Capítulo XLVIII María · Capítulo 49 de 66
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Capítulo XLVIII

Capítulo XLVIII

Às sete da manhã seguinte, a bagagem de meu pai já havia saído de casa, e ele e eu tomávamos café em trajes de viagem. Eu devia acompanhá-lo até perto da fazenda dos senhores de M***, de quem iria despedir-me, assim como de outros vizinhos. A família inteira estava no corredor quando aproximaram os cavalos para que montássemos. Emma e Maria saíram de meu quarto naquele momento, o que chamou minha atenção. Meu pai, depois de beijar minha mãe em uma das faces, beijou a fronte de Maria, de Emma e de cada uma das crianças até chegar a Juan, que lhe recordou a encomenda que lhe fizera de uma selinha com coldres, para selar um potro guaucho, que era sua diversão naqueles dias.

Meu pai deteve-se novamente diante de Maria, antes de descer a escada, e disse-lhe em voz baixa, pondo uma mão sobre sua cabeça e tentando inutilmente conseguir que ela o olhasse:

— Está combinado que estarás muito valente e muito ajuizada; não é verdade, minha senhora?

Maria significou-lhe uma resposta afirmativa, e de seus olhos, que o pudor velava, tentaram deslizar lágrimas que ela enxugou precipitadamente.

Despedi-me até a tarde, e, estando perto de Maria enquanto meu pai montava, ela me disse de modo que nenhum outro a ouvisse:

— Nem um minuto depois das cinco.

Da família de dom Jerónimo, somente Carlos estava na fazenda; recebeu-me cheio de prazer, tentando obter de mim, desde o instante em que me abraçou, que eu passasse o dia inteiro com ele.

Visitamos o engenho, montado com grande custo, embora com pouco gosto e arte; percorremos o pomar, bela obra dos antepassados da família, e fomos por último à estrebaria, adornada por meia dúzia de cavalos valiosos.

Fumávamos à sobremesa, depois do almoço, quando Carlos me disse:

— Pelo visto, será impossível ver-te antes de nos dizermos adeus com tua cara alegre de estudante, com aquela que punhas para me atormentar ao contar-te algum capricho desesperador de Matilde. Mas, afinal, se estás triste porque vais embora, isso significa que estarias contente se ficasses... Diabo de viagem!

— Não sejas mal-agradecido — respondi-lhe —; quando eu regressar, terás médico de graça.

— Certo, homem. Crês que eu não havia previsto isso? Estuda muito para voltares depressa. Se, enquanto isso, não me matar um tabardillo apanhado nestas planícies, é possível que me encontres hidrópico. Estou me entediando atrozmente. Todos aqui quiseram que eu fosse passar a noite de Natal em Buga; e, para ficar, tive de fingir que havia deslocado um tornozelo, correndo o risco de que tal conduta me despopularize entre a numerosa turba de minhas primas. No fim, terei de pretextar algum negócio em Bogotá, nem que seja para trazer soches e ruanas como Emigdio... para trazer qualquer coisa.

— Como uma mulher? — interrompi-o.

— Ora! Imaginas que não pensei nisso? Mil vezes! Todas as noites faço cem projetos. Imagina: jogado de barriga para cima num catre desde as seis da tarde, esperando que venham os negros rezar, que depois me chamem para tomar chocolate, e ouvindo em seguida combinar arrancadas de raiz, limpezas de mato e plantações de cana... Ao amanhecer de todos os dias, o primeiro cheiro de bagaçal que me chega às narinas desfaz todos os meus castelos.

— Mas lerás.

— Que leio? Com quem falo sobre o que leia? Com esse administrador papudo que boceja desde as cinco?

— Concluo, então, que precisas urgentemente casar-te; que tornaste a pensar em Matilde e que projetas trazê-la para cá.

— Ao pé da letra; foi isso que aconteceu. Depois que me convenci de que cometera um disparate ao tentar casar-me com tua prima — Deus e ela me perdoem —, veio a tentação que dizes. Mas sabes o que costuma acontecer-me? Depois de me custar tanto trabalho quanto resolver um daqueles problemas de Bacho imaginar bem que Matilde já é minha mulher e está em casa, caio na gargalhada ao supor o que seria da infeliz.

— Mas por quê?

— Homem, Matilde é de Bogotá como a pia de San Carlos, como a estátua de Bolívar, como o porteiro Escamilla: teria de se estragar no transplante. E que poderia eu fazer para evitá-lo?

— Pois fazer-te sempre amar por ela; proporcionar-lhe todos os refinamentos e recreações possíveis... enfim, tu és rico, e ela seria um estímulo para teu trabalho. Além disso, estas planícies, estes bosques, estes rios são por acaso coisas que ela viu? São para ser vistas e não amadas?

— Já vens tu com poesias. E meu pai e suas campesinices? E minhas tias com seus fumos e beatices? E esta solidão? E o calor?... E o demônio...?

— Espera — interrompi-o, rindo —, não leves isso tão a peito.

— Não falemos mais disso. Apressa-te muito para voltares logo e me curares. Quando regressares, casarás com a senhorita Maria; não é assim?

— Se Deus quiser...

— Queres que eu seja teu padrinho?

— De mil amores.

— Obrigado. Fica, pois, combinado.

— Manda que tragam meu cavalo — disse-lhe depois de algum tempo de silêncio.

— Já vais embora?

— Sinto muito; mas em casa me esperam cedo: já vês que a viagem está muito próxima... e tenho de me despedir hoje de Emigdio e de meu compadre Custodio, que não moram muito perto.

— Vais precisamente no dia trinta?

— Sim.

— Restam-te apenas quinze dias; não devo deter-te. Afinal riste de alguma coisa, ainda que tenha sido de meu tédio.

Nem Carlos nem eu pudemos ocultar o pesar que nos causava aquela despedida.

Vadeava o Amaimito quando ouvi que me chamavam e avistei meu compadre Custodio saindo de um bosque próximo. Cavalgava um potranco melado, ainda de rédea, sobre uma sela de grande cabeçote: vestia camisa de listras azuis, calças arregaçadas até o joelho e o capisayo atravessado ao comprido sobre as coxas. Seguia-o, montado em uma égua bebeca, abatida pelos anos e por quatro cachos de bananas, um rapaz idiota, o mesmo que desempenhava na chagra funções combinadas de porqueiro, espantador de pássaros e hortelão.

— Deus me o guarde, compadrito — disse-me o velho quando esteve perto. — Se eu não teimo em gritar, o senhor me escapa.

— Eu ia à sua casa, compadre.

— Não me diga. E eu que por pouco não saio destes matões, dando um jeito de topar aquela maneta danada, que já tornou a ficar horra: mas no engenho ela há de me pagar todas juntas. Se eu não acerto passar pelo campinho da porta e ver os urubus, até agora estaria vadiando atrás dela. Fui de uma vez, e dito e feito: o muleto já meio comido, e tão vistoso que parecia de dois meses. Nem o couro se pôde tirar, que com outro me teria servido para fazer uns zamarros, pois os que tenho estão à vista dos cães.

— Não se importe, compadre, que muletos hão de sobrar-lhe e anos para vê-los em tropa. Vamos, pois.

— Nada, senhor — disse meu compadre, começando a andar e precedendo-me —; é só canseira; o tempo anda péssimo. Faça ideia: o melado a real; a rapadura, nem se diga; o açuquinha que sai branco, a peso; os queijos, de graça; e os porcos engolindo todo o milho da colheita, como se fosse jogado no rio. As contas de sua comadre, embora a pobre seja um rodopio, não dão nem para velas; não há fornada de sabão que pague o que se gasta; e aqueles guardas gulosos, atrás do alambique que se pelam... Que lhe conto: comprei do amo dom Jerónimo aquele rastrojo do guadualzinho; mas que homem tirano! Quatrocentos patacões e dez terneirões de aparta ele me arrancou!

— E de onde saíram os quatrocentos? Do sabão?

— Ah, o senhor para teimoso, compadre. Pois quebramos até o cofrinho de Salomé para poder pagar-lhe.

— E Salomé continua tão trabalhadora como antes?

— E, se não, de onde lhe viria a graça? Lavra tiras de lomilho que é coisa de se ver, e ajuda em tudo: afinal, filha de sua mãe. Mas se lhe digo que essa moça me deixa zonzo, não minto.

— Salomé? Ela tão direitinha, tão recatada...

— Ela, compadre; assim tão quietinha como o senhor a vê.

— Que acontece?

— O senhor é cavalheiro de verdade e meu amigo, e vou lhe contar, em vez de ir dizê-lo ao senhor vigário da Paróquia, que eu creio que, de tão santo, nem malícia tem e a alma lhe passeia pelo corpo. Mas espere e passo eu primeiro este zanjão, porque, para não se emporcalhar nele, era preciso ter baquía.

E, voltando-se para o bobo, que vinha dormitando entre as bananas:

— Vê o caminho, tonto, porque, se a égua atolar, perco os guangos com gosto só para te deixar aí.

O papudo riu estupidamente e deu por resposta alguns resmungos inarticulados. Meu compadre continuou:

— O senhor conhece Tiburcio, o mulatinho que o finado Murcia criou?

— Não é o que queria casar-se com Salomé?

— Lá chegaremos.

— Não sei quem o criou. Mas, sim, conheço-o bem: vi-o em sua casa e na de José, e até já caçamos algumas vezes juntos; é um belo moço.

— Pois aí onde o vê, não lhe faltam oito boas vacas, sua ponta de porcos, sua estancinha e duas boas éguas de sela. Porque nhô Murcia, embora vivesse blasfemando que dava medo, era um bom homem e deixou tudo isso ao rapaz. Ele é filho de uma mulata que custou ao velho uma recaída de tirícia que por pouco o leva, pois quatro meses depois de ter comprado a zamba em Quilichao ela morreu; e eu soube a história, porque então gostava de fazer jornal algumas vezes na chagra de nhô Murcia.

— E que há com Tiburcio?

— Já vou lá. Pois, senhor, faz quase oito meses que comecei a notar que ao rapaz não faltavam histórias para vir ver-nos; mas logo lhe peguei a manha e conheci que o que procurava era ocasião de ver Salomé. Um dia disse isso bem claro a Candelaria, e ela me saiu com a resposta de que talvez me tivesse caído uma nuvem nos olhos e que a história era velha. Pus-me de tocaia num sábado, ao cair da tarde, porque Tiburcio não faltava aos sábados a essa hora, e veja o senhor que vi a moça sair-lhe ao encontro mal o sentiu, e não me restou nem um pingo de dúvida... Isso sim, nada vi que não fosse legítimo. Passaram dias e dias, e Tiburcio não abria a boca para falar de casamento; mas eu pensava: sondando Salomé é que ele estará, e bem tolo será se não se casar com ela, pois ela não é nenhuma desgrenhada, e tão mulher de sua casa não há perigo que encontre. Quando de repente Tiburcio deixou de vir, sem que Candelaria pudesse arrancar da moça o motivo; e como Salomé tem por mim o respeito que deve, menos pude averiguar-lhe; e desde antes da noite de Natal Tiburcio não aparece por lá. O senhor há de ser amigo do menino Justiniano, irmão de dom Carlitos.

— Não o vejo desde que éramos pequenos.

— Pois tire-lhe as suíças que dom Carlos deixou crescer, e aí o tem, igualzinho. Mas oxalá fosse como o irmão; é o mesmo capeta; mas belo moço, para que negar. Eu não sei onde ele viu Salomé: talvez tenha sido agora que estive empenhado em fazer a troca com o pai dele, porque esse menino veio ferrar os bezerros, e desde esse mesmo dia não me deixa comer uma banana sossegado.

— Isso não está bom.

— Eu, que lhe conto com risco de que sua comadre, se souber, me diga um dia, quando estiver lunática, que sou um linguarudo, sei o que faço. Mas não há mal que não tenha cura: estive dando voltas e cavando até dar no ponto.

— Vejamos, compadre; mas diga-me antes — e perdoe se há indiscrição em perguntar — que cara faz Salomé a Justiniano?

— Deixe, senhor: se é isso que me tem dia e noite como se eu dormisse sobre pringamosa... Compadre, a moça está picada... Para eu não matá-la... E a surra que lhe dou, se o mandinga se meter em mim... Ela o quer, menino; e por isso lhe conto tudo, para que o senhor me tire disso em paz.

— E em que conheceu o senhor que Salomé está enamorada?

— Valha-me Deus! Não hei de ter visto como lhe bailam os olhos quando vê o branquinho, e como ela toda fica azougada, se lhe passa água ou fogo, porque parece que ele vive com sede e que fumar é a única coisa que tem a fazer; pois por fogo e água ele chega a casa, sempre e sempre; e não falta aos domingos à tarde na casa da velha Dominga; não a conhece?

— Não.

— Pois estou por lhe dizer que é das que usam pós; e já não há quem tire da cabeça de Candelaria que aquela morcega foi quem botou mau-olhado naquele mico tão sabido e que tanto divertia o senhor; porque o bichinho morreu abrindo a boca, esfregando a barriga e dando gemidos como cristão.

— Algum escorpião que ele teria comido, compadre.

— Que nada! Se custava trabalho para que provasse comida fria: convença-se de que a bruxa lhe fez malefício; mas não era para lá que eu ia. Agorinha, quando fui buscar a égua, encontrei a velha no Guayabal, que ia para casa, e como ando de orelha em pé, foi vê-la e me plantei diante dela para dizer-lhe: “Veja, nhá Dominga, volte para trás, porque lá o povo tem ofício em vez de ficar de conversa. Vão duas vezes com esta que lhe digo que me choca vê-la em casa”. Ela toda se pôs a tremer, e eu, que a vi assustada, pensei na hora: esta velhaca não anda em coisa boa. Saiu com estas e mais aquelas; mas deixei-a como em missa quando lhe disse: “Olhe que eu sou desconfiado, e se pego a senhora nessa em que anda, eu a esfolo a relho; e, se não o fizer, que me tirem o nome”.

A exaltação de meu compadre chegara ao cúmulo. Benzendo-se, continuou:

— Jesus, creio em Deus Pai! Essa cambada é capaz de me fazer perder-me, um dia que me vista a ira má. É bem-feito, branco: ter um homem de bem sua filhinha, que tantas pesadumbres lhe custou, e não há de faltar quem queira fazê-lo passar vergonha naquilo que tem de mais querido.

Meu irascível compadre estava próximo de um acesso de enternecimento, e eu, a quem suas últimas palavras não haviam parecido salvas e repiques, apressei-me em dizer-lhe:

— Vejamos o remédio que o senhor encontrou para o mal, porque já vou crendo que é coisa grave.

— Pois agora verá: sua mãe propôs outro dia à minha mulher que lhe mandasse Salomé por umas semanas, para que a moça aprendesse costura fina, que é tudo quanto Candelaria deseja. Então não se pôde... Eu não conhecia o senhor como agora.

— Compadre!...

— Pela verdade morreu Cristo. Agora o caso é diferente: quero que sua mãe me tenha lá a moça por uns meses, que por aí esse inimigo mau não há de ir procurá-la: Salomé se ajuizará, e será o mesmo que dizer a quem quiser alvoroçá-la que vá para a ponta de um chifre. Que lhe parece?

— Naturalmente. Hoje mesmo falarei com minha mãe; e ela e as meninas ficarão muito contentes. Prometo-lhe que tudo se arranjará.

— Deus lhe pague, compadre. Então eu darei um jeito para que o senhor fale hoje um instante a sós com Salomé, como quem não quer nada: propõe-lhe que vá à sua casa e diz que sua mãe a está esperando. Depois o senhor me conta o que conseguir arrancar dela, e assim tudo nos sairá direito como sulco. Mas se a moça se me encapricha, juro-lhe que um destes dias a monto num dos meus mochos, e ao beaterio de Cali ela vai parar, pois ali não há de pousar-me nela nem uma mosca; e, se não sair casada, rezando e aprendendo a ler em livro a conservo até que São João abaixe o dedo.

Passávamos pelo rastrojo recém-comprado por Custodio, e este me disse:

— Não vê que primor de terra e como está o espinho-de-macaco, que é o melhor sinal de bom terreno? A única coisa que o estraga é a falta de água.

— Compadre — respondi-lhe —, se já pode pôr-lhe toda a que quiser.

— Não zombe; então não o vendo nem pelo dobro.

— Meu pai consente que o senhor tome quanta necessitar dos pastos de baixo: fiz-lhe ver o que o senhor me recomendou; e ele estranhou que não lhe tivesse pedido antes a permissão.

— Mas que memória a sua, compadrito: veja só, esperar até as últimas para me avisar... Diga ao patrão que lhe agradeço em minha alma; que ele já sabe que não sou nenhum ingrato, e que aqui me tem, com tudo quanto tenho, para mandar em mim. Candelaria vai estar em páscoa: água à mão para a horta, para o alambique, para o manguezinho... Imagine que a que passa por casa é um fiapo, e isso revolvida pelos porcos do meu vizinho Rudecindo, que, quanto a fuçar e me estragar as cercas, não dão folga; de modo que, para qualquer limpeza que se há de fazer em casa, têm de tocar o mudo com a égua carregada de cabaços até o Amaimito, porque, para tomar água da Honda, melhor é engolir lixívia, de pura caparrosa que tem.

— É cobre, compadre.

— Isso será.

A notícia da permissão que meu pai lhe concedia para tomar a água refrescou o chacareiro a ponto de fazer o potranco em que ia luzir o passo travado em que, dizia o domador, o estava metendo.

— De quem é esse potro? Não tem o seu ferro.

— Gostou? É do velho Somera.

— Quanto vale?

— Pois, para não andar com voltas nem rodeios, confessarei que de dom Emigdio ele não quis quatro medalhas; e este é um pangaré perto do meu ruço-negro, que já tenho de freio, e bate as mãos no passo llano, e levanta a cauda que é um gosto: assim me custou amansá-lo! Por uma semana inteira me inutilizou este braço, porque não há outro que lhe ganhe no canônico; e um arremate no dois e dois... Estou engordando-o, pois depois da última surra que lhe dei ficou no osso.

Chegávamos à casa de Custodio, e ele esporeou o potro para dar um jeito de abrir a porta do pátio. Mal esta soltou atrás de nós o último rangido e um golpe que fez estremecer o cavalete de palha, meu compadre aconselhou-me:

— Ande vivo e com jeito com Salomé, a ver o que lhe tira.

— Fique tranquilo — respondi, fazendo meu cavalo chegar ao corredor, pois a roupa branca pendurada por ali o espantava.

Quando tentei apeiar-me, meu compadre já havia tapado a cabeça do potro com o capisayo, e estava segurando-me o estribo e a rédea. Depois de amarrar as cavalgaduras, entrou gritando:

— Candelaria! Salomé!

Só os bimbos responderam.

— Mas nem os cães — continuou meu compadre —: como se a terra tivesse engolido todos.

— Já vou — respondeu da cozinha minha comadre.

— Ora, turutas! É que aqui está teu compadre Efraín.

— Espere-me um nadinha, compadrito, que é porque estamos baixando uma rapadura e ela vai queimar.

— E Fermín onde se meteu? — perguntou Custodio.

— Foi com os cães procurar o porco cimarrão — respondeu a voz melodiosa de Salomé.

Esta apareceu de repente à porta da cozinha, enquanto meu compadre se empenhava em ajudar-me a tirar os zamarros.

Era de palha a casinha da chagra e de chão batido, mas muito limpa e recém-caida: assim, rodeada de cafeeiros, anoneiras, mamoeiros e outras árvores frutíferas, não faltava à morada senão aquilo que dali em diante teria, esperança que tão favoravelmente havia melhorado o humor de seu dono: água corrente e cristalina. A salinha tinha por adorno alguns tamboretes forrados de couro cru, um banco, uma mesinha então coberta de amido sobre panos, e o aparador, onde luzia pratos e tigelas de vários tamanhos e cores.

Uma alta cortina de chita rosada cobria a porta que conduzia às alcovas, e sobre a cornija desta descansava uma deteriorada imagem da Virgem do Rosário, completando o altarzinho duas pequenas estátuas de São José e Santo Antônio, colocadas de um lado e de outro da lâmina.

Pouco depois saiu da cozinha minha roliça comadre, sufocada pelo fogão e empunhando na mão direita uma cagüinga. Depois de me fazer mil queixas por minha inconstância, terminou por dizer-me:

— Salomé e eu o estávamos esperando para comer.

— E isso por quê?

— Juan Ángel chegou aqui por uns trocados de ovos, e a senhora mandou dizer-me que o senhor vinha hoje. Mandei chamar Salomé no rio, porque estava lavando, e pergunte-lhe o que lhe disse, que ela não me deixará mentir: “Se meu compadre não vier hoje comer aqui, vou pô-lo de volta e meia”.

— Tudo isso significa que me têm preparada uma festa.

— Pois não terei visto o senhor comer com vontade um sancocho feito por minha mão; o ruim é que ainda demora.

— Melhor, porque assim terei tempo de ir banhar-me. Vejamos, Salomé — disse, parando à porta da cozinha, enquanto meus compadres entravam na sala conversando em voz baixa —: que tens para mim?

— Geleia e isto que estou fazendo para o senhor — respondeu-me sem deixar de moer. — Se soubesse que o tenho esperado como pão bento...

— Isso será porque... há muitas coisas boas.

— Uma porção! Espere-me um nadinha enquanto me lavo, para lhe dar a mão, ainda que estará ñanga, porque como já não é meu amigo...

Dizia isso sem me olhar de cheio, entre alegre e vergonhosa, mas deixando-me ver, ao sorrir com a boca de lado, aqueles dentes de brancura inverossímil, companheiros inseparáveis de lábios úmidos e amorosos: suas faces mostravam aquele rosado que, nas mestiças de certa tez, escapa por sua beleza a toda comparação. No ir e vir dos braços nus e macios sobre a pedra em que apoiava a cintura, mostrava esta toda a sua flexibilidade, tremia-lhe a cabeleira solta sobre os ombros, e estiravam-se as pregas de sua camisa branca e bordada. Sacudindo a cabeça lançada para trás para voltar os cabelos às costas, pôs-se a lavar as mãos, e, acabando de secá-las sobre os quadris, disse-me:

— Como que o senhor gosta de ver moer. Se soubesse — continuou mais baixo — o quanto me têm moído. Não lhe digo que o tenho esperado?

Colocada de maneira que de fora não podiam vê-la, continuou, dando-me a mão:

— Se o senhor não tivesse ficado um mês sem vir, teria me feito um bem. Veja se meu taita está por aí.

— Nenhum deles está. Não posso fazer-te o mesmo bem agora?

— Ah, quem sabe!

— Mas dize, vejamos. Não estás persuadida de que o farei de mil amores?

— Se eu dissesse que não, seria mentirosa, porque desde que tomou tanto empenho para que aquele senhor inglês viesse ver-me quando me deu o tabardillo, e muitíssimo interesse para que eu melhorasse, convenci-me de que sim, tinha carinho por mim.

— Alegro-me que o saibas.

— Mas é que o que tenho para lhe contar é tantíssimo, que assim de repente não se pode, e já é um milagre que minha mamãe não esteja aqui... Escute, que lá vem ela.

— Não faltará ocasião.

— Ai, senhor! E eu não me conformo que o senhor vá embora hoje sem eu lhe dizer tudo.

— Então vai banhar-se, compadrito? — disse Candelaria, entrando. — Então vou trazer-lhe uma toalha bem cheirosa e agorinha mesmo o senhor vai com Salomé e seu afilhado; antes eles trazem uma viagem de água, e esta lava uns coadores, que, com a ida do mudo pelas bananas e o que houve de fazer para o senhor e para mandar à Paróquia, não restou senão a da talha.

Ao ouvir a proposta da boa mulher, persuadi-me de que ela havia entrado por completo no plano do marido, e Salomé me fez ao descuido uma careta expressiva, de modo que com lábios e olhos me significou ao mesmo tempo: “agora sim”.

Saí da cozinha, e, passeando pela sala enquanto se preparava o necessário para a ida ao banho, pensava que razão de sobra tinha meu compadre em zelar por sua filha, pois a qualquer um menos malicioso que ele poderia ocorrer que o rosto de Salomé, com seus sinais, e aquele talhe e andar, e aquele seio, pareciam coisa mais que certa, imaginada.

Interrompeu aquelas considerações Salomé, que, parando à porta com um chapeuzinho raspón meio posto, me disse:

— Vamos?

E, dando-me a cheirar a toalha que levava pendurada em um ombro, acrescentou:

— Que cheiro tem?

— O teu.

— A malvas, senhor.

— Pois a malvas.

— Porque tenho sempre muitas em meu baú. Ande e não vá acreditar que é longe: vamos levá-lo por debaixo do cacaueiral; ao sair do outro lado, não há que andar senão um pedacinho, e já estaremos lá.

Fermín, carregado com os cabaços e coadeiras, precedia-nos. Este era meu afilhado: eu tinha treze anos e ele dois quando lhe servi de padrinho de crisma, devido isso ao afeto que seus pais sempre me haviam dispensado.

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