Terceira Parte - Capítulo II Estrelas Funestas · Capítulo 17 de 22
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Terceira Parte - Capítulo II

Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a grandeza e o travor do cálix que punha aos lábios! Tantos mosteiros havia aí no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso mesmo, das suas!

Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miséria, e castigos, e forçadas penitências, nas pensionistas abastadas, e ali reclusas pela violência paternal. Não se abria um sorriso nos lábios de nenhuma. As pobres anhelavam a sua indigência ao ar livre, as ricas estorciam-se nos frenesis da sua irremediável reclusão. As de boa índole que para ali entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivência de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedência à vontade da mãe, e aos conselhos do esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e a regente respondeu que ela não era senhora sua, em quanto se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pai incumbia romovê-la, por que fora ele quem apresentara ao senhor provedor o mandado do deposito.

Esta resposta, secamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão à regente.

Era-lhe licito escrever a seu marido. Nesse respiro gastava ela as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio à chaga, sem o benefício da cura. Respondia-lhe Filipe, fingindo ânimo, e inventando lenitivos de paciência, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem à luz dos olhos dela via ao longe a redenção.

Uma só menina das órfãs pobres ela chamara à sua intimidade: era Rita de Cassia, ilustre de nascimento, mas desamparada de pai e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem à vida em uma época de desdourados amores. Affrontaram o escândalo, e fugiram afrontados ao dever!

O pai, que escondia o título, para livrar-se dela, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciência entregando-a à caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pai nem mãe. Antes ele falasse a verdade, e o gênero humano teria de menos um estigma.

Rita era comensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a órfã deu, passados meses, do seu reconhecimento e cega amisade à fidalga e infeliz!

Depois de um mês de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a criancinha. Nos braços dela passou a menina os paroxismos, aquela estortorosa respiração, que é uma lenta asfixia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltório macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Puderam Eugenia e Rita de Cassia levá-la ao seu quarto, e excitá-la a chorar, como remédio único. Uma e outra lhe falavam de Filipe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dor maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.

Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a última vez que via a nossa filha.»

Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[1], dizem singelamente:

«A sua consolação única lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitórios. Todas choravam com ela, e eu também, com quanto então tivesse nove anos.—Falta-me um pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um ano. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veio ali buscá-la o abade em uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ela ajoelhara ao pé da filhinha, quando lha tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:—Vai pedir ao Senhor a liberdade de teu pai, meu anjinho!»

Ao outro dia, tinha ela de responder à carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia ele—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»

E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração se abriria a recolher-lhe as lágrimas? Como havia de fingir ela uma linguagem sossegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dores a vida tem!

E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua aflição, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pai, o destino, e Deus. As blasfêmias era a carta do marido que lhas incitava, no período trasladado. Deus lhe levara a filha, no momento em que o cárcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da criança. A misericórdia do céu lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lhas faria resaltar do coração, e jamais da consciência. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ela hoje fosse do céu, pediria ao Senhor a tua liberdade.»

Porém, o silêncio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.

Estavam no Porto os irmãos de Filipe Osório, e esses lha levaram.

Sucumbiu aquela forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra ideia cedeu ao primeiro acesso de febre.

Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ela diretamente ao Castelo da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrível explosão no ânimo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ela lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa notícia destes sucessos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cela da regente; e a regente tremia dela, e da chibata, por amor à sua pele, que já tinha então oitenta e um anos, e era estimável pele por ser de dura.» No final deste faceto período se denota a má vontade que a minha ilustre informadora ainda conserva à sua regente de há cinquenta anos!

Estava pois, a octogenária regente alapada no seu cubículo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou ânimo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funcionárias da casa deliberadas a defendê-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o fato com a licença do provedor da Santa Casa.

A fidalga não insistia muito tempo em uma mesma ideia. Andava a baldões de sua aflição, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repelindo-as ambas desabridamente.

Foi aquela noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este à frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutório Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciências, e confortá-la com palavras esperançosas de breve saída. Veio a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dor e a cólera que o provedor suava de ouvi-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, afronta original naquela casa de humílimas vítimas.

Fatigada de exprobrar a tirania do pai e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cela esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um propósito de demente:

—Havemos de fugir hoje daqui: tu vais comigo, Rita, se tiveres coragem.

A órfã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:

—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!

—Cala-te, que eu sei por onde se pode fugir. Queres ir?

—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir destas paredes, que nem janelas têm.

Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filipe, escrita por estranho pulso, e assignada por ele. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pai a Deus; ele mesmo se deleitava nesta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salvá-lo com ela.

Aquietou-se algum tempo o espírito da esposa; e ao voltar a intermitência do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu às melhoradas novas.

De tarde, saiu sozinha Maria e foi orar para o coro; depois disse que queria descer à igreja para rezar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto ato bons auspícios. Foi à igreja, e quis estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do coro algumas órfãs que a observavam, e deteve-se a reparar em um postigo chamado a ministra, por onde as recolhidas recebiam a comunhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rápido exame, saiu da igreja, e recolheu-se à sua cela com semblante sossegado, e um brilho de estranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstáculos, aos quais Maria respondia sempre vencedora.

Vamos ver os prodígios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.

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