Segunda Parte - Capítulo VII
Entraram ao romper de alva em Mirandela, a hora em que os irmãos de Filipe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procurá-lo no caminho de Arouca. Às dez horas da manhã desse dia, celebrou-se o casamento na capela da casa, por ministério de um abade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os pais.
Ao outro dia chegou a Mirandela a ditosa Eugenia, que o fiel criado fora buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ela que na tarde daquele dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavalaria, com um comandante, pedindo novas de um tenente, que desertara; e que nessa mesma tarde tinham saído para outros sítios.
Compreendeu Filipe o perigo da sua situação, e quis fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentela votou unanime pela resistência, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filipe combateu o denodo inoportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinária do povo com a tropa.
Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois anos de desterro, e internou-se em Espanha, com os dois velhos criados, que entre si se queriam por terem sido, em seis anos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.
Deixemo-los em Espanha procurar o remançoso éden de seus anelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Córdova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delícias reflectidas do céu que levam na alma.
Deixá-los, que é delicadeza não irmos de pós eles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.
Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.
Ao amanhecer do dia imediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitara a saída do destacamento para capturá-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surpreendido. Correu ao quarto de Maria das Dores, e exclamou:
—Maria Henriqueta fugiu do convento!
—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.
—Ali está o portador de Arouca! Fugiu sua filha, senhora! Aí tem a sua obra! Faltava-me esta desonra: devo-lha, senhora, devo-lha, como último golpe, que me há de matar!
Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou à câmara da esposa, e bradou:
—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignomínia que pesa sobre nós! Levante-se, que daqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de luto, e quero que todos os meus brasões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!
D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:
—Queira retirar-se, que vem as criadas vestir-me.
Entraram as criadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a uma delas:
—Vai dizer ao capelão que procure os primos Mellos e os primos Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de um acesso de demência.
Foi a criada dar o recado. O capelão ouviu-o, e benzeu-se com a mão direita; saiu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmitir a infausta notícia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.
Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebê-los, cuidando que vinham ao cêvo do escândalo para ultrajá-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a prima Maria, e convieram em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filipe Osório Vaz Guedes da Fonseca, tão fidalgo como ela, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão pública.
Repelidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a divulgar o caso sem o classificarem de desonra, imputando, porém, a culpa dela, se culpa havia, ao pirronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na família, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulário.
Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso luto, e os lacaios de luto também.
D. Maria das Dores vestia de azul claro e ordenava às suas criadas que se escusassem de completar a irrisão da casa.
Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do crime pedir justiça. Acolheram-no com respeitosa compaixão, e prometeram precatórias para os fugitivos serem presos, onde quer que a polícia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de Filipe, e a si próprio se venderia para pagar os últimos ceitis aos esbirros.
As cartas precatórias saíram desde logo para diferentes pontos do reino, e algumas para Espanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam sumário despacho para a captura do desertor.
Maria das Dores, sciente dos mandados judiciários, enviou pessoa de sua confiança a Mirandela, avisando o pai de Filipe Osório, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,—dizia-lhe ela—mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautelosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vô-lo diga; nem vos mostreis em Espanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pai, etc.»
A carta foi dar às mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Espanha D. Luís de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscritos no passaporte de Filipe Osório.
Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ébrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «Nesse tempo (dizem os apontamentos que tenho à vista) figurando ela de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das espanholas, que morriam por ele; e D. Luís de Castro sustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»
Pernoitavam os ditosos esposos em Segóvia, onde os anteciparam cartas da capital da província, recomendando os dois Castros, cavalheiros portugueses. Convidou-os o alcaide para uma tertúlia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonara do seu Castro. Praticaram-se coisas de Portugal, e caiu a propósito perguntar o alcaide aos seus hospedes se conheciam um Filipe Osório Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavalaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um fidalgo de linhagem, solarengo no Porto.
Disse D. Pedro de Castro que sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a história triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensíveis espanholas choraram de ouvi-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prendê-los se alguma vez reconhecesse os simpáticos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a autoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luís de Castro apareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e às filhas, que ouviram dela a história, repetida com mais graça e afetuosa tristeza, dos seus amores com Filipe Osório.
Desde essa hora, o magistrado espanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portugueses, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.
Segóvia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões às províncias, e onde as cartas do reino iam dar com eles.
Na casa do alcaide deu à luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro ano de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e pais. Lá lhes eram assídua companhia as duas filhas do generoso espanhol, proprietário da quinta. Ali vieram os irmãos de Mirandela visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quase esquecimento em que estava sua deserção. Neste ensejo foram eles portadores de carta de D. Maria das Dores, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pai, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a notícia da morte dela. Acrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pai tinha intercadências de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céus, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recomendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.
Decorreram seis meses. Sempre o céu claro sem nevoa; sempre a ventura Cândida e pura como o sorriso da criancinha, que dissereis vinda do céu a completar o grupo da suprema bem-aventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segóvia uma carta de D. Maria das Dores, dizendo à filha:
«Vem, agora sem receio. Venci teu pai, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lho eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Ocultei-lhe os pormenores; disse-lhe em suma, que eu fora sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou à sua segunda natureza compadecida. O pior, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pai quiser protegê-lo etc.»
Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandela dizia a seu filho que andava dispondo as coisas para ele ser julgado e absolvido. Que alcançara promessas favoraveis, e esperava em breve mandá-lo recolher à pátria, com a certeza da absolvição.
Que luz tão formosa as estrelas funestas irradiam às vezes! Como a desgraça negaceia com as suas vítimas dilectas! Que pena me faz ir daqui através cinquenta anos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, àquela quinta suburbana de Segóvia, e contemplar aqueles dois esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabéns da sua final Vitória, e saudando as alegrias da pátria, só inferiores às alegrias de dois corações triunfantes sem infâmia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a pena, se tenho de tirar dela páginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem-quistos da leitora que amou ou ama, do pai que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já sentenciou paixões, que exorbitam do estadio comum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes lançar de mim com asco estes apontamentos!
Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a fantasia. Quantas vezes, em histórias imaginadas, eu levo posto o fito em uma caverna onde os meus personagens vão cair; e já perto, já com eles à borda do despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a glória, em vez do inferno que lhes fora talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor contente deles! Só nestes conflitos é que eu avalio os tesouros da imaginação, e o segundo fiat de mundos moraís que a magnanimidade divina concede aos romancistas.
Nesta história queria, e não posso. Estou coacto e maniatado às gramalheiras da notícia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o juramento de não falsear a verdade.
E, de mais, se eu conseguir levar ao túmulo dos meus infelizes uma lágrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céu dos mártires, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para eles? A quem hão de eles agradecer o pensamento e a lágrima se não a mim, que lhes contei os infortúnios, e, em vez de um epitáfio, lhes coloquei uma urna para os que lá quisessem chorar, e a mais triste página deste livro para quem quiser consolar-se das suas nas desventuras alheias?