês cento e cinquenta castellanos de ouro em pagamento pela escravizada.
Nay soube em seguida por Gabriela, ao contar-lhe esta que estava vendida, que aquela pequena porção de ouro, pesada pelos brancos diante de seus olhos, era o preço em que a estimavam; e sorriu amargamente ao pensar que a trocavam por um punhado de tíbar. Gabriela não lhe ocultou que no país para onde a levavam, o filho de Sinar seria escravo.
Nay mostrou-se indiferente a tudo; mas à tarde, quando, ao pôr do sol, meu pai passeava pela margem do mar levando Maria pela mão, aproximou-se dele com o filho nos braços: na fisionomia da escravizada aparecia tal mistura de dor e ira selvagem que surpreendeu meu pai. Caindo de joelhos a seus pés, disse-lhe em mau castelhano:
— Sei que nesse país para onde me levam meu filho será escravo: se não queres que eu o afogue esta noite, compra-me; eu me consagrarei a servir e amar tua filha.
Meu pai resolveu tudo com dinheiro. Assinado pelo norte-americano o novo documento de venda, com todas as formalidades desejáveis, meu pai escreveu em seguida uma nota nele e passou o papel a Gabriela para que Nay a ouvisse ler. Nessas linhas renunciava ao direito de propriedade que pudesse ter sobre ela e seu filho.
Inteirado o ianque do que o inglês acabava de fazer, disse-lhe admirado:
— Não consigo explicar a conduta do senhor. Que ganha esta negra em ser livre?
— É — respondeu-lhe meu pai — que eu não preciso de uma escrava, mas de uma aia que queira muito esta menina.
E, sentando Maria sobre a mesa em que acabava de escrever, fez com que ela entregasse a Nay o papel, dizendo ele ao mesmo tempo à esposa de Sinar estas palavras:
— Guarda bem isto. És livre para ficar ou ir habitar com minha esposa e meus filhos no belo país em que vivem.
Ela recebeu a carta de liberdade das mãos de Maria e, tomando a menina nos braços, cobriu-a de beijos. Segurando depois uma das mãos de meu pai, tocou-a com os lábios e, chorando, aproximou-a dos de seu filho.
Assim foram habitar na casa de meus pais Feliciana e Juan Ángel.
Três meses depois, Feliciana, outra vez formosa e resignada em seu infortúnio tanto quanto era possível, vivia conosco amada por minha mãe, que sempre a distinguiu com especial afeto e consideração.
Nos últimos tempos, por sua enfermidade, e mais ainda por ser própria para isso, cuidava em Santa R. do pomar e da leiteria; mas o principal objeto de sua permanência ali era receber meu pai e a mim quando descíamos da serra.
Quando crianças, Maria e eu, nos momentos em que Feliciana era mais complacente conosco, costumávamos acariciá-la chamando-a Nay; mas logo notamos que ela se entristecia se lhe dávamos esse nome. Certa vez, sentada à cabeceira de minha cama ao princípio da noite, enquanto me entretinha com um de seus fantásticos contos, ficou silenciosa depois de terminá-lo; e eu julguei notar que chorava.
— Por que choras? — perguntei-lhe.
— Quando fores homem — respondeu-me com seu mais carinhoso acento —, farás viagens e levarás Juan Ángel e a mim; não é verdade?
— Sim, sim — respondi-lhe entusiasmado —: iremos à terra daquelas lindas princesas de tuas histórias... tu me as mostrarás... Como se chama?
— África — respondeu.
Nessa noite sonhei com palácios de ouro e ouvindo músicas deliciosas.