Terceira Parte - Capítulo III Estrelas Funestas · Capítulo 18 de 22
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Terceira Parte - Capítulo III

É parte deste capítulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o sucesso mais fielmente lhe dará as cores:

«A porta da igreja era costume deixá-la fechada por dentro, e a chave ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri-la de madrugada.

«A porta do comungatório ficava aberta, porque parecia coisa impraticável o poder alguém, que não fosse puro espírito, evadir-se pela ministra.

«Escolheram para a fugida a hora em que a comunidade, depois do coro, se ajuntava no refeitório.

«A primeira que saiu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou torturas para enfiar os largos ombros por entre o estreito postigo; e do último e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do altar-mor, e feriu-se grandemente na testa.

«A órfã, como era muito delgadinha, saiu com menos custo.

«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da igreja, e saíram.

«Às dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a lampada do Santíssimo Sacramento, e viu aberta a porta do comungatório, e as portinholas da ministra também abertas.

«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas pensionistas à igreja e viram a porta da igreja cerrada.

«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto dela procurá-la, e daí passaram ao de Rita de Cassia.

«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juízo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistório, para deliberarem.

«As meninas já de razão e juízo andavam aflitas: eu, porém, e as outras de minha idade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos às ondas por entre as velhas, fingindo que estávamos assombradas do geral terror.

«Às onze horas da noite foi chamado meu pai,[2] e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do comungatório.

«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»

Suspendemos a cópia, que nos não dá neste ponto os pormenores da fuga, vencidas as principais dificuldades, que neste infausto caso, foram as menores.

Caminharam as fugitivas na direção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era igualmente ignorante. Foram à ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.

No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a polícia, e obedeciam a apertadas ordens, em aqueles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua maldade.

Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram delas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exércitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser criada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era também criada de servir, e que ia para a Foz.

Interrogadas acerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hipóteses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.

—Vocês—disse um deles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.

Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudicá-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.

Foram, e entraram à presença do funcionário, que fez um trejeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma dele, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo órgão sensório.

Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar daquele passo difícil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pai, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexível à ilustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação dele era retê-las até dar aviso; e, em obséquio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.

Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o próprio funcionário.

Estava já recolhida D. Maria das Dores; perguntou o almotacé se lhe era permitido falar para negócio urgentissimo com o fidalgo.

Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou ele ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dores. Gonçalo leu-a com agitado aspeto, e disse colérico:

—Conserve essa desgraçada em sua casa até amanhã. Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.

Voltou o almotacé a dar conta da sua Comissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.

—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ela:—Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me sair, que eu não espero as ordens de meu pai!

—Não tem remédio senão esperá-las—Disse friamente o aguazil-mór.

—Não tenho remédio?!—bradou Maria—Tenho o remédio que dá a desesperação! Conduza-me já à rua, quando não, grito que me querem matar!

O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, prometendo-lhe obstar a que seu pai lhe fizesse alguma violência. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da família, e trouxe-as à sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma delas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta à fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e tímida como quem, desde a infância, andou sempre sovada aos pés da desgraça.

De manhã, saiu uma criada do almotacé a entregar a carta, recomendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quisera o guarda-portão impedir-lhe o acesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.

Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ela Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fora do quarto.

Leu ansiosa a carta, vestiu-se aceleradamente, e saiu com o seu capelão a encontrar-se com a filha.

A primeira vítima de sua ira foi o almotacé a quem ela chamou os nomes, que dava aos seus ínfimos criados. Pensava o inviolável funcionário em autuá-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demitido do ofício no dia seguinte. O principal artigo de acusação da fidalga era ter o vil esbirro (amabilidade que muito ofendeu o almotacé) era ter ele entregue ao pai a carta, que ia para a mãe. Graças à pacifica eloquência do capelão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pai estava aguçando.

Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando à porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.

D. Maria das Dores, quando tal ouviu, teve um vágado, que os ímpetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se à filha, exclamando:

—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cúmplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vai! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor dele, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam daqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!

Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da enérgica e vindicativa senhora.

Agora, prossegue o traslado dos apontamentos:

«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.

«A todos pareceu escândalo a barbaridade que o pai escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!

«Meu pai apareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como órfã pobre. À primeira decretou o tronco de cima, e à segunda o chamado tronco de baixo.

«O tronco de cima era uma cela, sem diferença sensível das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.

«O tronco de baixo era um subterrâneo, sem miníma claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignomínia. Fora construida, alguns anos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cela. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o suplício destinado a Rita de Cassia.

«Condoeu-se meu pai da fidalga, posto que ela não solicitasse compaixão de ninguém. Dizia ela à regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pai nem pão, senão o da caridade, foi a vítima expiatória, para exemplo das outras, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ela piedade, mandando-a para o tronco de cima.

«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ela se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela boca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angústia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas à órfã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.

«Deu sinais de vida.

«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Inocência Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[3] Foram estas duas irmãs lavadas em lágrimas, pedir à regente, que as deixasse tomar à sua custa o tratamento da órfã, na sua cela. A regente era de cera aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.

«D. Maria esteve também doentissima nesta época, mas de muito menor cuidado, e pronto restabelecimento. Para lhe não faltar aflição alguma, até lhe prohibiram à dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos sofrimentos passados, ela amava com o coração de um anjo.»

Ninguém infira dos sucessos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, há cinquenta anos, o que hoje possa ser aquele pio estabelecimento. Nenhuma analogia aproxima os costumes de então com os de hoje. O raio benéfico do facho civilizador lá foi alumiar também aquele recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos deste século, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, saíram arguições em desfavor do regímen daquela casa de caridade para meninas órfãs, e de educação social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem em essas arguições causas desonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no país mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que dali saem adornadas muitas donzelas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo à censura irreflectida de alguém, que folgue de afiar no autor os dentes da calúnia.

D. Maria das Dores cumprira integralmente sua palavra. Foi ao Castelo da Foz: contou a Filipe Osório a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a efusão da sinceridade. Chorou com ele ao falarem de Rosalinda, e de ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.

Nesse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pátio, saiu-lhe à portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dores recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a ele de insultos e impropérios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bem-aventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, criatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua ama, uma ordem da regência, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dores, a qualquer hora do dia que ela quisesse visitar sua filha.

Gonçalo Malafaya, quando tal soube, Sofreu o primeiro ataque de paralisia em uma perna.

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