Primeira Parte - Capítulo VII Estrelas Funestas · Capítulo 8 de 22
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Primeira Parte - Capítulo VII

Alquebrado de espírito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,—a quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do amante ditoso de D. Beatriz—saiu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua mulher, com destino ao Porto.

Ficou no colégio Maria Henriqueta, estudando a língua francesa, rara prenda na educação das senhoras daquele tempo. Prometeu o mestre dá-la pronta no prazo de um ano; fiado na forte vontade e talento da discípula. Maria das Dores combateu a cedência do marido, alegando a inutilidade de falar francês em uma terra onde ninguém sabia semelhante língua. Gonçalo, porém, que se prezava de a saber, contraditou a esposa com victoriosas razões.

São pouco dignas de crônica as tempestades conjugais decorridas no ano seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos últimos seis meses da capital. Veleidades de coração, antigo pomo de discórdia, essas não voltaram mais. Da triste sombra do amargurado homem, até os convidativos prazeres do vício iam fugindo. Os abismos só se cavam aos pés de quem os anda palpando. Amores de alta sociedade, amores de capricho, apavoram-se das cãs, e querem pugnar com robustos corações, e atrevidos emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escândalo. Ora, Gonçalo era a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que vencia os rivais com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquele homem extenuado passar abstraído ombro a ombro das suas glórias de outro tempo, e não as conhecer. O pasmo destas metamorfoses dura um dia; segue-o a indiferença, e bem pode ser que a derradeira fase seja a irrisão. Esqueceu, pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre dos mancebos, o «perfeito-fidalgo», epíteto antonomástico, e geralmente aceite, que lhe deram as fidalgas edosas, que tinham visto a corte de D. João V.

Fechara-se, portanto, um respiradouro da contenciosa índole da sr.ª D. Maria das Dores. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante apatia do marido os suprimira temporariamente.

Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O guardião dos franciscanos era um sábio: os oratorianos eram-no todos; a erudição do padre Teodoro de Almeida ficara largo tempo disseminada nos espíritos dos congregados. Por estas casas, e pela beneditina das freiras e dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e armazenava farmacopeia religiosa para, no inverno da vida, se medicar em enfermidades geradas nos desvarios da primavera. Com freiras era menos assíduo, mas muito estimado e desejado. Denominavam-no as místicas beneditinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o milagre a mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo abrange mais milagres que todos os sabidos e contados nos crédulos mosteiros daquela época.

Naquele redil do Senhor tinha o patriarca S. Bento mui formosas filhas ao começo deste século. Vinham elas algumas vezes à grade cumprimentar o fidalgo do milagre, e ouvi-lo discorrer em coisas do céu e da terra, ditas com tanta unção e graça que nenhuma noviça ou freira nova as ouviu, que se não sentisse mais conformada com a religião. E, tanto era assim, que já soltava a intriga suas rasteiras serpes por entre as florinhas daqueles inocentes afetos. Se o fidalgo chamava umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o sucesso com estranhos inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espíritos frívolos dentro dos limites da candura monástica.

Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou enfeitadas por mãos de anjos.

D. Maria das Dores, quando esta novidade freirática lhe entrou por casa em bandejas de prata, não fez dela grande cabedal para altercar; mas, com a repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de entrar no convento dos congregados, torcia para o pátio das freiras bentas, bafejou-lhe o seu demônio meridiano, e aí começou ela a averiguar quem fosse a freira perturbadora da sua paz. Deram em resultado as averiguações que eram todas, exceto as entrevadas, as religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até à gotosa abadessa.

Soou a temerosa trombeta da discórdia, assoprada inocentemente pela comunidade beneditina.

—Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em freirático?—perguntou entre grave e irônica a sr.ª D. Maria das Dores.

—Vou por ali espairecer algumas horas. Como sabes tenho ali parentas e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe; agora que somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na ante-câmara da sepultura.

—E só procuras as velhas, primo?

—Não, prima Maria das Dores. Há por lá umas senhoras novas filhas de amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.

—Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?

—Deus sabe se elas são santas: eu sei apenas que são excelentes criaturas.

—Tu gostaste sempre muito das excelentes criaturas!...

E neste ponto, a sr.ª D. Maria das Dores fez uma longa resenha de senhoras que seu marido achara excelentes criaturas; depois, fechado o catálogo não breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada áspera, que feriu desagradavelmente o tímpano do marido.

Ergueu-se Gonçalo e saiu murmurando:—Amplius, amplius, domine! que em linguagem quer dizer: Ainda mais, ainda mais, Senhor! como quem dizia que viesse do céu mais fel para o seu cálix, pequeno para tamanhas culpas.

Naquela tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos, político de vasto alcance, e profeta da próxima invasão francesa. Tinha o santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a epígrafe de sumarentos discursos acerca da liberdade, da política europeia e de Napoleão. Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e maravilhava-se de tanta ciência sob tão humilde hábito.

Recolhendo a casa, alheado em combinações de política fradesca, encontrou sua mulher amuada e colorida de certa amarelidão, preságio infalível de tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em relâmpagos e coriscos de cólera, espetáculo em que a paciência do pobre homem se empedrou de susto. Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o ouvido à trovoada que reboava fora.

Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras escreviam-lhe a miúdo, ou mandavam os capelães cumprimentá-lo. Em uma das cartas de saudação assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi Maria das Dores, quem, ausente o marido, abriu, por acinte, a carta. Leu-a, e escreveu debaixo das assignaturas:

«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juízo. E, se não têm que fazer, façam camisas para os pobres, que é isso o que faziam as antigas congregações de monjas beneditinas.»

E devolveu a carta.

As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lágrimas; mas não me consta que fizessem camisas aos pobres, coisa que me parece desnecessária à salvação.

Alguma das cinco signatárias, menos paciente, ou amiga de deslindar meadas em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando o sucedido. Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.

Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escrita de sua prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem camisas para os pobres. É muito bom ter graça às vezes. Gonçalo perdoou a imprudência à mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a meditar no sucesso, quis-lhe parecer que andara menos evangelicamente a freira denunciante da indiscrição de sua mulher.

Certa a esposa de que seu primo deixara de frequentar grades, e vendo que lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua índole, deixou-se ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e ralhando com os servos para entreter o vício, e com o capelão que continuava a benzer-se.

Passou o ano aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pai em preparativos de jornada, e D. Maria quis acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistência.

Já a menina traduzia correntemente o idioma francês, e o pronunciava mais correto que o pai. Pediu ela com muito encarecimento que a deixasse ficar mais um ano para estudar o inglês. Foi este o primeiro caso em que as opiniões dos pais se harmonizaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na língua inglesa; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lágrimas, que nem sequer curou de enxugá-las com carícias.

Maria das Dores, de si pouco fagueira, consolou-lhas com estas e outras asperezas:

—Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove anos! Estás bem aviada comigo, se tens assim as lágrimas à bica para qualquer contrariedade! Aí está o que vem a ser educação de colégio! Muito mimo, um pouco de cravo, a língua francesa, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquela palha! Bonita educação, não tem dúvida!

—Está bom!—disse Gonçalo com mansidão.—Excedes-te nas grandes e nas pequenas coisas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglês: está dito tudo.

—Então achas bonita aquela choradeira!

—É uma criancice que não merece discussão. Daqui a dias já ela se não lembra de inglês, nem mesmo sabe para que aprendeu o francês. Em suma, Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós que de mestres. Se tua mãe quiser iremos no ano que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as capitais de França e de Espanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes nas magnificências da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?

—Gosto do que quiserem que eu goste—respondeu carrancuda Maria Henriqueta.

O pai encarou nela com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma: «Vê-se que foi criada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Enquanto a teve, observou os conflitos das desordens de todas as horas, e ganhou o contagio das asperezas de gênio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturais afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores mercenários, e estranha que a contrariem seus pais...»

Em quanto Gonçalo cogitava nestas e em outras razões, Maria das Dores discorria pelo teor das suas iracundas apóstrofes. A filha fugiu de encará-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciência. Interveio, segunda vez, o pai nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lágrimas, e como aterrada do seu futuro.

Do seu futuro! Mal sabia ela que infinito de lances se encerra na palavra futuro!

Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no esconderijo do seu quarto e de sua consciência:

—A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a sofrer quando minha filha começa a viver para me prolongar o martírio até à decrepidez! Ali está uma filha de Maria das Dores! Deixei-a sozinha com a natureza, não pude corrigir-lhe as propensões: hei de agora lutar com o gênio de ambas, azedado pela discórdia em que vão viver. Como hei de ser justo, se forem ambas injustas? O que fará a raiva e o desespero no coração insofrido de minha filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?

Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de golpe no quarto, e disse com sobresalto:

—Não sabes, primo Gonçalo?

—O quê?

—Estou espantada!

—Que é? Fala...

—Cheguei casualmente a uma janela, e vi... Santo Deus!

—Que viste?!—exclamou Gonçalo, erguendo-se.

—Vi Maria Henriqueta na janela do seu quarto...

—Isso que tem de extraordinário?!

—Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar à rua uma carta, e vi um militar apanhá-la.

Gonçalo sentou-se como desfalecido. Levou as mãos à fronte, que previa suor de aflição. Ouviu longo tempo os comentários de sua mulher, e com grande esforço, disse:

—Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas vida a mim, e honestidade a tua filha...

Maria das Dores murmurou apenas:

—Entendam lá o que diz ele na sua!... Boa maneira de velar a honestidade de uma filha!...

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