Segunda Parte - Capítulo V
Nessa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saiu da câmara à sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hóspede, e nem ânimo teve de lhos estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por ele. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, aumentava o da aversão à mãe e à filha.
Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hóspede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquila aparência, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais à piedade que à irrisão.
À piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguém? Os amores desditosos só acareiam dó para as vítimas resignadas. Umas há que de antemão se desoprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.
O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe inteligência de muda expressão, disse com sombra de riso:
—Não tem dúvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto para!...
Teria o repudiado noivo caminhado uma légua na direção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmitiu ao pulso esquerdo raivoso ímpeto de sustar as rédeas, e revirar a cabeça do cavalo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.
Foi o conde apear em uma estalagem, e dali avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este sucesso, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por eles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel cálix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!
Ao outro dia, contavam umas às outras as famílias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-véspera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fora indignamente ultrajado, e Gonçalo um baixo ofensor para tão alto personagem. Ninguém inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitara o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os pais diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dores.
Resolveu o fidalgo sair do Porto com sua família a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.
Empeceu Maria das Dores o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detratores que ali estavam a pé quedo recebendo os tiros da calúnia; ajuntava ela que o mundo, vendo-os fugir, diria que eles tinham ido esconder a sua indignidade na província. E rematou deste teor:
—Se te julgas bem condenado pela opinião dos nossos amigos e parentes, vai tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo à inveja difamadora. Ficaremos; e quando eles se calarem, iremos para onde quiseres. Em quanto à ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo dela; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso ocasião, com encerrá-la por castigo em um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus comentários de modo que o tal desdouro caia sobre ela como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.
A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quis mesmo ser ouvido em nada; proibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos afrontosos, que avultava de dia para dia.
O conde de Monção não voltara ao Porto para desonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.
Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavalos, vindo de Lisboa três dias antes. As pessoas, empenhadas nesta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavalaria 6, destacado no Porto, entrara um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Trás-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residência e as miudezas desnecessárias.
Filipe Osório descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em atitude de entrar no pátio.
—O sr. conde!—disse Filipe com amigo sorriso.
—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da história, se é que a não sabe.
Peço ao leitor que marque à margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.
—O resto da história?!... Refere-se v. ex.ª àquele casamento, que fez favor de me contar há dias?
—Pois então!
—Ah! agradeço extremamente a confidência. Queira subir.
—Não subo.
—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.
O conde encarou-o com arremesso e disse:
—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou em um amante da filha de Gonçalo Malafaya, que ou eu ou ele?
—Lembra-me disso, nem era possível esquecer-me coisa de tanto porte, dita por v. ex.ª.
—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!
—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de coisa que não merece a zombaria!
—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, mo disse ela.
—Mesmo sem lho ela dizer, eu não o negaria. Adiante.
—Adiante o que?
—Vamos ao fim da história, que eu tenho urgência do tempo.
A história acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lho pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós há de morrer.
—E o que viver pode casar com ela, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ela, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se for sua vontade arriscá-la-ei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duelos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou às ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?
—Os seus foros?
—Os meus foros de fidalgo, pergunta?
—Sim.
—Quer v. ex.ª saber se me há de matar como fidalgo ou como peão?
—Não me meço com peões.
—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a imodéstia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé à dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus foros, sr. conde de Monsão.
—Os meus... foros? pergunta-me o senhor a mim...
—Pelos seus foros de honra, os foros da sua dignidade, os foros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezível conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duelo um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repele a filáucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus foros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me ele responder com o espadim, hei de sacudir-lho das mãos e desonrar-lho debaixo dos pés. Sr. conde, um miserável da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vai dá-las a Deus, quando a ignomínia do mundo lhe pesa no vácuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a pátria, e poderei dar amanhã o sangue por ela, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estúpidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o crédito e com o sossego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até à vista!
O conde de Monção estava pertencendo ao domínio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a máxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apóstrofe, os brios de duelista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava as artérias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filipe Osório afuzilavam raios, e os lábios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as ideias se pudessem expressar daquele modo, em boca de um simples tenente. Ante si nunca ele vira um inimigo, jogando contra ele as armas do escárnio, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem à ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no foro da sua consciência o conde para cohonestar a cobardia do silêncio. Cobardia não é o termo próprio. Cobardes são aqueles que sossobram na defesa de sua justiça. Outros, que atacam direitos de outrem, e fogem aos agredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntária homenagem à justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava nestas distinções, ao retirar-se do local em que o deixara petrificado Filipe Osório. Circunvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguém presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:
—Tu mas pagarás, ou eu não seja quem sou!