Segunda Parte - Capítulo III Estrelas Funestas · Capítulo 11 de 22
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Segunda Parte - Capítulo III

Maria Henriqueta ouvira a confidência sobresaltada de sua ama, e ficou como estúpida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dores a encontrasse naquele estranho transporte, acelerou a ida, recomendando-lhe curta demora.

À entrada do quarto, a menina, encarando em Filipe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a aparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebê-la: mas o acidente foi instantâneo: o coração predominou o espasmo nervoso.

Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a cena patética; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lágrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.

—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde—E, voltando-se a Filipe, continuou:—Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...

Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacência de ouvir; mas eu contei-lhas a sorrir, e ele disse-as com tormenta desfeita de lágrimas a Maria Henriqueta.

Respondeu ela, relatando a luta, que tivera com o pai, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais eficaz e prestante que a dele.

Passaram a combinações de futuro, prevendo hipóteses desgraçadas, como violências de convento, maus tratos, divórcio de família, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.

Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si própria.

«Se a perseguição for tal, que me não deixem respirar—disse a menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»

Filipe ouviu de joelhos esta celestial música dos lábios de Maria, e julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pai o protegia declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte encontrariam a abundância para que a sua ventura fosse perfeita.

Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundância no extrangeiro. Amor, amor, é que ela anhelava, como as aves do céu que avoejavam de horizonte a horizonte, e dobram as serras, e cortam a cúpula dos mares, sem cuidarem de pedir à terra ou às águas um poucochinho de alimento.

Estas coisas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rápidas horas, que pareceram anos à timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, quando Filipe Osório descia ao pátio, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presença do guarda-portão.

Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na suposição de que ela adoecesse, por efeito do susto em que a deixara o pai.

—Maria Henriqueta—disse D. Maria das Dores—eu quero-te mais animada. Já te disse que à força não te casa teu pai. Conta comigo, e verás que tudo há de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases com o militar; mas, mal por mal, antes dele que de um marido detestado.

Maria abraçou a mãe com tanta efusão de reconhecimento, que, para assim dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dores sentiu arfar o coração de sua filha, e tão estranha e doce lhe fora a sensação, que pôde nesse instante ajuizar da ternura maternal.

Noite fechada, ouviu-se o estrépito das carruagens, passando sob o arco de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo à mãe que a desculpasse de ir à sala por estar doente.

—Quero que vás à sala;—disse Maria das Dores—Escusam-se fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade de ferro.

Gonçalo Malafaya entrara carrancudo. Já ele presumia que o tenente de cavalos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do militar, que o deixara a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou Malafaya em meudas averiguações, às quais o conde respondera sinceramente, dizendo mesmo as dúvidas, que ele pusera, no tocante ao amor de Maria Henriqueta.

Isto bastou à desconfiança e penetração de um pai precavido.

O conde foi apresentado a D. Maria das Dores, e teve o infortúnio de acarear desde logo a mais formal das antipatias. A fidalga tinha ódio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretensão o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flores, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou às mãos de D. Maria.

—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas mãos mais lindas de França. Madame la duchesse de Choiseul honrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.

—Quem?—disse D. Maria.

—A senhora duqueza de Choiseul.

—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.

—Lindissimas, minha senhora.

—Mas o nariz, se toma tabaco, não pode ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de imundície com paredes de ouro.

—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.

D. Maria das Dores olhou de través o marido e disse:

—Temos história....

Gonçalo, inimigo das histórias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e prendeu a atenção às variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu licença, saiu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.

—Quero que te admirem!—dizia ela pregando-lhe as suas melhores joias, e estrelando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de cintilantes colares.

Fez-se um silêncio de igreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em meia-lua, a recebê-la ao centro do recinto; mas o espasmo colara aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o braço direito afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um pouco, e esperou que seu pai a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade com que ela sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céu e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao hóspede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratara duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia rebentar pelas costuras repuxadas.

—Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,—disse o conde gaguejando.

—Sim?—respondeu Maria—muito estimo que não tivesse incomodo.

—E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de jornada...

—A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma pessoa que não conhecia.

—Ora se conhecia!

—A mim? Pensei que nunca me vira...

—Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.

Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.

—O meu retrato!—redarguiu Maria—Não cuidei que lhe fosse conhecido...

—Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e pérolas. Foi seu excelentíssimo pai que mo deu, e não podia dar-me melhor coisa senão o objeto amado de que me deu a cópia.

Outra fineza subtil que o pôs em admiração de si próprio! No semblante de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestígio, uma visagem de tédio, que não mais se desfez nas três horas que durou seu suplício.

Da sala passaram à casa da ceia.

Maria das Dores que, por acinte, se assentara ao pé da filha, durante o coloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente dela, protestando resgatá-la da continuação do seu inferno naquela noite. Estavam os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar logar, quando D. Maria das Dores entrou, dizendo que sua filha, além de estar habituada a não cear, sentia um leve incomodo que a privava de vir à mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se à sua câmara.

Gonçalo reclinou a vista à esposa, como quem diz:

—Bem vos percebo, a ti e mais a ela... Quem diria?

O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe à garganta uns suspiros tão dos seios de alma, que, reduzidos a verso endecassílabo, dariam mais sonetos que os de Petrarcha. Desvelava-se em servi-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguçou o apetite! Os brindes eram todos em honra dele, e ele agradecia humedecendo os lábios no rebordo do cálix, e suspirando como quem dá o que pode na muda eloquência do coração.

E Maria das Dores levava o lenço branco aos lábios para sorrir; e o padre capelão benzia-se da abstinência do conde, e benzia-se também mentalmente da gulodice de alguns comensais.

Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper de alva, e correu uma de suas janelas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S. Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das belezas. Estava ele de pouco encostado ao peitoril da janela, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu nele o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na má conjuntura de ser conhecido.

Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-câmara, e este, trocadas as saudações do estilo, disse:

—Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!

—Viu?! Está bem certo disso? Onde o viu?

—Vinha na direitura desta casa; mas meteu ali por outra rua, e não me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o quartel!

—Aqui, atrás da Sé, não há quartéis...—disse Gonçalo com meditativa ansiedade.

—Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de pensativo!

—Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada significam.

—Vamos a falar—tornou o conde—a respeito do casamento. Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negócio feito. Veja v. ex.ª se quer que eu trate disso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa. Acredite que ela há de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adorá-la toda a minha vida, e morrer por ela, sendo necessário. O grande caso é saber se ela gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradáveis olhos, e que estava contente ao pé de mim. Depois lá me afligiu que ela não fosse à ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar nela!

Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a consciência de seus méritos, o que ele denominava o seu besouro diabólico para fascinar mulheres. O suspirar à ceia, e o velar no leito era a dúvida, a excruciante dúvida, único besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, semelhante ao ciúme na peçonha. Tinha trinta e cinco anos o conde de Monção, idade crítica, em que os frutos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as partículas corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lágrimas, e aí é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadáver moral. E as compleições sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, são por igual sujeitas à lei comum do amor, que levanta à glória, e engolfa nos tremedais do crime. Terrível é esta raia que nivela o talento com a estolidez! Parece que está na matéria a faísca universal, que pega os grandes incêndios: e os poetas—bem hajam eles!—tão aporfiados andam em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as pálpebras veladoras! Então lhe acudiu à memória, para flagelá-lo, o diálogo com o militar; e vieram apreensões, e os retraços dos menores gestos do companheiro, e a significação misteriosa de palavras, então ouvidas desatentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de Gonçalo sinais de assustadora suspeita, com referência à aparição do militar. Recolhido em si, engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das piores conjeturas achou lá o pensamento sanguinário de matar seu rival, fosse ele quem fosse.

Quando os nossos rivais acham isto no peito, é prudente temê-los.

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