Capítulo LI
Capítulo LI
No dia vinte e oito de janeiro, dois dias antes do marcado para minha viagem, subi à montanha muito cedo. Braulio viera buscar-me, enviado por José e pelas moças, que desejavam receber minha despedida em sua casa. O montanhês não interrompeu meu silêncio durante a marcha. Quando chegamos, Tránsito e Lucía estavam ordenhando a vaca Mariposa no pateozinho da cabana de Braulio, e se levantaram para me receber com seus agrados e alegria de costume, convidando-me a entrar.
— Acabemos antes de ordenhar a novilhona — disse-lhes, encostando minha espingarda no palanque —, mas Lucía e eu sozinhos, porque quero conseguir assim que ela se lembre de mim todas as manhãs.
Tomei o socobe, em cujo fundo já branqueavam espumas nevadas, e, pondo-o sob o úbere da Mariposa, consegui enfim que Lucía, toda envergonhada, acabasse de enchê-lo. Enquanto fazia isso, disse-lhe, olhando-a por baixo da vaca:
— Como não se acabaram os sobrinhos de José, pois eu sei que Braulio tem um irmão mais belo moço que ele, e que te ama desde que eras como uma boneca...
— Como outro ama outra — interrompeu-me.
— O mesmo. Vou dizer à senhora Luisa que se empenhe com o marido para que o sobrinho venha ajudá-lo; e assim, quando eu voltar, não ficarás vermelha por tudo.
— He! He! — disse, deixando de ordenhar.
— Não acabas?
— Mas como quer que eu acabe, se o senhor está tão matreiro... Já não tem mais.
— E essas duas tetas cheias? Ordenha-as.
— Essas não; essas são do bezerro.
— Então digo a Luisa?
Deixou de prender com os dentes o lábio inferior de seus lábios voluptuosos para fazer com eles um gestinho que, na linguagem de Lucía, significava “veremos, e por que não”, e na minha, “faça o que quiser”.
O bezerro, que se desesperava para que lhe tirassem a focinheira, feita com uma extremidade da peia e que o atava a uma perna da vaca, ficou à vontade assim que a ordenhadeira puxou uma ponta da corda; e Lucía, vendo-o precipitar-se ao úbere, disse:
— Era isso que tu querias; cabeçudo mais importuno...
Depois disso entrou na casa levando sobre a cabeça o socobe e olhando-me maliciosamente de soslaio.
Eu desalojara da margem do arroio uma família de gansos que dormitava sobre a relva, e pus-me a fazer minha toalete matinal, conversando ao mesmo tempo com Tránsito e Braulio, que tinham as peças de roupa de que eu me havia despojado.
— Lucía! — gritou Tránsito —, traz o pano bordado que está no baúzinho pastuso.
— Não creias que ela vem — disse a minha afilhada; e lhes contei em seguida o que havia conversado com Lucía.
Eles riam quando Lucía se apresentou correndo com o que lhe haviam pedido, contra tudo o que esperávamos; e como adivinhava de que havíamos tratado, e que dela riam seus irmãos, entregou-me o pano, virando o rosto para um lado para que não lhe vissem a face nem ela me visse, e dirigiu-se a Tránsito para fazer-lhe a seguinte observação:
— Vem ver teu café, porque vai queimar, e deixa de ficar aí rindo às gargalhadas.
— Já está pronto? — perguntou Tránsito.
— Ih! Há tempos.
— Que história é essa de café? — perguntei.
— Pois eu disse à senhorita, no último dia em que estive lá, que me ensinasse a fazê-lo, porque me parece que o senhor não gosta da gamuza; e por isso foi que nos encontrou atarefadas ordenhando.
Dizia isso pendurando o pano, que eu já lhe havia devolvido, numa das folhas da palmeira-samambaia, pitorescamente colocada no centro do pátio.
Na casa chamavam a atenção, ao mesmo tempo, a simplicidade, a limpeza e a ordem: tudo cheirava a cedro, madeira de que eram feitos os móveis rústicos, e floresciam sob os beirais vasos de cravos e narcisos com que a senhora Luisa havia embelezado a cabaninha da filha: nos pilares havia cabeças de veados, e as patas dissecadas dos mesmos serviam de ganchos na sala e na alcova.
Tránsito me apresentou, entre ufana e temerosa, a xícara de café com leite, primeiro ensaio das lições que havia recebido de Maria; mas felicíssimo ensaio, pois, desde que o provei, conheci que rivalizava com aquele que tão primorosamente Juan Ángel sabia preparar.
Braulio e eu fomos chamar José e a senhora Luisa para que almoçassem conosco. O velho estava acomodando em jigras as arracachas e verduras que devia mandar ao mercado no dia seguinte, e ela acabava de tirar do forno o pão de mandioca que iria servir-nos no almoço. A fornada fora feliz, como o demonstravam não somente a cor dourada dos pães fofos, mas também a fragrância tentadora que desprendiam.
Almoçávamos todos na cozinha: Tránsito desempenhava pronta e risonha seu papel de dona de casa. Lucía me ameaçava com os olhos cada vez que eu lhe mostrava seu pai com os meus. Os camponeses, com sua delicadeza instintiva, evitavam toda alusão à minha viagem, como para não amargar essas últimas horas que passávamos juntos.
Eram já onze horas. José, Braulio e eu havíamos visitado o platanal novo, o desmonte que estavam fazendo e o milharal em filote. Reunidos novamente na salinha da casa de Braulio, sentados em banquinhos ao redor de uma tarrafa, púnhamos-lhe os últimos chumbos; e a senhora Luisa debulhava milho com as moças para pilar. Elas e eles sentiam, como eu, que se aproximava o momento temível de nossa despedida. Todos guardávamos silêncio. Devia haver em meu rosto algo que os comovia, pois esquivavam-se de me olhar. Enfim, tomando uma resolução, levantei-me, depois de ver meu relógio. Tomei minha espingarda e seus arreios, e, ao pendurá-los num dos ganchos da salinha, disse a Braulio:
— Sempre que acertares com ela um bom tiro, lembra-te de mim.
O montanhês não teve voz para agradecer-me.
A senhora Luisa, ainda sentada, continuava debulhando a espiga que tinha nas mãos, sem cuidar de ocultar o pranto. Tránsito e Lucía, de pé e encostadas uma de cada lado da porta, davam-me as costas. Braulio estava pálido. José fingia procurar algo no canto das ferramentas.
— Bem, senhora Luisa — disse à anciã, inclinando-me para abraçá-la —: reze muito por mim.
Ela pôs-se a soluçar sem responder-me.
De pé sobre o limiar da porta, juntei num só abraço sobre meu peito as cabeças das moças, que soluçavam enquanto minhas lágrimas rolavam por suas cabeleiras. Quando, separando-me delas, me voltei para procurar Braulio e José, nenhum dos dois estava na salinha; esperavam-me no corredor.
— Eu vou amanhã — disse-me José, estendendo-me a mão.
Bem sabíamos ele e eu que não iria. Logo que Braulio me soltou de seus braços, seu tio estreitou-me nos seus e, enxugando os olhos com a manga da camisa, tomou o caminho da roça ao mesmo tempo em que eu começava a andar pelo oposto, seguido de Mayo, e fazendo um sinal a Braulio para que não me acompanhasse.