Primeira Parte - Capítulo VI Estrelas Funestas · Capítulo 7 de 22
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Primeira Parte - Capítulo VI

Se bem que desalentado para a luta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro andar do prédio, em que altercavam as vozes. Assomando à porta de uma sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um súbito silêncio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em transporte de júbilo, aos braços do pai. Maria das Dores tremia de ira como de frio, e mudou de cores até permanecer em um amarelo de greda, que era a sua usual expressão de extremo frenesi.

—Que vem a ser isto?—disse Gonçalo serenamente.

A diretora respondeu:

—Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dores quer levar a menina, e a menina recusa ir. Eu disse à senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me não prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me oporia, ainda mesmo que a menina quisesse sair. A senhora irritou-se contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex.ª dizendo que ia buscar uma ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui vir o pai, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada. Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quiserem.

—Tenho resolvido—disse Gonçalo.—Minha filha contínua a estar aqui. A prima Maria das Dores é uma criatura sem alma, nem sombra de juízo. Envergonhe-me e envergonhe-se à sua vontade; mas saiba que Maria Henriqueta há de ficar no colégio, apesar das suas imaginarias ordens regias.

—Visto isto, eu nada valho?—disse Maria das Dores em tom comovente.—Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas, a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é verdade? Muito bem. Ir-me-ei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz. Primo Gonçalo, folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar nem sequer a imagem de minha filha. É forçoso que eu viva em ódio de todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faça-se a vontade de Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: há de custar-me muitas lágrimas; mas neste mundo miserável tudo que é mau e infame se consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem para ti; que é esta a última vez que te vejo. Tu amarás a minha memória, quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguém houvesse misericórdia das dores que lhe causa.

Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a mão, comovida. Apertou-a ao ceio com insolito estremecimento a mãe, e teve-a assim, até que as lágrimas saíram aos olhos de ambas. Quebraram-se os ânimos das senhoras hostis a Maria das Dores. Movia o trance daquele adeus. Era mãe e filha; e o só título de mãe quer-se respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratíssimo dele foi delido com execrandas torpezas, que só de pensá-las se doe e peja o coração. Que há aí lances nas famílias que seriam vilipêndio do Criador, se a criatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em abominações, que desconhecem feras, não fosse a última, a espantosa hediondez da matéria, desaçamada em sua estúpida fereza! Oh! quão triste é então o dizer-se «aquela mulher é mãe! Aquela inocente menina foi levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquela outra mulher, que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando lhe sondaste a força das garras, e da tua preá já lhe fortaleceste as unhas frágeis, quão mais benigna tu és!...

Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante comovido do pai. Que dizia ela no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe compadecimento para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão. Tirava por ele com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando à beira da mãe a esposa consternada, com mansas palavras, com perdões e amor.

Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento, mas resoluto. Compreendeu-o Maria Henriqueta, e chegou das dele a mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa a cena, menos de suspiros e soluços, que durez de alma seria se os circunstantes não se enternecessem.

—Prima Maria das Dores—disse Gonçalo—seja este anjo que nos reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pai? Podes tu amar-me por amor dela, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós podes gozar?

Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.

Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitâneo de alegria. Aos olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitável. A reconciliação reabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na dignidade de sua mulher.

Saiu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha, e estado de servos e carruagens. De comum acordo com a esposa, resolveu residir na corte. Estimou ela o alvitre; para desviar o marido da Persini, que, àquela hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de um amante, cujos traços fisionômicos, a custo, distinguia das feições dos sucessores. Chamava-lhe trágica a opinião pública; e a pobre Persini não era senão a comédia humana real e pessoalissima.

Pelo que respeita a Maria das Dores, o seu esquivo anjo de condição benigna voltara a visitá-la, em quanto o demônio da travessura se ia em passeio às suas inflamadas cavernas a pedir conselho ao chefe das legiões, infernais, que enxameavam dantes nas varas dos cevados da Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das famílias.

Correram dois anos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto seu natural lhe permitiu, aos jeitos agradáveis das senhoras estremadas em educação. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diversão de cuidados. O grande mal da sua condição estava no cismar sozinha, e devanear por desconfianças e zelos, quase nunca injustos, diga-se a verdade seca e breve.

Gonçalo, também por este lado, fatal quebra de seus bons costumes, estava melhorado pela idade, e talvez por influxo do golpe que recebeu em Odivelas. Sangrára pelas lágrimas o órgão que lhe era um aleijão sensível, e a causa eficiente dos seus maiores desgostos domésticos. Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angústias, se fosse mais fiel marido, e menos insofrido nos acometimentos da ciosa esposa.

Ao fim de dois anos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a frágil taboa da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance especial, que eu vou dar pela suma.

Beatriz de Noronha, aceitando o namoramento de Malafaya, rejeitou os galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O fidalgo ferido da imaginada perfídia, quis provocar a desafio o portuense; lembrou-se, porém, deste galhardo despique, a tempo que Malafaya vinha em jornada para o Porto.

Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha apelido Athayde, cuidou em merecer de novo o afeto de Beatriz, contentando-se já com um coração alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.

Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lho a paixão, a saúde, e por ventura a esperança. A pertinácia de Athayde era digna de premio; mas, em geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita importunamente, são umas voluntarias doudas que se gozam no aviltamento dos logrados, e se lastimam do assedio que sofrem.

A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o repelia da sua estima. Antes quis a santa simplicidade!—atraí-lo a confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de professar, se Gonçalo não voltasse.

E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão alucinada em uma hora designara.

Decorridos dois anos, e publicada a nova do casamento de Malafaya, Beatriz entrou em Odivelas; e, treze anos depois, como sabem, morreu.

Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas vezes resolveu vestir o hábito, e morrer ignorado. Passados vinte anos, e quase extinctos os fogos sob o gelo dos quarenta e dois anos, voltou à pátria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando sempre a chaga de saudade como quem não queria morrer de outra.

Acaso soubera ele que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as freiras de Odivelas arguiam de causa principal da breve morte de Beatriz dos Anjos. Quer fosse efeito de um desvario, procedente da concentração, quer de velho ódio, Athayde fantasiou que Beatriz o encarregava de vingá-la. Neste pressuposto, saiu à luz do dia o encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residência do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do inimigo para imolá-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da idade média! Relance de melodrama, que seria muito de ver no palco! Em 1799 era ja um desconcerto de juízo a trágica façanha!

Gonçalo recebeu o incógnito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D. Francisco de Athayde; mas aquele que se dera tal nome era um velho de barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.

—Francisco de Athayde, justamente—replicou o vingador às delicadas dúvidas do portuense.—Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778 vinte e três anos.

—Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade—redarguiu Gonçalo.

—Amigo, não. Esse título afronta-me. Inimigo implacável, há de dizer.

—Duvidarei tê-lo em tão estranha conta, enquanto v. ex.ª me não disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho ódio.

—Matou Beatriz dos Anjos.

Gonçalo empalideceu, e como à luz de um sinistro relâmpago, viu aquele homem enxugando as lágrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma árvore de Cintra.

—O seu silêncio quer dizer que se preza e glória de ter assassinado a mais formosa e digna criatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonçalo balbuciou:

—Eu era indigno daquele anjo. Deus a desviou de mim, porque a escolhera para sua esposa, e a chamou ao céu, quando já bastava como conforto a desgraçadas, o exemplo que ela dera.

—Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido por expiação daquela morte?

—Muito, sr. D. Francisco de Athayde.

—Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava paixões que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si, para sua esposa, para sua filha, para as glórias do tempo e para uma velhice agradável e tranquila.

—Erra v. ex.ª o seu juízo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e sê-lo-ei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer estranha a intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos, saber a sua missão?

—Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte. Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação das suas armas, e um braço, que pode com elas.

—Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?

—Sim, senhor.

—É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite três dias.

—Medito-a há vinte e dois anos.

—E crê que o derramamento do nosso sangue será agradável à doce alma de Beatriz dos Anjos?

—É.

—V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos perdoou-me.

—Eu não perdoo. A mim me vingo, se ela não quer vingar-se.

—Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso duelo serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou indigno dela?

—Mostrará o que for de sua vontade.

—Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe enviar os meus juízes e testemunhas.

—Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juízes, a espada, o faim, a arma de sua escolha.

—Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do seu juízo.

—Ultraja-me?—bradou o Athayde em tremuras.

—Não quero ultrajá-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicídio a ocultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade. Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juízo de v. ex.ª, na causa do desafio, e nas condições propostas.

—Em suma, não quer bater-se.

—Entenda-o assim, se lhe apraz.

—E sabe que desforra me fica?

—A do insulto público.

—Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

—Quando v. ex.ª queira.

Saiu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso público, que saía da igreja dos Mártires. A pontada de Athayde vinha certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovelava para escutar as razões da estranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, às reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com inúteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura passar o corregedor do bairro do Rossio, seu amigo, de quem tomou o braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.

Este sucesso turvou profundamente a paz que o pai de Maria Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as carícias da filha.

Fora grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos coevos dos amores que levaram Beatriz à campa, e D. Francisco de Athayde à enfermaria dos loucos.

Este final e logico desastre do amador infeliz sucedeu poucos dias depois. Athayde saiu da sua modorra em acessos de fúria pedindo uma vítima para a sepultura de Beatriz de Noronha.

Racionalmente, sua família inferiu dos precedentes a demência do lastimável cavalheiro. Quiseram medicá-lo em casa; mas a ciência rehabilitadora das razões degeneradas estava no hospital de S. José, onde foi recolhido D. Francisco, donde saiu seis meses adiante, para o jazigo de seus maiores.

Se aquela apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá Deus que ela contemple no paraíso a bemaventurada Beatriz? Sublimes arcanos que os sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam descortinar! Permitisse o grande do céu e da terra que alguma vez a poesia deste baixo lodo se elevasse à verdade eterna pelo raio da inspiração de cima!

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