Conclusão - Uma Carta
Fiz quanto pude em serviço do seu romance, e obtive o essencial da sua incumbência, posto que o esquecimento de pessoas desgraçadas é uma das muitas corcundas do aleijado gênero humano, se não é antes providencial o esquecimento para que cada homem, cada infeliz, digo, cuide egoistamente de si.
Passo sem mais preâmbulos, a dar-lhe conta do meu encargo.
Maria Henriqueta Osório da Fonseca viveu cinco meses em companhia de D. Maria das Dores. Disse-me alguém que ela nunca saía do seu quarto, nem recebera nele pessoas, senão sua mãe e a ama, que a criara. Neste espaço de cinco meses, quisera ela chamar ao Porto os ossos de seu marido; porém, o alcaide respondeu que as carnes vestiam ainda os ossos. Não alcancei a razão por que Maria Henriqueta, no fim daquele tempo, se recolheu a Arouca e ao quarto onde residia, quando Filipe Osório a foi buscar. Soube que ela, enquanto as forças a deixaram, ia todos os dias ao muro, onde ficava a olhar largo tempo para o galho da árvore a que subira Filipe.
A final faleceram-lhe as forças para estas saídas, e pouco tempo desejou tê-las, porque morreu, dois meses depois da sua entrada no mosteiro. Jaz enterrada na claustra de Arouca, sem epitáfio, nem data do nascimento ou morte.
D. Maria das Dores viveu ainda doze anos, se não contente, com aparências de resignada. Para o fim da vida foi muito devota e esmoler. Jaz no seu jazigo, em uma capelinha da catedral.
Eugenia morreu em Arouca nos braços de Maria Henriqueta, a quem estava decretado que todos os golpes lhe acertassem no coração já moribundo.
O vingador de Filipe Osório, com o carcereiro, chegaram sãos e salvos a Segóvia; apresentaram-se ao alcaide com a carta de D. Maria Henriqueta, e receberam passaportes até encontrarem o exército francês, que abandonava as praças espanholas. O ex-carcereiro lá se estabeleceu por França com os seus quinze mil cruzados, e pode ser que deixasse prole abastada. João, o lacaio, alistou-se no exército, negociou no comissariado, e apareceu em 1852 no Porto, onde ninguém o conheceu. Como achasse morta sua ama, foi a Segóvia, e achou também morto o alcaide. Tornou para França, e não chegaram ao meu conhecimento outras memorias dele.
Aqui tem o mais que pude esquadrinhar, depois das informações que lhe dei. De umas e outras faça um uso conveniente, conveniente, digo, desejando eu que o seu romance tenda a escarmentar, e avisar.
Reflexionando eu muitas vezes na vida dos desgraçados personagens desta esquecida história, tenho formado um juízo mal seguro acerca da moralidade dela; diferentes ilações me combatem; mas uma há que as outras não derribam, e é: que um pai não deve ser o supremo árbitro do coração de sua filha. Ilustrá-la, guiá-la, é uma coisa; arrastá-la pelos cabelos de um suposto abismo para despenhá-la em um abismo certo, é outra coisa.
Além disto reconheci a mão da Providência carregando sobre Gonçalo Malafaya, que fizera da obediência filial um pretexto para cobrir sua ambição de haveres. Aqueles vínculos de Freijoim e Águas-Santas foram a causa eficiente da morte de Beatriz de Noronha, da demência de D. Francisco de Athayde, e das mil desgraças consecutivas. Não é de desprezar este aspeto de moralidade que oferece o seu romance.
Desculpe os conselhos do seu velho amigo, se os tem nessa conta: eu quis apenas dizer-lhe em pouco o muito que tenho pensado nos desastres de uma infeliz família, em cuja casa tomei chá, quando era menino. Que «FUNESTAS ESTRELAS!»