Terceira Parte - Capítulo IV
A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escândalo dos mesários, a horas em que era dos estatutos o silêncio obrigatório.
D. Maria das Dores levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado à filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com ele a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituísse à liberdade.
Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?
Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distância infinita.
Provar a nulidade do casamento era impossível, mas dilatar a prova com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emascaram e trazem em ludíbrio por sentinas douradas, é coisa de todo o ponto fácil. Contra a legalidade do matrimônio de sua filha alegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abade, e irmãos de Filipe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote dela, em primeira instância, por ódio inveterado à família de Mirandela, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipêndio à sua integridade.
Subiu o processo à relação do Porto. Andou o indecoroso autor captando a piedade dos desembargadores com lágrimas que o não lavavam das manchas. Os juízes, para honrarem o pai, e a filha, estabeleceram a legalidade canônica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventara a desonra como remédio aos despeitos de um pai. Faltava o recurso de superiores instâncias. Foram para a suplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença final empenhara o fidalgo os cabedais e os amigos, para com os amigos dos cabedais:—desculpem a safada elegância deste trocadilho.
Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até à final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois anos na suplicação e baixar de lá com alguma nulidade ao tribunal onde principiara. Assim se explica a premeditação de Maria das Dores na fuga da filha, logo que Filipe Osório saísse do Castelo da Foz.
Antes de completo segundo mês de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de paralisia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.
Apresentou-se Filipe ao provedor da Misericórdia, o doutor João Pedro, velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o berço da civilização dos costumes, má civilização, que é o sinônimo de extrema liberdade, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa Guimarães, pode, se quiser, imaginar que ali, durante os últimos trinta anos do seu antigo proprietário, se fizeram romances práticos de alta moralidade, os quais é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das cenas lá passadas, a mais simples de todas é a seguinte:
Entrou Filipe Osório, procurando o doutor Pedro, que saiu a recebe-lo na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incomodado do coração, que parece ser o órgão do amor e do medo.
Feita a apresentação, com militar secura, ajuntou o apresentante que era marido legítimo de D. Maria Henriqueta.
Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No doutor era susto; e o susto não desonra ninguém, mormente quando o assustado se defronta com os trinta anos de um homem de grandes barbas e possante estatura.
Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para o doutor.
—Quero ver minha mulher—disse Filipe.
—Parece-me que a lei se opõe—disse o doutor—em quanto v. s.ª tiver pendente das decisões jurídico-canônicas a validade do seu casamento.
—Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe digo é que quero ver minha legítima esposa, agora, logo, amanhã, sempre.
—Então queira requerer a juiz competente.
—Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor da Misericórdia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do recolhimento por minha mulher.
—Isso é impossível, senhor!
—Que são impossíveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça impossível haver um homem que lhe corte uma orelha; e, contudo, afirmo-lhe que poucas coisas haverá tão fáceis!...
Isto fora dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxílio de ferro. O doutor abriu a boca e regougou:
—Oh!
Mas este oh foi surdo como um rugido intestinal.
Filipe cruzou os braços, e disse:
—No que fica?
O provedor refez-se de ânimo, e respondeu:
—Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?
—O látego da tirania deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos novos. Os anos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de máximas. Eu não posso demorar-me.
—E v. s.ª é de certo legitimamente casado à face de Deus?
—Veja esta certidão.
João Pedro leu atentamente, e disse:
—Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?
—Não sei, senhor. É um ódio injusto: é um pai que difama sua virtuosa filha.
—Pois bem, sr. Filipe Osório, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.
—Consulte a sua consciência, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já daqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.
Entrou o doutor João Pedro no seu escritório; e, mais levado da consciência que do medo, dado que um pouco de tudo o impelisse à obra meritória, escreveu a ordem, auctorisando a regente.
Filipe saiu com mudado semblante de afetuosa gratidão, e entrou no pórtico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.
Mandaram-no entrar em uma grade, onde já estavam D. Maria das Dores e a filha, esperando-o. A esposa enfiou por entre as rêxas os braços, que dificilmente passavam.
—Que mudada estás!—exclamou Filipe.—Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado nestes dois meses!
Era pungente ver chorar aquele homem, na contemplação da magreza cadavérica de sua mulher!
Nem um riso de contentamento naquele primeiro encontro!
—Falta-me a filhinha!—dizia Filipe—Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céu da nossa filha, que devia neste momento sorrir-nos a bonança, e acusar estas lágrimas como ingratidão aos benefícios de Deus?
Retirou Maria das Dores ao anoitecer, e Filipe passeou até altas horas, defronte, e em roda do cárcere da esposa.
A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marquesa de Angêja, senhora que a movera a favor de Filipe Osório, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de súbito ao ministro competente, por engenho da marquesa. Correu com ela o portador; Maria das Dores nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedais em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fora revogada, a requerimento do procurador do autor; e outro emissário vinha ao Porto embargar o efeito da primeira. Copiemos dos apontamentos o fato, presenceado pela educanda a que os devo:
«Logo ao amanhecer vinha Filipe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossível apertarem as mãos. Ali almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Ele saía, quando as portas se fechavam, e ela ia para a sua cela chorar. Às duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas laterais em que ela lhe passava os pratos.[4]
«Ao anoitecer separavam-se. Nesta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ela sair do recolhimento. Já ele a estava esperando com uma sege na portaria; já ela tinha pedido às mestras para nos darem sueto nesse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ela estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de cetim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ela à portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso de alegria desvairada nos lábios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem à regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filipe Osório rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da cor do vestido, mármore na frialdade, e caiu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se comoveram àquela cena, cujo alcance mal podíamos compreender. Então é que ela adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o último golpe. A mãe era incansável de amor e de consolações ao lado dela. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mês tornou à grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filipe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cinquenta anos.»
Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dores. Frequentes vezes se encontrava com Filipe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas em um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.
Vejamo-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:
«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dores à grade com o genro, e aí se demoraram até às quatro horas. Mandou a fidalga dizer à regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dores, e Filipe ficou na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe à filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquíssimos veludos, setins, e sedas de diferentes cores, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afora isto, passou D. Maria das Dores para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª há de permitir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dores!...» Tornou a fidalga: «Há nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.
«Mandou a regente à porteira que abrisse a porta. Saiu D. Maria das Dores, e postou-se à porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a criada, que fora alumiar, de tal riso se tomou que deixou cair o castiçal.
«Ocorreram outras cenas que muito nos alegraram, sobre o geral júbilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.
«Passados os momentos da estupefacção, quis a regente ir pessoalmente a casa do provedor contar o sucedido.
—Sair eu de oitenta e um anos à rua! exclamava ela.—Que dirá o mundo?—Tinha ela uma criada de dezoito anos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de sair com a ama. Passou acaso um estudante de clérigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e ofereceu-se a acompanhá-las, mas a velhinha, para poupar às estrelas o escândalo de a verem na atmosfera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse ele avisar o provedor, o que ele não fez por comiseração com a fugitiva.»
A curta distância do recolhimento, estavam três rijas mulas, e dois criados de cavalo. Maria Henriqueta deu o último abraço em sua mãe, e saltou para as andilhas. Filipe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois criados na terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho de Vila do Conde.
D. Maria das Dores entrou ovante em sua casa; esperou que o marido recolhesse à meia noite; saiu-lhe ao encontro, com um riso de sarcástica vingança, e disse:
—A regência não pôde vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as portas do cárcere, e fiz sair dali a pobre vítima de tua crueza, que estava sendo também um pregão de tua ignomínia. Querias que a justiça a infamasse, e eu quero que ela gose os direitos das esposas honradas e virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos canais de teu dinheiro, que há um ente que se não corrompe, é uma mãe.
Gonçalo Malafaya caiu prostrado em um canapé, e bramiu:
—Maldita sejas tu!
—O céu não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau marido de Maria das Dores, e do mau pai de Maria Henriqueta! Morre impenitente, homem três vezes abominável!