Capítulo XXXIV María · Capítulo 35 de 66
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Capítulo XXXIV

Capítulo XXXIV

Nem todas as pessoas que nos aguardavam estavam no corredor: não descobri Maria entre elas. Algumas quadras antes de chegar à porta do pátio, à nossa esquerda e sobre uma das grandes pedras de onde melhor se domina o vale, estava ela de pé, e Emma a animava para que descesse. Aproximamo-nos delas. A cabeleira de Maria, solta em longos e luzentes cachos, negrejava sobre a musselina de seu vestido cor de verde-mortiño: sentou-se para evitar que o vento lhe agitasse a saia, dizendo a minha irmã, que ria de sua aflição:

— Não vês que não posso?

— Menina — disse-lhe meu pai, entre surpreso e risonho —, como conseguiste subir aí?

Ela, envergonhada da travessura, acabava de corresponder à nossa saudação, e respondeu:

— Como estávamos sozinhas...

— Quer dizer — interrompeu-a meu pai — que devemos ir embora para que possas descer. E como desceu Emma?

— Que graça, se eu a ajudei.

— Era porque eu não tinha medo.

— Vamos, pois — concluiu meu pai, dirigindo-se a mim —; mas cuidado...

Bem sabia ele que eu ficaria. Maria acabava de dizer-me com os olhos: «não vás». Meu pai tornou a montar e dirigiu-se à casa: meu cavalo seguiu pouco a pouco o mesmo caminho.

— Foi por aqui que subimos — disse-me Maria, mostrando-me umas fendas e covinhas na rocha.

Ao terminar minha manobra de ascensão, estendeu-me a mão, trêmula demais para ajudar-me, mas tão desejada que não deixei de me apressar a estreitá-la entre as minhas. Sentei-me a seus pés, e ela me disse:

— Não vês que trabalho? Que terá dito papai? Achará que estamos loucas.

Eu a olhava sem responder-lhe: a luz de seus olhos, tímidos diante dos meus, e a suave palidez de suas faces me diziam, como em outros momentos, que naquele instante ela era tão feliz quanto eu.

— Vou-me embora sozinha — repetiu Emma, a quem havíamos ouvido mal a primeira ameaça; e afastou-se alguns passos para fazer-nos crer que ia cumpri-la.

— Não, não; espera-nos só um instante — suplicou Maria, pondo-se de pé.

Vendo que eu não me movia, disse-me:

— Que foi?

— É que aqui estamos bem.

— Sim; mas Emma quer ir embora, e mamãe estará te esperando: ajuda-me a descer, que agora não tenho medo. Deixa eu ver teu lenço.

Torcendo-o, acrescentou:

— Tu o seguras por esta ponta, e, quando já não alcançares me dar a mão, eu me agarro a ele.

Persuadida de que podia arriscar-se a descer sem ser vista, assim o fez como havia projetado, dizendo-me já ao pé do rochedo:

— E tu, agora?

Buscando a parte menos alta da pedra, saltei ao gramado e ofereci-lhe o braço para nos dirigirmos à casa.

— Se eu não tivesse chegado, que terias feito para descer? Louquinha.

— Pois teria descido sozinha: eu ia descer quando chegaste; mas temi cair porque ventava muito. Ontem também subimos ali, e eu desci bem. Por que se demoraram tanto?

— Para deixar concluídos alguns negócios que não podiam ser resolvidos daqui. Que fizeste nestes dias?

— Desejar que passassem.

— Nada mais?

— Coser e pensar muito.

— Em quê?

— Em muitas coisas que se pensam e não se dizem.

— Nem a mim?

— A ti, menos.

— Está bem.

— Porque tu as sabes.

— Não leste?

— Não, porque me dá tristeza ler sozinha, e já não me agradam os contos dos Serões da Quinta, nem das Tardes da Granja. Eu ia reler Atala, mas, como disseste que tem uma passagem não sei como...

E, dirigindo-se a minha irmã, que nos precedia alguns passos:

— Ouve, Emma... Que afã de ir tão depressa?

Emma deteve-se, sorriu e continuou andando.

— Que estavas fazendo anteontem, às dez?

— Anteontem? Ah! — tornou, detendo-se. — Por que me perguntas?

— A essa hora eu estava muito triste, pensando nessas coisas que se pensam e não se dizem.

— Não, não; tu, sim.

— Sim o quê?

— Sim, podes dizê-las.

— Conta-me o que fazias, e eu te direi.

— Tenho medo.

— Medo?

— Talvez seja uma bobagem. Eu estava sentada com mamãe no corredor deste lado, fazendo-lhe companhia, porque me disse que não tinha sono: ouvimos como que soarem as folhas da janela de teu quarto, e eu, temerosa de que a tivessem deixado aberta, tomei uma luz do salão para ir ver o que havia... Que tolice! Volto a sentir medo quando me lembro do que aconteceu.

— Acaba, pois.

— Abrimos a porta e vimos pousada sobre uma das folhas da janela, que o vento agitava, uma ave negra e do tamanho de uma pomba muito grande: deu um guincho que eu nunca tinha ouvido; pareceu encandear-se por um momento com a luz que eu levava na mão, e a apagou passando sobre nossas cabeças no instante em que íamos fugir assustadas. Nessa noite sonhei... Mas por que ficaste assim?

— Assim como? — respondi, dissimulando a impressão que aquele relato me causava.

O que ela me contava havia ocorrido na mesma hora em que meu pai e eu líamos aquela carta malfadada; e a ave negra era a mesma que me havia açoitado as têmporas durante a tempestade da noite em que o acesso de Maria se repetiu; a mesma que, sobressaltado, eu já ouvira algumas vezes zumbir sobre minha cabeça ao ocultar-se o sol.

— Assim como? — replicou-me Maria. — Vejo que fiz mal em te contar isso.

— E imaginas tal coisa?

— Não é que eu imagine.

— Que sonhaste?

— Não devo dizê-lo.

— Nem mais tarde?

— Ai! Talvez nunca.

Emma já abria a porta do pátio.

— Espera-nos — disse-lhe Maria —; ouve, agora é de verdade.

Reunimo-nos a ela, e as duas caminharam de mãos dadas o que nos faltava para chegar ao corredor. Sentia-me dominado por um pavor indefinível; tinha medo de algo, embora não me fosse possível adivinhar de quê; mas, cumprindo a advertência de meu pai, procurei dominar-me, e estive o mais tranquilo que me foi dado, até que me retirei para meu quarto com o pretexto de trocar a roupa de viagem.

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