Primeira Parte - Capítulo IV
Pôde muito consigo Maria das Dores, enfreando o gênio; mas desmedrou a olhos vistos. Ao cabo de três semanas estava magra, seca e quebrada de espírito, que era um pasmar das criadas. Sustentou Gonçalo dois meses a sua palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia. Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e, finalmente, recebia as visitas em salas distintas das frequentadas pelas senhoras.
Este divórcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calúnias, umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e bárbaro o marido. O velho Azinheiro comentava o fato em abono da filha; o velho Malafaya andava solicitando a canonização de seu filho mártir. Deu-se a feliz conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma família, empenhada na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem, cederam-se mutuamente as sem-razões de parte a parte, e vieram às boas, pactuando o afervorarem a harmonia, na véspera do Natal, à mesa do amigo e parente comum, que lhes proporcionara o encontro.
Assim se fez.
Gonçalo aceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dores, instada pelo pai, acedeu também. A surpresa foi de ambos, quando se viram na mesma sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes letras, e abalisada prenda de bom-falador. Foi ele o encarregado do discurso, quinze dias antes. Não foi discurso o que saiu da ubérrima e caudal veia do prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, à mixtura com os versos gentílicos, era uma peça literária com que eu faria os meus créditos, se a pudesse reproduzir, e o leitor ma atribuísse ao meu corcovado engenho. Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e geadas de infortúnio regelam e abatem as altivezas do gênio. Não assim ao conspícuo deão da Sé portuense, que vivera cinquenta anos de vida folgada e de coro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas feriadas, discursos atinentes a restabelecer a ordem perturbada nas famílias, em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.
Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lágrimas como punhos, começavam a perder o apetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os velhos fidalgos, para em tudo atingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o bem cabido e apropositado dos textos latinos, coisa de todo o ponto indigesta às capacidades deles. Rematou o discurso por este memorando período:
«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se aproximarem, quais carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de longiquas árvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces braços, e cinja em meigo amplexo a frágil e quebradiça criatura, que senão fora toda amor, seria toda divindade. Totó Dea, tota pulchra, tota vel amor. (Entre parêntesis: suponho que o latim era arranjo do imaginoso deão: não me ocorre ter lido coisa tão delambida na antiguidade). Finalmente, tornou ele—se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lágrimas, beijos; para delir injúrias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes esposos; renasça a paixão, o ardor da chama antiga, veteris flammæ, nesta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redentor da culpa, o redentor das paixões más, aquele que disse: a carne da minha carne, o osso do meu osso: caro ex carne meã, os ex ossibus meis.» Disse.
Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.
Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dores cingiu o braço ao colo do esposo, e ficou em dúvida se devia desmaiar.
Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve aí fidalgo entusiasta da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois, cuidaria Sileno achar o espelho.
Foi noite cheia, noite que vai contando, na crônica das famílias, às provindouras proles, delícias nunca mais repetidas.
Mas nos lábios de Gonçalo não avoejara um riso em toda a noitada, que prendeu com o dia; nem os de Maria das Dores se abriram com palavra carinhosa ao esposo.
Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria Henriqueta, ele choroso, e ela melancólica. Ao jantar falaram ainda da menina, e combinaram em irem proximamente visitá-la a Lisboa.
Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de impaciência; mas sem vontade nem consciência de as ter dito. O padre capelão continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera nos casados, mediante as orações dele. Modesta piedade!
Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram consigo a filha em Cintra, e visitaram os arrabaldes pitorescos da formosa Lisboa.
Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava com muito garbo e limpeza o minuete, arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos meses, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer mórbido, preguiçoso e indolente, como cortado de gemidos, coisa mais de enfeitiçar ouvidos nunca Maria das Dores imaginou que pudesse ouvir dos mélicos lábios de sua filha.
No ponto de beleza, não há aí coisa que mais diga. Alteára-se, desempenara-se, alargara de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de translucidas azas. Fácil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já ela entre si dizia que mais amável e perfeita fora, se seus pais a tivessem mandado educar à corte, em vez de a soterrarem em um brutificador convento, onde as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monásticas, sem graça nem calor. Cohibia-se Maria de comunicar ao primo estes seus pensares, com medo de relembrar-lhe coisas em que ele muitas vezes cogitaria, com desfalque dos tais quais merecimentos dela.
Detiveram-se em Lisboa quatro meses. Raras palavras enfadosas se trocaram, e essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quisera levar consigo para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da filha estava em princípio.
Na ante-véspera da partida, senhoreou-se do espírito de Maria o entojo de ver o mosteiro de Odivelas. Sabia ela que farte da profissão da filha do conde, e ansiava por vê-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém, que só uma casualidade traria às janelas gradeadas do mosteiro Beatriz dos Anjos, condescendeu. Fora, porém, tão pronta a condescendência, que D. Maria fez pé atrás, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa glória haja.
Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura. Espalharam-se as nuvens da iminente borrasca, e o azul sereno do provisorio céu cobriu mais alguns dias de bonança.
Ficou Maria Henriqueta em delícias, por se ver livre do suborno da mãe, que a induzia a pedir ao pai a saída do colégio. Se alguma vez por temor ou respeito o fez, de tal jeito relanceava os olhos ao pai, que o mesmo era implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e, dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de lá voltarem.
Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a terra o sapientíssimo deão. Ruim agouro!
Aquele dobre funeral, anunciando o trespasse do eloquente conciliador, era o preságio de futuras discórdias.