Capítulo XV
Capítulo XV
Quando saí para o corredor que conduzia ao meu quarto, um vento frio e impetuoso balançava os salgueiros do pátio; e, ao aproximar-me do pomar, ouvi-o rasgar-se nos bosquetes de laranjeiras, de onde se lançavam as aves assustadas. Relâmpagos débeis, semelhantes ao reflexo instantâneo de um broquel ferido pelo resplendor de uma fogueira, pareciam querer iluminar o fundo tenebroso do vale.
Recostado a uma das colunas do corredor, sem sentir a chuva que me açoitava as têmporas, pensava na enfermidade de Maria, sobre a qual meu pai pronunciara tão terríveis palavras. Meus olhos queriam voltar a vê-la como nas noites silenciosas e serenas que talvez já não voltassem mais!
Não sei quanto tempo havia passado quando algo como a asa vibrante de uma ave veio roçar minha fronte. Olhei para os bosques próximos para segui-la: era uma ave negra.
Meu quarto estava frio; as rosas da janela tremiam como se temessem ficar abandonadas aos rigores do vento tempestuoso: o vaso continha, já murchos e desfalecidos, os lírios que pela manhã Maria colocara nele. Nisto, uma rajada apagou subitamente a lâmpada; e um trovão deixou ouvir por longo tempo seu crescente retumbo, como se fosse o de um carro gigante despencado dos cumes rochosos da serra.
Em meio àquela natureza soluçante, minha alma tinha uma triste serenidade.
O relógio do salão acabava de dar meia-noite. Senti passos perto de minha porta e, logo depois, a voz de meu pai que me chamava. «Levanta-te», disse-me assim que respondi; «Maria continua mal».
O acesso havia se repetido. Depois de um quarto de hora, eu estava preparado para partir. Meu pai me fazia as últimas indicações sobre os sintomas da doença, enquanto o negrinho Juan Ángel aquietava meu cavalo retinto, impaciente e assustadiço. Montei; seus cascos ferrados rangeram sobre o calçamento, e um instante depois eu descia para as planícies do vale, buscando a vereda à luz de alguns relâmpagos lívidos. Ia em busca do doutor Mayn, que passava então uma temporada no campo, a três léguas de nossa fazenda.
A imagem de Maria, tal como eu a vira no leito naquela tarde, ao dizer-me aquele «até amanhã», que talvez não chegasse, ia comigo; e, avivando minha impaciência, fazia-me medir incessantemente a distância que me separava do termo da viagem; impaciência que a velocidade do cavalo não bastava para moderar,
As planícies começavam a desaparecer, fugindo em sentido contrário ao de minha carreira, semelhantes a mantos imensos enrolados pelo furacão. Os bosques que eu julgava mais próximos pareciam afastar-se à medida que eu avançava para eles. Só algum gemido do vento entre os higuerões e chiminangos sombrios, só o resfolegar fatigoso do cavalo e o choque de seus cascos contra os pedregulhos que faiscavam interrompiam o silêncio da noite.
Algumas cabanas de Santa Elena ficaram à minha direita, e pouco depois deixei de ouvir os latidos de seus cães. Manadas de vacas adormecidas sobre o caminho começavam a fazer-me moderar o passo.
A bela casa dos senhores de M***, com sua capela branca e seus bosques de ceibas, avistava-se ao longe aos primeiros raios da lua nascente, qual castelo cujas torres e coberturas o tempo houvesse desmoronado.
O Amaime descia avolumado pelas chuvas da noite, e seu estrondo mo anunciou muito antes que eu chegasse à margem. À luz da lua, que, atravessando as folhagens das ribanceiras, ia pratear as ondas, pude ver quanto havia aumentado sua torrente. Mas não era possível esperar: eu fizera duas léguas em uma hora, e ainda era pouco. Pus as esporas nos flancos do cavalo, que, com as orelhas estendidas para o fundo do rio e resfolegando surdamente, parecia calcular a impetuosidade das águas que se açoitavam a seus pés: mergulhou nelas as patas dianteiras e, como tomado por um terror invencível, recuou veloz, girando sobre as patas. Acariciei-lhe o pescoço e as crinas umedecidas e tornei a aguilhoá-lo para que se lançasse ao rio; então ergueu as patas dianteiras, impaciente, pedindo ao mesmo tempo toda a rédea, que lhe abandonei, temeroso de haver errado a entrada das cheias. Ele subiu pela margem umas vinte varas, tomando a encosta de um penhasco; aproximou o nariz das espumas e, erguendo-o em seguida, precipitou-se na corrente. A água o cobriu quase todo, chegando-me até os joelhos. As ondas encresparam-se pouco depois ao redor de minha cintura. Com uma das mãos eu apalpava o pescoço do animal, única parte já visível de seu corpo, enquanto com a outra tratava de fazê-lo descrever uma curva mais alta na linha da travessia, porque, de outro modo, perdida a parte baixa da encosta, esta se tornaria inacessível por sua altura e pela força das águas, que balançavam guaduales arrancados. O perigo havia passado. Apeei-me para examinar as cilhas, das quais uma se rompera. O nobre bruto sacudiu-se, e um instante depois continuei a marcha.
Logo que andei um quarto de légua, atravessei as ondas do Nima, humildes, diáfanas e lisas, que rolavam iluminadas até perder-se nas sombras de bosques silenciosos. Deixei à esquerda a campina de Santa R., cuja casa, em meio a arvoredos de ceibas e sob o grupo de palmeiras que elevam as folhagens acima de seu teto, semelha nas noites de lua a tenda de um rei oriental suspensa das árvores de um oásis.
Eram duas da madrugada quando, depois de atravessar a vila de P***, desmontei à porta da casa em que vivia o médico.