Segunda Parte - Capítulo I
Não fora o anhelo de saber línguas que ensinara a Maria Henriqueta a fagueira eloquência com que venceu o pai, e conseguiu estudar francês. Deus sabe com que repugnância ela decorava as declinações e os verbos, e com que enfados velava as noites para dar lições diárias, com aplauso do mestre. Cuidava a educanda que, fazendo prodígios no conhecimento do francês conseguiria do pai licença para deter-se mais um ano em Lisboa, com o ensino de outro idioma.
Vamos à explicação natural destas maravilhas de estudo e sede de saber.
Desde os seus quinze anos que Maria se inclinara aos sorrisos de um cadete de cavalaria, galhardo mancebo de cabelos louros, cintura fabulosa, e maneiras de suma elegância.
Era o cadete da província de Trás-os-Montes, filho segundo de uma nobre casa de Mirandela, aparentado com ilustres famílias de Entre-Douro e Minho e chamava-se ele Filipe Osório Guedes da Fonseca. Abundavam ao moço as sobras de sua mesada, e converteu-as todas ao seu noviciado de amor. Primeiro aliciou a criada do colégio para receber as cartas da mão do criado, aliciado também. A educanda correspondeu à fogosa e sincera declaração do amante, com os mais apaixonados termos, que lhe ensinou uma companheira mais velha e já experimentada nas excelências do estilo epistolar.
O cadete, não satisfeito plenamente com as cartas, alugou, na vizinhança do colégio, um andar de casas, que tinham saguão comum e janelas fronteiras. Maria, sabedora do expediente amoroso do moço querido, classificou o feito de suprema prova de amor, e deliciou-se em embriaguez de ternura em aqueles vagos anseios dos dezesseis anos, que tanto levantam a mulher a foros de anjo, como dão com ela em razo, desenfeitada de todos os prestígios.
Não era para isso o amor de Filipe Osório. Amavam-se como duas crianças pela inocência do seu amor, e como dois noivos pelo alcance de suas esperanças. Era o enlevo a subi-los ao céu, e o instinto a baixá-los à terra. Mas que instintos tão humanos, tão legais, tão cristãos! Casarem-se! Companheiros de uma longa vida, começada em duas formosas e explendidissimas primaveras! Que bonitos amores, e quem nos dera a todos nós amar assim vinte vezes na vida!
Deu fé a diretora do colégio do namoro. Admoestou suavemente Maria Henriqueta, e a Cândida menina respondeu-lhe;
—Olhe, minha senhora, leia as cartas de Filipe; eu lhas leio todas, se quer!...
A diretora montou os óculos, e leu, com admirável pronuncia e conhecimento de toada dramática, um massete de cartas, que era um coração em prosa!
Em uma das primeiras dizia ele quem era, o seu nome, o nome de seus avós, os seus parentes, o seu destino, os seus anelos à glória, a sua glória de ser amado. Vinha portanto Filipe Osório a ser um dos primeiros nobres de uma província, e um dos mais finos amantes do globo.
A diretora dobrou as fartas hastes dos óculos, embocetou-os, escutou o oráculo de uma pitada de esturrinho, e disse;
—Mas seu pai não a mandou para aqui com o intento de a menina arranjar marido. Concordo nas boas intenções do seu jovem namorado; mas é necessário que seu pai concorde nelas.
—Mas que precisão tem meu pai de ser chamado já para isto, que é um brinquedo? Se algum dia eu me resolver a ser esposa de Filipe, então consultaremos meu pai, e eu farei o que ele ordenar.
Ouviu a diretora um amigo antigo da casa, homem maduro e previdente. O consultado respondeu:
—Deixe divertir-se a pequena, minha senhora. Namorar naquela idade é como abrirem-se as flores em abril. (Sobre ser amigo da casa, era o sujeito o poeta dos anos da família). Se avisam o pai, sabe o que acontece? É ele tirá-la de cá, e a senhora perde trezentos mil réis anuais que recebe, afora os presentes dos presuntos, dos chouriços, dos paios e das morcelas de Arouca: Minha senhora! tome o meu conselho. Enquanto a janela do vizinho não atravessar o saguão, e se lhe meter em casa, deixe-os conversar, deixe-os perfumar os ares com a recendência dos seus inocentes amores.
Silvou uma pitada a matrona, e disse:
—Também me parece... a janela cá não entra, sem ser por arte magica.
—Também me parece—redarguio o amigo da casa—e a magia é uma mentira...
—Isso é conforme, meu caro amigo! A gente tem visto coisas!...
E ficaram nisto, porque um e outro tinham visto coisas admiráveis em magia no teatro do Bairro Alto, no da rua dos Condes, e mesmo fora do teatro.
Continuaram os doces colóquios. Nunca tão imaculada paixão se nutriu de puros desejos através de dois, três, quatro, cinco anos.
Filipe, no decurso deste tempo, foi promovido a alferes e já ostentava as divisas de tenente de cavalaria, quando D. Maria das Dores o viu levantar a carta.
Tudo o mais que eu dissesse para esclarecer o misterioso desejo de línguas, que Maria Henriqueta exprimia com lágrimas, seria uma impertinencia.
Agora sabem o porquê daqueles prantos, e digam-me se ela não tinha razão, amante cinco anos, cinco anos embalada pela esperança de cada noite, ditosa pela realidade querida de cada dia, afeita àqueles olhos negros, àqueles cabelos louros, àquela melodia de palavras, que pareciam cantadas a um arpejo de anjos! Nunca ninguém chorou com mais amargura intima, penso eu!
Se ela dissesse ao pai que amava Filipe!... Porque lho não disse? Porque se não confessou em tão inocente culpa?
Não o saberei eu bem dizer. Um instinto adivinhador do ânimo paterno? Não. Foi uma razão menos nebulosa. É que o pai lhe havia dito um ano antes: «Eu medito em te casar com um dos primeiros titulares da província; é um conde, minha filha, não mais nobre que nós, mas igualmente antigo, e... conde! Com que legítima soberba te verei condessa, minha filha!...
Maria Henriqueta ouviu em alvoroço, e disfarçava a dor da lançada com um sorriso. Notou o pai que ela se purpureava; e disse entre si: «como o pudor é lindo!»
A carta expedida pela janela, devia ser um partir-se o coração de lê-la. Despedia-se Maria de Filipe Osório, emprazando-o para encontrar-se com ela no céu, a não querer ele cometer algum desesperado arrojo que a salvasse.
Houve-se com ela de modo o pai, que nem uma só palavra equívoca lhe disse. D. Maria das Dores, incapaz de reprimir-se, alguns remoques aventurou, provocando-a a revelações que ela não fez. Como a casual chegada da mãe à janela lhe foi despercebida, Maria Henriqueta deu pouco valor a umas ironias, que de leve lhe apalpavam o seu segredo.
Triste como a saudade sem desafogo, entrou Maria no sombrio palácio de seu pai. Em redor de si eram tudo cortezãos enjoativos, fidalgos de muita idade, perguntando-lhe se vira D. Carlota Joaquina, e meninas de sua idade, que se agrupavam a um lado ciciando segredinhos, alusivos ao ar enfatuado de Maria, com o que, de puro respeito, se estavam sorrindo.
Concorria tudo, pois, a exasperar a tristeza da morgadinha. As mesmas carícias do pai a enfastiavam; o semblante áspero da mãe recordava-lhe os repelões que sofrera em menina, e os anos dourados que deixara no colégio. Saltavam-lhe involuntarias as lágrimas dos olhos, em presença das famílias que a visitaram, em todas as noites da primeira semana. Fugia das salas, encerrava-se no seu quarto, e rompia em gritos, em que a irritabilidade nervosa tinha maior ação. As noites desvelava-as a ler as cartas de Filipe, escritas em cinco anos. Estas leituras, longe de socegar-lhe o ânimo, aguilhoavam-na a impetuosos transportes do leito para as janelas, sorvendo a ansiados haustos o ar da noite. Sentava-se constrangida à mesa, e raro alimento aceitava da mão carinhosa do pai. Pedia frequentes licenças para levantar-se, e buscava, em secreto, o seio de sua ama, para chorar com desafogo, falando em Filipe.
Em nome da ama vinham as cartas dele. Digno de tanto amor nenhum outro homem o seria mais. Atrevia-se de frente com as dificuldades, e prometia-lhe a redenção, se ela permanecesse constante. O seu primeiro triunfo consistia em conseguir passagem do seu regimento para a guarnição do Porto. Era concessão difícil, naquele tempo em que o prospecto de próxima guerra punha em sobresalto conselheiros da coroa, que só curavam de organisar o exército. Venceu o moço, com o patrocínio de poderosos amigos de seu pai, os obstáculos da transferência, e avisou Maria Henriqueta, marcando-lhe o dia de sua chegada ao Porto.
Cobrou ânimo a menina, já enferma, e apostada a morrer. A vida do coração radiou a todos os órgãos exânimes e desconcertados. Nem mesmo o estômago foi estranho àquela festa das vísceras.
Maravilhou-se da mudança o pai; e Maria das Dores ficou de sobreaviso para espionar o motivo de tão breve como estranha conformidade.
Gonçalo, menos atilado ou malicioso que sua mulher, atribuiu a mutação à ordem natural das coisas e das pessoas. «Maria Henriqueta esqueceu-se—dizia ele à consorte suspeitosa e incredula.—São assim as mulheres em geral e o coração gasta-se como tudo que é suscetível de consumpção.» O filosófico entono com que o aforismo foi atirado à circulação das ideias, não impressionou vivamente D. Maria, que era uma senhora de mean habilidade para digerir a ciência oculta dos aforismos.
No dia anterior ao da chegada de Filipe Osório, anunciou Gonçalo a sua filha a visita do conde de Monção, inquerindo ela a causa do grande reboliço que ia em casa com a inovação de tapetes, de cortinados, e de moveis, chegados da capital.
—Vem ser nosso hóspede alguns dias;—acrescentou o pai—Cuida tu, minha filha, em tirar dos baús os teus melhores vestidos e enfeites para que ele, em um relance de olhos, conheça em ti uma senhora educada na corte. Podes falar-lhe em francês, que ele viveu em Paris. Verás que homem de corte, que ar de quem tratou face a face com Luís XVI e com Maria Antoinette! Feliz serias se, como creio que há de suceder, lhe tocasses o coração!
—Eu!... disse Maria com trejeito de espantada.
—Tu, sim, minha filha!—respondeu o pai, cuidando que o espanto era a natural expressão de quem se julgava indigna de tão egrégio esposo—Não te disse eu, há um ano, que projectava casar-te com um conde?
—Disse, meu pai.
—Então, já vês que me não esqueci da promessa. Favor, em ligar-se à nossa estirpe, não me faz nenhum. A sua origem foi a nossa. Todos viemos da Cantábria; procedemos todos dos heróis de Covadonga, capitaneados por Pelágio. Ali se ajuntaram as relíquias dos reis godos, e de essas são oriundas as nossas famílias, posto que seus avós fossem meros fidalgos acantoados em seus solares quando de Espanha veio a infeliz rainha Ignez de Castro, de um ramo da comum árvore que bracejou mui honradas e nobilíssimas frondes por Castela.
Maria Henriqueta não ouvia nada destas maravilhas. Estava como morta nos sentidos exteriores.
Gonçalo exclamou com afetuosa veemência:
—Tu descoras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!? Responde...
Não respondeu, nem desmaiou.
Sacudiu-a com brandura o pai, tomando-a para o seio, e osculando-a na fronte.
—Fala, minha filha! Que sentes tu?
Maria pôde falar, quando os soluços lhe desembargaram a voz, e disse:
—Lembre-se, meu pai, do seu casamento. Queira a minha felicidade...
—Pois não quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar em fazer-te condessa de Monção!...
—Não posso aceitar tal marido, meu pai...
—Não podes?!—atalhou, em tom menos suave.
—Não posso amá-lo... e não amar um esposo deve ser a maior das desgraças...
Maria das Dores entrou neste momento, e ouviu as últimas palavras da filha, que tremeu ao vê-la.
—E como sabes tu que não hás de amar o conde, se o não viste ainda?!—replicou o pai.
—Sei que me é impossível amá-lo... Pode ser um anjo do céu, que eu não o amarei... Casar sem afeto, meu pai, sacrificar-me por toda a minha vida, estando eu tão nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu de boa vontade professo, e me irei esconder e penar como filha desobediente; mas não me obriguem a casar, que eu tenho ânimo para me matar no dia seguinte.
—Tens razão, filha!—exclamou Maria das Dores—Tens razão! Casamentos à força, em quanto eu for viva, não os tolero na minha casa. O homem vem aí amanhã. Se gostares dele, e ele gostar de ti, casem-se; se não, passe por lá muito bem o Sr.. conde, e tu deixa-te estar, que estás bem na tua casa.
—Que conselhos maternais são esses, prima Maria das Dores!—interrompeu Gonçalo.
—São conselhos, que minha mãe me não deu, primo Gonçalo. Repito: Maria Henriqueta não há de casar obrigada. Minha mãe, à hora da morte, pediu-me perdão de me ter obrigado a casar; e eu não quero nem hei de pedir o mesmo perdão a minha filha.
—Temos uma grande luta, Maria das Dores!—exclamou o marido.
—Pois luctaremos—respondeu ela, esgrimindo com os braços e com a cabeça.—Maria Henriqueta! tu tens por ti a razão, e tua mãe... Veremos de quem é a Vitória.
—Eu não queria que meus pais se indispozessem por minha causa—atalhou a menina—O que peço a ambos é que me queiram na sua companhia, e me deixem gozar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz; para que hei de eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ela não está?
—Maria!—tornou severamente Gonçalo—Eu sei que saíste de Lisboa apaixonada. Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por lá esquecido com os devaneios da mocidade; e calei-me porque um pai deve fingir-se estranho a creancices sem resultado. Agora vejo que é grave o teu desvario, e aceito a obrigação de to corrigir. Vamos a perguntas, que te devia ter feito. Quem é o militar, que levantou da calçada uma carta lançada por ti?
Respondeu Maria passando da palidez ao escarlate, e vibrando toda em uma convulsão aflitiva.
—Responda, senhora!—repetiu o pai com o aspeto mal assombrado.
—Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade—ajuntou a mãe, em tom de mansidão, e modos protetores.
Maria murmurou:
—Era um tenente de cavalaria... Chama-se Filipe Osório Guedes da Fonseca... É de Mirandela, e é fidalgo...
Gonçalo expediu uma casquinada de riso, e disse:
—Fidalgo!... tenente de cavalaria!... fidalgo de Mirandela!—quem são neste mundo os Fonsecas de Mirandela?... Hei de perguntar por isso ao meu mordomo de Lamego, que é de Mirandela, e chama-se Melchior Fonseca. Precisamente é tio do sr. Filipe, tenente de cavalaria!...
E deu segunda casquinada, com uns trejeitos mal cabidos nos seus nobres ademanes.
Maria das Dores não ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido. Por espírito de contradicção, ou por pena da filha, tomou-a pelo braço, e disse-lhe:
—Vem daí, Maria Henriqueta.
—Onde a leva? disse irritado o marido.
—Onde hei de eu leval'-a?—redarguiu a esposa na mesma entonação.
—Quero que ela me responda!
—Pois faça-lhe as perguntas com jeito e modos. Que quer perguntar-lhe? Vamos, ela aqui está para responder. Diga lá.
—Tudo que tenho a dizer—retorquiu Gonçalo Malafaya exasperado contra mãe e filha—é que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pai, quando é necessário ser juiz.
—Não quer mais nada?—concluiu D. Maria das Dores.—Anda daí, menina!
E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lágrimas, mal via o chão que pisava.
Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:
—Castigado até ao fim! Nem a submissão desta filha que eu amo tanto!... É de mais, ó meu Deus!
Entraram os criados a pedir ordens para a localisação das alfaias vindas da capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos cabelos, e exclamou:
—Peguem incêndio a esta casa, e morra eu dentro dela!
Os servos fizeram pé atrás e encontraram, ao saírem espavoridos, o capelão, que se estava persignando, com os olhos postos no teto, à míngua de céu.