Terceira Parte - Capítulo I Estrelas Funestas · Capítulo 16 de 22
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Terceira Parte - Capítulo I

Vieram os esposos acompanhados até à fronteira pelo alcaide e suas filhas. Aí se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois anos, no Porto. O cavalheiroso espanhol disse a Filipe Osório e à consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na pátria, lembrae-vos do céu de Espanha, e do vosso segundo pai, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois família nossa; e já sabeis que em toda a Castela sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da península, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçais.»

Chegaram a Mirandela. Daí escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pai. A resposta carecia de inteira afirmativa; mas acédia ao desejo da filha. «Teu pai, ponderava D. Maria—diz e desdiz; ora condena, ora perdoa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o último assalto, e segurar o lanço.

Escrita esta carta, D. Maria das Dores convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo acedeu ao jeito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quase desamparo em que o deixaram amigos e parentes, criaram nele a precisão dos carinhos.

Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.

—Quem te escreveu, prima?—disse ele.

—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.

—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?

—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.

—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.

—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.

—Pois que sejam felizes.

—A nossa filha só pode ser feliz com o teu perdão.

—Tu aí tornas!...

—E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom coração. Perdoa-lhe, primo!

—Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demência esperar alívios... Se ela tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe que torne para o convento, e lá terá abundância.

—Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua filha! Aquela menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?

—Linda era a outra que...

—A outra qual?

—Nada...—disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de Noronha.

—Ignoras tu—prosseguiu D. Maria—que o pai de Filipe é rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Espanha com todas as comodidades, e nunca Maria me pediu a menor coisa, nem as suas joias, nem os seus vestidos. O que ela pede é a estima de seu pai, e quer pedir-te perdão pela boca de sua filhinha, que tem sete meses. Não se te alegra o coração com a esperança de teres nos braços uma criancinha, filha de nossa filha?

—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou ele com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fora à mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não criar ao seio a víbora que me há de vingar!

—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticínios os teus! Quando te alumiará a Providência Divina essa escuridade em que vives?

—Há de alumiar-ma a lampada da sepultura. Isto em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!

—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o céu te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Hás de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras estranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...

—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ela pudesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!

—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e dela! Pois tu negas perdão à esposa, e dá-lo-ias à concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espírito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria à filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame sedutor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciência, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencível pôde desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ela escreve de Mirandela; olha estas expressões: Às vezes penso que meu pai há de amar muito esta criancinha, que tem já no rosto sinais de vir a ser muito parecida com ele. Se eu pudesse mandar este anjo adiante de mim, seria ele quem me abrisse as portas do paraíso de minha família: Vês tu? É a tua Maria Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ela?

Gonçalo caiu sobre a cadeira donde, momentos antes, se levantara na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados ansiosos instantes, murmurou:

—Que venha; mas que eu a não veja.

Saiu Maria das Dores vaidosa do seu triunfo. As últimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer vê-la seria a transição para vê-la, e amá-la. Neste pressuposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ela congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicitá-lo, com grandes louvores de seu juízo e nobreza de alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que ele tinha em ódio à conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, à fina força, casar a filha com o conde de Monção.

—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo irado—A prima Maria das Dores está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.

Isto era pungentemente alusivo.

Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que acautelasse a filha dos primeiros ímpetos do pai, cuja alma estava ainda muito cruá, e a soberba muito inflamada.

Debaixo da má impressão dos parabéns, que ele imaginou irônicos e ofensivos, saiu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceler, o regedor das justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandela com direção ao Porto, e que vinha com ela o desertor. Os magistrados responderam-lhe que os crimes militares não entendiam com eles, executores da justiça civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ela legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querela de pai.

—Mas eu hei de provar a nulidade do casamento—redarguia Gonçalo.

—É possível—replicavam os magistrados—mas a prisão não pode antecipar-se à prova que v. ex.ª quer dar.

Malogrado o mau intento voltou-se aquele espírito enfermo para melhor paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor tenente de cavalaria Filipe Osório. Disse-lhe o governador militar que já sabia da sua vinda com o propósito de responder e ser julgado; mas—acrescentou—admiro que a denuncia me seja feita pelo pai da esposa de Filipe Osório! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher dele e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!

—Eu hei de provar a nulidade do casamento de minha filha!—redarguiu Gonçalo Malafaya.

—Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças desairosas lhe servem. Eu conheci Filipe cadete do regimento em que eu era major, há sete anos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da inteligência e decoro militar. Se eu fosse príncipe, dera-lhe a minha única filha; e, sendo Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por um abraço.

Gonçalo abafava de raiva, e saiu convulsivo de ameaças de fúria. Entrou em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dores, contra a filha, contra a justiça, e contra Deus. A mulher, falecida de paciência, perguntou ao capelão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que ele passasse a espancar a gente da casa.

Benzeu-se três vezes o padre e disse:

—Seria bom segurá-lo antes que ele espancasse a gente da casa; mas eu não me meto nisso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céu, senhora fidalga!

Passados dois dias, chegaram ao Porto Filipe Osório, Maria Henriqueta, a filhinha nos braços da ama, e os dois velhos criados.

Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. «Em que má hora!—dizia a mãe na resposta.—Está mais furioso que nunca teu pai. Há dois dias que sai a mover contra teu marido os poucos amigos, que se condoem dele. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da prisão pelo crime; e teu pai, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vai intentar uma ação de nulidade de casamento. A tua vinda para aqui é imprudentissima.

Temos que combater um mentecapto em fúrias. Parecia-me que o melhor seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de teu marido. A outra demanda pode levar tempo a decidir; mas o resultado há de ser o que nós desejamos, se com efeito o teu casamento está legal, como cuido. Pensa nisto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmarás desse modo a cólera de teu pai, e terás meio caminho andado para a reconciliação.»

Lida esta desconsoladora carta, Filipe bebeu as lágrimas da esposa, e empenhou as mais sedutoras ficções de seu espírito em persuadi-la a recolher-se a S. Lazaro, em quanto ele respondia ao conselho de guerra.

—Apartar-me de ti!—exclamava ela.

—Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito anos, sacrifício necessário para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que podemos esperá-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, que eu vou apresentar-me ao governo militar.

Filipe deixou sua mulher estupefata, e escondeu-se a chorar. Se ele sucumbisse, quem daria alentos à pobre esposa e mãe? Se o coração fosse sincero naquela hora, quantas torturas inúteis para ambos!

E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis de alma, dizia entre si:

—A serenidade com que Filipe se aparta de mim! A frieza dos seus conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará ele arrependido de se ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que tantas venturas lhe prometia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se deste anjinho com os olhos secos?!

E abraçava com arrebatada ternura a menina.

Filipe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da autoridade:

—É forçoso que se recolha ao Castelo da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regência quer que o seja. Espero que em menos de três meses esteja livre. Sua esposa tem licença para viver consigo no Castelo.

—Não pode ser.

—Porque não pode ser?

—Meu sogro vai litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até à decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vai minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Amanhã vou entregar-me à prisão.

Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados três meses.

D. Maria das Dores saltou de sua carruagem à porta da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantânea alegria à contristada família, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fora ele pessoalmente falar ao provedor da Misericórdia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ela. De tudo, inferia Maria das Dores que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.

Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lágrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para criar alentos. A coragem do homem que se despede parece uma ofensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lágrimas saiam do coração como gotas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para lutar e sofrer. A suprema desgraça é o desalento da dúvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filipe a chorar.

Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:

—Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ela será o anjo mensageiro das minhas atribulações. Quanta mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto Sofreu, e a tanto se arrostou, não pode fraquear agora em três meses de ausência. Maria, eu não me engano com a tua alma, não? Hás de viver e lutar com os desgostos por amor do teu Filipe, que ainda se não julga desgraçado?

Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo oculto de morte, ao qual parece que as lágrimas da mulher amada se ressecam.

Tomou Filipe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até que a mãe lha tirou dos braços. É que da face dele se esvaíra lentamente a cor; o brilho dos olhos apagara-se súbito; um tremor lhe correra os braços; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.

—Filipe! exclamou Maria—essa é a tua força, Filipe! Por Deus, reanima-te, que me tiras a coragem!

Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:

—Parecia-me que era a última vez que via nossa filha... O amor de pai tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito semelhantes, minha esposa!

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