Segunda Parte - Capítulo IV Estrelas Funestas · Capítulo 12 de 22
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Segunda Parte - Capítulo IV

Gonçalo disse a Maria das Dores:

—Tenho quase a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de Mirandela.

—Deixá-lo estar. Cada qual pode estar onde quiser.

—Assim é; mas eu receio que ele viesse chamado por Maria Henriqueta. Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto desta casa.

—Pode muito bem ser. E daí? que queres tu que se lhe faça?

—Quero que se realize com a maior brevidade o casamento de Maria com o conde.

—Pergunta-lho a ela, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos aqui o abade à porta, e a igreja defronte.

—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.

—Pois se o não quer, também eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.

—Mas a minha palavra está dada.

—Deste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua palavra. Eu falarei com ele.

—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.

—Deus me livre disso... Eu é que estou convencida de que minha filha iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta criatura que eu tenho visto! Como descobriste tu aquele palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade de lhe oferecer a cabeça de um macho para enfeitar a coroa de conde!... Coisa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!

—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!

—Estraguei-ta?... Estragado tens tu o juízo!... Eu logo vi que os frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um homem da laia do conde, escarneciá-lo; como estás a envelhecer, entendes que está ali um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus cálculos de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês títulos... em uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.

—Diz muito embora; mas fica sabendo que há de entrar em um convento tua filha.

—Pois sim; o que tu quiseres, que ela tudo aceita menos semelhante marido. Irá para um convento, e pode ser que eu vá com ela. Vês-te assim livre de ambas: e depois vai para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma cela onde não chegam figurões da laia do teu conde.

E terminou, por esta vez, o ternissimo coloquio.

Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por falta de saúde que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande mestre de cerimônias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber diretamente da menina, pela criada grave dela. Tomou o comprimento D. Maria das Dores, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das atenções do ilustre hóspede. Tinham que ver e de que rir estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de ofício de defuntos.

Em quanto D. Maria das Dores, depois do almoço, ficou à mesa conversando com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um cabelo não foi surprehendida a escrever a oitava página de uma carta a Filipe Osório. Compuzera-se o pai de boa sombra, e propósito de melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir à mesa, e daí derivou a mostrar que as inquietações do espírito eram muito nas moléstias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria deixação das Veleidades do ânimo as quais vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domésticos, sob os olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pai, e a profunda estima de irmão. Daqui saltou, pouco metódico, para os gabos entusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura dela. Deteve-se neste assunto, sem adivinhar a duplicante náusea com que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na matéria odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na sociedade, e de uma coroa de condessa. Matizou-lhe as delícias da corte, para onde o conde resolvia mudar sua residência, e assumir no paço as brilhantes ocupações de seu pai e avós, podendo sua esposa considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afora a vantagem e glória de educar e elevar seus filhos à sombra de reais telhas.

Ouviu Maria a estirada parlenda em silêncio, silêncio agro de represadas lágrimas, ânsias de lançar-se de joelhos aos pés do pai e abrir-lhe a alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu destino.

—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pai mover-te? Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?

Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permitiam:

—Não posso, meu pai, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido desde ontem a morte!...

—Basta;—disse severamente o pai. Sabes o teu destino? Sabes que hás de entrar no mosteiro de Arouca?

—Entrarei, meu pai.

—E que hás de lá estar enquanto eu for vivo?

—Estou pronta, se é sua vontade que eu vá.

—Não é vontade: é violência que fazes ao meu coração. Pensas que eu poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandela? Cuidas que o rosto de um pai é insensível às ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguais por não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudência será necessária para o não mandar chibatar pelos meus criados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escândalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.

E, baixando a voz, continuou com resguardo:

—Contas com a proteção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que estradas ela te conduz à desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e fugiste dela para o meu coração, que te aceitou. Agora foges de mim para ela. Deixa-te ir. Cavae ambas o abismo da minha vida e da tua felicidade.

Saindo em direitura à sala do almoço, onde a fidalga ficara conversando com o hóspede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a parte do diálogo que ele ouviu:

—São coisas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das Dores respondendo ao titular.—O amor não vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiência. Os experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as impaciências do gênio, as irritações que são o fel de quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar com ele. O resultado poderia ele dizer-lho, sr. conde, se não houvessem uns certos infortúnios, que os maridos se pejam de confessar, ao mesmo tempo que se mostram de todo despreocupados de outros infortúnios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada à força, ou por obediência, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos pais, e torná-los brandos, se as filhas, neste ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça há de ser útil a alguém, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja útil a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie à ideia de casar com Maria Henriqueta. O conde de Monção há de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e nobilíssima.

Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:

—Não pode ser.

—Não pode ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.

—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é que ela case comigo.

Era muito afrontosa para Maria das Dores esta brutal saída. Levantou-se ela de um salto e exclamou:

—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta faça a sua vontade.

—V. ex.ª tem um gênio dos meus pecados!—atalhou o conde com um comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira sentar-se, minha senhora... Isto não vai a ralhar.

—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.

Gonçalo estava como a querer esconder-se de si próprio, no escuro de um corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnância em confirmar o que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hóspede ficou sozinho, sentado à mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração dele, na analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.

Entrou Gonçalo com aspeto de réu, se não era antes o exterior de grande amargura.

—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora opõe-se ao casamento! V. ex.ª fez mal em mo propôr antes de saber, se era vontade...

—Minha prima—respondeu urbanamente o fidalgo—verdadeiramente não se opõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...

—Então é a menina que me rejeita?

—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por enquanto.

—E v. ex.ª porque mo não disse há mais tempo?! Eu fui chamado para isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa qualidade, estas coisas tratam-se mais pontualmente.

—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou Gonçalo, ferido nos seus brios; mas sofrendo a ofensa, em castigo da leveza com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pai, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos dela. Minha filha vai entrar em um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.

—Deixe-se disso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a dúvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ela mudará de ideias a meu respeito. Ponto é que fale com ela, e lhe vá ganhando o coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, ontem à noite, como há de ela já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.

—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu dou ordem a minha filha para ir à sala. Queira v. ex.ª vir lá esperá-la.

Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde à sala, saiu-lhe a esposa ao encontro, e disse-lhe:

—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e desembaraço!

—Que queres dizer nisso?

—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridícula! Que vai ela a fazer à sala? Que tem ela que dizer a esse homem, que eu não lhe dissesse já?

—Que o despersuada ela mesma.

—Se ela o não persuadiu de coisa nenhuma, com que razão a forças a ir despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...

Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si próprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os expedientes.

Maria das Dores condoeu-se do marido, e ajuntou:

—Maria irá à sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que vá, e tu hás de confirmar o que ela disser com o teu silêncio. Desta irrisória situação só a franqueza nos pode salvar depressa.

Anuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem testemunhas.

Foi Maria das Dores ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O conde acabava de encanelar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma cólera expansiva no rosto.

Sentou-se, e esperou que falasse o conde.

—Está melhor, minha querida senhora?—disse ele titubiando.

—Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudável.

—Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incomodo de ontem à noite.

—Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a prova de estima.

—E de amor apaixonado, minha senhora.

—Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lho posso retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar em um mosteiro, em satisfação à vontade de meu pai. É aprazível para mim satisfazê-lo de um modo, quando me é de todo impossível satisfazê-lo por outro. Meu pai deve merecer a benevolência do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v. ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pai está salva; e eu salva me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por condescendência com a vontade de meu pai.

—Aí há outra coisa, minha senhora...—atalhou o fidalgo.

—Que pode haver?

—V. ex.ª ama outro homem.

—Amo.

—Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que eu?

—É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as qualidades, que o meu coração não discute? É um homem, que eu amo, há cinco anos, e que amarei até à morte.

—Isso há de passar com a reflexão, minha senhora. Pode ser que ele não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.

—Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.

—Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...

—Com que fim?

—Queria ver-lhe a cara... Desconfio que ele seja um militar que...

—Que o acompanhou algumas léguas? É esse de certo.

—Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem dúvida... É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...

—É um militar que começou por onde começam os generais mais nobres. Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes têm nascimento; não o pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são coisas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre em outra esposa a fortuna que eu de certo não posso dar-lhe.

Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estilo, e saiu majestosa, afastando a cauda com garbosa arrogância, cujas tradições ainda se vislumbram nas grandes trágicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos antigos tempos.

Vai agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso idêntico, a menina mandada a uma sala entender-se com um conde acerca da impossibilidade de ser dele, ou não ia lá, ou era necessário ir lá buscá-la desmaiada em um insulto flatulento.

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