Primeira Parte - Capítulo II
Casaram. As exterioridades, prontas sempre a mascarar hipócritas ou a desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas incansaveis de um mês, que apenas chegou a satisfazer a ânsia de folias. Era numerosa a parentela, derramada em três províncias. Viera toda a felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas famílias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco séculos. Diriam mais que já não havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco ilustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam à sala dos retratos, e afirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os retratos em verdade pareciam sorrir da inépcia da sua posteridade; porque o bispo fora um virtuoso prelado: a abadessa morrera em cheiro de santidade; e o governador de Mombaça, se não morreu santo—que o governar na Índia era pouco azado molde para santos—era pelo menos esperto, consoante as crônicas o descrevem.
Não se persuada o leitor que lhe está iminente uma trovoada de escândalos e ofensas à moral. O infortúnio da vida intima de dois casados existe sem delitos, sem vergonhas nem aggravos, que ressaltam em injúrias ou insultos à dignidade humana, das janelas para a rua. O marido pode ser desditoso, sem deslustre de sua honra; a mulher pode ser má e intolerável, sem enlamear sua fama para sacudir o stigma à face do marido.
Há umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosa CARTA DE GUIA DE CASADOS, denomina bravas. É este o termo que friza a primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim o citado filósofo:
«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como elas guardem a lei devida à honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem eles de sofrer quanto elas quiserem que lhes sofram.»
E acrescenta:
«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve às honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo as tem posto... A segunda...»
A segunda razão desconcerta com o nosso propósito. Abaste-nos saber que Maria das Dores, ou porque não sentia o coração, ou porque lhe comprimia os ímpetos com a sua índole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de sua consciência, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memória podem os panegiristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem mácula.
O mesmo quisera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na história.
Gonçalo era um homem amável, cortezão, audacioso, e mestre em astucias, aprendidas «heroicamente» na corte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a mesma corte de D. José I, sucessora da outra do nosso Luís XIV. A piedade de D. Maria I influira nas festas de igreja, nas pompas do culto, e apenas se fizera refletir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da soberana seria ineficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinela inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava de sangue.
Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em mérito palaciano com Gonçalo Malafaya. Amavam-no as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação, moldada sempre às leis da cortesia e da elegante selecção das finezas. Prezavam-no os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de frase, e de atitudes, e das mil insignificâncias que em uma sala completam o homem de primor. Os velhos fidalgos, que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto seria assombro da corte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de índole tão prestante, como a de Gonçalo, para se afeiçoar aos grandes e raros modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom século. O bom século dos velhos é sempre o século em que eles foram rapazes, amados e requestados das meninas coevas, as quais, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos seus setenta anos, a baixa condição em que a humanidade se vai degenerando.
No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e folguedos, quem diria as amarguras escondidas naquela alma? Sobre a ferida da infinita saudade daquela filha do conde, suspirosa sempre dele e votada ao claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dores lhe espremia! Hora de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por ciúmes, que sacudia a farpa; era já a fantasia engrandecendo o ultraje para dar vulto às queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas para matéria da acusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancólico, era o fastio dela que o entristecia; se alegre, eram as notícias da filha do conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspeto de tão má sombra, que, por contagio, difundia tristeza em todas as fisionomias, e mandava tirar a sege, quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação. Em casa, compendiava os artigos do líbelo acusatório, em que muitas vezes eram calumniadas senhoras inocentes, e intenções de mera cortesia. Explicações eram exasperar-lhe a sanha; o silêncio era confirmação de suspeitas; um sorriso em resposta era redobrar o ultraje pelo escárnio; um gesto desabrido, uma ameaça à justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na fantasia fatigada de creá-los, Maria das Dores lançava mão de creancices. Deixava cair de propósito uma porcelana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o silêncio a falsidade, e então o despeito recrescia com o suposto desprezo; ou a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte dela, terminavam em síncopes de raiva.
Gonçalo recolhia regularmente à meia noite, e achava a esposa a passear na antecamara, assoprando às mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra ele e contra as famílias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir aos saraus. Maria das Dores, à terceira noite de dolorosa abstenção, perguntou-lhe se ele ficava em casa para dormir ao fogão, e se casara com ela para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo aos hábitos antigos, e conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convícios revelhos e repisados, os mesmos sempre na frase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrível de quantas há!
Este viver durou um ano, cinco anos, dez anos, vinte e quatro anos.
Nesse longo e penível discorrer de dias concatenados, vejamos se algum incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espírito em algum ameno remanso.
Decorridos dois anos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. Acerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete meses já tinham disputado, antes dela nascer. Claro é que argumentaram em hipótese até ao nascimento. Sendo menino queria ela que se chamasse Ruy, à semelhança de seu vigésimo segundo avô; sendo menina, Maria, porque nos últimos quatro séculos, todas as senhoras morgadas da família se chamavam Marias. Gonçalo desejava que fosse Heitor, sendo rapaz, e Beatriz, ou Mafalda, na outra hipótese.
Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.
As formosuras que deu aos anjos a escola cristã, vertendo à tela as cores e os feitios desenhados de belo ideal, todas tinha Maria, aos oitos anos de idade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancólica e meiga, sem abrir nos lábios infantis o sorriso de seus anos, cuidava que, alguma hora, as azas de anjo lhe implumariam as espádoas, e ela as desferiria em voo para Deus, que a mandara à terra a mostrar que belezas povoam a bem-aventurança, e como as almas lá andam vestidas.
Bem pudera aquela pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e alumiar naquela casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo seria a mágoa de não ter o condão de conciliar seus pais. Pode ser que as carícias fossem poucas no berço, e à míngua delas, a menina crescesse como orfanada de coração, e sedenta das meiguices, que ela andava mendigando a troco das suas.
Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e às estrondosas disputações dos dois, em competência de frenesis! Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ela para lhe reconciliar o sono, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da mãe!
Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dores, à falta de outros peguilhos, até das muitas carícias do pai à menina tirava assunto para bravezas de gênio. Umas vezes por apertá-la de mais; outras, por atordoá-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pai, afinal, largava de enfadado a criança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais inocentes gozos.
O amor de Maria das Dores à filha tinha acessos de doudice. Acontecia arrancar-lha dos braços a ama, quando receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia do seio para o regaço, lhe tolhessem a criança. A menina ganhara à mãe uns medos tais, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a inocente cada vez mais assustadiça. Com o pai era diferente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos braços, e saltava-lhe em eles, como se quisesse librar-se no ar, e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céu! Se Deus te desse então as tuas azas! Deste amor ao pai, eram mais que muito frequentes os reparos de Maria das Dores, que desfechavam em disparates de louco ciúme, e declamações contra a Providência, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a criança, talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saía a malícia, que ouvia impropérios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.
Fez Maria nove anos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e compará-la, sem poder confundi-la, com as outras senhoras. Sentia já uns toques de compaixão, quando via o pai injustamente acusado, e devorado de impaciências, tanto mais dilacerantes quanto a prudência as afoga nas lágrimas íntimas. Alguma vez ousou a menina pedir à mãe que cessasse de mortificar o pai e humildemente oferecia o rosto à bofetada que lhe vinha em retorno da suplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pai. Escondia-se a chorar no seio da sua ama, a quem ela muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas ocasiões em que a irritabilidade de Maria das Dores recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe fugia às sanhas.
Avisado miudamente pela ama, que afinal fora expulsa, determinou Gonçalo Malafaya mandar educar sua filha em um colégio inglês em Lisboa, não tanto para prendê-la, como para subtrai-la à mãe. Fora plano dele chamar mestres a casa, uns nacionais, e outros extrangeiros, que era esse o usual sistema da fidalguia destes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao colégio, sobre apartá-la dos rigores da mãe, poupava-se a aumentar em casa as testemunhas do seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes deviam ser muitos, se andassem à caprichosa escolha de sua mulher. Disse ele timidamente o seu intento a Maria das Dores. Ocioso é dizer que foi contrariado com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querelas de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu propósito, cogitou em machinar traças para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a sair-se bem com o seu louvável intento. O que ele queria evitar era o ruido do fato, e a precisão de explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.
A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por vaidade ou por interesse de coisas menos louvaveis da sua vida exterior punha todo o seu cuidado em desmentir ou afrouxar a curiosidade pública, sempre em ânsias de escândalos, para dessedentar-se das sequidões da vida cotidiana.
Um sucesso, aparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de Gonçalo. Os pais de Maria das Dores tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda tentou levá-la, se bem que não desconfiada da alegria oculta no ânimo do marido; mas os médicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saiu Maria das Dores a assistir à agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até às honras da sepultura, uns trinta dias.
Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver convalescer nos braços do pai, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera chamar a ama para ser no colégio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para Lisboa, e deixou aos pais o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ela voltasse do Douro.
Então contou Gonçalo a seu pai as miúdas cenas de sua desgraça. Carecia este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez de falar, o velho contou ao filho a longa história de seus próprios infortúnios, sofridos uns com desprezo, outros com paciência, e todos na certeza de que não há ninguém feliz. Caiu-lhe a propósito contar uma arrastada história de um rei poderoso da Asia que mandara chamar ao fim do mundo um filósofo para que este lhe resuscitasse um amigo, e que o filósofo prometera dar vida ao morto, tirando a concerto que o rei mandaria escrever no túmulo o nome de um homem de trinta anos que nunca sofresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu sono eterno, e o rei mandou o filósofo para a sua terra.
Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pai, prometendo dar a sua filha a felicidade que perdera por obediência, podendo ser ditoso com a mulher, que a sua alma escolhera.
—E os vínculos de Freijoim e Águas Santas!—replicou triunfantemente o velho.