Capítulo XXXIX
Capítulo XXXIX
Às oito soou a campainha da sala de jantar; mas não me julguei com a serenidade necessária para estar perto de Maria depois do ocorrido.
Minha mãe chamou à porta de meu quarto.
— É possível — disse-me, depois de entrar — que te deixes dominar assim por esta tristeza? Não poderás, pois, tornar-te tão forte como outras vezes pudeste? Assim deve ser, não só porque teu pai se desgostaria, mas porque és tu o chamado a dar ânimo a Maria.
Havia em sua voz, ao falar-me assim, um doce acento de censura irmanado ao mais musical da ternura.
Continuou fazendo-me a relação de todas as vantagens que aquela viagem iria trazer-me, sem me dissimular as dores pelas quais eu teria de passar; e terminou dizendo-me:
— Nestes quatro anos em que não estarás a meu lado, verei em Maria não somente uma filha querida, mas a mulher destinada a fazer-te feliz e que tanto soube merecer o amor que lhe tens: falarei constantemente de ti a ela e procurarei fazê-la esperar teu regresso como prêmio de tua obediência e da sua.
Levantei então a cabeça, que minhas mãos sustentavam sobre a mesa, e nossos olhos, rasos de lágrimas, buscaram-se e prometeram-se aquilo que os lábios não sabem dizer.
— Vai, pois, à sala de jantar — disse-me antes de sair —, e dissimula quanto te for possível. Teu pai e eu estivemos falando muito a teu respeito, e é muito provável que ele se resolva a fazer aquilo que já pode servir-te de maior consolo.
Somente Emma e Maria estavam na sala de jantar. Sempre que meu pai deixava de ir à mesa, eu ocupava a cabeceira. Sentadas de um e outro lado dela, as duas me esperavam. Passou-se algum tempo sem que falássemos. Suas fisionomias, ambas tão belas, denunciavam maior pena do que poderiam expressar: mas a de minha irmã estava menos pálida, e seus olhares não tinham aquela brilhante languidez de olhos formosos que choraram. Ela me disse:
— Vais finalmente amanhã à fazenda?
— Sim, mas não ficarei lá senão dois dias.
— Levarás Juan Ángel para que veja a mãe: talvez ela tenha piorado.
— Vou levá-lo. Higinio escreve que Feliciana está pior e que o doutor Mayn, que a vinha receitando, deixou de fazê-lo desde ontem, por ter seguido para Cali, onde o chamavam com urgência.
— Dize a Feliciana muitas coisas afetuosas em nosso nome — disse-me Maria —: que, se continuar enferma, suplicaremos a mamãe que nos leve para vê-la.
Emma tornou a interromper o silêncio que se seguira ao diálogo anterior para dizer-me:
— Tránsito, Lucía e Braulio estiveram aqui esta tarde e sentiram muito não te encontrar: deixaram-te muitas lembranças. Nós havíamos pensado em ir vê-las no próximo domingo: portaram-se tão delicadamente durante a enfermidade de papai.
— Iremos na segunda-feira, pois eu já estarei aqui — respondi-lhe.
— Se tivesses visto como se entristeceram quando lhes falei de tua viagem à Europa...
Maria ocultou-me o rosto, voltando-se como a procurar algo na mesa próxima, mas eu já havia visto brilhar as lágrimas que ela tentava nos ocultar.
Estefana veio naquele momento dizer-lhe que minha mãe a chamava.
Eu passeava pela sala de jantar com a esperança de poder falar com Maria antes que se retirasse. Emma me dirigia algumas vezes a palavra, como para distrair-me das penosas reflexões que sabia estarem me atormentando.
A noite continuava serena: os roseirais estavam imóveis; nas copas das árvores próximas não se percebia um sussurro; e somente os soluços do rio perturbavam aquela calma e aquele silêncio imponentes. Sobre as roupagens azul-turqui das montanhas branqueavam algumas nuvens rasgadas, como xales de gaze nívea que o vento fizesse ondular sobre a saia azul de uma odalisca; e a abóbada diáfana do céu arqueava-se sobre aqueles cumes sem nome, semelhante a uma urna convexa de cristal azulado incrustada de diamantes.
Maria já tardava. Minha mãe aproximou-se para indicar-me que passasse ao salão: supus que desejava aliviar-me com suas doces promessas.
Sentado meu pai em um sofá, tinha a seu lado Maria, cujos olhos não se levantaram para me ver. Ele me indicou um lugar desocupado perto dela. Minha mãe colocou-se numa poltrona próxima à que meu pai ocupava.
— Bem, minha filha — disse ele a Maria, que, ainda de olhos baixos, brincava com um dos pequenos pentes de seus cabelos —; queres que eu repita a pergunta que te fiz quando tua mamãe saiu, para que me respondas diante de Efraín?
Meu pai sorria, e ela moveu lentamente a cabeça em sinal negativo.
— E então, como faremos? — insistiu ele.
Maria atreveu-se a olhar-me por um instante; e esse olhar revelou-me tudo: ainda não haviam passado todos os nossos dias de felicidade!
— Não é verdade — tornou a perguntar-lhe meu pai — que prometes a Efraín ser sua esposa quando ele regressar da Europa?
Ela voltou, depois de alguns momentos de silêncio, a buscar meus olhos com os seus, e, ocultando-me de novo seus olhares negros e pudorosos, respondeu:
— Se ele assim quiser...
— Não sabes se ele quer? — replicou-lhe meu pai, quase rindo.
Maria calou-se, ruborizada, e as vivas tintas que em suas faces mostrou aquele rubor não desapareceram delas naquela noite. Minha mãe a olhava da maneira mais terna com que olhos de mãe podem olhar. Acreditei por um instante estar gozando de um desses sonhos em que Maria me falava com aquele acento que eu acabara de ouvir, e em que seus olhares tinham a brilhante umidade que eu espreitava neles.
— Tu sabes que eu quero assim, não é verdade? — disse-lhe.
— Sim, sei — respondeu com voz apagada.
— Dize agora a Efraín — disse-lhe meu pai, já sem sorrir — as condições com que tu e eu lhe fazemos essa promessa.
— Com a condição — disse Maria — de que ele parta contente... quanto for possível.
— Qual outra, filha?
— A outra é que estude muito para voltar logo... não é?
— Sim — respondeu meu pai, beijando-lhe a fronte —; e para merecer-te. As demais condições tu as porás. Então, gostas? — acrescentou, voltando-se para mim e pondo-se de pé.
Eu não tive palavras para responder-lhe; e apertei fortemente entre as minhas a mão que ele me estendia ao dizer-me:
— Até segunda-feira, pois; presta bastante atenção às minhas instruções e lê muitas vezes o caderno.
Minha mãe aproximou-se de nós e abraçou nossas cabeças, juntando-as de modo que involuntariamente meus lábios tocaram a face de Maria; e saiu, deixando-nos sós no salão.
Longo tempo deve ter corrido desde que minha mão prendeu no sofá a de Maria e nossos olhos se encontraram para não cessar de mirar-se, até que seus lábios pronunciaram estas palavras:
— Como papai é bom! Não é verdade?
Signifiquei-lhe que sim, sem que meus lábios pudessem balbuciar uma sílaba.
— Por que não falas? Parecem-te boas as condições que ele põe?
— Sim, Maria. E quais são as tuas em paga de tanto bem?
— Uma só.
— Dize-a.
— Tu a sabes.
— Sim, sim; mas hoje deves dizê-la.
— Que me ames sempre assim — respondeu, e sua mão se enlaçou mais estreitamente com a minha.