Primeira Parte - Capítulo V Estrelas Funestas · Capítulo 6 de 22
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Primeira Parte - Capítulo V

A educação seria alguma coisa no gênio de D. Maria; mas o temperamento era tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se não girava desempedido, e resfolegava pelas válvulas da altercação, da teima e do conflito. Renhir era o princípio vital da sua compleição. Carecia de contrariar-se, quando não topava estorvos a desafiá-la à disputa. Uma sua intima dizia que Maria das Dores, em dias mal humorados, chegava a beliscar-se para se irritar contra si própria. Isto será de mais; cumpre, porém, duvidar em coisas mais disparatadas. A mulher, em geral, é um complexo de bons e maus prodígios. Releva que tenhamos sempre apontada a admiração às multíplices formas de espírito, em que a mulher se transfigura, segundo os vários incidentes de seu modo de ver e julgar.

Gonçalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o propósito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D. Maria estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.

Durante o largo espaço do divórcio, represara ela enchentes de fel, que ameaçavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mão estranha desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gota cogulasse e desbordasse a represa insofrida.

O indiscreto galã ocasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o assim dizer, em frágeis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e infernal sedução, que trazia na sua carteira inscritos em catálogo os homens que à sua chama fatídica se tinham abraçado, pagando com o ouro e com a honra, e alguns com o futuro bem de suas famílias, a glória de morrerem à ponta de um florete estranho, ou à boca da própria pistola.

A denuncia fora vestida com o maravilhoso costumado por quem relata histórias desta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida mesmo da singularidade da beleza, que, a meu ver, é singularidade de pouco momento, quando alguma tragédia lhe não dá o relevo. Tragedias na vida da cantora havia apenas as do libreto, em que ela mesmo assim figurava na parte inofensiva dos comparsas, e tinha sempre a cargo lamentar a prima-dona, que morria às mãos do tirano, ou o galã que lhe pedia por grande mercê um pouco de verdete para se matar, como traído ou desamado pela ama dela.

Pobre Persini! (chamava-se ela Persini) se Deus te julgasse pelo depoimento dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus ossos!

Ossos é que ela tinha muito acotovelados por aquele corpo acima, se havemos de acreditar os óculos de alguns coevos. Concordam, porém, todos em ter sido Gonçalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos poucos amadores que saíram vivos dos paços encantados daquela Armida.

Como quer que fosse, D. Maria das Dores estourou, conflagrou-se, reacendeu o antigo inferno, e constituiu-se o natural dragão da sua obra. Extranhou Gonçalo as arremetidas, que o descostume tornara novas. Desaffeito de sofré-las, rebateu-as com virulência, como corrido daquela docilidade com que em outr'ora ia aparando as frechas no escudo da paciência, e fugindo. Agora, adargou-se com uns modos despejados de impudor; e, no que dizia, dava a pensar que a sua vontade era soberana, e os seus caprichos inviolaveis.

D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os anos orçassem já pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas ameaças, e até cuspiu a tentação de as dizer à cara do demônio tentador, que está sempre de espia em conflitos desta espécie.

Gonçalo recalcitrou no vicioso amor à artista, e D. Maria na explosão dos ciúmes, se eram ciúmes, que eu não me atino bem a dar-lhe o nome. Ciosas temos nós visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar ciúme o que é, em boa definição, vaidade. Vaidade seja, ou, se quiserem, ciúme a indomável raiva de D. Maria, o sair desonrada em busca dele, o aldrabar à porta da cantora, se lá farejava o marido, o aliciar lacaios para a espancarem à saída do teatro, o induzir-lhe a criada a ministrar-lhe uns pós de ratos, que, de fracos e revelhos, já as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor sintoma de dispepsia.

A guerra caseira chegou a termos de se ameaçarem no calor da refrega. Até ali nunca o marido exorbitara das leis da delicadeza prescriptas a homem que se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ela lhe acrisolara a impaciência, que o desvariado Gonçalo chegou a abrir e vibrar a mão em direitura às faces intactas da mulher. Maria das Dores correu a tirar pela gaveta de um toucador de ébano, e saiu de lá com um punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a mão viril o brandia.

Gonçalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe cólera, e medo também. Como quem pede tréguas, o cavalheiro, pasmado do arrojo, cruzou os braços, e disse:

—Mulher de faca! pasmosa coisa!

—Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa coisa!—replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça para ela, e de mofa para ele.

—Está, pois, demonstrado—redarguiu o pálido Malafaya—que estou aqui à mercê do punhal da prima Maria das Dores!... Estranho destino o meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escrito que o meu corpo morra às mãos mimosas da minha esposa?

—Não!—bradou ela—não em quanto o senhor, me respeitar como senhora, se me não quiser respeitar como esposa. Convença-se porém de que as afrontas de mãos hão de ser repelidas como as afrontas de palavras.

—Que quer de mim, prima Maria das Dores?

—Quero que me respeite para que o mundo me respeite.

—A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas cenas em público.

—Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos cada qual seu caminho a seguir.

—Que quer dizer?

—Que o abomino, que o desprezo, que aceito hoje o divórcio, proposto há dois anos; mas um divórcio de casal, de família, de futuro e de tudo. Maria Henriqueta... quero-a comigo.

—A lei não lha concede.

—Há de conceder-ma! Eu provarei aos juízes que Maria Henriqueta não deve ser entregue a um pai, que não sabe ser marido. Veremos quem triunfa, sr. Gonçalo! Veremos se uma mãe sabe advogar os interesses e a moralidade de sua filha.

Cedeu Gonçalo o campo e saío pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe o alvoroço os letrados, assegurando-lhe que a menina não podia ser disputada ao pátrio poder com alegações estranhas à moralisação dela.

Quando nessa noite voltou a casa, achou Gonçalo sinais de grande reboliço, e deparou-se-lhe o capelão benzendo-se, e tartamudeando a nova da saída da fidalga, com os seus baús para casa de seu pai. Suspeitoso de um atentado maior, tramou Gonçalo vigilante espionagem aos passos e desígnios da prima. Logo, na tarde do seguinte dia, soube que D. Maria das Dores ia a Lisboa, com o projeto de tirar a filha do colégio.

Nessa mesma noite partiu Gonçalo para a corte, petrechado de boas recomendações para debelar quaisquer ardis judiciários da consorte, favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.

Então se viu quanto sobreleva amor de pai a todas as afeições mesquinhas, que muitas vezes armam ciladas e quedas mortais, donde não há aí erguer-se um homem para a honra.

Esqueceu-lhe, em um momento, a Persini, que o esperava com a ceia, lardeada de convivas de sua estofa, e cavalheiros da têmpera de Gonçalo. Nem chispa de saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada. Anceava-se em Lisboa, e ante si não via senão a angelical figura de Maria Henriqueta estendendo-lhe os braços, como a pedir-lhe resgate do cativeiro que a mãe lhe queria infligir. Mal apeou do tressuado cavalo, que devorara léguas ao sabor do amo, foi Gonçalo cuidar de requerer intimação judicial à diretora do colégio para não entregar a menina a sua mãe, sob qualquer pretexto, e com qualquer auctorisação. Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pai desfadigou-se em aturadas conversações com Maria Henriqueta, a qual viçava em formosura à competência com os dons do espírito.

em um daqueles dias, Gonçalo Malafaya, passando diante do palácio do conde de Miranda, recordou as noites venturosas que ali passara, e recolheu-se triste. Tristezas de coração, aos quarenta anos, se procedem de saudades da bem-aventurança dos vinte, são golpes que rasgam fundo, e curam em falso, por não fecharem, dígamo-lo assim, cauterisados pelo ardor das lágrimas.

Ao outro dia, Gonçalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha ele visto, e vozes de perdão lhe colhera dos lábios balbuciantes em crispações da agonia; mas agonia de santa fora a sua.

Deu-se pressa no caminho de Odivelas, e parou indeciso no pátio do convento, remirando as janelas onde entreviu rostos mimosos de buliçosas noviças, enquadrados na touca do hábito. A madre porteira chamou o estarrecido cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguém.

—Alguém desejava ver, minha senhora.

—Quem?

—Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.

—Com os anjos está—disse a porteira.

—Morta?!—exclamou Gonçalo.

—Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?

Gonçalo apoiara-se no rebordo da parede, contíguo à roda, e, encostando a testa à pedra, chorou.

A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da meia-porta, e disse-lhe:

—Se quer descansar, eu peço ao sr. capelão que lhe dê um quarto na residência.

—Agradecido, minha senhora. Eu vou-me já embora. Queira dizer-me: Beatriz morreu há muitos meses?

—Há dezoito.

—Eu vi-a há dois anos, e pareceu-me saudável.

—Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio há dois anos?

—Fui, minha senhora.

—É do Porto?

—Sou do Porto.

—Pois vá com a Virgem; e peça a Deus que lhe perdoe o mal que veio fazer à nossa desgraçada menina. Com sua licença.

A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonçalo, a passo incerto e vagaroso, saiu da alameda.

A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.

Lembrou-se da filha. Ai daqueles que sofrem e dizem: «Não há quem me veja as lágrimas!»

Esporeou o cavalo, e descavalgou no colégio. Ia subindo as escadas, e ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao mainel. A mais áspera e aguda daquelas vozes era a de D. Maria das Dores.

—Em que momento, meu Deus!—exclamou Gonçalo, com tamanha dor, como se o peito se abrisse para romper fora o brado.

Em que momento! digamos nós. Ei-lo a buscar um coração que lhe entenda as lágrimas vertidas por outro coração que a dor matara. E a mão terrível da misteriosa Providência, conduz-lhe aos olhos, túmidos de lágrimas, a mulher que, naquele instante, mais odiosa devia ser-lhe!

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