Terceira Parte - Capítulo VI Estrelas Funestas · Capítulo 21 de 22
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Terceira Parte - Capítulo VI

O cadáver de Filipe foi em uma maca para Segóvia. O quase cadáver de Maria Henriqueta foi transportado em braços.

A viúva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clérigos ao levantarem o esquife, nem os responsos na igreja próxima.

Onde estava a alma daquela mulher, que não se assinalava nos sentidos externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céu, ou voltaria ao suplício do corpo?

Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ela se recordava que tivera um marido, um marido amado, um esteio único, e para sempre quebrado, na sua vida, ali assassinado ao fechar de um dia que ela dissera o mais completamente feliz da sua vida!

Viram-na, ao fim de três dias, saltar do leito aos braços das senhoras, e exclamar:

—Filipe! Filipe! o seu corpo ao menos, deixem-me vê-lo uma só vez.

Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providência lhe não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadáver de uma mortalha, e dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias ditosas do túmulo, piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o ardor de vossos beijos e de vossos prantos!

Deixai-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ela de per si se erguerá e clamará:

—Estou viva: deixai passar a viúva do assassinado! O sangue que ele derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixai-me e vereis se eu era digna dele!

Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As ideias embaralhavam-se desconcertadas; mas eram ideias do passado, do presente e do futuro. Pediu, instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem à campa de seu marido.

—Deixem-na ir—disse o alcaide—e seja já. Vamos com ela. Quanto mais cedo rebentarem as lágrimas, mais depressa nos voltará a razão da infeliz.

Foi aberta a igreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe indicaram. Debruçou-se até colar os lábios na lagem. Disse uma palavra, uma só, e nenhuma lágrima verteu.

Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.

—Mas não chorou!—disseram as consternadas senhoras.

—Há de chorar—respondeu o pai.

Nessa mesma noite, disse Maria:

—Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.

As senhoras encararam-se indecisas, e o pai murmurou:

—Mostrem-lha.

Junto com o casaco de castorina amelada, vinha uma camisa cortada de laivos de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:

—É minha: guardá-la-ei.

E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de demência.

—Mas não chora!—diziam as meninas, em segredo, a seu pai.

—Se não chora, morre.

No dia seguinte, chegou D. Maria das Dores, chamada a Segóvia por um criado do alcaide, que partira horas depois do assassínio.

A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e soluçar; ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora coléricas; tudo viu e ouviu impassível.

—Iremos amanhã—disse ela à mãe.

—Se podes, vamos, minha filha!—respondeu Maria das Dores, pensando que o afastá-la dali era um passo para salvá-la.

Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:

—Até à eternidade!

Entrou em uma liteira, com sua mãe.

Perguntou-lhe Maria das Dores que levava ela enrolado debaixo do braço.

—É o sangue de meu marido—respondeu.

Tinha dito o alcaide a D. Maria:

—Excite-lhe as lágrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo enérgico, seja qual for. Acenda-lhe o furor do ódio ao assassino. Para esse eu lhe darei um espetáculo no caminho.

Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dores ouviu ler as cartas, concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.

—Eu já li essas cartas—disse Maria.—Sei tudo.

Entravam na província de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta em uma chã, e parou a liteira, embargado o caminho.

Maria via tudo indiferente.

Chegou o alcaide à portinhola da liteira, e disse:

—Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filipe tanto quanto posso.

Aproximou-se do comandante da escolta, e exclamou:

—Pode seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues à minha guarda. Maria olhava e parecia não compreender.

Os cavalarias ladearam a liteira e passaram avante, dando o passo a soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.

—Justiça de Espanha!—disse o alcaide.—De joelhos, assassinos de Filipe Osório! Há de pesar-vos na consciência mais o ferro que o ouro do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes infames; depressa, rapazes!

Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta; o vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos cadáveres passara com o fumo da polvora.

O alcaide avizinhou-se da liteira, e disse com risonho aspeto:

—É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.

E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:

—O resto... eu!

Os liteireiros afastaram com o pé os cadáveres do caminho, e o préstito caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos aturdidos pelo incidente.

Ao décimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.

Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou por seu pai, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e sacramentado. Entrou na câmara, que já espirava o fétido tábido da morte. Aproximou-se do leito, ajoelhou, e disse:

—Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pai.

O velho fez um gesto de indignação.

Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.

—Em nome deste sangue lhe peço perdão.

—Sangue!—exclamou o velho.

—Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pai. Este sangue era inocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.

Gonçalo quis sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, aproximou-a do peito, e balbuciou:

—Perdoa-me tu, perdoa-me tu, desgraçada!...

E continuava a querer apertá-la entre os braços convulsos, quando a face, pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes. Eram os últimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabeça humida do soró que corria dos cantos dos beiços do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pai, e disse:

—Perdoo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu for à vossa presença!

No dia seguinte, a sociedade ilustre do Porto pejava as salas funerais do palácio de Gonçalo. Ninguém vira Maria Henriqueta. As damas íntimas de D. Maria das Dores puderam apenas saber que a viúva tinha saído à meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fora; e quisera ela acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel criado de vinte anos; mas ninguém dera novas dele, desde que entraram no Porto.

D. Maria das Dores tentou estorvar-lhe o misterioso desígnio; mas a filha respondia-lhe:

—Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em sinal de compaixão das minhas infernais penas.

Só a violência podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na à fidalga os familiares e parentes; mas quebrou de ânimo para tanto.

Maria Henriqueta saiu.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rápidas estas cenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao criado. Os dias eram os mesmos; brida solta em quanto os cavalos podiam; novos cavalos quando caíam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como há de consumir o vigor dos anos, espicaçados pela riqueza!»

Outros achavam-lhe um belo rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a comtemplá-la nos curtos intervalos em que pousavam nas estalagens, ou alugavam cavalos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»

A duas léguas aquém de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que anoitecesse para entrar na cidade.

Ao cair da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber em uma igreja um sr. conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da província. Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na igreja. Saíram os casados já recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrelas do céu. E vai nisto, quando o conde ia a dar a mão à noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver, mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, diz-lhe não sei que, e enterra-lhe três vezes no peito uma faca!»

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a atenção de todos, para o repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ela abriu a porta, e perguntou:

—E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

—Ninguém lá soube dizer quem era, fidalga!

—Prenderam-no?

—Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quis ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguém lhe chegava à beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam lá a coisa como queriam; o caso é que ao certo ninguém sabe dizer quem é. Amanhã é que pelas perguntas se há de saber.

Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube que dali havia de sair o cadáver do conde de Monção.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que ele estava a perguntas em casa do juiz de fora. Foi Maria a casa do juiz de fora, e conseguiu entrar até ao salão de espera. Era prohibido o acesso ao gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que ele saísse, viu-o, e conheceu o criado de Filipe Osório, o seu amigo de nove anos. Viu-a também ele, e parou, abriu ainda a boca para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de silêncio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessara quem era, e a causa por que praticara o homicídio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o amo, que às ordens do conde fora assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu irmão. Foi-lhe concedida, como coisa usual. O preso, ao vê-la, lançou-se-lhe a chorar aos pés, e disse:

—Perdoe-me v. ex.ª...

Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz, disse:

—Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?

—Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era esperá-la e guiá-la na sua vingança; mas naquele momento em que o maldito saía da igreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé dele, e disse-lhe: «Sou o lacaio do sr. Filipe Osório» e matei-o a facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem ocasião, que eu cá fiz trinta anos à justa há mais de vinte. Não podia empregar melhor a vida!

—Não hás de ser enforcado, João—disse Maria.

Hei de salvar-te; irás daqui para Espanha.

—Salvar-me?! Deixe-se disso, fidalga; não vale a pena andar a minha ama em esses arranjos, sem jeito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me cá com a minha consciência, que estamos de boas avenças, eu e mais ela, assim me Deus salve a minha alma.

—Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Ver-me-hás mais vezes.

Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O criado que a seguira, já tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dores. Rezava assim o período final:

«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria para o resgate de sua filha. É a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-mas, que eu não quero mais nada da herança de meus pais, senão uma mortalha, e um túmulo para os ossos de meu marido e para os meus.»

À quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o carcereiro. Era um homem pobríssimo, bondoso, dado com os presos, que o sustentavam. em um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de senhora, e disse-lhe:

—Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por ele quinze mil cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Espanha com o preso, e vai viver feliz e na abundância onde quiser viver fora de Portugal. Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá, passados alguns dias, quinze mil cruzados.

O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:

—Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.

—Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se neste momento. Aceite a independência onde a quiser gozar. Que responde?

—Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...

—Siga o preso, que ele vai recomendado a pessoa de Espanha, que dará a ambos completa segurança, e passagem para o exército francês, se a quiserem.

O carcereiro Anuiu, sem grandes oscilações de consciência. Esperava Maria a resposta de sua mãe com ansiedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dores confiara dinheiro excedente ao valor das joias.

O carcereiro foi chamado à sua presença, e viu o dinheiro.

—Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não serem conhecidos. Aqui recebe você o dinheiro, e ele uma carta. Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.

—Eu sei os atalhos aos palmos até à fronteira—disse o carcereiro.

Às onze horas da noite desse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro, dizendo que o juiz de fora mandava remover da prisão comum o preso matador do conde, e metê-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz.

Dado este passo, o criado de Filipe Osório vestiu, na residência do carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por diante das sentinelas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o criado entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segóvia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lhas de lágrimas, e partiram.

—Não tenho mais que fazer aqui—disse Maria Henriqueta.

E, nessa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flama da vingança, um leve sopro lhe levaria o espírito vital. No caminho, sucumbira muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua mãe, e disse:

—Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolações frívolas, e o maravilhoso da vingança que lhe atribuíam os já sabidos na morte trágica do conde.

—O criado fiel—dizia ela à mãe—não me deixou cumprir a promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-EI, disse eu; mas eram tantos a amá-lo, que me roubaram a glória de ver o sangue do algoz! Agora, Deus que me julgue!

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