Terceira Parte - Capítulo V
Na descrição da desgraça há engenhos habilíssimos. Em pintar a felicidade é grande a penúria de frases: parece que as línguas são pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!
Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com receio de me perder em nevoentas quimeras; ou—di-lo-ei com quanta sinceridade posso—o descostume de a sentir estragou-me a palheta com cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.
Entraram por Espanha, com destino ao alcaide de Segóvia, cujas condolentes cartas Filipe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra de Espanha escreveram para o amigo, que lhes chamara filhos. Abalaram de Segóvia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas léguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e dali passaram para a quinta, onde os atraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquilo e desassustado.
Encontrou Maria refloridas as flores que plantara, um ano antes. Lá estava a roseira que ela consagrara a sua filha, denominando-a Rosalinda. Aí orvalharam lágrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ânsias do coração não podiam ser duradouras.
Queriam-se solitários os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortúnio lhes dera uma atraente celebridade. Concorriam à graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castela, e saíam para voltarem amigos dos que outrora prenderam corações com os nomes de Luís e Pedro de Castro. A este propósito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em comoventes prosas a história infeliz dos esposos.
Uma noite, caindo a ponto falar-se na pertinácia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:
—Traz-me esse nome à memória um sucesso, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segóvia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que eles estanceavam por estes sítios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portugueses, naturais de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instinto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguém em Segóvia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham eles vindo fazer nos arredores desta quinta. Responderam que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham eles com uma família, que se alojava nesta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus mãos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remédio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançara aqueles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera diretamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De propósito vos ocultei este episódio em minhas cartas, cuidando em não vos agravar as desgraçadas apreensões. Agora vos digo que isto me fez apreender muito a mim. Segundo o que Filipe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aqueles homens eram sicários enviados por ele. Já passou um ano, e naturalmente o conde está esquecido da afronta e da vingança; mas, ainda assim, recomendo-vos toda a cautela, que o mais temível dos inimigos é aquele que nos foge. Não me opus; porém, não aprovo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possíveis, e a minha vigilância mais apontada.
Filipe Osório sorriu à prudência demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a história pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquilizá-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Espanha, ou passassem a França ou Itália. Filipe socegou-a com a cedência à sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mês entre a sua segunda família, e velados pela guarda de tantos amigos.
Desde esta noite, eram de instantes os intervalos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procurá-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, prometia por complacência abreviar a partida.
As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demência. D. Maria dizia à filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas criadas em um velho palácio de seus pais, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divórcio fora os acessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ela, armado de um espadim. Passando a miudezas da demência, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que ele denominava D. Francisco de Athayde, exclamando: Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou! Neste estado, dizia a fidalga, o sucesso da fuga parecia coisa indiferente ao marido; e a julgá-lo, nas horas lucidas, mostrava ele ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a afirmação da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos à esposa; e contra ela é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.
Esperavam, pois, os Osórios de Mirandela que o infortúnio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.
Um portuense, amigo de Filipe, e seu protetor no julgamento, escreveu-lhe para Espanha. Uma página da carta dizia assim:
—Tive ocasião de ver aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e donde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e ele fez-se roxo. Contaram-se os teus infortúnios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e ele mordeu os beiços até espirrarem sangue gótico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu diálogo com ele, porque eu o contei em pleno auditório, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de indústria derivou o discurso até contar uma história acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A história era exactissimamente a tua com ele. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demônios que ele tinha na alma, se tem alma. No estômago juro eu que ele tinha uma legião de espíritos imundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o cálix até às fezes, e saiu, quando furtivamente pôde escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção, donde eu sei que ele mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residência em Espanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que ele a premedita. E, senão, que lhe importa a ele a tua residência?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudência contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguém se espanta disso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautela, meu Filipe. O meu parecer é que vás para Itália, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrela.
Ocultou Filipe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que ele mal podia era ocultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residência temporária em Segóvia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem dali a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ela a sua inteira seguridade na Itália; era para lá que a meiga senhora estava sempre impelindo o ânimo do marido. Tinha ele anuído, quando Maria Henriqueta adoeceu de um móvito, procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a traziam em permanente sobre-salto.
Reservadamente mostrou Filipe a carta do seu amigo ao alcaide, sem esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado fidalgo espanhol as rigorosas vigilâncias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inúteis foram todas no decurso de dois meses. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.
Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas meteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte primavera a saída. Além de quê, a assídua espionagem era infructuosa, e as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no Além-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.
Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta de Filipe Osório:
«... Também se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui há dias com direção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia púcaros do barro da terra, cujo avô foi criado da casa de Bragança em Vila Viçosa, e cujo pai pirateou na Africa, se não mentem as crônicas dos vizinhos. Não me parece que caiba ódio em coração tão cheio de amor à bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquela cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existir
Ferro, veneno, víbora traidora
Cartas da mão de Machivello escritas,
como diz o Tolentino no soneto.
«Precavém-te sempre, meu Filipe.»
Esta carta achou já banida a desconfiança, e quase esquecidas as cautelas, afora as do alcaide, posto que menos solicitas.
Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, jamais lhe lembrou o projeto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.
No concernente ao estado de Gonçalo, as notícias confirmavam a aproximação de sua morte. Acamára por último, e nem já forças tinha para lançar-se fora do leito.
Maria das Dores, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu à casa conjugal conquistando assim a aura pública, e o bem estar da sua consciência. Gonçalo acolheu-a com indiferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seráficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam à doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pai da filial desobediência. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangélicos encolhiam os ombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Cristo perdoou a quem o matou.»
Observava-lhes D. Maria das Dores que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticara crime, comparável ao dos matadores de Cristo, nem a alma do enfermo se salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martírios, que fizera sofrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola prometida pelo doente.
Na correnteza destas lastimáveis misérias da humanidade, as estrelas funestas desta família alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Espanha.
Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segóvia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filipe Osório foi passar um dia à quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria ver as Rosas-lindas, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito anos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as páginas de sua vida que em tudo aquilo se liam. Passaram um dia de paraíso terreal. Brincaram como crianças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.
Filipe sentou-a no selim do cavalo, e beijou-a com o fervor daquele beijo, que lhe dera, naquela noite da fugida de Arouca.
Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distância.
Recordava Maria os cinco anos de Lisboa, a aparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delícias loucas dos seus primeiros meses de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatório e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delírio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos últimos meses. Filipe ia com ela ao céu nestas memorias, e de lá se despenhava no abismo de outras. Assim lhes voara o tempo, até entrarem em um carvalhal, que forma um como anteparo da cidade.
—Este sítio—disse Filipe—tem uma beleza terrível. Eu gostei sempre muito dele; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se pode ser assaltado dentre estas furnas de árvores.
—Vamos depressa, Filipe, dá de esporas ao cavalo—disse ela vibrando a chibata na anca de ambos os cavalos.
—Assustei-te com as minha apreensões?—acudiu Filipe—Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa cena... Olha os rouxinóis como cantam lá em baixo nas margens do rio... São ações de graças Deus. Agradecem conosco ao Senhor a nossa felicidade!...
Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de árvores. Maria Henriqueta soltou um grito estrídulo.
Filipe inclinou o peito sobre o pescoço do cavalo que se ergueu de frente, espavorido pelo estrondo.
—Creio que estou morto!.... disse ele. Maria saltou a terra, deu dois passos para o marido, que fincara os braços no pescoço do cavalo. Extendeu-lhe ela os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caiu fulminada a tempo que o cadáver de Filipe resvalava aos braços do lacaio.
Oh! não vos dizia eu, leitores?
Com que vontade eu quebraria a pena, se tenho de tirar dela páginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora, que amou ou ama, do pai que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio comum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes apontamentos.
E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:
«Viveram, em Espanha; mas pouco tempo juntos.
O desgraçado Osório foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de passeio com sua mulher».
Quão pouco sabia dos pormenores deste assassínio a educanda de S. Lazaro! outras informações de mais recordados amigos de Filipe, e papéis que se desfariam nunca lidos na papeleira de um nobre, levaram o meu espírito até à catástrofe sanguinolenta desta tragédia.
A catástrofe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é outra.